AMOR EM CAMPO
15 Capítulo 14: Um Prazer?
Notas iniciais

O 9,5 circulado de caneta vermelha no topo da folha não deixava dúvidas: ele estava salvo. O técnico Moura teria o seu capitão em campo no sábado. Mas, enquanto o vestiário dos Falcões ainda vibrava com os gritos da comemoração e os planos para a bebedeira do fim de semana, Gabriel encarava o armário de metal com uma sensação incômoda de vazio no peito.
A matéria do Santana tinha ficado para trás. O que significava que as noites de estudos com a Rafaela também tinham ficado. Ele não tinha mais o direito de vê-la revirar os olhos para as suas piadas ou de observá-la morder o lábio, concentrada, enquanto corrigia seus exercícios.
— Mandou bem, Duarte! — Léo gritou, desferindo um tapa nas costas dele. — A monitora operou um milagre. Deve estar feliz de se livrar de você.
Se livrar de mim.
A frase retumbou na mente de Gabriel como um barulho persistente.
Gabriel sentou-se no banco de madeira, calçando o meião. Passara semanas fingindo que aquilo era apenas uma aposta idiota, um capricho para inflar o próprio ego. Mas a verdade — aquela que tentou abafar com treinos exaustivos e paranoias — agora estava clara: estava perdidamente apaixonado pela Rafaela. E a ideia de Henrique, ou qualquer outro, ter o direito de arrancar aquele sorriso dela fazia seu peito queimar de pura raiva.
Não ia jogar a toalha. Que se fodam os princípios e o código de honra. Se alguém quisesse espaço na vida de Rafaela, teria que passar pelo camisa 10 primeiro.
Imerso nos próprios pensamentos, ele não notou quando a maioria dos companheiros de equipe saiu para o campo, restando apenas Daniel, Diego e Lucas sentados nos bancos opostos, vigiando-o com estranhamento.
— Vocês perderam alguma coisa na minha cara, ou só estão enrolando para não ir treinar?
— Na verdade, só estamos tentando entender qual é o seu problema — Diego rebateu, medindo o capitão com uma careta de espanto. — Você acabou de tirar uma nota excelente com o Santana. Tá liberado para sábado, o Moura está feliz, o time está feliz... e você está aí com essa cara de quem comeu e não gostou?
— Não enche, Diego — Gabriel resmungou, sem erguer a cabeça, concentrado no ajuste do cadarço da chuteira.
— Ah, já entendi tudo — Diego zombou, cutucando Lucas com o cotovelo. — A nota foi boa, mas o preço foi alto, né? O Lucas disse que viu você levando o maior fecho científico da nerdzinha no corredor mais cedo. O que foi? A aposta está te dando mais trabalho do que você esperava?
— Hm, fodeu. — Daniel praguejou baixinho, prevendo a tempestade antes mesmo de o primeiro trovão cair.
O pavio de Gabriel, que já estava curto pela madrugada em claro e pelo fantasma da química perfeita, simplesmente sumiu.
— Vocês não têm mais nada para fazer da vida, não? — ele vociferou, erguendo-se do assento num impulso tão violento que a estrutura de madeira rangeu. Ele jogou a camisa de algodão no chão com força, os músculos das costas e dos ombros retesados ao limite. — Vão cuidar do treino de vocês! Vão acertar a porra de um passe!
A empáfia de Diego desmoronou na hora e Lucas arregalou os olhos. Gabriel nunca usava o tom de comando do campo para descarregar patadas daquele jeito nos amigos íntimos.
— Gabe, a gente só estava zoando... — Lucas tentou amenizar, com a voz mansa.
— Pois vão zoar a puta que pariu! Se eu ouvir mais um piu sobre essa merda de aposta, ou sobre a Rafaela, eu juro por Deus que o próximo drill de colisão vai ser na cara de quem abrir a boca! — ele cuspiu as palavras.
Sem dar tempo para réplicas, vestiu o resto do uniforme às pressas, recolheu o apito e marchou em direção ao gramado, batendo a porta com tanta força que o vidro dos basculantes tremeu.
Diego e Lucas se entreolharam atordoados.
