AMOR EM CAMPO

46 Capítulo 49: Domingo


Notas iniciais
Oi, amores! 🤍 Domingo chegou, trazendo sol, comida boa, clima de família… e um certo pai vigilante. 👀🔥 Entre churrasco, provocações e memórias do passado (algumas MUITO constrangedoras, obrigada, Micaela 🤭), o Gabriel vai percebendo que conquistar a Rafaela talvez tenha sido a parte mais fácil… porque agora vem a parte mais desafiadora: manter. E enquanto tudo parece leve por fora, por dentro tem coisa crescendo… daquelas que a gente sabe que não vão poder ficar escondidas por muito tempo. Leiam com calma. Boa leitura. 💙

À medida que os dias avançavam, Gabriel se sentia cada vez mais à vontade na companhia da família de Rafaela. Durante as refeições, a conversa fluía leve, espontânea, cheia de breves interrupções e risadas fáceis. Ele começou a perceber o quanto ela se parecia com o pai: o mesmo humor afiado, os gestos tranquilos, a forma serena — quase estratégica — de observar antes de falar.

Estar ali era como descobrir uma camada nova dela. Uma versão mais antiga, mais raiz. E aquilo o encantava.

No domingo pela manhã, depois de uma caminhada pela vizinhança tranquila, os dois se sentaram na rede do jardim dos fundos. O sol já subia no céu azul limpo, a luz quente filtrando pelas folhas da mangueira. O quintal tinha aquele silêncio confortável de interior, quebrado apenas pelo som distante do rádio sempre ligado na cozinha.

A rede balançava devagar.

— Preparado para voltar para a rotina? — perguntou Rafaela.

— Não. De verdade. — Ele sorriu. — O feriado foi incrível. Estar aqui com vocês me faz sentir parte de algo.

Ela estendeu o braço e entrelaçou os dedos nos dele.

— Fico feliz que esteja se sentindo assim.

— Acho que estou começando a me acostumar mal — ele continuou, a voz mais baixa agora. — Ficar aqui com vocês, comendo a comida da sua mãe, ouvindo as histórias da Micaela… está ficando difícil imaginar um fim de semana sem isso.

O peito dela aqueceu com aquela confissão. Mordeu levemente o lábio, tentando conter o sorriso que insistia em aparecer. Tudo estava acontecendo com uma naturalidade que a fazia se perguntar por que haviam demorado tanto para chegar ali.

— Isso quer dizer que você está viciado em mim, Gabriel? — Ela arqueou uma sobrancelha, provocadora.

Gabriel soltou uma risada baixa, balançando a cabeça como quem se rende.

— Talvez um pouco.

— Só um pouco? — Ela insistiu, inclinando o rosto na direção dele, sorriso travesso.

Gabriel se inclinou lentamente, os olhos cravados nos dela.

— Tá… muito — sussurrou, a voz raspando nos lábios dela.

E então a beijou.

Como se cada segundo fosse precioso demais para ser apressado. Era um beijo que falava tudo o que ele ainda não havia tido coragem de dizer.

Os dedos dele subiram até a nuca dela, segurando com cuidado. Rafaela relaxou contra ele, o corpo cedendo, o mundo diminuindo ao redor.

Até que…

Passos sobre o cimento.

Um pigarrear deliberado.

Os dois se afastaram rápido demais para parecer casual.

Marcos estava parado atrás deles, braços cruzados, expressão séria… ou tentando parecer.

O silêncio durou meio segundo.

— Oi, pai… — Rafaela tentou soar natural. — A gente estava só… conversando.

— Uhum. Conversando. — Ele coçou a barba, olhando de Rafaela para Gabriel com aquele ar de quem já viu muita coisa na vida. — Sei.

Gabriel se levantou da rede quase automaticamente.

— Oi, senhor. Bom dia!

Marcos o mediu de cima a baixo, mas um brilho divertido traía sua carranca.

