AMOR EM CAMPO

6 Capítulo 5: Upgrade


Notas iniciais
Olá, meus amores! Preparados para ver o topo do pedestal balançar? 🗣️🔥 O capítulo de hoje está simplesmente IMPERDÍVEL! Se o Gabriel Duarte achou que ia ser moleza usar o charme para conseguir o que queria, ele claramente não conhece a Rafaela Andrade. Preparem-se para ver a nossa nerdzinha dar uma verdadeira aula de seleção natural e virar o tabuleiro do jogo na cara dele! Leiam com atenção e divirtam-se! ⚽📖☕

A aula de Genética Molecular da professora Heloísa era um labirinto de sequenciamentos de DNA que Rafaela adoraria explorar até o último minuto, mas o relógio era um carrasco implacável. Geralmente, as aulas do turno da manhã no bloco de Biologia terminavam às 12h00, dando a ela a janela exata de uma hora para almoçar um salgado rápido e cruzar a distância até a livraria, em Icaraí, onde seu expediente começava rigorosamente às 13h00. No entanto, naquele dia, Heloísa se empolgou em um debate sobre engenharia genética, e os ponteiros já marcavam 12h25.

Rafaela recolheu o material num estalo de pressa, enfiando os cadernos na mochila e ignorando os olhares curiosos dos colegas. Ela praticamente correu pelos corredores do bloco de Ciências Biológicas. Se chegasse atrasada outra vez, o desconto no fim do mês deixaria de ser uma advertência e viraria uma sentença de fome.

Quando avistou o ponto de ônibus na saída do campus, seu coração deu um salto de alívio. O 47-B estava parado ali. Rafaela acelerou o passo, a mochila pesada batendo contra suas costas, e começou a acenar freneticamente enquanto corria pelo acostamento.

— Espera! Ei! Por favor! — gritou, mas sua voz foi completamente engolida pelo ronco bruto do motor.

O motorista, indiferente aos braços balançando no ar pelo retrovisor, fechou a porta e arrancou, deixando para trás apenas o calor do asfalto e uma nuvem espessa de fumaça preta que fez Rafaela tossir, cobrindo o rosto.

— Mas que miserável... — resmungou, limpando o suor que começava a brotar em sua testa sob o mormaço sufocante daquele início de tarde.

Rafaela olhou para o visor do celular. 12h32. A próxima condução demoraria pelo menos vinte minutos para passar. Ela estava completamente frita.

Foi nesse exato momento que um sedan prata, com vidros escuros e a lataria impecavelmente limpa, deslizou silenciosamente pelo meio-fio, parando bem à sua frente. Rafaela apertou a alça da mochila contra o peito, o instinto defensivo disparando um alerta imediato. Ótimo, vou ser assaltada na porta da faculdade e ainda vou perder o emprego, pensou, já calculando o ângulo para correr de volta em direção à guarita da segurança.

Contudo, quando o vidro automotivo desceu com um zunido suave, o que ela viu foi consideravelmente pior do que um assaltante armado.

— Perdeu o ônibus, nerdzinha? Poxa, que pena! — O tom de voz e o sorriso presunçoso de Gabriel deixavam claro que ele não sentia nem um miligrama de pena.

Rafaela fechou os olhos por um segundo, buscando no fundo da alma uma paciência que ela simplesmente não possuía mais àquela altura do campeonato. Ignorando-o solenemente, ela virou o rosto na direção oposta e fixou o olhar em um ponto qualquer do horizonte, rezando para que uma linha alternativa de ônibus surgisse por milagre. Ela não tinha energia mental para o duelo verbal de sempre.

— Você está indo para o trabalho, não está? — Gabriel insistiu, tirando os óculos escuros e apoiando o braço bronzeado na janela do carro. — Se quiser uma carona, eu posso te deixar lá... é caminho.

Não era caminho; na verdade, Gabriel tinha que ir para o treino, mas ele, que vinha observando os horários dela desde que Diego plantara a ideia da monitoria em sua cabeça na noite anterior, viu naquela figura exausta e visivelmente atrasada a oportunidade perfeita para o seu primeiro movimento.