— Que porra foi essa? — Diego perguntou, olhando para a saída e depois para Daniel. — O que deu nele? Pirou de vez?
Daniel sabia exatamente o que tinha dado em Gabriel, mas, como um bom amigo, preferiu não entregar o capitão, que já estava na lona.
— Deu que o homem está com o cão no couro hoje — Daniel descontraiu, levantando-se e recolhendo suas caneleiras do banco. Ele mediu os dois de soslaio — Se eu fosse vocês, reforçava a proteção nas pernas e entrava naquele campo sem olhar muito nos olhos dele. O Duarte vai descontar cada centímetro dessa raiva no treino, e eu não quero estar no caminho quando o trator passar. Vamos logo antes que ele volte para buscar as nossas cabeças.
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— Rafaela? Você ouviu o que eu disse, minha filha?
Seu Alberto a acompanhava por cima dos óculos de leitura que insistiam em escorregar pelo nariz. O simpático senhor segurava uma pilha de romances históricos que precisavam ser catalogados, mas sua atenção estava totalmente voltada para a funcionária.
— Desculpe, Seu Alberto. Eu... eu estava distraída — Rafaela forçou uma expressão amigável, mas seu foco a traiu, escapando em direção ao relógio de madeira redondo pendurado acima do caixa.
15:40.
A essa altura, o Gabriel já deveria saber o seu destino. Ou estaria comemorando a aprovação com o time, ou estaria encarando o fim de sua carreira como capitão dos Falcões.
Rafaela tentou focar no leitor de código de barras em sua mão, mas a imagem do corredor da faculdade naquela manhã insistia em se sobrepor às lombadas dos livros. Gabriel estava desnorteado. A marra tinha sumido, dando lugar a uma insegurança que ela nunca imaginou ver nele.
“Você desgraçou a minha cabeça por completo. Eu passei a noite em claro, olhando para o teto, ouvindo nossa conversa no telefone em loop.”
Ela respirou fundo, sentindo um arrepio incômodo na nuca. Podia sustentar a pose de mulher de gelo o quanto quisesse na frente dele, mas a verdade — aquela que ela não admitiria nem sob tortura — era que ouvir aquelas palavras vindas do Duarte tinha abalado suas estruturas de um jeito perigoso. O capitão inabalável estava perdendo o sono por causa dela. E a porção monitora de seu cérebro, que prezava pelo sucesso de seus alunos, estava em um cabo de guerra insano com a sua curiosidade. Ele tinha passado? Ele tinha conseguido focar?
Ela lembrava das três mensagens profissionais que enviara para ele antes do início da prova, tentando acalmar a tempestade que ela mesma ajudara a criar. E lembrava também do "ok" seco que recebeu de volta uma hora depois. Um verdadeiro tapa de luva na sua autoconfiança.
— Você está muito quieta hoje, querida — comentou Seu Alberto, colocando a pilha de livros sobre o balcão com cuidado. — Algum problema na faculdade? Essa semana de provas sempre acaba com o juízo de vocês.
— É... só a pressão do final do período, Seu Alberto — Rafaela respondeu, forçando um tom leve enquanto organizava os marcadores de página. — Mas vai passar. Tem que passar.
— Vai sim. E, se precisar sair um pouco mais cedo hoje para estudar, me avise. O movimento está calmo — o senhor ofereceu um sorriso paterno antes de caminhar em direção aos fundos da loja.
Rafaela agradeceu com um aceno, mas, assim que ficou sozinha atrás do balcão, sua atenção caiu direto para o celular deitado ao lado do teclado do computador. O aparelho estava em silêncio. Nenhuma notificação.
Ela bufou de frustração consigo mesma. Por que diabos eu estou esperando ele mandar mensagem? Questionou-se mentalmente, irritada por dar tanta importância ao camisa 10. Ele que se exploda.
Foi exatamente nesse segundo que o visor do celular acendeu, vibrando contra a madeira do balcão.
Rafaela deu um sobressalto ridículo, o coração errando uma batida antes que ela pudesse controlar sua própria reação. Ela esticou o braço e pegou o aparelho.
Não era ele.
Era uma mensagem de Letícia dizendo que havia acabado o pó de café e que ela chegaria tarde, pois iria sair com uma colega da boutique.