— Bom dia! — Ele sustentou o silêncio por um segundo teatral. — A rede aqui em casa é pra descansar, rapaz. Não pra ensaiar cena de novela, ouviu bem?

Rafaela levou a mão ao rosto.

— Pai!

Marcos ignorou completamente.

— Então, Gabriel… — ele começou, aproximando-se com passos contidos. — A Rafa me contou que você manda bem na cozinha.

Gabriel piscou.

— Eu… me viro.

— Ótimo. — Marcos abriu um meio sorriso. — Porque o churrasco não vai se fazer sozinho. E já que você está tão à vontade no meu quintal…

Ele inclinou a cabeça na direção da churrasqueira.

— Vem, vamos ver se, além de jogar bola, você também sabe lidar com fogo.

Marcos começou a andar em direção à churrasqueira, chamando por cima do ombro.

Gabriel lançou um último olhar para Rafaela.

Inclinou-se só o suficiente para que a voz não passasse deles.

— Com o seu fogo eu sei lidar muito bem, nerdzinha… relaxa.

Rafaela arregalou os olhos e tentou dar um chute discreto nele sob a rede, mas o golpe que gelou o sangue de Gabriel não veio dela. Veio de trás.

— Como é que é? — A voz de Marcos caiu como um machado.

Gabriel travou. Literalmente. Os ombros subiram um centímetro, as mãos que estavam relaxadas se fecharam em punhos e ele sentiu o suor frio brotar instantaneamente na nuca. Ele não se virou de imediato; primeiro, ele fechou os olhos por um milésimo de segundo, xingando a própria audácia.

Ele tossiu, um som seco para tentar recuperar a voz que parecia ter fugido para o estômago.

— Eu disse que… — apontou discretamente para a churrasqueira — que fogo… fogo exige controle de temperatura. Se você relaxar, se a gente relaxar, estraga tudo.

— Controle de temperatura? — O sogro repetiu, a palavra saindo lenta, como se estivesse testando a validade da mentira.

— Sim, Marcos… quer dizer, senhor. Fogo adequado é fogo no ponto certo. Nem fraco demais, nem descontrolado.

Marcos encarou Gabriel por dois segundos longos demais.

Depois…

— Hm.

Virou-se novamente em direção à churrasqueira.

— Espero que você tenha esse mesmo controle em todas as situações.

Gabriel fez que sim, sério, como se estivesse ouvindo instruções táticas antes de uma final.

— Com certeza, senhor.

Marcos voltou a andar.

— E você, garotinha? Sua mãe e sua irmã estão te esperando lá na cozinha para ajudar com os acompanhamentos.

Rafaela observou os dois se afastando juntos e percebeu que aquele momento — meio constrangedor, meio engraçado — era exatamente o tipo de memória que guardaria para sempre.

Gabriel acompanhou Marcos até a churrasqueira, que ficava no canto do quintal, debaixo de uma cobertura simples de telha. O cheiro de carvão já começava a subir quando Marcos colocou o avental, como se estivesse vestindo uma armadura.

Gabriel parou ao lado dele.

— Já mexeu com churrasqueira, garoto? — Marcos perguntou, sem olhar diretamente.

— Já, sim. Lá em casa, quem costuma fazer sou eu.

Sobre a mesa ao lado estavam as bandejas com carne já preparada. Marcos pegou o sal grosso e começou a temperar a picanha com movimentos precisos. O silêncio era preenchido apenas pelo estalar do carvão.

— Você é um cara articulado, Gabriel — Marcos começou, a voz serena, mas com aquele peso de autoridade. — Joga bem, fala bem… até sabe disfarçar uma piadinha na frente do pai da namorada com teoria sobre temperatura.

Gabriel sentiu um frio na espinha. Ele não tinha enganado o velho.

— Me desculpe por isso, senhor. Foi…

— Foi confiança — Marcos o cortou, finalmente olhando nos olhos dele. — Confiança é bom no campo. Mas aqui fora, com a minha filha, eu prefiro respeito e consistência.

Ele levantou uma sobrancelha.

