AMOR EM CAMPO
20 Capítulo 19: O Jogo
Notas iniciais
A noite de sábado chegou, trazendo uma expectativa que Rafaela não conseguia racionalizar. A tensão entre ela e Gabriel, antes puramente sarcástica, estava sofrendo uma transição de fase, assumindo uma forma nova e perigosa.
Enquanto ela e Letícia se acomodavam nas arquibancadas vibrantes, o capitão estava no vestiário. Sob o som das orientações do técnico, ele sentia uma inquietação produtiva; a simples ideia de Rafaela estar ali, observando-o fora do ambiente caótico dos corredores da UC, o fazia querer provar que seu domínio ia muito além daquele campus.
O estádio rugia. Alunos vestidos de preto e branco alimentavam uma energia quase magnética. Rafaela, por sua vez, sentia-se como um peixe fora d'água, ajustando a alça da bolsa enquanto observava o tumulto ao seu redor com curiosidade.
— Olha só quem está toda nervosinha — Letícia surgiu ao seu lado, estendendo um refrigerante com um sorriso aberto. — Nunca te vi tão preocupada com um evento que envolvesse onze homens correndo atrás de uma bola. Interessante…
Rafaela bufou, aceitando a bebida gelada para tentar baixar a temperatura do rosto.
— Eu não estou nervosa. Só estou... tentando entender o fascínio de todo mundo por isso.
Letícia revirou os olhos.
— Ah, claro. Nada a ver com o fascínio que um certo camisa dez desenvolveu por você.
— Não seja ridícula — Rafaela rebateu, mantendo a voz estável. — É apenas curiosidade. Quero ver qual é a lógica por trás de tanto barulho.
— Sim. Tenho certeza de que você veio só para analisar a ciência por trás das cobranças de falta — Letícia provocou.
Rafaela não respondeu; no fundo, ela queria ver Gabriel onde ele não estivesse jogando um jogo de sedução com ela, e sim, o jogo que realmente definia quem ele era.
Quando os jogadores entraram para o aquecimento, Rafaela não precisou procurar. Seus olhos rastrearam o número dez instantaneamente. Ele parecia diferente: mais centrado, o ar convencido substituído por uma concentração absoluta. Ela observava cada movimento dele; cada gesto era preenchido por um propósito técnico que ela não esperava. Por um instante, o foco dele a fez esquecer de manter a própria guarda alta.
O apito soou. Embora sempre tivesse sido indiferente aos esportes, ela viu sua atenção ser sequestrada pelo campo. Gabriel se movia com uma confiança impressionante, como se a grama fosse uma extensão de si mesmo. Ele driblava com agilidade, comandava a dinâmica do time e, a cada passe preciso, ficava claro que o intelecto dele também estava ali, aplicado na estratégia do jogo.
— Está impressionada, né? — Letícia cutucou seu ombro.
— Eu só... não esperava que ele fosse tão técnico — Rafaela admitiu, os olhos fixos no campo.
No momento de um escanteio, Gabriel se posicionou. Ele olhou para a área, depois para a bola... e então, seus olhos se desviaram para a arquibancada. Para ela. Foi um microssegundo, mas foi real. Rafaela prendeu a respiração.
A energia do jogo mudou para ela naquele instante. Gabriel parecia ainda mais determinado, cada arranque e cada ataque parecendo um parágrafo de uma tese escrita especialmente para a garota que o chamava de "desperdício de potencial". Nos últimos dez minutos, com a pressão adversária no limite, ele recebeu a bola no meio de campo. O camisa dez arrancou em velocidade, costurou a defesa adversária como se estivesse resolvendo uma equação complexa e, com um chute certeiro, estufou a rede.
Gol.
O estádio veio abaixo. Ao seu lado, Letícia gritava e chacoalhava seu braço, mas Rafaela não conseguiu mover um músculo. Seus olhos continuavam travados no camisa 10. No meio daquela confusão de abraços e gritos dos jogadores, Gabriel virou o rosto na direção dela. O sorriso que ele abriu ao encontrar seu olhar não era para a torcida; era um sorriso cúmplice, direto, de quem sabia exatamente o estrago que tinha acabado de fazer na última barreira que ela tentava manter.
Após o apito final, enquanto o time se dispersava, ele foi direto para a grade. Suado, ofegante e exalando adrenalina, ele parou exatamente na frente dela.
— Então, nerdzinha... — ele se apoiou na estrutura metálica. — Admito que fiquei curioso. Qual o veredito da minha melhor amiga?
Rafaela tentou resgatar seu sarcasmo, mas os olhos dele brilhavam demais.
— Foi... aceitável. Estrategicamente eficiente. Mas já vi melhores.
Gabriel cruzou os braços sobre o peito, erguendo as sobrancelhas. A certeza absoluta estampada na cara dele transformou qualquer tentativa de sarcasmo da Rafaela em piada.
— A sua boca fala isso, mas os seus olhos não conseguiram me soltar um segundo sequer lá no gramado — ele se aproximou um pouco mais, baixando o tom de voz. — Na próxima, eu dou um show tão grande que vou fazer você engolir esse "aceitável". É uma promessa.