Rafaela olhou para o asfalto, onde o calor parecia flutuar sobre as poças de óleo como um deboche. Depois, encarou o interior do carro; as janelas semiabertas deixavam escapar uma lufada de ar-condicionado que parecia um convite direto do paraíso. O problema era que o motorista era o próprio diabo, vestindo uma camisa polo vermelha. Ela checou o relógio novamente: 12h40. O suor começava a incomodar na linha do seu cabelo, e a ideia de caminhar ou aguardar sob o sol castigante soava como uma punição medieval.

Gabriel apenas curvou a cabeça, mantendo o motor ligado e o vidro baixo. Ele não insistiu, porque sabia ler o desespero logístico no rosto dela tão bem quanto variava o posicionamento de uma defesa adversária em campo.

— Entra logo, Rafaela. O banco é de couro, mas eu prometo que não morde — ele disse, com uma suavidade quase benevolente que a irritou profundamente. Sem dizer uma única palavra, bufando de pura frustração por ter que ceder àquela humilhação, ela deu a volta, abriu a porta do passageiro e se jogou no assento. O choque térmico foi imediato. O interior do sedan cheirava a carro novo e ao perfume dele, um ambiente tão distante da realidade dos ônibus lotados que ela se sentiu, por um segundo, em outro planeta.

Gabriel arrancou com suavidade, o motor quase imperceptível. Rafaela encostou a cabeça no banco, fechando os olhos e aproveitando o frescor, ignorando a figura ao seu lado.

— Obrigado — ela murmurou, quase inaudível.

— Não precisa agradecer. Eu sou um cidadão exemplar, lembra? — Ele fez uma curva precisa, ganhando velocidade na avenida principal.

O silêncio durou dois quarteirões. Gabriel esperou que ela relaxasse, que a guarda baixasse alguns milímetros sob o conforto do carro dele. Então, ele tamborilou os dedos no volante, mudando o tom de voz para algo que soava como um comentário casual de negócios.

— Então... eu estive pensando. Já que estou salvando seu emprego hoje, talvez a gente pudesse discutir uma pequena permuta.

Rafaela abriu um dos olhos, encarando o perfil dele. O sorriso de Gabriel estava lá, mas era diferente; era o sorriso de quem sabe que tem as melhores cartas na mesa.

— Eu sabia. Lá vem o boleto — ela rebateu, a voz recuperando a acidez.

— Não é um boleto, é um investimento mútuo. Eu tenho uma prova de fisiologia em duas semanas, e o Santana não aceita "sorrisos" como resposta correta. Então, preciso de uma tutora, e sei que você é a melhor da monitoria.

— E você acha que uma carona de dez minutos paga eu ter que te aturar no meu tempo livre? — Ela soltou uma risada incrédula.

— Eu acho que você tem muito a ganhar, Rafaela. Pense bem: a gente estuda no pátio ou na cafeteria. Você é vista comigo, o capitão dos Falcões. Eu te dou a visibilidade que você nunca teria enfiada naquela biblioteca, e você garante que eu não perca minha bolsa de estudos. É o upgrade social que você precisa. Todo mundo sai ganhando.

Rafaela sentiu o sangue ferver. Não era somente pela proposta; era a presunção de que a presença dele era um prêmio valioso o suficiente para compensar o esforço intelectual dela. Ele realmente achava que estar ao lado dele era um "upgrade".

— Pare o carro — ela disse, a voz num tom perigosamente baixo.

Gabriel franziu a testa, a risada morrendo nos lábios.

— O quê? A gente está no meio do trânsito...

— Eu disse para parar o carro, Gabriel. Agora.

— Calma, eu só estava sugerindo que...