Rafaela soltou o ar com força pelos lábios, jogando o celular de volta no balcão com uma força desnecessária.
Café. Ela precisava mesmo de uma dose cavalar de cafeína para ver se seu cérebro voltava a funcionar com a lógica científica de sempre, em vez de se comportar como o de uma adolescente boba esperando o telefone tocar.
— Patética — ela resmungou para si mesma, cruzando os braços e encarando a vitrine da livraria, onde a tarde começava a cair, tingindo a calçada de tons alaranjados.
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Gabriel parou diante do espelho do quarto, o reflexo devolvendo uma imagem que ele conhecia muito bem. Ele passou os dedos pelos fios, ajeitando o cabelo naquela bagunça organizada que ele sabia que funcionava. A mente dele finalmente estava fria, determinada, e era hora de agir. Se a monitoria havia terminado, ele criaria outra desculpa para ficar perto dela.
Ele passou um toque de perfume no pescoço — nada exagerado, apenas o suficiente para deixar um rastro — e estava pronto.
Desceu as escadas em dois saltos, pulando o último degrau com a leveza de quem acabara de marcar um gol de placa. Na sala, Diego e Daniel estavam afundados no sofá de couro, fixados em uma partida do campeonato europeu que passava na TV.
— Olha esse ângulo. Se o Haaland fosse brasileiro, ele não teria hesitado — comentou Gabriel, parando atrás do sofá.
O comentário técnico sobre o jogo foi o gatilho. Daniel e Diego desviaram a atenção da tela, como se tivessem detectado uma anomalia. O capitão não estava apenas arrumado; ele exalava uma confiança que vinha acompanhada de notas amadeiradas e uma camisa que não via a luz do dia há meses.
— Epa, epa... Que evento é esse que eu não fui convidado? — Diego foi o primeiro a disparar, um esgar malicioso desenhado no rosto.
— Caraca, Gabriel. Você acabou de atacar minha rinite. — Daniel completou, fingindo um espirro. — Está cheirando a camarote da Vitrinni.
Gabriel manteve o semblante descontraído.
— Só estou saindo, seus idiotas. Qual é o problema de um homem querer estar apresentável?
— O problema não é o "querer", é o "pra quem" — Diego ficou de pé, cruzando os braços. — Esse aí é o perfume que você só usa quando a meta é alta. Não me diga que passou perfume importado para a esquisita?
A expressão leve de Gabriel se extinguiu como uma chama sob um balde de água. Parecia que, naquele dia, o mundo havia entrado em um consenso irritante de testar os limites de sua paciência.
— O nome dela é Rafaela. — A frase saiu direta, sem margem para respostas.
Daniel congelou com o controle remoto na mão. Diego, por outro lado, soltou um sopro de escárnio, descruzando os braços e dando um passo lento na direção do amigo.
— "O nome dela é Rafaela" — ele repetiu, imitando o tom sério do capitão. — Ih, caramba... o negócio está mais sério do que eu imaginei, Dan. Ele não está apenas perfumado, está mesmo caidinho.
— Menos, Diego — retrucou, mas a ponta de suas orelhas o denunciava, ficando avermelhada. Tentou passar em direção à saída, mas o outro bloqueou o caminho.
— "Menos"? Mano, você acabou de mostrar os dentes pela segunda vez no dia para o seu melhor amigo só porque eu usei o apelido que você inventou para ela! — Diego deu um tapinha no ombro dele. — A gente fez uma aposta para você levar ela para a cama, não para você virar o cavaleiro protetor da nerd. Se continuar nesse ritmo, vai acabar pedindo ela em namoro com buquê de flores e chocolates.
Gabriel ficou em silêncio. Não riu, não usou a desculpa da monitoria e nem reforçou o trato anterior. Apenas sustentou o olhar do amigo, fazendo o clima do cômodo se tornar tão desconcertante que o som da TV ao fundo pareceu sumir.
Diego continuou encarando Gabriel, uma nota de estranhamento em seus olhos pela falta de piada ou negação.
— Admite logo, Biel. Você está amarrado nessa garota. O problema é que, se ela descobrir que esse papo começou com uma aposta... aí sim o bicho vai pegar. E eu duvido que você escape inteiro.