Ela inclinou a cabeça, sustentando o olhar confiante dele com um sorriso tranquilo.
— Faz os dois gols primeiro, Duarte. Se for tão bom quanto você diz, quem sabe eu não bata palmas no final?
— Vou cobrar isso. É melhor já ir treinando a coordenação motora para os aplausos. — Ele deu um passo para trás, ainda sorrindo, e se virou, mas, antes de sumir no túnel, se voltou para ela: — E o "Senhor Química"? Não veio?
Rafaela sentiu o peso da mentira esmagar seu estômago.
— Ele teve um compromisso de última hora no laboratório — ela respondeu, a voz firme, mas sentindo o chão oscilar sob os tênis. — Pesquisas de ponta não esperam pelo apito final.
Gabriel deu um aceno lento, um meio sorriso enigmático surgindo no canto dos lábios.
— Uma pena. Mas você estava aqui, Rafaela. E isso é o que importa.
A figura dele desapareceu no túnel do vestiário. No segundo seguinte, Letícia já estava ao seu lado, inclinando-se para sussurrar no ouvido da amiga:
— Meu Deus, Rafa... você está totalmente perdida.
Rafaela soltou o ar devagar, os olhos ainda fixos na penumbra do túnel agora vazio.
— Eu sei.
No vestiário, a euforia da vitória pulsava como uma batida de tambor. Risadas, música alta, provocações e o som de chuveiros abertos preenchiam o ambiente. Gabriel estava sentado no banco de madeira, cortando com uma tesoura sem ponta a fita adesiva que prendia o meião ao seu tornozelo, com um meio-sorriso bobo cravado no rosto que ele simplesmente não conseguia apagar.
— Olha lá, Dan. O homem voou em campo e agora tá com cara de quem ganhou um pônei — Diego comentou, sentando-se ao lado de Gabriel e dando um tapa pesado nas costas do capitão. — Aquele gol no final foi para a torcida ou teve endereço fixo na arquibancada superior?
Gabriel tentou fechar a cara, sem sucesso.
— Joguei o meu jogo de sempre, hermano. Vocês que inventam moda.
— Sei, o jogo de sempre — Daniel cruzou o corredor do vestiário, com a toalha pendurada no pescoço e uma expressão brincalhona. — Por isso que você bateu o escanteio olhando para o setor C2 como se estivesse procurando a aprovação da sua mãe. Conta outra, Duarte. A nerdzinha veio. E você jogou a vida ali.
— Ela tem namorado, esqueceram? O tal cara da Química — Gabriel justificou, puxando a fita. — Inclusive me disse ali na grade que ele não veio porque estava preso no laboratório.
Daniel começou a rir, sacudindo a cabeça como se não acreditasse na lerdeza do amigo.
— Pelo amor de Deus, Gabriel! E você acreditou? Tu acha mesmo que, se a nerdzinha tivesse um namorado assim tão foda, ela já não teria esfregado ele na tua cara na primeira oportunidade! Porra, você revirou o Instagram da garota inteiro e não achou nem um comentário suspeito de outro homem. Deixa de ser burro. Por que você não chama ela para a resenha lá em casa hoje e resolve essa parada de uma vez?
Gabriel hesitou, os dedos paralisados no meio do gesto de puxar o meião sujo para baixo. A ideia de ter Rafaela no seu ambiente, cercada pelos seus amigos e fora do clima tenso da faculdade, era incrivelmente tentadora. Mas o medo da rejeição — e de complicar ainda mais as coisas — falou mais alto.
— Sei não… a Rafaela não é muito do tipo que curte essas festas. O negócio dela é silêncio, livro e tubo de ensaio. Vai se sentir deslocada.
Diego revirou os olhos com uma dramaticidade latina implacável, arrancando a chuteira do pé e jogando-a no chão.
— O negócio dela também não é futebol, mas mesmo assim ela veio hoje só porque você chamou. Convida ela, idiota! — Diego disparou, dando um empurrão de leve no ombro do capitão. — O que foi? Se apaixonou e virou um bunda mole? Cadê o camisa dez sagaz que eu conheço?
— Pelo visto, ficou lá em Santa Rosa depois do tapa que levou — Daniel completou, rindo da própria piada enquanto corria para o chuveiro antes que o capitão jogasse algo nele.
Gabriel resmungou um palavrão, mas a provocação dos dois funcionou exatamente como deveria. Ele esticou o braço, puxando o celular de dentro da mochila. Se Diego e Daniel estavam apoiando — mesmo zoando sua cara —, ele iria arriscar.
Limpou a tela com o polegar, abriu a conversa com ela e digitou, buscando o equilíbrio exato entre a provocação e o convite real:
Gabriel:Então, nerdzinha, sua análise sobre meu desempenho em campo já está completa ou ainda precisa de mais material para avaliação? Se quiser, posso te proporcionar uma experiência mais imersiva… na festa pós-jogo lá em casa, daqui a pouco.
Ele largou o aparelho no banco e foi para o banho, enquanto os outros Falcões continuavam a cantoria do vestiário. Foi só depois de se vestir que a tela acendeu.
