AMOR EM CAMPO
17 Capítulo 16: Stalker
Notas iniciais

O apito final do árbitro cortou o ar da tarde de sábado, decretando o fim da partida. No placar eletrônico do estádio universitário, os números vermelhos e estáticos marcavam a derrota por 1 a 0 contra o Niteroiense.
Gabriel arrastou os pés em direção ao vestiário, a camisa preta e dourada encharcada de suor e grudada ao corpo, o peito subindo e descendo em uma respiração pesada que queimava seus pulmões. Ele não olhou para as arquibancadas enquanto saía de campo. Seus músculos latejavam pela exaustão física, mas a verdadeira fadiga vinha de dentro.
O silêncio no vestiário era quebrado apenas pelo som das chuteiras batendo no piso molhado e pelo barulho das mochilas sendo jogadas de qualquer jeito nos bancos de madeira. Os garotos sabiam que o capitão estava no limite. Durante os noventa minutos, Gabriel correu por dois, gritou até a voz falhar para organizar a defesa e quase cavou um pênalti nos acréscimos, mas a bola simplesmente se recusou a entrar.
Ele parou no centro do vestiário, tirando a braçadeira de capitão com um movimento brusco. Seus dedos apertaram o tecido elástico antes de ele jogá-lo dentro do armário de metal.
— Ninguém abre a boca para reclamar do juiz — a voz do técnico Moura ecoou áspera, cortando qualquer tentativa de justificativa dos jogadores. — Nós fomos lentos na transição e entregamos o meio-campo no segundo tempo. A culpa não foi da arbitragem. Foi nossa.
— Cabeça erguida — O treinador continuou, encarando cada um deles com uma seriedade que impunha respeito imediato. — Terça-feira o treino começa trinta minutos mais cedo. Quero todo mundo em campo antes do sol estalar. Agora, banho e casa.
O assentimento foi mútuo. Os chuveiros logo foram ligados, enchendo o ambiente de vapor quente. Gabriel permaneceu sentado no banco por longos minutos, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça baixa, deixando as gotas de suor pingarem no chão de azulejo.
Sua mente, que deveria estar focada no gol perdido aos quarenta e dois minutos, teimava em desviar para o corredor do Bloco C na manhã anterior. Ele ainda conseguia sentir a textura da pele de Rafaela entre seus dedos e a fragilidade da sua própria voz confessando que estava apavorado.
“Somos apenas amigos.”
A mentira dela ainda ecoava como um barulho incômodo em seus ouvidos.
Gabriel soltou um suspiro pesado, pegando a mochila de treino e caminhando em direção ao chuveiro. Ele precisava que a água gelada lavasse a derrota de campo e, se possível, a obsessão que aquela garota tinha se tornado em sua vida. Mas, no fundo, ele sabia que a partida mais difícil dele não tinha acabado com o apito do juiz.
Enquanto o clima no estádio universitário pesava com a derrota dos Falcões, o laboratório operava a todo vapor. O calor brando das estufas de incubação e o ruído constante das capelas de fluxo laminar transformavam aquele confinamento em algo mais próximo de um refúgio para Rafaela.
A segunda-feira marcaria a abertura da Feira Anual de Microbiologia e Projetos Científicos, e a responsabilidade que pesava sobre os ombros dela não era pequena. O projeto de bioprospecção fúngica desenvolvido por ela, Théo e Mariana havia conquistado a vaga de destaque. Eles fariam a apresentação de abertura no auditório principal, um feito raríssimo para alunos da graduação.
— Rafa, dá uma olhada nessas placas da Trichoderma — pediu Mariana, levantando uma placa de Petri contra a luz fosca da luminária. — O crescimento micelial está perfeito, mas acho que precisamos isolar mais uma lâmina para garantir que o contraste no microscópio do estande fique nítido para os avaliadores.
— Deixa comigo — Théo se adiantou, ajustando os óculos de proteção no rosto enquanto puxava o bico de Bunsen para perto. — Eu faço o repique se a Rafa checar os gráficos de eficiência enzimática no computador. Ela é melhor do que eu com a formatação final.
Rafaela apenas concordou com um aceno de cabeça, arrastando a cadeira giratória para a bancada onde o notebook estava aberto.
