AMOR EM CAMPO

43 Capítulo 42: Segredos


Notas iniciais
Oi, time! ❤️⚽️📖 ⚠️ Aviso de conteúdo: este capítulo aborda violência doméstica, controle e abuso psicológico. Se esse tema for sensível para você, leia com cuidado e respeite seus próprios limites. 🤍 Boa leitura, time. ❤️📖 E só um conselho: prestem atenção nos detalhes. 👀

Os dedos de Rafaela digitavam freneticamente uma mensagem após a outra, mantendo o celular escondido sob a bancada de granito do laboratório de microbiologia.

Rafaela: Lelê, podemos conversar?

Rafaela: Por favor.

Rafaela: Você vem para a faculdade hoje?

Rafaela: Letícia?

A tela continuava muda. Nenhum aviso de leitura, nenhuma indicação de que a amiga sequer vislumbrara as notificações.

Desde que havia chegado ao apartamento no final da tarde anterior e se deparado com o quarto praticamente vazio, uma culpa corrosiva se alojara em sua mente.

Como não percebera antes?

Estivera tão imersa no turbilhão de seus próprios sentimentos por Gabriel que negligenciara a pessoa que sempre esteve ao seu lado?

“Por favor, não me procure por enquanto, preciso de espaço.” As palavras do bilhete lilás continuavam queimando em sua memória. Mas a intuição de Rafaela gritava que respeitar aquele pedido seria um erro fatal.

— Rafaela!

A voz do professor ricocheteou pelas paredes de azulejos brancos. Ela guardou o celular no bolso do jaleco no reflexo, erguendo a cabeça.

— Estamos analisando a lâmina de amostragem agora. Gostaria de compartilhar o que está observando através do microscópio?

Sua mente operou em vácuo por um segundo. Puxou o equipamento para perto, ajustando o foco com a ponta dos dedos trêmulos sob a vista da turma.

— É… tecido epitelial — respondeu, tentando firmeza. — Um epitélio simples, com cadeias de células bem alinhadas e justapostas.

O professor assentiu de forma breve e voltou-se para a bancada oposta. Rafaela soltou o ar preso nos pulmões. Discretamente, retirou o celular do bolso mais uma vez.

Ainda sem resposta. E aquele silêncio preocupava consideravelmente mais do que qualquer conceito técnico sobre estruturas celulares.

⚽📖⚽

— Ainda não acredito que você meteu aquela história de controle de temperatura das brasas para o pai da Rafa — Diego gargalhou, quase entornando a lata de energético sobre a mesa do pátio da universidade.

Gabriel revirou os olhos, mas não escondeu o sorriso de canto.

— Eu estava tentando sobreviver, porra! O coroa me encarou como se fosse arrancar minhas bolas fora.

— E ele acreditou? — Daniel perguntou.

— Nem um pouco — Gabriel respondeu, rindo fraco. — Mas no fim das contas me deu uma cerveja.

Diego bateu com a mão na mesa.

— Então parabéns, jogador. Você passou de fase.

Gabriel riu junto com os amigos, mas o humor evaporou rápido assim que a lembrança da volta para Niterói voltou à sua mente.

— O foda é que a Rafa tá destruída. A Letícia simplesmente pegou as coisas dela e foi morar com o namorado sem avisar direito.

Ao escutar o nome da estudante de moda, Daniel parou o movimento de levar o copo de água aos lábios. Ele franziu o cenho no mesmo instante, encarando a mesa em um silêncio abrupto. Seus dedos apertaram o copo plástico com uma força desnecessária, deformando o material.

— Aquela história toda com o cara tá muito estranha — Gabriel continuou, sem notar a mudança de postura do zagueiro. — Um controle absurdo, ciúme excessivo... A Rafa tá sentindo que tem algo muito errado acontecendo.

— E se ela tá sentindo, é porque tem — Diego comentou, sério.