— Você estava sugerindo que o meu tempo e o meu conhecimento valem menos do que a "honra" de ser vista ao lado de um pavão arrogante como você — ela se inclinou na direção dele, os olhos brilhando com uma fúria que o fez recuar o tronco contra a porta do motorista. — Deixe eu te explicar uma coisa: não sou um acessório de marketing para o seu ego. Minhas horas de estudo custam caro e não são pagas com "status" de universidade. Se você quer aprender fisiologia, contrate um professor particular. Se quer visibilidade, contrate a porra de um relações-públicas.

Ela destravou a porta antes mesmo de o carro parar totalmente junto à guia.

— Vá se danar, Duarte. Eu prefiro chegar atrasada e ter um desconto no salário do que ter o desgosto moral de aceitar uma proposta idiota dessas.

Ela bateu a porta com tanta força que o carro pareceu estremecer. Gabriel ficou parado, observando-a caminhar apressada pela calçada, a mochila balançando com raiva.

Em um marco inédito em sua vida, o capitão dos Falcões se viu sem uma resposta pronta. Ele tinha o carro, tinha o ar-condicionado e tinha o status. Mas, enquanto via Rafaela desaparecer na multidão, ele sentiu que tinha acabado de levar o drible mais humilhante da sua vida.

Duas horas depois, a frustração de Gabriel ainda não tinha passado; na verdade, só tinha piorado. O treino da tarde dos Falcões tinha sido um desastre completo para o capitão. Ele errou passes bobos, perdeu o tempo da bola e acabou levando uma bronca homérica do treinador na frente de todo o time. No início da noite, quando ele, Diego e Daniel finalmente cruzaram a porta da cobertura em Icaraí, exaustos e ainda cheirando ao desinfetante dos chuveiros do clube, Gabriel entrou com a força de um furacão. Ele jogou as chaves na mesa de centro de vidro com um impacto metálico violento, fazendo os amigos se sobressaltarem. O rosto exibia um tom perigoso de irritação.

— Deixa eu adivinhar... — Diego comentou, jogando a mochila de treino no chão e se jogando no sofá com o celular em mãos. — A carona foi um sucesso estrondoso e a nerdzinha já está montando o seu cronograma de estudos até a formatura?

— Ela me mandou para o inferno, Diego — Gabriel rosnou, puxando a gola da camiseta escura dos Falcões como se estivesse sufocando dentro dela. — Na verdade, ela mandou eu me danar e bateu a porta do meu carro com tanta força que eu tive certeza de que o vidro ia estourar em mil pedaços.

Daniel, que vinha logo atrás, trazendo uma garrafa de água da cozinha integrada, parou perto do balcão de granito e arqueou uma sobrancelha, observando a cena com sua calmaria analítica.

— O que exatamente você disse para ela, Gabe?

— O óbvio, Dan! — Gabriel começou a marchar de um lado para o outro pela sala ampla. — Eu tirei a garota do sol, ofereci carona, fui gentil e propus uma troca justa. Disse que, se ela me ajudasse com as sinapses, eu daria um upgrade na vida social dela. Circular com o time, ser vista comigo nos corredores... o pacote completo! E a garota simplesmente surtou. Começou a gritar que não era meu "acessório de marketing". Dá para acreditar em uma loucura dessas?

O silêncio durou exatos três segundos na sala antes de Diego e Daniel desabarem em uma gargalhada uníssona e estrondosa.

— Do que vocês estão rindo, porra? — Gabriel estacou no meio do tapete, os punhos cerrados e os olhos faiscando.

— De você, ¡pelotudo!— Diego exclamou entre risadas, sentando-se no sofá e limpando uma lágrima imaginária do canto do olho. — ¡Qué grande sos! Caralho, tu fez exatamente o contrário de tudo o que eu te falei ontem à noite! Claro que ela mandou você se ferrar. Você ofereceu "fama" e badalação para uma garota que odeia ser notada, seu burro. Tentou subornar uma acadêmica brilhante com purpurina de chopada!

— Eu tentei ajudar! — Gabriel rebateu na defensiva, embora o argumento de Diego estivesse começando a perfurar a barreira da sua raiva.