— Vou revisar as cadeias de polimerização que inserimos no terceiro slide — respondeu, os dedos já voando pelo teclado. — Se houver qualquer inconsistência nos dados estatísticos, a banca vai usar isso para desestabilizar a gente na sessão de perguntas.
Ela tentou focar nas linhas de código e nos gráficos de dispersão na tela. Forçou os olhos a lerem os termos técnicos, buscando o conforto costumeiro que a exatidão da ciência sempre lhe proporcionara. Mas a mente humana, ao contrário de uma cultura bacteriana isolada, não aceita comandos rígidos de controle.
Bastou Théo acender o bico de Bunsen, gerando um som seco, para que a barreira racional de Rafaela vacilasse.
A faísca da chama virou o eco da porta do laboratório, sendo bloqueada por uma mão espalmada acima de sua cabeça. De repente, os gráficos na tela perderam o foco, substituídos pela imagem nítida de Gabriel a encurralando naquele espaço mínimo. Ela ainda conseguia lembrar da voz dele vibrando bem rente ao seu ouvido: “Você tem medo do que sente por mim, Rafaela. E tudo bem. Porque eu também estou apavorado.”
Rafaela piscou bruscamente.
Concentração, por favor, ela implorou a si mesma, apertando os olhos por dois segundos antes de voltar a fitar a tela. Ele é só um cara com o ego ferido.
— Rafa? Tudo bem aí? — Mariana perguntou, notando que a colega tinha paralisado com os dedos suspensos sobre o teclado. — Você pulou o slide de introdução aos microrganismos.
— Tudo. Só um lapso — Rafaela se apressou em responder, pigarreando para disfarçar o tom ligeiramente agudo que sua voz assumira. — O cansaço está batendo. Vou revisar o layout da apresentação de abertura mais uma vez.
Théo soltou uma risada baixa, focado na alça de inoculação.
— Normal. Passamos o sábado inteiro trancados aqui dentro, enquanto metade da UC foi assistir ao jogo. Inclusive, ouvi uns gritos vindo do estádio mais cedo. Parece que o clima lá fora estava tenso.
O nome do time fez o sangue recuar de suas extremidades por um instante. Ela sabia do jogo, é claro. Sabia o quanto aquela partida importava para o campeonato e, consequentemente, para o humor de Gabriel. Ela não procurou saber o resultado, não abriu o site da universidade e ignorou qualquer menção ao futebol nas redes sociais durante o dia. Mas a curiosidade — aquela maldita necessidade científica de saber o desfecho de uma reação — persistia como uma coceira no fundo da mente.
Ela voltou a digitar com um pouco mais de força do que o necessário, tentando afogar o frenesi interno no trabalho. O sábado seria longo, a preparação para a feira de segunda-feira exigiria cada gota de sua energia, mas uma certeza já estava consolidada: por mais que ela se cercasse de fungos, lâminas e teorias biológicas, a natureza imprevisível que Gabriel Duarte havia despertado em seu sistema não seria facilmente neutralizada.
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Na manhã de domingo, o quarto de Rafaela parecia ter sido atingido por um pequeno furacão de tecidos. Cabides se acumulavam na cabeceira da cama, enquanto calças de alfaiataria, blazers e camisas de linho se misturavam a apostilas de microbiologia e anotações de última hora sobre a apresentação.
De pé diante do espelho de corpo inteiro, Rafaela bufou, ajeitando as mangas de uma camisa social que a fazia parecer, em sua própria opinião, um rascunho de professora de cursinho dos anos noventa.
— Se você suspirar assim mais uma vez, o oxigênio do quarto acaba — Letícia comentou da cama, onde estava sentada de pernas cruzadas.
Rafaela olhou para a amiga pelo reflexo do espelho, os ombros desabando. A tensão da discussão de sexta-feira de manhã ainda pairava no ar como uma névoa fina, mas o cansaço e a ansiedade da véspera da feira haviam quebrado as barreiras de Rafaela. Ela precisava da sua melhor amiga.
— Eu não sei o que usar, Lê — confessou, a voz murchando. — É a apresentação de abertura. Não quero parecer que herdei o guarda-roupa da minha avó. Quero que me levem a sério. Quero parecer...