Daniel continuou calado. Ele apenas soltou o copo amassado e desviou o olhar para o corredor vazio, a mandíbula tensa escondendo o que quer que estivesse se passando em sua cabeça.

Nesse momento, Rafaela cruzou o portal do pátio. Trazia a mochila pesada em um dos ombros e o rosto tomado por uma palidez preocupante. Gabriel se levantou imediatamente, indo até ela e envolvendo sua cintura em um gesto protetor.

— Oi, meu amor — ele sussurrou perto do ouvido dela.

— Oi, Biel — ela respondeu baixo. Olhou para os meninos na mesa, forçando um aceno curto. — Meninos.

— Fala, Rafa — Diego respondeu.

Rafaela voltou a focar em Gabriel, baixando ainda mais o tom de voz para isolá-los do ambiente:

— Biel, vou sair agora. Vou passar na loja onde a Letícia trabalha antes de ir para a livraria.

— Rafa, agora? — Gabriel franziu o cenho. — Eu tenho aula em dez minutos. Não vou conseguir ir com você e não quero você encarando isso sozinha.

— Preciso ir sozinha — ela segurou a mão dele, os olhos fixos nos dele. — Se você for, ela vai se fechar ainda mais. Eu preciso olhar para ela e entender o que tá acontecendo.

Gabriel segurou o rosto dela com as duas mãos, colando a testa na dela. Ele odiava a ideia de deixá-la ir, mas sabia que não a impediria.

— Toma cuidado, por favor. Qualquer coisa me liga que eu saio da aula no mesmo segundo — ele disse, com os olhos transbordando preocupação. — Eu te amo.

Rafaela sentiu o peito aquecer, o carinho dele funcionando como um pequeno bálsamo em meio ao caos. Ela deu um sorriso, acariciando o pulso dele antes de beijá-lo nos lábios.

— Eu sei. E eu tô começando a entender o tamanho disso — murmurou contra a boca dele. — Eu te ligo assim que sair de lá.

Ela se afastou rápido, apressando os passos em direção à saída da universidade.

Do outro lado do espaço de convivência, encostada em uma mureta perto do café com duas colegas de seu curso, Brunna acompanhava a cena com a atenção. Ela bebericou seu suco sem tirar os olhos de Gabriel, que continuava de pé, observando Rafaela sumir no corredor.

— Impressionante — Brunna comentou, o tom carregado de um sarcasmo sutil.

Uma das garotas ao seu lado olhou na mesma direção.

— É a namorada dele, né? Dizem que o Gabriel tá completamente apaixonado.

Brunna soltou uma risada curta.

— Tem alguma coisa muito errada nessa história.

— Você acha? Ele parece super atencioso.

— Eu conheço o Gabriel — Brunna desviou a atenção para o copo em suas mãos, os lábios se curvando em uma linha fina e calculista. — Ele não muda da noite para o dia por causa de garota nenhuma. Se ele tá encenando esse papel de namorado perfeito... é porque tem um motivo que ninguém descobriu ainda.

As colegas se olharam, sem entender a insinuação, mas Brunna apenas deu mais um gole no suco, guardando para si a certeza venenosa de que aquela história não era tão simples quanto parecia.

⚽📖⚽

O choque térmico do ar-condicionado atingiu o rosto de Rafaela assim que ela empurrou a porta de vidro da loja de roupas. O tilintar da sineta ecoou pelo ambiente silencioso.

No fundo da loja, uma figura ajeitava cabides em gestos mecânico. Ao ouvir o barulho, a mulher se virou com um sorriso profissional ensaiado que morreu instantaneamente ao reconhecer a visitante.

— Rafa? — A voz de Letícia saiu baixa, sem o tom vibrante de costume.

A camada pesada de maquiagem em seu rosto parecia uma tentativa desesperada de mascarar o cansaço e a palidez.

— Oi, Lê.

Letícia olhou rapidamente para a porta de vidro, um tique nervoso e rápido, antes de checar o relógio no pulso.

— O que você tá fazendo aqui? Eu tô trabalhando.