— Não. Você tentou ser o centro do universo de novo — Daniel pontuou, dando um gole na água antes de se aproximar. — Escuta aqui, capitão: a Rafaela não quer ser a "garota do Duarte". Ela quer ser a melhor aluna da Universidade Central. Quer que ela use aquele cérebro privilegiado para salvar a sua bolsa de estudos? Esquece o "Efeito Duarte". Para de oferecer o que você acha que tem de melhor e começa a apelar para o que ela valoriza. Gabriel soltou um suspiro pesado e desabou no sofá ao lado de Diego, a frustração sendo gradativamente substituída por um cálculo frio e pragmático. Ele passou as mãos pelo rosto, encarando o teto moderno da cobertura por alguns instantes.

— Então me iluminem com a sabedoria de vocês — murmurou, o tom de voz finalmente baixando. — Me digam... do que aquela garota precisa? Além de aprender a relaxar um pouco.

— Ela precisa de respeito, Gabriel. E de reconhecimento real — Daniel respondeu de forma direta, cruzando os braços. — Se você quer que ela gaste o tempo dela salvando a sua bunda, você tem que parar de agir como se fosse o troféu do campus. Se abaixa um pouco, capitão. Deixa ela perceber que, no mundo dela, é ela quem está no comando.

O conselho de Daniel era amargo de engolir, mas a lógica era incontestável. Gabriel fechou os olhos, a frase do amigo assentando em sua mente. Ele teria que descer do pedestal e aprender a jogar no território dela se quisesse que a Rafaela abrisse a porta para ele. Desta vez, o charme não seria suficiente; ele teria que aprender a negociar.

⚽️📖⚽️

— Não acredito que ele usou o termo “upgrade social” — Letícia parou de cortar o tomate no meio do caminho e encarou Rafaela, o rosto expressando um choque genuíno.

Rafaela soltou um suspiro pesado, puxando o pote de frango da geladeira e o levando até a pia de inox da cozinha compacta do apartamento que dividiam.

— Pois é. Na hora meu sangue ferveu tanto que achei que ia ter um AVC. Mas, depois que o estresse passou, eu me toquei de que o Gabriel é só mais um clichê ambulante. Um cara absurdamente convencido que acredita que o mundo inteiro gira em torno do próprio umbigo. E do que ele tem entre as pernas, claro. Já me acostumei com a fauna daquela universidade. Não vale a minha insônia.

Letícia soltou a faca sobre a tábua de corte de madeira, cruzando os braços.

— Alguém tinha que colocar aquele macho no lugar dele, sabia? Fazer ele engolir o próprio veneno. Mesquinho do caralho!

Rafaela deu de ombros, espalhando alho e sal nas coxas de frango.

— Infelizmente, isso não vai acontecer, Lelê. Você sabe como funciona. Todo mundo naquela instituição trata o Duarte como se ele fosse a porra do sol e todas as meras mortais devessem orbitar ao redor dele, agradecendo pelo calor.

— Todas, menos você — Letícia abandonou de vez a missão de terminar a salada, os olhos castanhos brilhando com aquela expressão perigosa que Rafaela conhecia perfeitamente bem: a de quem estava prestes a propor um absurdo cinematográfico. — E se você desse o troco?

— Eu já coloquei ele no lugar dele, Lelê. Vai por mim, depois do escândalo que eu fiz no meio da avenida, ele nunca mais vai chegar perto de mim com uma proposta idiota daquelas.

— Eu estou falando de ir um pouco mais além, Rafa — Letícia inclinou-se contra o balcão americano, a voz baixando um tom. Rafaela arqueou uma sobrancelha, interrompendo o movimento das mãos temperadas com o alho. — Ele acha que pode conquistar quem quiser, que pode conseguir absolutamente tudo o que deseja com aquele sorrisinho torto e aquela marra de galã de dorama barato... Mas e se, dessa vez, fosse você quem controlasse as rédeas da situação?

— Não estou entendendo onde você quer chegar, Letícia. Desenha.