— A Rafaela passou muito tempo sendo a “nerd esquisita” para os outros. Mas — ele apontou para a janela da cozinha ao fundo, onde agora dava para ver Rafaela, Micaela e Sônia rindo e conversando. — Para mim, Gabriel, aquelas três mulheres são o que tenho de mais valioso.

Gabriel endireitou os ombros, perdendo qualquer vestígio de brincadeira.

— Então você chega aqui com essa pinta de galã… — Marcos continuou, a lâmina da faca deslizando pela carne com uma precisão que fez Gabriel engolir em seco. — Jogador de futebol, sorriso fácil… e eu me pergunto: você é o tipo de homem que gosta do brilho da conquista ou o que aguenta o peso da responsabilidade?

Marcos parou o movimento. Fincou o garfo de churrasco na tábua de madeira com um baque surdo e, pela primeira vez, encarou Gabriel com uma intensidade que parecia atravessar sua pele.

— Porque tem muito moleque que só quer o troféu para tirar foto e mostrar pros amigos, mas não tem culhão para polir o metal quando ele começa a escurecer. Você vai cuidar dela ou só está esperando o brilho da novidade passar para procurar a próxima?

Gabriel sentiu o impacto daquelas palavras. A palavra “troféu” ressoou na sua mente como um eco. O peso da aposta feita no passado pareceu subir pela garganta, denso e amargo.

Ele não podia mentir. Não totalmente. Mas ele também não era mais aquele cara.

— No começo… — Gabriel começou, a voz um pouco mais rouca. Ele desviou o olhar para o fogo por um segundo, vendo as chamas lamberem o carvão, antes de voltar a encarar o sogro com uma honestidade que doía. — Eu talvez não soubesse o que estava procurando, Marcos. Admito que já fui um idiota antes de conhecê-la.

Marcos permaneceu imóvel, ouvindo.

— Mas a Rafaela… ela me virou do avesso — Gabriel continuou, endireitando os ombros. — Ela não é um troféu. Ela é a única pessoa que me faz querer ser alguém melhor do que esse “galã” que o senhor está vendo. Minha intenção não é ganhar um jogo. É estar à altura dela. Todos os dias.

Marcos o estudou por um segundo, procurando qualquer traço de falsidade. O olhar de pai coruja cruzando com a postura de um homem que reconhece a verdade no outro.

— Palavras bonitas, Gabriel — Marcos finalmente disse, pegando o pegador de metal e ajustando a carne na grelha. — Mas, acho que está só tentando cair nas minhas graças.

— Eu não vim aqui para cair nas suas graças, Marcos — Gabriel disse, mantendo a voz firme, embora o coração estivesse a mil. — E eu sei que palavras não valem muito para um homem como o senhor. Mas a verdade é que eu nunca me senti tão em casa quanto me sinto quando estou com a Rafaela. Eu não estou aqui por diversão. Estou aqui porque ela é a única pessoa que eu não aceito perder.

Marcos parou o movimento da pinça por um segundo. Não olhou para ele, mas o silêncio mudou de tom.

— O senhor quer consistência? — continuou Gabriel. — Então me dá tempo. Eu não vou embora quando o feriado acabar.

Marcos ficou quieto por um momento.

O fogo crepitou.

A gordura da carne caiu na brasa e levantou uma chama leve.

Gabriel pegou o pegador e controlou o fogo com calma.

Marcos observou aquilo.

— Você não se desespera fácil.

— Aprendi no campo.

Mais um silêncio.

Então, Marcos deu um passo para trás.

— Vira essa picanha aí antes que queime.

Gabriel virou a carne.

Pela janela da cozinha, Rafaela observava os dois tentando decifrar o que estava acontecendo.

Marcos pegou uma cerveja na caixa térmica ao lado da churrasqueira.

Abriu.

Tomou um gole.

Depois estendeu outra para Gabriel.

Gabriel aceitou a cerveja, sentindo o metal gelado contra a palma da mão suada pelo calor do fogo e do nervosismo. O som do “click” ao abrir a lata pareceu pontuar o fim do interrogatório.