— Inteligente, mas com um toque de "ainda por cima sou estilosa"? — Letícia completou, levantando-se com um sorriso cúmplice que desfez qualquer resquício de mágoa entre as duas. Ela caminhou até o guarda-roupa, empurrando Rafaela de leve com o ombro. — Deixa com a profissional. E desculpa por sexta. Eu peguei pesado.
Rafaela suspirou, aliviada com a trégua implícita.
— Eu também peço desculpas. Eu só... estou com a cabeça cheia.
— Eu sei, amiga. Mas amanhã é o seu dia de brilhar no auditório. Vamos focar no que importa agora. — Letícia começou a vasculhar os cabides com os olhos atentos de uma futura estilista. Ela tirou uma calça de alfaiataria preta, de corte reto e cintura alta, e uma blusa de gola alta em tom azul-escuro, de tecido leve e caimento impecável. — Aqui. Clássico, mas moderno. Dobre as mangas do blazer cinza-chumbo por cima, use aquele Oxford de couro que você tem e prenda o cabelo em um coque baixo, mas deixe uns fios soltos na frente; assim fica mais despojado e profissional.
Rafaela pegou o conjunto, analisando a combinação. O azul-escuro contrastava perfeitamente com sua pele, e a silhueta era imponente sem parecer caricata.
— É perfeito — Rafaela admitiu, o rosto se iluminando. — Obrigada, Lê. Sério.
— De nada. Agora experimenta a calça, porque, se a gente precisar ajustar alguma coisa na barra, a hora é agora — Letícia piscou.
Por um instante, olhando para o tecido escuro da calça, a mente de Rafaela trapaceou novamente, lembrando do castanho escuro profundo dos olhos de Gabriel quando ele a encurralou no corredor. Ela balançou a cabeça rapidamente, tentando expulsar o pensamento antes que Letícia percebesse. Amanhã era o dia da ciência. Ela não podia se dar ao luxo de se perder em reações biológicas abstratas.
Já no terraço da cobertura em Icaraí, o domingo à tarde tentava, sem muito sucesso, curar a ressaca da derrota de sábado.
Enquanto Diego vigiava a picanha na churrasqueira e Daniel bebia em silêncio, Gabriel estava completamente alheio ao cheiro do carvão, com os olhos cravados na tela do celular.
Ele abriu o Instagram e digitou "Rafaela Andrade" na barra de pesquisa. Nada. Inconformado, mudou de tática: entrou no perfil oficial da universidade, abriu as fotos marcadas do curso de Biologia e começou a rolar o feed. Cinco minutos de investigação cirúrgica depois, lá estava ela.
Por sorte, o perfil era aberto.
Gabriel começou a deslizar a tela. Havia de tudo ali: fotos em família em Saquarema, selfies com a Letícia fazendo careta, registros estéticos de lâminas sob o microscópio e citações de livros de biologia cujos autores ele mal sabia pronunciar.
Mas ele travou em uma foto específica.
Rafaela estava sozinha, sorrindo de um jeito leve e espontâneo que ele nunca tinha visto pessoalmente. Os cabelos escuros voavam ao vento contra o pano de fundo do mar azul. Era um sorriso que não carregava nenhuma defesa, nenhuma ironia.
Como é que alguém consegue ser tão bonita sem fazer o menor esforço? Pensou, o polegar paralisado sobre o vidro.
Ele ampliou a imagem, ajustando o zoom no rosto dela. Desfez o movimento, passou para a foto seguinte — uma imagem aleatória de um gráfico de biologia —, mas voltou imediatamente para a anterior. Olhou de novo para o sorriso, as sardas que salpicavam o rosto dela, para a curva dos lábios dela, os fios soltos. Era quase hipnotizante.
Por um segundo, Gabriel se pegou sorrindo sozinho para a tela do celular.
Contudo, o instinto de jogador disparou o alarme, arrancando-o daquele transe. Ele piscou rápido, balançando a cabeça para organizar os pensamentos.
Tá, refletiu, voltando a rolar o feed com uma urgência renovada e um objetivo claro: Vamos ver quem é o infeliz desse namorado.
Passou pelas publicações antigas, conferiu os destaques e deu um zoom milimétrico nas fotos em grupo. Nada. Nem a sombra de um sujeito de barba, nenhum braço masculino jogado sobre os ombros dela, nenhuma marcação suspeita. Inconformado, abriu a aba de comentários da foto da praia. Rolou os emojis de coração das amigas e as mensagens da família, procurando por qualquer "linda" ou "minha" vindo de um perfil de homem. Zero.