O comentário de Diego atingiu em cheio o ponto mais sensível de Gabriel. A possibilidade de Rafaela descobrir como tudo começou — de ver a aproximação deles reduzida a um acordo financeiro — causou-lhe um frio repentino no estômago. O medo de perdê-la, antes mesmo de ter a chance de tentar, tornou-se real demais.
Gabriel continuou sem responder. Apenas contornou o bloqueio físico, deixando Diego de lado para pegar as chaves do carro em cima da mesa de centro. O metal gelado contrastava com o calor que subia por seu pescoço.
— Eu já vou indo — cortou. — E, se vocês continuarem me enchendo o saco, o treino de amanhã vai ser só de suicídios no campo até alguém vomitar. Fui.
Ele saiu e bateu a porta, mas a advertência de Diego ficou ecoando no corredor: “Se ela descobrir...”
Rafaela sentia cada músculo das pernas protestar enquanto guardava o avental no armário estreito da copa dos funcionários. Esticou os braços acima da cabeça, ouvindo um estalo satisfatório na coluna; entre registrar três remessas gigantes e equilibrar caixas subindo e descendo a escada do estoque, sentia que tinha corrido uma maratona, e sem o preparo físico de um atleta.
Resgatou a bolsa, ajeitou os fios que insistiam em escorregar do rabo de cavalo e despediu-se do patrão.
— Até amanhã, seu Alberto. Tente não vender a seção de clássicos inteira antes de eu chegar.
— Vá descansar, menina. Você trabalhou por três hoje — o velho livreiro acenou, concentrado nas contas.
Rafaela parou assim que cruzou o batente da porta e sentiu o ar abafado de Niterói no rosto. Encostado na lateral reluzente do carro, estava Gabriel.
Ele vestia uma camisa que acentuava a largura de seus ombros, e sua atenção cortou o fluxo de pedestres para encontrá-la.
— O que você está fazendo aqui, Duarte?
— Nove e meio, Rafa! — Ele se desencostou do veículo e caminhou até ela, exibindo uma calmaria que parecia diminuir a calçada. — O Santana quase se engasgou com a própria saliva, mas teve que admitir. Nove e meio!
Ela o encarou com uma mistura de exaustão, petulância e alívio. Ele conseguira.
— Parabéns, Gabriel — disse, tentando manter uma postura neutra. — Fico feliz que as aulas tenham servido para alguma coisa além de me irritar.
— Ah, elas serviram para muita coisa — retrucou.
— Que bom! Então, isso significa que meu trabalho com você acabou. Foi um prazer te ajudar — ela estendeu a mão.
Gabriel fixou a atenção na palma aberta. A expressão vitoriosa dele deu lugar a algo rígido, quase incrédulo. Aquele gesto era uma barreira formal, um limite bem desenhado.
— Um prazer? — repetiu. — Você está falando como se tivéssemos acabado de concluir um contrato.
— Não deixa de ser. O combinado era a prova. Você passou — ela recolheu a mão, tentando sustentar a postura profissional, mas a proximidade física dele começava a cobrar seu preço. — Eu cumpri minha parte, você cumpriu a sua. Não tem mais por que a gente continuar com isso.
— Tem toda a razão. O prazo da prova acabou — Gabriel respondeu. — Mas eu ainda não terminei de te ensinar a dirigir. E eu não sou de deixar nada pela metade.
— Não é necessário — rebateu, a voz soando um pouco mais trêmula do que planejara. — Cheguei à conclusão de que não sirvo para dirigir, fico nervosa demais. Então, não há mais nada a ser negociado. Você tem a nota, eu tenho a minha paz de volta.
— Paz? — Gabriel deu um passo curto, o suficiente para que o aroma amadeirado de seu perfume invadisse o espaço dela, forçando-a a erguer o queixo para sustentar o confronto. — Você quer a sua paz de volta, Rafaela? E a minha? Porque eu não tenho um segundo de sossego desde o dia em que esbarrei em você.
Rafaela sentiu a garganta secar, mas se recusou a recuar. Sustentou o olhar dele, deixando um sorriso zombeteiro desenhar-se na linha dos seus lábios.