Marcos deu um tapinha curto, quase bruto, no ombro de Gabriel.

— Só não vacila, nem com a minha filha — disse Marcos, voltando-se para a mesa de carnes. — E nem com o churrasco.

Gabriel deu o primeiro gole, sentindo o amargor da cerveja descer, limpando a tensão da garganta. Ele olhou para a janela e encontrou o olhar de Rafaela. Ela sorriu, curiosa e aliviada, e ele apenas ergueu levemente a lata em um brinde silencioso.

O segundo round tinha terminado. E, por enquanto, ele ainda estava de pé.

O chiado rítmico da panela de pressão preenchia a cozinha com cheiro de tempero caseiro. Enquanto os homens dominavam o território do carvão, o refúgio das mulheres se concentrava em torno da bancada. Micaela, milagrosamente em silêncio por alguns segundos, secava a louça, enquanto Sônia terminava de temperar a salada.

Rafaela estava encostada no batente da porta, os braços cruzados, os olhos fixos na cena lá fora: Gabriel e Marcos, lado a lado, cercados pela fumaça branca do carvão.

— Seu pai não vai enfiar um espeto no seu namorado, Rafa. — A voz de Sônia veio mansa, mas carregada de diversão. — No máximo, vai testar se ele aguenta o tranco.

Rafaela suspirou, desencostando-se da porta.

— Eu sei, mãe. É só que… o Gabriel é importante. Eu não queria que o pai o fizesse se sentir um intruso.

Sônia parou o que estava fazendo e secou as mãos no avental. Aproximou-se da filha e colocou uma mecha de cabelo de Rafaela atrás da orelha, um gesto que fazia desde que ela era pequena.

— Seu pai não está tratando-o como intruso. Se estivesse, o Gabriel estaria sentado na sala ouvindo o rádio sozinho. — Sônia deu um sorriso de canto. — Se o Marcos o levou para a churrasqueira, é porque está se certificando de que o Gabriel é bom o suficiente para carregar o que a gente mais preza nesta casa. Ele só quer saber se as mãos que seguram as suas são firmes, filha.

Micaela deu uma risadinha, guardando um pote no armário com uma mão, enquanto com a outra protegia a lente da câmera pendurada no pescoço, pronta para captar qualquer olhar revelador entre a mãe e a irmã.

— O “general” Marcos está apenas conferindo se o recruta tem fibra. Relaxa, o Gabriel está indo bem. Ele nem tremeu quando o pai pegou a faca de carne.

Rafaela sorriu, mas o pensamento a levou para longe. O jeito que Gabriel a olhava, a segurança que ele passava, a forma como ele parecia “encaixar” ali… tudo era novo e assustadoramente intenso.

Rafaela se apoiou na bancada.

— Fico nervosa vendo isso.

— Você acha que seu pai não ficou nervoso quando veio falar com o meu?

Rafaela piscou.

— O vovô o interrogou também?

Sônia riu baixinho.

— Sua avó fez café, mas o clima parecia reunião de delegacia.

Micaela riu.

— Eu queria muito ter visto isso.

Sônia desligou o fogo da panela de pressão antes de continuar:

— Seu pai quase não falava naquela época. Ficava sentado, respondendo só o necessário.

Rafaela observou a mãe por um momento.

— Mãe… — Rafaela começou, a voz um pouco mais baixa, atraindo a atenção das duas. — Como a senhora teve certeza?

Sônia inclinou a cabeça, curiosa.

— Certeza de quê, meu bem?

— Que amava o pai. Que ele era “o cara”. — Ela hesitou. — Como você soube que ele era a escolha certa?

Sônia olhou para a janela, onde Marcos agora gesticulava algo para Gabriel, e seus olhos ganharam um brilho nostálgico.

— Ah, filha… não foi um momento mágico. — Ela voltou a olhar para Rafaela. — Foi um monte de pequenos momentos.

