AMOR EM CAMPO
5 Capítulo 4: Pavões
Notas iniciais

O ar-condicionado arcaico da cafeteria da Universidade Central lutava contra o mormaço do lado de fora, mas a verdadeira fonte de calor na mesa era a empolgação de Letícia. Rafaela estava sentada à frente da amiga, um copo de café barato entre as mãos e um livro de Genética aberto, servindo mais como apoio de mesa do que como leitura.
Letícia exalava aquela beleza solar que parecia ignorar o conceito de "cansaço universitário". Seus cabelos castanhos, lisos e brilhantes, caíam sobre os ombros como seda, emoldurando um rosto que raramente perdia o viço, mesmo após um turno inteiro na boutique. Ela gesticulava com uma intensidade que quase derrubou o açúcar da mesa.
— Rafa, você não está entendendo a profundidade da questão! — Letícia exclamou, os olhos castanhos brilhando. — Ele esperou dez capítulos para beijar ela! Dez capítulos de expectativa pura, de olhares intensos... e você vem me dizer que é "enrolação"?
Rafaela soltou um suspiro divertido, apoiando o queixo na mão.
— Lelê, dez capítulos para um beijo em que eles mal encostam os lábios e a menina fica com os olhos abertos o tempo todo não é tensão; é sem graça, para dizer o mínimo. — Rafaela deu um gole no café, sentindo o amargor reconfortante. — Na vida real, se um cara leva dez semanas para decidir se quer te beijar, você provavelmente segue em frente e conhece outro.
Letícia revirou os olhos com um drama digno de uma protagonista de Seul e deu um gole generoso no seu cappuccino com canela extra.
— Ai, você complica tudo! Não é sobre o tempo cronológico, é sobre a experiência, a construção da emoção! Você precisa parar de analisar o romance como se fosse um fungo crescendo em uma placa de Petri sob o seu microscópio.
Rafaela riu de leve, balançando a cabeça. Adorava como a amiga era o oposto do seu mundo de dados e certezas.
— Não é análise, é bom senso — retrucou Rafaela. — E aquela cena do tal Lee Su-ho sendo atropelado em câmera lenta por um carro que claramente estava a dois por hora faz o meu bom senso gritar em agonia. O cara voou como se tivesse sido atingido por um Boeing, Lelê!
Letícia riu alto, um som contagiante que fez um grupo de estudantes na mesa ao lado se virar.
— Você é impossível! Os meus K-dramas são um bálsamo para a alma, sabia? Enquanto você se afunda nesses seus documentários existencialistas, em que ninguém sorri e o final é sempre uma metáfora sobre a morte. Eu prefiro ver o meu CEO coreano perfeito e sofrendo por amor em 4K.
— CEO perfeito? — Rafaela arqueou uma sobrancelha, um brilho sarcástico nos olhos. — Acho que o mais próximo disso que você vai chegar é o Guilherme.
O comentário de Rafaela foi como um gatilho invisível. Letícia recostou-se na cadeira, o sorriso mudando instantaneamente de brincalhão para algo tenso e murcho. Ela desviou o olhar para o cappuccino à sua frente, os dedos tamborilando na caneca.
— É, acho que sim... — Letícia elevou o copo até os lábios, e o cappuccino agora parecia ter um gosto agridoce em sua boca.
Rafaela notou a súbita mudança no comportamento da amiga e franziu o cenho, prestes a perguntar o que estava acontecendo, mas uma movimentação barulhenta na porta da cafeteria atraiu seu olhar. Seus olhos se moveram por puro reflexo, para o grupo que acabara de invadir o ambiente.
Os Falcões da Central. Constantemente ruidosos, sempre insistindo em gravitar toda a atenção do espaço para si mesmos, preenchendo o local com uma confiança exagerada e risadas estrondosas. E, como era de se imaginar, Gabriel liderava o bando.
Ele atravessou a porta com a habitual postura descontraída, os ombros largos relaxados, rindo alto de alguma piada interna com Diego e os demais jogadores. A camiseta alvinegra do time de futebol descansava sobre um dos ombros, exibindo os braços definidos pelo treino. Algumas meninas na fila do caixa o observaram ostensivamente, sussurrando umas para as outras. Gabriel era perfeitamente consciente do impacto que gerava, e a forma como andava demonstrava que ele apreciava cada segundo daquela adoração.
Rafaela observou por um instante a forma como ele passou a mão pelos fios castanhos do cabelo — aquele movimento que, para ela, parecia ensaiado de tão repetido — antes de fixar o olhar de volta em Letícia.