— Por que você não se vinga? — Letícia propôs, os olhos faiscando de empolgação. — Por todas as meninas que ele usou e descartou como se fossem figurantes na vida dele. Em vez de entrar no jogo dele e se esquivar, crie as suas próprias regras. Deixa ele se envolver, deixa ele achar que está vencendo... e então, quando ele estiver crente que te tem nas mãos, você segue em frente e vira as costas.

Letícia estalou os dedos no ar, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Rafaela manteve os olhos fixos na amiga, o cenho franzido, enquanto a mente racional processava a informação.

Manipular sentimentos ou arquitetar joguinhos psicológicos nunca tinha sido o seu estilo; ela preferia a exatidão inofensiva dos laboratórios. Mas a humilhação da carona ainda queimava em seu estômago, e a ideia de ver o intocável capitão dos Falcões quebrar a cara despertava uma chama inédita e deliciosamente sombria de curiosidade.

— Ah, tá bom, Lelê... E como exatamente eu faria um cara daqueles se interessar por mim de verdade? Ele nem me nota fora daquele teatrinho de provocação dele.

Letícia sorriu com uma confiança absoluta, pegando um pedaço de tomate e jogando na boca.

— E quem disse que ele não nota? Rafa, o cara foi atrás de você na livraria e te ofereceu uma carona. Ele está obcecado justamente porque você foi a única que não se rendeu ao sorrisinho dele. O ego dele é o ponto fraco, e a sua indiferença é a sua maior vantagem.

O silêncio se instalou na cozinha enquanto o frango descansava no tempero. Rafaela recostou-se contra a pia, os olhos acesos. O cálculo mental estava feito.

— Então... eu viro a monitora dele, aceito o joguinho, o deixo acreditar que está no controle total da situação... e, no final, dou tchau?

— Exatamente. Mostra para ele quem é que manda na porra do tabuleiro — disse Letícia, quase saltando de alegria. Rafaela limpou as mãos no pano de prato, um sorriso sutil e cortante desenhando-se em seus lábios pela primeira vez naquela noite.

— Tudo bem. Vamos ver até onde o grande Gabriel Duarte aguenta ir. Mas ele vai aprender, da forma mais amarga e dolorosa possível, que eu definitivamente não sou como as outras figurantes do campus.

Letícia vibrou, batendo palminhas.

— Isso não vai ser só uma vingança, amiga. Isso vai ser histórico.

⚽️📖⚽️

A manhã passava devagar nas salas de aula da Universidade Central. Em vez de se enfiar na cafeteria lotada, Rafaela preferiu o pátio dos pilotis, logo abaixo do bloco de Ciências Biológicas e de Saúde. Era um vão aberto, sustentado por grandes colunas de concreto cinzento, onde o vento que vinha da baía circulava entre as mesas de pedra e os canteiros de costelas-de-adão. O lugar cheirava a terra molhada e ao café fraco que ela trouxera em uma garrafa térmica pequena.

Sentada sozinha em uma das extremidades, mexendo despretensiosamente no celular, Rafaela captou um movimento familiar pelo canto do olho. Gabriel apareceu cruzando o pátio. Ela o viu de longe, mas, em vez de desviar o olhar ou recolher os seus pertences e sair como faria na semana passada, sustentou a postura; aquela era a chance perfeita de colocar em prática o plano arquitetado por Letícia na noite anterior. No fundo, seu lado puramente racional ainda achava que aquilo tinha tudo para dar errado, mas sua versão ferida estava cem por cento comprometida em tentar.

Ele estava sozinho. Usava o uniforme de treino, um par de chuteiras amarradas pelos cadarços e jogadas sobre o ombro largo, e ostentava o mesmo ar superior de quem é dono do mundo. No entanto, quando os olhos dele cruzaram o pátio e a encontraram ali, isolada na mesa de concreto, a expressão de Gabriel mudou perceptivelmente.

Rafaela levantou os olhos com uma calma cirúrgica e guardou o telefone na mochila. Seu sorriso era sutil, frio e absolutamente difícil de decifrar.