Gabriel franziu o cenho. Aquela história estava muito mal contada. Que tipo de homem não deixava um único comentário na foto da namorada? Uma pulga gigantesca atrás da orelha começou a incomodá-lo, muito antes de o cheiro de queimado invadir o terraço.
— Biel, o que você acha? Já dá para virar a carne? — Diego perguntou da beira da churrasqueira, com o pegador na mão.
Gabriel nem piscou, os olhos ainda escaneando a lista de comentários como se estivesse tentando decifrar um verdadeiro enigma.
— Mano, a carne vai passar do ponto. Gabriel? — Diego repetiu.
Sem receber sequer um grunhido como resposta, Diego olhou para Daniel na mesa e ergueu uma sobrancelha, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. Daniel apenas deu de ombros, assistindo à cena com um meio sorriso.
Gabriel deslizava pelas fotos com cuidado redobrado para não clicar em nada e ser pego no flagra fuxicando o perfil dela; foi então que, num movimento rápido, o telefone foi arrancado de suas mãos.
— Ah, não... não acredito! — Diego exclamou, dando um passo para trás e erguendo o celular para o alto como se fosse um troféu. — Olha isso, Dan, ele está stalkeando o Instagram da nerd.
— Devolve essa porra, Diego! — Gabriel rosnou, levantando-se da cadeira num salto, mas o argentino usou o gingado do corpo para desviar do bote do capitão.
— Olha a carinha dela de quem sabe o nome de todas as bactérias do mundo — Diego tripudiou, rindo alto enquanto corria os olhos pela tela, ignorando os avanços de Gabriel. — E você aí, babando na tela feito um adolescente que acabou de descobrir o amor. Cadê o pegador implacável? O homem que não se apegava a ninguém? O que você fez com o meu amigo, seu sequestrador de corpos?
— Cara, limpa a mão de gordura antes de tocar no meu telefone, caralho — Gabriel sibilou, avançando mais uma vez, o rosto queimando não apenas pelo calor do carvão, mas por ter sido pego com a guarda totalmente baixa.
Daniel soltou uma risada, quase se engasgando com o gole de cerveja.
— Não brinca que o Duarte caiu no golpe do perfil aberto — Dan comentou, esticando o pescoço, divertindo-se com o caos. — Deixa eu ver se ela posta foto normal ou se é só textão de biologia.
— Não começa você também, Daniel — Gabriel reclamou, finalmente conseguindo encurralar Diego perto da mureta do terraço e arrancando o celular de volta com um puxão firme. Ele bloqueou a tela imediatamente, enfiando o aparelho no bolso do short. — Eu só estava... olhando. Curiosidade.
— Curiosidade o meu rabo! — Diego rebateu, voltando para perto da mesa com um sorriso de canto, empurrando o ombro de Gabriel com o dele de um jeito bruto, mas puramente amigável. — Você é um cagão, isso sim. Por que não falou logo que estava a fim da menina? Toda vez que eu te perguntava, você vinha com aquele papo de “está tudo sob controle”.
Gabriel expirou pesadamente, o ímpeto da irritação murchando diante do olhar direto do amigo. Ele passou a mão pela nuca, encarando a gordura da carne pingando no carvão e fazendo o fogo subir.
— Porque a minha cabeça estava confusa pra caramba, tá bom? — Gabriel confessou, perdendo a marra. — Eu não admitia nem para mim mesmo até uns dias atrás, quanto mais contar para você e aguentar suas piadinhas de quinta série o tempo todo.
— Mas é claro que ia te zoar, — Diego deu um passo à frente, gesticulando com as mãos para dar ainda mais ênfase ao seu espanholado carregado. — É a minha função nessa casa! Se você quer um terapeuta, vai na clínica da faculdade. Mas esconder isso de mim? Caralho, Biel, eu também sou teu amigo! A gente divide o teto e a porra da intermediária do campo! Se eu soubesse que você estava realmente caído pela nerdzinha, eu teria dado a maior força. Eu posso ser um babaca, mas não sou um cuzão. Eu não vou ferrar o seu lance de propósito.