— Lá vêm os pavões da Central — comentou, bebendo mais um gole de café para espantar a irritação.
Letícia soltou um sorrisinho, tentando disfarçar o próprio desconforto anterior atrás da borda da caneca, mas logo seus olhos se fixaram além do ombro de Rafaela.
— Hm… — Letícia franziu o cenho, mudando o foco. — Rafa, eu acho que um dos pavões está vindo direto para cá.
Com um riso confiante nos lábios, Gabriel se aproximou, ignorando os assobios e piadinhas dos amigos ao fundo. Ele parou exatamente diante da mesa delas, cruzando os braços sobre o peito, como se esperasse uma reação imediata de Rafaela. Mas ela apenas continuou folheando as páginas do livro de Genética, completamente impassível.
— Ah, olha só quem encontrei por aqui — disse ele, com o tom levemente irônico de sempre. — Minha nerdzinha favorita. E sua fiel escudeira. Como vai a vida entre os livros, Rafaela?
Ela ergueu os olhos lentamente, sustentando o olhar com uma frieza cirúrgica.
— Ótima, Gabriel — respondeu, o tom de voz calmo, cortando qualquer brecha para provocações. — Mas é óbvio que você já sabe disso, né? Já que percebeu no sábado que eu não sou fã do seu tipo de diversão.
Letícia olhava de um para o outro com os olhos alternando rapidamente, como se estivesse assistindo a uma final eletrizante de pingue-pongue, tentando processar o que tinha perdido daquela história. Ela, assim como qualquer pessoa na UC, conhecia a fama de Gabriel; e Rafaela definitivamente não entrava no radar usual do capitão.
— Será que alguma alma caridosa pode me atualizar sobre o que está acontecendo aqui? — Letícia interrompeu a troca velada de farpas, alternando as sobrancelhas erguidas em pura diversão. — Desde quando vocês dois são… amigos?
— Amigos é uma palavra muito forte, "escudeira" — Gabriel respondeu prontamente. Ele apoiou uma das mãos no encosto da cadeira de Rafaela com aquela naturalidade irritante que exalava perfume importado. — Eu diria que somos... parceiros de incidentes geológicos.
Rafaela fechou o livro de Genética com um estalo seco e alto, o som cortando o charme dele no ato.
— Ele quase me fez tirar um zero em microbiologia e depois foi me perseguir no meu trabalho para fingir que tem alguma consciência — Rafaela resumiu, olhando para Letícia com uma expressão de puro tédio. — Fim da história.
Letícia arregalou os olhos, chocada com a revelação.
— Ele foi à livraria? O Gabriel Duarte? — Um sorriso malicioso começou a se desenhar nos lábios de Letícia, um que Rafaela desejou profundamente poder apagar. — Puxa, Rafa, acho que você esqueceu de mencionar esse pequeno detalhe da sua semana. Quase um acaso do destino, não acha?
Gabriel deu um sorriso de lado, os olhos brilhando ao perceber que encontrara uma aliada involuntária para abrir uma brecha na armadura de Rafaela.
— Viu só? Sua amiga tem um senso de narrativa muito melhor que o seu, Rafaela. Ela entende o valor de um bom enredo. — Ele então se virou para Letícia, estendendo a mão com uma polidez exagerada que ele guardava para ocasiões específicas. — Gabriel. Mas isso você já deve saber.
Letícia apertou a mão dele, os olhos castanhos brilhando com divertimento. Diferente de Rafaela, ela não erguia barreiras imediatas contra atletas marrentos, especialmente quando eles eram educados e sabiam usar o próprio charme.
— Letícia — ela se apresentou, retribuindo o sorriso. — Então, que tal agora vocês me contarem mais sobre essa história de esbarrões e visitas guiadas a livrarias…
Rafaela sentiu o rosto esquentar de leve, irritada por estar virando o centro das atenções da cafeteria.
— Não tem nada para contar, Lelê. Ele está me perseguindo como se fosse um espírito obsessor porque não aceita ouvir um "não".
Gabriel soltou um riso baixo, a mão ainda firme no encosto da cadeira de Rafaela, inclinando-se apenas o suficiente para que ela sentisse o calor da sua presença.
— Ela é difícil assim o tempo todo, Letícia? — ele perguntou, ignorando o olhar cortante de Rafaela. — Eu tento ser um cidadão exemplar, peço desculpas, levo café... e sou tratado como se fosse um vírus altamente contagioso.
— É o charme dela — Letícia brincou, ganhando um olhar mortal da amiga. — A Rafa não facilita para ninguém que passe mais do que cinco minutos se admirando no espelho.