Intrigado com a falta de hostilidade imediata, Gabriel hesitou por uma fração de segundo antes de encurtar a distância. Ele sentou-se no banco de cimento oposto a ela.

— Uau… — disse ele, os lábios se curvando no tom de brincadeira habitual. — Não vai fugir de mim hoje, nerdzinha? Pensei que eu ia ter que armar uma barreira para te fazer parar.

Ela inclinou a cabeça para o lado, o sorriso sutil permanecendo intacto.

— Depende, Duarte. Esta interação vai me custar quanto?

Gabriel franziu levemente a testa, pego pelo próprio veneno. Ele engoliu em seco, lembrando-se do sermão que levara dos amigos na cobertura. Era hora de aplicar a estratégia do desespero.

— Olha... eu fui um completo idiota ontem. Esquece aquele papo imbecil de visibilidade, beleza? Eu passei da conta. — Ele apoiou as mãos grandes na mesa, a postura desarmada. — A verdade é que eu realmente preciso da sua ajuda, Rafaela. O Santana me deu um esporro na frente da turma inteira, me devolveu um cinco e meio e eu estou na iminência de perder a bolsa e a no time se não tirar um notão nessa próxima prova. Quanto é a sua hora de monitoria particular? Eu pago o dobro do seu valor de tabela.

— Tudo bem. Eu topo — respondeu ela, sem nenhum rodeio.

Gabriel piscou, completamente surpreso. O "eu topo" seco ecoou pelo vão dos pilotis, fazendo o barulho distante dos estudantes parecer sumir por um instante. Ele apoiou os cotovelos na mesa de pedra, tentando freneticamente reencontrar seu eixo diante daquela facilidade inesperada.

— Você topa? Assim, de primeira? Sem nem me fazer implorar por uma hora ou me obrigar a assinar um contrato com meu próprio sangue? — Ele arqueou uma sobrancelha, o brilho irônico e defensivo voltando aos olhos escuros. — O que mudou de ontem para hoje, Rafaela? A passagem do ônibus aumentou tanto assim?

Rafaela não vacilou um milímetro. Ela sustentou o olhar dele, sentindo aquela faísca de poder e controle que Letícia havia prometido na cozinha.

— Digamos que eu passei a noite reavaliando o tamanho do seu desespero, Gabriel. E, honestamente... ver você reprovar em fisiologia e ser escorraçado do time seria muito divertido, não nego. Mas ver você engolir o orgulho e admitir em voz alta que precisa de mim para salvar a sua pele... Ah, isso é infinitamente mais interessante. Mas eu não quero um único centavo do seu dinheiro. As minhas condições são outras.

Gabriel soltou uma risada curta, verdadeiramente impressionado com a ousadia.

— E quais seriam as condições da excelentíssima diretoria?

— Primeiro: nada de "upgrade social". Absolutamente ninguém neste campus pode saber que eu estou te dando aulas. Sabe como é... eu tenho uma reputação acadêmica séria a zelar e não quero, sob hipótese alguma, ser taxada nos corredores como mais uma das suas conquistas baratas de fim de semana.

Gabriel sentiu aquela frase o atingir em cheio. Reputação a zelar? Conquista barata? O soco foi direto no psicológico. Ele estava acostumado a ser o troféu que as garotas exibiam orgulhosas nos stories do Instagram após uma festa, o nome que sussurravam no banheiro feminino com um sorriso de vitória. Mas, para Rafaela, ele não era um prêmio; era uma mancha no currículo. Ela não queria o status de circular com o capitão dos Falcões; ela queria escondê-lo como se ele fosse um erro de cálculo ou um segredo profundamente embaraçoso.

O brilho de "cara mais cobiçado da UC" desbotou no ato. Ele não era a solução dela, era um problema de imagem que precisava ser rigorosamente gerenciado.

Rafaela cruzou os braços sobre o peito, mantendo a postura firme, e continuou a ditar as regras.