Sônia deu um passo à frente, segurando os ombros de Rafaela.

— Foi quando ele apareceu na porta da minha casa numa chuva absurda só para me entregar um caderno que eu tinha esquecido.

Micaela fez uma cara dramática.

— Já começou romântico.

— Foi quando ele passou duas horas ajudando meu pai a consertar uma cerca quebrada… mesmo sem saber nada de cerca.

Rafaela sorriu.

— Parece ele mesmo.

— E foi quando percebi que, quando alguma coisa boa ou ruim acontecia comigo… a primeira pessoa que eu queria contar era ele.

Silêncio.

Sônia voltou a mexer na panela.

— Amor, não foi um raio que caiu do céu.

Ela olhou para Rafaela com carinho.

— Foi perceber que a minha vida ficava mais leve quando ele estava por perto.

Ela fez uma pausa, estudando o rosto da filha.

— Por que a pergunta? Você está com medo do que sente pelo Gabriel?

Rafaela olhou para o quintal a tempo de ver Gabriel rindo de algo que o pai disse.

— Não é medo. É só que… é muita coisa ao mesmo tempo. Às vezes parece que o mundo está girando rápido demais. E ele é tão diferente de tudo o que planejei.

— Então aproveita, Rafa — Micaela interveio, surpreendentemente séria por um instante. — Porque o Gabriel olha para você como se você fosse o único artigo científico que vale a pena ler no mundo inteiro. E olha que você é bem difícil de entender às vezes.

📚📚📚


A mesa estava posta na varanda, sob a sombra generosa da mangueira. As travessas com arroz, feijão, farofa, salada e as carnes recém-saídas da churrasqueira ocupavam o centro da mesa, espalhando cheiro de comida saborosa pelo quintal.

Mas o verdadeiro banquete era o falatório de Micaela.

Ela deu uma garfada generosa na carne em seu prato, mas não sem antes posicionar sua câmera para registrar o vapor subindo. Ela já tinha clicado o Gabriel e o pai na churrasqueira umas dez vezes.

Então lançou o golpe de misericórdia.

— E aí, Gabriel, a Rafa já te contou sobre quando ela participou do Concurso de Dança da Vila? — disparou a caçula, com os olhos brilhando de malícia.

Rafaela quase se engasgou com o suco.

— Micaela, não se atreva…

— Ah, eu vou me atrever, sim! — Micaela continuou, ignorando o olhar assassino da irmã. — A Letícia, que sempre foi a “cabeça de vento” da dupla, cismou que elas tinham que participar e que elas iriam dançar funk. A Rafaela passou três dias dizendo que era um absurdo, que o corpo humano não foi feito para aquela aerodinâmica… até que a Letícia apelou para a chantagem emocional.

Gabriel largou o talher, completamente fascinado.

— A Rafaela? Essa Rafaela aqui… Dançando funk?

— Não só dançou, como ganhou! — Micaela bateu na mesa, rindo. — Elas subiram naquele palco escondidas de todo mundo. A Rafaela parecia uma metralhadora de movimentos. Eu nunca vi alguém fazer o quadradinho com tamanha precisão. Foi histórico!

Rafaela levou a mão à testa.

— Eu odeio você.

— Não odeia, não — Micaela respondeu alegremente. — Porque foi a Letícia que teve a ideia.

O nome fez Rafaela travar por um segundo, mas Micaela continuou, animada demais para perceber.

— Ela falou que a Rafa precisava “soltar o quadril” e arrastou-a para o concurso.

Gabriel virou-se para Rafaela, com um sorriso de canto que ia de orelha a orelha.

— E por que essa informação foi omitida do meu relatório, nerdzinha?

— Porque eu queria manter o resto da minha dignidade, Gabriel! — Rafaela escondeu o rosto nas mãos, sentindo o calor da vergonha subir pelo pescoço.

— O problema — Marcos interrompeu, a voz grave, mas agora tingida de uma nostalgia bem-humorada — não foi o troféu. Foi o vídeo que a vizinha me mostrou no dia seguinte.