Gabriel arqueou uma sobrancelha, voltando o olhar fixamente para Rafaela. Havia um brilho novo ali, algo que já tinha deixado de ser apenas a pressa de ganhar a aposta. Era uma curiosidade real, o estalo de quem encontrou um quebra-cabeça que não respondia aos seus comandos habituais.
— Entendi. Amor-próprio é visto como futilidade por aqui. Vou anotar isso no meu manual de sobrevivência — ele disse, finalmente endireitando o corpo e se afastando da mesa, mas não sem antes dar um tapinha leve e audacioso no ombro de Rafaela. — A gente se vê por aí, nerdzinha. Letícia, foi um prazer.
Ele girou nos calcanhares e voltou para o grupo de jogadores, que já causava alvoroço na fila do balcão. Daniel, parado logo atrás de Diego, balançou a cabeça negativamente para Gabriel — um gesto sutil que Rafaela não entendeu por completo, mas que captou como um aviso silencioso. Assim que o atleta estava fora de alcance, Letícia praticamente se jogou sobre a mesa, os olhos arregalados.
— Rafaela Maria! — Letícia sussurrou o apelido que usava quando sabia que Rafaela estava tentando lhe passar a perna na fofoca. — O que foi aquilo? O cara mais cobiçado da UC está no seu encalço? Por que você não me contou que estava protagonizando um opostos que se atraem na vida real?
Rafaela soltou um suspiro pesado e massageou as têmporas, sentindo uma dor de cabeça ameaçar surgir.
— Porque não é um dorama, Lelê. É só um cara arrogante com tempo livre e ego inflado demais. Ele está tentando me "vencer" porque eu fui a única pessoa neste campus que não sorriu de volta para ele. Só isso.
— Pode até ser — Letícia disse, pegando sua caneca de cappuccino de volta e adotando um olhar pensativo que fez o estômago de Rafaela dar uma leve reviravolta. — Mas ele te olhava de um jeito meio intenso demais enquanto eu falava com ele. E confie em mim, amiga... Aquele tipo de olhar não está no script de quem só quer "vencer".
Gabriel se despediu dos amigos na fila, pegando um copo de café expresso para viagem com o atendente. Ele se separou do bando e caminhou em direção ao bloco desaúde.
Dez minutos mais tarde, ele cruzava a porta da sala de Fisiologia Humana. O ambiente cheirava a naftalina e desespero. A tensão entre os alunos era quase palpável. Era dia de devolução das avaliações parciais.
Gabriel sentou-se em uma das últimas fileiras, mantendo a postura ereta e o rosto sério. Ao contrário do que a grande maioria dos alunos e fofoqueiros da universidade pensava sobre a sua persona de "atleta alienado", Gabriel levava a sua vida acadêmica e os seus estudos muito a sério. Ele tinha uma meta clara: queria se formar com honras e garantir o seu diploma. O futebol era a sua grande paixão e o seu passaporte, mas ele compreendia perfeitamente que o conhecimento era a única estrutura que ninguém poderia arrancar dele.
O professor Santana, conhecido por seu rigor excessivo e por uma visível antipatia direcionada aos atletas bolsistas da instituição, caminhava entre as fileiras, entregando as folhas com as notas viradas para baixo. Quando parou diante da carteira de Gabriel, um sorriso cínico e condescendente se desenhou em seus lábios finos. Ele largou a prova sobre a mesa com um estalo audível.
— Ora, ora, Duarte… — Santana comentou, cruzando os braços e elevando o tom de voz para que os alunos mais próximos escutassem. — Parece que o Potencial de Ação e as sinapses foram complexos demais para o nosso grande capitão. Se eu fosse você, começaria a me preocupar menos com os treinos e as festas e me preocuparia consideravelmente mais com a fisiologia. Seria uma verdadeira lástima para o time se a sua iminente reprovação e a consequente perda da bolsa de atleta o afastassem dos gramados justamente no meio do campeonato interuniversitário, não acha?
Um silêncio desconfortável se instalou nas fileiras ao redor. Gabriel sentiu o sangue ferver nas veias e o maxilar travar com força mútua, mas ele não deu ao professor o gosto de vê-lo perder a linha ou gesticular agressivamente. Ele sustentou o olhar de Santana com firmeza, pegou a prova e encarou a nota vermelha rasurada no topo da página. Um 5,5.
— Obrigado pelo aviso, professor — Gabriel respondeu, a voz perfeitamente controlada. — Mas não se preocupe. Eu garanto ao senhor que não vou faltar a jogo nenhum. E vou buscar a nota que preciso na próxima avaliação.