— Ah, que pena do capitão — ironizou. — Mas, se você prestasse atenção por onde anda, em vez de agir como o dono do campus, não estaria passando por esse drama todo.
— Rafaela... — O tom dele era de advertência, embora suas pupilas dilatadas entregassem outra coisa em tempo real.
— Duarte... — ela devolveu, imitando o aviso.
Gabriel soltou uma risada abafada que vibrou perto do rosto dela. O canto da boca dele se curvou do jeito convencido que ela já conhecia bem.
— Se eu fosse o dono do campus, a primeira regra seria proibir você de tentar fugir de mim com essa conversinha — retorquiu. — Mas, já que sou só o capitão do time que perdeu o juízo, você vai ter que aguentar o drama por mais um pouco.
Ele se afastou e abriu a porta do carona. O estalo da fechadura pareceu dissipar parte da tensão que flutuava no ar.
— Entra.
— Por quê? — Rafaela recuou.
— Porque quero te levar naquela cafeteria que vende o blend de avelã que você gosta.
— Você só pode estar brincando — gesticulou para si mesma e depois para ele. — Olha para você. Parece que acabou de sair de um ensaio fotográfico, todo arrumadinho. E olha para mim! Eu estou há oito horas carregando caixas, Gabriel. Meu cabelo desistiu de mim às duas da tarde e tenho certeza de que pareço uma andarilha. Você não vai querer que ninguém nos veja juntos.
— Você está linda, Rafaela. Sempre está.
O ar faltou por um segundo inteiro. Ela piscou, afetada pela simplicidade quase agressiva com que ele dissera aquilo. Odiava como ele conseguia desestabilizar seus batimentos cardíacos com tanta facilidade.
— ... E eu não aceito "não" como resposta de quem me fez decorar o ciclo de Krebs sozinho ontem à noite — ele completou, com um meio sorriso. — E não é um encontro, é um pagamento de dívida. Considere isso uma reposição de glicose necessária. Tenho quase certeza de que você ia para casa comer miojo de tomate mesmo.
— Você é insuportável! — exclamou, cruzando os braços para disfarçar o nervosismo. — E está enganado, eu não ia jantar miojo, ia jantar pizza congelada.
— Pizza congelada? — Gabriel estalou a língua, balançando a cabeça em uma reprovação fingida, mas com divertimento no rosto. — Pior ainda. Isso é um crime contra a sua própria biologia, monitora.
Rafaela fitou os dedos dele, ainda segurando a porta aberta, depois o rosto de Gabriel, onde aquela expressão segura exalava a certeza de quem já sabia que tinha ganho a partida. Ela suspirou, derrotada pela constatação de que a gravidade dele era simplesmente forte demais para resistir.
— Se alguém na cafeteria achar que você está sendo mantido refém por uma sobrevivente do estoque, a culpa é sua — resmungou, avançando para o banco de carona.
— Eu assumo o risco — respondeu, enquanto fechava a porta com um estalo firme.
Ele deu a volta pelo capô, e Rafaela o observou pelo para-brisa, sentindo a fragrância amadeirada dele já impregnada no interior do veículo. O acordo tinha terminado, mas, enquanto Gabriel entrava e dava partida no motor, ela teve a terrível certeza de que as regras do jogo tinham se tornado perigosas demais. E nenhum dos dois parecia querer fugir do perigo.
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A cafeteria exalava sofisticação. Rafaela tentou não se encolher na poltrona de veludo, sentindo que sua calça jeans gasta e a camiseta com frase divertida eram quase um insulto à decoração minimalista. Gabriel, por outro lado, parecia perfeitamente integrado ao ambiente. Ele pediu o blend de avelã com um sanduíche de presunto alemão no croissant para ela, e um expresso duplo para si.
Quando os pedidos chegaram, ele deslizou a xícara fumegante e o prato na direção dela, estudando-a por cima da borda da própria bebida.
— Come logo. Você está com aquela cara de quem vai desmaiar ou me bater de novo — provocou, o tom descontraído contrastando com a elegância do lugar.
Rafaela envolveu a xícara quente com as mãos, deixando o calor e o aroma de avelã agirem como um bálsamo.