Gabriel sentiu um nó se formar na garganta. Ele esperava um esporro por estar distraído após a derrota, mas recebeu lealdade pura e bruta. O apoio de Diego, em vez de aliviar, fez a culpa por aquela maldita aposta pesar o dobro em seus ombros.
— Espera aí... — Gabriel estreitou os olhos, tentando entender os acontecimentos. — Você não está puto por eu desistir da aposta, mas, sim, por eu não ter te contado?
— É claro, seu arrombado! O maior fofocão do campus rolando com meu melhor amigo, e eu sou o último a saber? A gente é parceiro, cara — Diego continuou cruzando os braços, agora mais sério. — Se você gosta dela, a aposta morreu aqui no terraço. Ninguém mais vai abrir o bico. O Dan é um porre, mas é fiel, e eu... bom, eu guardo os seus segredos desde que você chorou porque eu soquei o seu nariz quando te vi beijando a garota que eu gostava no colégio. Mas o Lucas… cara, você sabe como ele é boca de sacola. Vai ter que conversar com ele.
Daniel assentiu, pegando sua garrafa.
— É, Biel. Só acho que você complicou o que era simples. Mas, se é ela que te deixa com essa cara de paisagem olhando para o celular, a gente apoia.
Gabriel olhou para os dois, engolindo em seco. Ele queria agradecer, queria dizer que eles eram os melhores homens que ele conhecia. Mas a mentira que sustentava tudo aquilo parecia uma bomba-relógio no seu bolso.
— Valeu, caras — Gabriel murmurou, desviando o olhar para a linha do horizonte de Icaraí. — Valeu mesmo.
— Agora, eu prometi não mencionar a aposta na frente dela e não vou — Diego puxou uma cadeira, sentando-se e servindo-se de mais carne. — Mas, se você quer mesmo algo sério com ela, tem que contar a verdade, Gabriel. Nada que começa em cima de uma mentira acaba bem.
Gabriel apertou os dedos contra o tecido do short, onde o celular parecia queimar contra sua coxa. O conselho de Diego era o mais sensato, mas como explicar para a garota de quem gostava que o primeiro olhar dele no corredor tinha sido precificado em um trato idiota entre amigos?
— Bom, agora que o Duarte já assumiu que está gamado, posso finalmente contar o quanto tem sido divertido acompanhar o caos — Daniel falou, levantando-se e indo até a churrasqueira para salvar a carne de virar um pedaço de carvão seco e esturricado. Ele olhou para Diego com um ar malicioso. — O nosso capitão aqui está levando um baile atrás do outro.
Diego entreabriu os olhos, cético, segurando a garrafa de cerveja no ar.
— Como assim um baile, Dan?
— Além de ele estar surtando de ciúmes, porque a nerdzinha supostamente tem um namorado misterioso — Daniel zombou, enquanto fatiava a picanha. — Você não sabe a melhor parte. Ele levou um senhor tapa na cara no meio da monitoria de fisiologia porque o gênio aí achou uma boa ideia propor sexo em troca das respostas da prova.
Diego quase derrubou a cerveja no chão do terraço. Ele paralisou, olhando de Daniel para Gabriel com as sobrancelhas tão altas que quase sumiram na linha do cabelo.
— — Diego exclamou, o sotaque argentino entregando o choque absoluto enquanto apontava na direção do capitão. — ¿Te Caralho, Biel, o camisa dez dos Falcões apanhou de uma garota de um metro e sessenta que usa jaleco? Pelo amor de Deus, me diz que isso é mentira!
Gabriel fechou os olhos por um segundo, inspirando fundo e praguejando mentalmente contra a existência de Daniel na face da Terra. O rosto dele corou na hora, e a banca de galanteador desmoronou sob a gargalhada escandalosa que Diego soltou logo em seguida, ecoando por toda a cobertura de Icaraí.
Ele deixou os dois rirem à vontade. Deixou até que caçoassem por mais alguns minutos, porque sabia que, a partir do dia seguinte, não haveria mais graça nenhuma sobrando para ninguém.
Amanhã Rafaela estaria no centro do palco, abrindo o evento com o projeto que passara semanas preparando, e Gabriel pretendia estar na primeira fileira daquele auditório, pronto para mostrar a ela que "amigos" não assistem de perto ao brilho um do outro com o coração na boca.
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