Santana soltou um riso curto e desdenhoso.
— É o que veremos, Duarte. É o que veremos.
O professor deu as costas, e Gabriel guardou a folha amassada na mochila, sentindo o peso invisível da responsabilidade esmagar os seus ombros.
⚽📖⚽
Mais tarde, naquela mesma noite, a luz amarelada do pendente, pairando sobre a mesa de jantar, era a única acesa no apartamento silencioso. Na tela do notebook, o slide sobre Potencial de Ação e Sinapses parecia estar escrito em grego antigo. Gabriel adorava a mecânica do movimento, a explosão do músculo e a tática do jogo, mas aquela parte microscópica da fisiologia humana era o seu calcanhar de Aquiles.
Ele esfregou as têmporas. A prova seria daqui a duas semanas. Para o resto do campus, ele era o capitão intocável, mas a realidade era mais dura: sem uma média acima de oito, a bolsa de atleta evaporava, e, com ela, seu lugar nos Falcões. Ele precisava da nota, mas seu cérebro parecia ter entrado em curto-circuito na terceira página sobre neurotransmissores.
— Você está com aquela cara de quem vai ter um aneurisma, Biel.
Gabriel nem precisou levantar a cabeça para saber que Diego estava ali. O amigo apareceu no arco da cozinha, bocejando e iluminado apenas pela tela do próprio celular.
— Fisiologia é um porre, Diego. Eu prefiro correr dez quilômetros com colete de peso do que decorar essa sequência de sódio e potássio de novo — resmungou Gabriel, fechando o notebook com um pouco mais de força do que o necessário.
— Sabe o que seria ótimo? Se um de nós conhecesse alguém que gabaritou essa prova no semestre passado com o carrasco do Santana — Diego deu um sorriso torto, aquele que Gabriel já sabia que vinha acompanhado de uma farpa.
— De quem você está falando? — Gabriel franziu o cenho, finalmente erguendo os olhos.
— Da Rafaela — Diego jogou a informação na mesa, a voz firme e direta. — Eu estava resolvendo umas paradas na coordenação do bloco de fisioterapia mais cedo e fiquei sabendo que ela é a monitora oficial de Microbiologia, mas o pessoal do diretório acadêmico estava dizendo que ela gabaritou fisiologia no semestre passado e montou um grupo de estudos extraoficial para salvar a galera que está estagnada na matéria do Santana. Dizem que ela explica essa parte de biofísica como se fosse receita de bolo.
Gabriel estacou, o ar sumindo por um segundo. A imagem da garota de rabo de cavalo e olhar de desprezo piscou em sua mente. O destino não tinha apenas senso de humor; ele tinha um péssimo gosto para ironias.
Ele soltou um riso seco, balançando a cabeça, incrédulo.
— Você ficou maluco? Ela me odeia, Diego. Não aceitaria me ensinar nem o alfabeto, quanto mais fisiologia.
— É aí que entra o verdadeiro desafio. — Diego estalou os dedos no ar. — Se você convencer a garota a te dar aulas particulares, você já ganha metade daquela aposta. Vocês vão passar horas sozinhos. Livros, silêncio... o caminho fica livre, Gabe. Eu nem deveria estar te ajudando, porque eu quero muito vencer e estou adorando ver a nerdzinha te botar pra ralar, mas não quero que você fique fora do time por causa de uma prova de merda.
Gabriel permaneceu em silêncio. A lógica daquela armadilha era irritante, mas absolutamente impecável.
— Esquece, não vai rolar — murmurou, o orgulho lutando contra o desespero.
— Não, se você pedir como o Gabriel Duarte escroto. Mas e se você pedir como o atleta desesperado que está prestes a perder a bolsa e o lugar no time? — Diego deu um tapinha pesado no ombro dele, levantando-se e caminhando em direção à sala. — Ataca o ponto fraco dela, capitão. Nerd adora sentir que é mais inteligente que o resto do mundo. Deixa ela ser a sua salvadora e, quando ela menos esperar... você vira o jogo.
Gabriel continuou imóvel na cadeira. A última frase do amigo sobre "virar o jogo" continuou ecoando nas paredes da mente de Gabriel.
O problema era que, desta vez, parecia que quem estava vencendo de goleada era o sódio, o potássio e as sinapses. Ele não precisava apenas de foco para a próxima quinzena. Ele precisava de uma chave muito específica para abrir aquela fechadura acadêmica. E a tal chave tinha nome, sobrenome e uma língua afiada, terrivelmente irritante.
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