— Você é muito presunçoso, Duarte. Acha que um café caro e um sanduíche metido a besta apagam o fato de ter me sequestrado na porta do trabalho?
— Não é sequestro quando a pessoa aceita vir por vontade própria — ele devolveu, recostando-se na cadeira. — Mas me diz uma coisa... Seu namorado não se importa?
Rafaela sentiu o pedaço do croissant travar por um segundo na garganta. Manteve a atenção fixa na espuma do próprio café, vendo as bolhas se desfazerem enquanto a tensão subia para o nível crítico outra vez.
— O meu namorado confia em mim. — ela mentiu sem hesitar, deliciando-se internamente com a imagem de sua irmã Micaela sendo o pivô daquele drama. — Ele sabe que isso aqui é apenas… o pagamento de uma dívida, como você mesmo disse.
Gabriel inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa de mármore. O olhar descontraído deu lugar a uma intensidade focada, quase territorialista.
— Confia, é? Um cara de muita fé — comentou, a voz baixando um tom, o suficiente para que apenas ela ouvisse sobre o ruído da cafeteria. — Porque, se você fosse minha, Rafaela, eu não teria essa paciência toda. Não ia achar graça nenhuma de ver outro cara ocupando o espaço que deveria ser meu.
Rafaela sentiu o impacto daquelas palavras, mas sustentou o confronto, apoiando o queixo na mão com um semblante desafiador.
— "Seu espaço"? — desdenhou, afiada. — Desde quando você é dono de alguma coisa aqui, Duarte? Não sabia que eu tinha virado propriedade privada para você ficar demarcando território.
— Não é sobre propriedade, nerdzinha. É sobre prioridade — ele rebateu, sem desviar a atenção dela por um segundo. — Eu faria questão de ser o cara a te buscar no trabalho e levar o café que você gosta. Só para garantir que eu seria o primeiro a ver esse seu sorrisinho marrento no final do dia.
Ele deu um gole lento no expresso, a língua limpando de leve o rastro de espuma nos lábios, e Rafaela se viu, por um segundo fatal, hipnotizada pelo gesto.
— Mas não se preocupa — ele completou, o canto da boca se curvando. — É só um cenário hipotético.
— Ainda bem — Rafaela respondeu, arrumando a postura e desviando o olhar para o croissant para disfarçar a bagunça que ele fizera em seus sentidos. — Porque o seu conceito de "espaço" parece sufocante demais para o meu gosto, Duarte. E, honestamente? Você não tem preparo mental para lidar com uma jogadora como eu. O seu ego de camisa dez quase entrou em colapso porque me viu conversando com um colega no corredor.
Gabriel soltou uma risada, jogando a cabeça um pouco para trás, os olhos brilhando com o contra-ataque. Ele adorava quando ela mostrava os dentes.
— Um colega, não. Seu ex-ficante. Mas você tem um ponto, nerdzinha — admitiu, erguendo a xícara em um brinde silencioso. — Porém, sou um atleta de alta performance. Eu aguento o tranco.
— Mas e a sua namorada, Duarte? Não se incomoda de você estar aqui todo arrumado, pagando cafezinho caro para a sua ex-monitora? — ela destilou. — Você e a Brunna… é esse o nome dela, não é? Formam um casal bonito. Adorei o espetáculo no meio do bloco no outro dia.
O semblante seguro de Gabriel vacilou. A lembrança de ver Rafaela sumir pela porta com a pasta azul apertada contra o peito, enquanto ele descia ao nível de uma farsa ridícula, pesou em seu peito.
— Já falei que ela não é minha namorada. E aquilo foi… puro desespero — ele revelou, o tom de voz caindo para um registro baixo, quase confidencial, enquanto sustentava o confronto do olhar dela sem hesitar. — Uma tentativa bem idiota e frustrada de provar para mim mesmo que eu ainda estava no controle da minha própria cabeça.
Ele afastou a xícara devagar, deixando a gravidade daquela declaração flutuar sobre a mesa de mármore.
— Então, sim, Rafa... foi um espetáculo péssimo. Porque não dá para fingir que o jogo está ganho quando a única pessoa que importa no corredor nem se dá ao trabalho de entrar na disputa.