Sônia riu alto.

— O seu pai quase teve uma síncope. Ele não sabia se ficava orgulhoso da coordenação motora da filha ou se a trancava no quarto até os trinta anos.

— Ganharam o concurso e uma semana de castigo sem ver a luz do sol — completou Marcos, servindo mais um pedaço de picanha para Gabriel. — Mas confesso… o troféu ainda está guardado em algum lugar no fundo do armário da sala.

— Pai!

Rafaela olhou para ele, indignada.

Gabriel soltou uma gargalhada genuína, sentindo-se mais próximo daquela família a cada segundo. Ele olhou para a namorada, que ainda tentava se recuperar do constrangimento, e percebeu que a Rafaela que ele amava era um quebra-cabeça muito mais complexo do que a aposta idiota do início do semestre sugeria.

— Vou querer uma demonstração particular depois — Gabriel sussurrou no ouvido dela, fazendo-a dar um empurrão de leve no ombro dele.

— Você ri agora, Micaela… mas eu também tenho histórias da sua infância.

Micaela arregalou os olhos.

— Traição.

— Justiça — Rafaela corrigiu.

A mesa explodiu em risadas.

Por um instante, o mundo parecia simples de novo.

⚽⚽⚽

O silêncio da casa era absoluto, quebrado apenas pelo estalar suave da madeira e pelo som do grilo no quintal. No quarto, Gabriel encarava o teto, a mente repassando a conversa com Marcos. O peso daquelas palavras era maior que qualquer marcação em campo.

Ele olhou para o lado, para o quarto que exalava a história da Rafaela, e sentiu uma pontada amarga no peito. Ele queria ser como o Marcos; queria ser o porto seguro onde ela pudesse desarmar todas as defesas, como tinha visto ela fazer naquele feriado. Mas como ser o homem que ela merecia com uma mentira daquelas cravada nas costas como um espinho?

A aposta, que antes parecia uma idiotice entre amigos, agora parecia um crime de traição. Ele fechou os olhos com força, uma certeza amadurecendo no caos da sua mente: o feriado terminaria em paz, mas o primeiro passo deles de volta à cidade seria em direção à verdade.

Ele contaria tudo. Mesmo que isso significasse perder o direito de cruzar aquele portão outra vez.

Ele estava quase pegando no sono quando a porta rangeu e uma silhueta diminuta, vestindo apenas uma camiseta larga, deslizou para dentro. O cheiro de Rafaela invadiu o quarto antes mesmo de ela chegar à cama.

— Rafa? — ele sussurrou, a voz rouca pelo sono. — O que você está fazendo aqui?

Ela não respondeu. Apenas se ajoelhou no colchão e engatinhou até ele, sentando-se sobre os calcanhares, bem ao lado do quadril dele. A luz da lua atravessava a cortina fina, desenhando o contorno dela contra o escuro.

— Eu não conseguia dormir — ela confessou, a voz num fio. — Eu ficava pensando no que você sussurrou no meu ouvido no almoço… sobre a demonstração particular.

Gabriel sentiu o pulso martelar nas têmporas. Quando ela se inclinou, arrastando os lábios pela linha do seu pescoço, ele cerrou os olhos, os dedos afundando no colchão sob o lençol.

— Nerdzinha… — ele avisou, um aviso que soava mais como um convite.

— Eu estou com saudade, Gabe. Muita saudade. — Ela subiu no colo dele, as pernas envolvendo a cintura dele, e o beijou. Não foi um beijo de “boa noite”. Foi um beijo urgente, quente, com sabor de desafio.

As mãos de Gabriel, agindo por puro instinto, desceram para a curva das coxas dela, puxando-a mais para perto. Ele sentiu o corpo dela ceder, o encaixe perfeito que sempre o deixava louco. Mas, quando a mão dela buscou a barra da camiseta dele, um flash da conversa na churrasqueira passou pela sua mente. “Respeito e consistência”, a voz do Marcos ecoou.