Rafaela:Para uma análise completa, eu precisaria de um grupo de controle e resultados constantes, não apenas de um evento isolado de sorte. Mas, considerando que a Letícia já está praticamente escolhendo uma roupa mentalmente, acho que vou ter que aceitar a 'experiência imersiva'.
Um sorriso de orelha a orelha brotou no rosto de Gabriel. Ele olhou para Diego, que se vestia do outro lado do banco.
— E aí? — Diego quis saber.
Gabriel apenas girou a tela do celular na direção do amigo, exibindo a resposta dela com um orgulho renovado.
— Ela vai.
— Boa, garoto! — Diego riu, colocando a camisa. — É hoje que a gente desvenda essa história desse namorado invisível de uma vez por todas.
Gabriel digitou a resposta final, sentindo uma emoção completamente diferente daquela do gramado circular por suas veias:
Gabriel:Vou te enviar o endereço. Vejo vocês em uma hora.
Rafaela havia aceitado entrar no mundo dele. E Gabriel mal podia esperar para mostrar que, longe das táticas de campo, o jogo deles estava apenas começando.
⚽📖⚽
Letícia estava com metade do guarda-roupa espalhado sobre a cama, segurando um vestido preto curto em uma mão e um conjunto de linho na outra. Rafaela a encarava da escrivaninha, de braços cruzados, ostentando sua melhor expressão de negação da realidade.
— Só repete para eu ver se entendi: a gente tem que ir nessa festa por quê…?
— Porque o capitão te chamou, você aceitou e, se der para trás agora, vai parecer que arregou — Letícia disparou, jogando o conjunto de linho de volta na cama. Ela olhou para a amiga com os olhos semicerrados. — E vamos ser sinceras, Rafa? Você passou o jogo inteiro com os olhos colados nele. Aquele gol no final quase te fez esquecer como se respira.
Rafaela sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar rapidamente, fingindo uma súbita urgência em revisar o artigo sobre polímeros marinhos aberto no notebook em cima da mesa.
— Eu estava analisando a tática esportiva, Lê. E essas festas são sempre as mesmas. Música alta, bebida barata e o Duarte sendo o centro das atenções.
Letícia lançou uma risada anasalada, caminhando até a amiga e fechando a tampa do notebook com um clique suave, forçando Rafaela a encará-la.
— Rafa, para de usar a ciência como escudo. O plano de vingança? Esquece. O Duarte mudou o jogo. O cara está sendo vulnerável, te levou em casa, te buscou na livraria e jogou a vida dele naquele campo hoje só porque você estava na arquibancada. Você não está indo lá para 'destruir o psicológico dele'. Você está indo porque quer ir.
As palavras de Letícia reverberaram pelo quarto, derrubando a última linha de defesa intelectual de Rafaela. Ela ponderou, o coração acelerando só de imaginar o passo quilométrico para fora da sua zona de conforto. Mas a imagem de Gabriel na grade do estádio, ofegante, suado e olhando apenas para ela no meio de uma multidão, era uma variável potente demais para ignorar.
— Ok — cedeu, por fim, a voz mais baixa.
Letícia exibiu um sorriso convencido e jogou o vestido preto em cima da amiga.
— Usa o vestido. Com o seu coturno. Vai dar aquele ar de "sou inteligente demais para me esforçar, mas sou maravilhosa". E nada de rabo de cavalo hoje, mocinha; deixa esse cabelo solto.
Rafaela olhou para a peça com profunda desconfiança. Gostava do seu estilo básico, e a ideia de se produzir toda para ir ao território do Gabriel parecia que estava admitindo o efeito que ele tinha sobre ela.
— Eu vou para uma festa de universitários, Letícia. Não para um desfile.
— Você vai como a mulher que o Gabriel Duarte passou noventa minutos tentando impressionar — Letícia corrigiu com um tom mais suave, empurrando-a gentilmente em direção ao banheiro. — Agora vai tomar um banho e se arrumar.
Minutos depois, Rafaela encarou o próprio reflexo no espelho do banheiro. O vestido preto contrastava com a sua postura rígida costumeira, e os cabelos soltos emolduravam o rosto de um jeito que a deixava estranhamente imponente. Ela se sentia como um elemento reagente sendo inserido em um ambiente altamente instável.
A lógica dizia para ficar em casa, mas os seus sentimentos — aqueles que ela jurou que manteria sob controle — exigiam que ela cruzasse aquela porta.
Ela saiu do banheiro e olhou fixamente para a amiga, que já havia se trocado e retocava o batom.
— Tudo bem, nós vamos. Mas, se as coisas começarem a ficar... confusas demais, a gente vai embora na hora.
Letícia guardou o batom na bolsa, olhando para Rafaela com uma mistura de carinho e diversão.
— Amiga... a coisa já ficou confusa faz tempo. Você só está atrasada no diagnóstico.
Rafaela soltou o ar, pegando a bolsa, sentindo que, naquela noite, a teoria e a prática estavam prestes a colidir de forma catastrófica na casa dos Falcões.
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