Rafaela entreabriu os lábios, a acidez morrendo na garganta. O vinco sutil que surgiu entre suas sobrancelhas entregou que a honestidade dele encontrara uma brecha profunda em suas defesas.
Ela desviou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquela entrega. O Duarte sem máscaras era infinitamente mais perigoso do que o capitão arrogante de sempre. Precisando urgentemente de ar e de uma rota de fuga para os próprios sentimentos, ela voltou a encará-lo, usando o mesmo tom de alerta que ele usara na calçada.
— Gabriel...
— Rafaela... — ele devolveu no mesmo registro, a voz quase um sussurro, recusando-se a quebrar a conexão entre eles.
— Não faz isso — ela pediu, a defensiva retornando em um escudo apressado. — Não começa a inventar cenários em que eu sou a culpada pelos seus vexames no corredor. Agora, toma o seu café antes que esfrie.
Gabriel a estudou por um instante, notando a pressa dela em erguer as barreiras de volta. Ele sabia que tinha tocado em um ponto vulnerável.
— Sim, senhora — ele anuiu, erguendo as mãos em rendição antes de voltar a beber o café.
A partir dali, as defesas de ambos baixaram. Entre uma conversa e outra, eles se perderam em assuntos triviais sobre a universidade: professores que evitavam a todo custo, o desespero das semanas de provas e, juntos, tentaram chegar a uma conclusão lógica sobre por que o café do bandejão da UC tinha um gosto tão persistente de óleo diesel.
— Sabe o que é engraçado? — ele brincou com o guardanapo de papel. — Desde o primeiro dia em que pisei na faculdade, todo mundo espera que eu mande bem em campo, mas ninguém espera que eu saiba o que é uma mitocôndria. Você tinha que ver a cara do Santana quando terminou de corrigir a minha prova. Ele disse que tinha um grande problema à sua frente, pois ele não acreditava em milagres, mas acabava de presenciar um. Acho que, tirando os meus amigos, todo mundo naquele lugar pensa que sou um idiota funcional.
Rafaela o analisou. A fachada do camisa dez parecia um pouco pesada demais para ele agora.
— Eu não te acho um idiota, Gabriel.
— Ah, tá, até parece!
— É sério! Eu só acho que você desperdiça muito potencial tentando ser apenas o que os outros esperam.
O peso da camuflagem do camisa dez pareceu ceder por um instante, deixando o ar entre eles curiosamente leve. Mas, tratando-se de Rafaela e Gabriel, as tréguas nunca sobreviviam por muito tempo sem que alguém puxasse o pino de uma nova provocação.
— Se bem que... — Rafaela exibiu um meio sorriso, inclinando a cabeça. — Quando você derrubou meu relatório na lama e depois me chamou de Roberta, eu te achei um idiotinha do caralho, sim. Com todas as letras.
Gabriel devolveu com aquela expressão convencida e tipicamente Duarte, enquanto sustentava o olhar dela.
— Olha pelo lado positivo, "Roberta"... Pelo menos aquela mancada garantiu que eu ficasse gravado na sua mente desde o primeiro dia. E, considerando o jeito que você está me encarando agora, eu diria que o meu estoque de erros funcionou muito melhor do que qualquer cantada de manual.
Rafaela soltou uma risada, notando como o cansaço parecia ter evaporado por um segundo. A "andarilha" agora tinha um brilho nos olhos que ela jamais imaginou que ele poderia causar.
— Bom saber que você consegue transformar um papelão daqueles em algo positivo para alimentar o próprio ego — disse ela.
— É um talento natural — respondeu, estendendo a mão para pedir a conta ao garçom. — Que tal se a gente saísse daqui antes que você comece a listar todos os meus outros erros por ordem alfabética?
Ele pagou a conta e se levantou; desta vez, não houve ordem ou exigência. Gabriel esperou que ela se posicionasse e pousou a mão na base da coluna dela, guiando-a para fora do estabelecimento. O toque era leve, quase respeitoso, mas, para Rafaela, foi como se ele tivesse acabado de injetar adrenalina pura em sua corrente sanguínea.
— Vamos. Vou te levar para casa antes que o seu namorado ache que eu te sequestrei para umas aulas de reforço de madrugada.
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