Com um esforço que pareceu arrancar um pedaço do seu peito, Gabriel segurou os pulsos dela. Ele interrompeu o beijo e encostou a testa na dela; ambos estavam ofegantes.

— Espera — ele murmurou, a respiração pesada contra a pele dela.

Rafaela parou, confusa, o rosto aquecido pelo desejo.

— O que foi? Não tá afim?

— Tô. — Gabriel soltou um suspiro sofrido, levando as mãos ao rosto dela, polegares acariciando as bochechas quentes. — É claro que eu tô. Mas eu não posso fazer isso aqui. Não hoje.

— Gabriel, meus pais estão dormindo no fim do corredor, eles nem vão…

— Eu sei. Mas olhei nos olhos do seu pai hoje e disse que não ia vacilar. — Ele deu um sorriso amargo, o desejo ainda queimando nos olhos. — Se eu te deixar pelada nessa cama, no seu quarto de infância, eu vou estar traindo a confiança que ele acabou de me dar. E, porra, Rafa… eu quero ser o homem que ele acha que eu sou. Eu quero ser o cara que você merece.

Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela para não ceder à tentação de olhar para aqueles lábios de novo.

— Amanhã a gente volta para casa — ele sussurrou, a voz vibrando contra ela. — E assim que a gente passar pela porta, eu vou te fazer pagar por cada segundo dessa tortura que você está me obrigando a passar agora. Vou te foder até você gritar. Mas hoje, sob este teto, o que eu farei é diferente. Aqui eu só vou te abraçar, te desejar uma boa noite e te mandar vazar do meu quarto.

Rafaela sorriu, e o som da sua risada saiu abafado contra a pele dele. Ela se ergueu levemente, mas não saiu de cima dele ainda. Ficou encarando-o por um momento, os olhos brilhando com uma mistura de orgulho e desejo.

Depositou um selinho demorado nos lábios dele — um último teste para a sanidade de Gabriel — antes de escorregar para fora da cama. Seus pés descalços não fizeram barulho no chão de madeira enquanto ela caminhava até a porta.

Antes de sair, ela parou e espiou pelas costas.

— Amanhã, Gabriel — ela sussurrou, a promessa pairando no ar escuro do quarto. — E eu não vou aceitar nada menos do que o que você prometeu.

A porta se fechou com um clique quase imperceptível.

Gabriel soltou um gemido agoniado contra o travesseiro, que agora exalava o rastro dela. O corpo dele doía de frustração, mas a mente estava em paz. Ele tinha vencido o terceiro round. Só precisava sobreviver à viagem de volta sem perder o juízo.

Afinal, o inferno nunca pareceu tão promissor quanto o que o esperava ao voltar para casa.



Notas finais
EU NÃO TENHO ESTRUTURA PRA ESSE CAPÍTULO. 😭🔥 • MICAELA simplesmente decidiu EXPOR a Rafaela em rede nacional familiar (e eu apoio). • Marcos, modo sogrão ATIVADO, testando caráter + churrasco ao mesmo tempo. • Gabriel sobrevivendo por UM FIO (mas entregando respeito, consistência e controle de temperatura, graças a Deus 🙏). • E ESSA CENA FINAL??? ESSE HOMEM SEGURANDO O PRÓPRIO DESEJO??? MEU DEUS, ELE QUER SER DIGNO DELA. 😭😭😭 Mas assim… vamos falar do ELEFANTE NA SALA? 👉 A aposta ainda existe. 👉 O peso da verdade tá crescendo. 👉 E o Gabriel já entendeu que não dá mais pra fugir. Ou seja: estamos oficialmente entrando na fase “vai dar muito certo… até dar MUITO errado” 🙂 E eu quero saber de vocês: 👉 Vocês perdoariam o Gabriel? 👉 Ou ele já tá cavando a própria cova? Porque eu, como autora, já estou aqui: SURTANDO, ANSIOSA E COM MEDO DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS. Beijos, vejo vocês na próxima sexta!