— Dois minutos, Letícia. Eu só preciso de dois minutos — Rafaela pediu, aproximando-se.

Letícia engoliu em seco e indicou com o queixo o canto mais reservado perto dos provadores. Quando pararam, a proximidade revelou o que a distância disfarçava: os ombros rígidos de Letícia, a respiração curta, a postura defensiva de quem espera ser atingida a qualquer momento.

— Eu encontrei sua mãe quando estava saindo de Saquarema — Rafaela disse sem rodeios. — Ela disse que você cancelou a ida para casa na véspera.

Letícia puxou a manga da blusa para baixo, cobrindo o pulso.

— Tive que trabalhar. A loja não liberou.

— Ela disse que você parecia estranha ao telefone. Como se tivesse algo errado.

— Minha mãe se preocupa demais com tudo, você sabe.

— E ela tá errada? — Rafaela deu um passo à frente, forçando a amiga a olhar para ela. — Eu ouvi como você falava com o Guilherme no apartamento antes de sumir. Você não tava conversando com um namorado. Você tava implorando por uma desculpa que nem sabia por que precisava dar.

Letícia desviou o olhar para os espelhos do provador.

— O Gui só se preocupa comigo. Você ouviu uma conversa solta e tá inventando uma tempestade.

— Ele tá te controlando, Letícia?

— Não! — A resposta veio ensaiada.

— Eu vi o hematoma no seu braço — Rafaela rebateu, o tom caindo para um sussurro desesperado. — Eu sei a diferença entre esbarrar em um móvel e ser segurada com força.

Lágrimas reprimidas brilharam nos olhos de Letícia sob a luz artificial da loja.

— Eu acho que ele foi te prendendo aos poucos, Lê — Rafaela continuou, a voz embargada. — Tão devagar que você nem percebeu quando deixou de conseguir se mexer sozinha.

— Para! — Letícia sibilou entre os dentes. — Eu não pedi sua ajuda. Não pedi para você ser minha salvadora!

— Eu não quero ser sua salvadora, Letícia! Eu quero ser sua amiga. Me diz o que tá acontecendo, por favor.

Letícia balançou a cabeça devagar. O medo acumulado finalmente transbordou em um sussurro trêmulo que fez o sangue de Rafaela congelar:

— Não dá, Rafa. Porque se ele descobrir que eu abri a boca para falar qualquer coisa com você...

A frase morreu ali, mas o pânico na voz de Letícia disse o resto.

— Volta para o apartamento — Rafaela suplicou. — A gente resolve isso juntas. Eu te ajudo.

— Eu já tô sozinha nisso, Rafaela — a exaustão na voz da amiga era absoluta. — É melhor você ir embora. O Gui... ele não gosta de você. Diz que você se mete onde não deve.

— E você concorda com ele?

O silêncio de Letícia foi a pior resposta. Ela deu as costas devagar e voltou a mexer nos cabides de forma desconexa, fingindo uma normalidade que já não existia.

Rafaela caminhou até a porta. Antes de sair, olhou por cima do ombro uma última vez, vendo as costas de Letícia tremerem em um choro silencioso.

— Eu amo você, amiga. Não se esquece disso.

Ao pisar na calçada quente da rua, o celular de Rafaela vibrou no bolso. Era uma nova mensagem de Gabriel:

Tá tudo bem aí, gata? Me avisa assim que sair.

Rafaela encarou a tela. Não respondeu.

A raiva gélida e o desespero por Letícia pesavam em seus ombros. Ela guardou o aparelho no bolso e começou a caminhar sem rumo, sentindo o peito sufocado.

Rafaela sabia que Letícia estava presa a uma relação perigosa, sustentada pelo medo de um homem que dizia querer protegê-la. O que ela não imaginava — e que tornava tudo tragicamente mais doloroso — era que a sua própria história de amor, tão bonita e reluzente aos seus olhos, também fora erguida sobre uma mentira.

E essa mentira só esperava o momento certo para ruir.