— Segundo: foco total e absoluto. Por três noites na semana, irei dedicar horas preciosas que eu poderia estar usando para uma infinidade de coisas, para tentar enfiar biofísica na sua cabeça. Então: nada de atrasos, nada de distrações, nada de celulares ligados na mesa, nada de piadinhas e, principalmente, Gabriel... nada de flertes.

A expressão no rosto dele se fechou por completo, o sorriso morrendo de vez. O maxilar de Gabriel travou.

— Tá. Entendi. E o terceiro item? Vai exigir que eu assine um termo de confidencialidade registrado em cartório também?

— Não seria uma má ideia, mas vou poupar a burocracia. Terceiro: — Rafaela fez uma pausa dramática, tamborilando as unhas curtas na mesa de pedra, saboreando cada segundo do desconforto dele. — Durante os nossos dias de estudos, você é quem vai me buscar no trabalho. E com café. Mas não é qualquer porcaria de máquina: eu quero o blend de avelã com leite de amêndoas daquela cafeteria chique na Roberto Silveira, começando por hoje. Vou precisar de muita cafeína se vou ter que gastar neurônios te ensinando depois do meu expediente.

Gabriel estacou, os olhos arregalados. A imagem mental dele, cruzando a zona sul de Niterói, carregando copos de café gourmet para entregar na porta de uma livraria para a garota que ele supostamente deveria estar enredando em uma aposta... era um golpe devastador na sua pose de predador.

— Você quer que eu seja o seu... chofer? — ele perguntou, a voz saindo mais rouca, carregada de uma incredulidade ferida.

— Eu quero que você aprenda que o meu tempo e o meu conhecimento custam caro. Se eu vou usar o meu cérebro para salvar a sua bolsa de estudos, o mínimo que você pode fazer é usar o seu carro e o seu tempo para garantir o meu conforto logístico. — Rafaela deu de ombros, guardando as apostilas e a garrafa térmica na mochila com total indiferença. — É isso, ou você pode arriscar a sorte sozinho com o carrasco do Santana. O que vai ser, capitão?

Gabriel apertou o maxilar com tanta força que uma linha tensa desenhou-se em sua bochecha. O silêncio estendeu-se entre os dois sob os pilotis enquanto ele calculava o prejuízo do seu ego. Ele olhou para a expressão decidida de Rafaela, que não demonstrava um único pingo de hesitação.

— Blend de avelã, é? — ele repetiu, soltando um riso seco e incrédulo, balançando a cabeça. — Você é muito mais sagaz e perigosa do que esse seu jeitinho de nerdzinha sugere, Rafaela.

— Eu não chamo isso de perigo, Gabriel. Chamo de seleção natural. Os mais aptos sobrevivem. E, no momento, o seu cérebro precisa desesperadamente da minha simbiose para não ser extinto da UC. — Ela se levantou do banco de cimento, jogando a mochila nas costas com uma elegância vitoriosa que o deixou tonto. — Esteja na porta da Páginas & Prosa às 21h00 em ponto. Sem atrasos. Ah, e ontem o ar-condicionado do seu carro estava gelado demais; prefiro que regule entre vinte e vinte e dois graus. Não se esqueça do café.

Ela girou nos calcanhares e caminhou em direção ao bloco de aulas sem olhar para trás nenhuma vez, deixando-o sentado sozinho, com o ego completamente arranhado e um compromisso marcado com o trânsito de Niterói. O plano de Letícia estava oficialmente em curso. E a primeira lição de Gabriel Duarte não seria sobre o potencial de ação das sinapses, mas sobre a mais pura e dolorosa humildade.




Notas finais
Parece que o jogo virou, não é mesmo? 🏟️💥 No capítulo de hoje, vimos o início oficial de uma era: o plano de vingança da Rafaela está EM CURSO! O Gabriel achou que o "Efeito Duarte" resolveria a vida dele; mas acabou de descobrir que, no mundo da biologia, ele é quem precisa lutar para não ser extinto. Eu mal posso esperar para saber a reação de vocês! Não se esqueçam de comentar bastante o que acharam das condições da nossa diretora Rafaela. Um beijo enorme e até sexta! ⚽🔥