AMOR EM CAMPO
14 Capítulo 13: Química Perfeita
Notas iniciais
O sol das sete da manhã de quarta-feira mal havia esquentado o gramado do campo universitário, mas a cabeça de Gabriel já estava fervendo. Naquele dia, cabia a ele comandar o aquecimento físico e os fundamentos antes que o técnico Moura assumisse a parte tática. Parado no círculo central, com o colete por cima da camisa e o apito entre os dentes, ele mantinha o olhar sobre as duas fileiras de atletas que faziam tiros de velocidade entre os cones.
— Mais altos esses joelhos, Lucas! Ritmo nessa transição! O Niteroiense vai engolir a nossa zaga se vocês continuarem trotando desse jeito! — gritou, enquanto batia palmas para ditar o tempo do exercício.
Os jogadores respondiam sem hesitar. Ali era o território dele. Ele comandava, cobrava o foco, era o dono do jogo. O problema era que, por dentro, Gabriel estava uma completa bagunça.
Ele tentava se concentrar na dinâmica das linhas de passe, mas sua mente insistia em reprisar, em uma sequência torturante, os flashes da noite anterior. O tranco violento do sedan a centímetros da guia, o pânico escancarado nos olhos de Rafaela, o maldito "oi, amor da minha vida" ecoando no corredor e, para fechar com chave de ouro, a satisfação dela ao trancar a porta na cara dele, deixando-o sozinho na escada depois de desmarcar a monitoria.
Gabriel piscou, tentando espantar a enxurrada de pensamentos, e levou o apito à boca para encerrar a série.
— Parou! Próximo drill: recepção e finalização de primeira! Diego, distribui do meio-campo! — ordenou, correndo para a entrada da grande área para demonstrar a jogada para os calouros.
Diego se posicionou, olhou para a frente e desferiu um lançamento longo, em arco. Gabriel arrancou, acompanhando a bola que cortava o céu azul da manhã. Era um passe perfeito, do tipo que ele costumava dominar no peito e colar na chuteira sem o menor esforço. Mas, no instante em que armou o corpo para o amortecimento, a voz macia e torturante de Rafaela voltou com força total: “Até onde eu sei, a nossa relação é exclusivamente aluno e monitora...”
O corpo dele travou de frustração. A bola bateu rígida em seu peito, espirrou viva na canela e correu direto pela linha de fundo. Um erro técnico grotesco para o principal jogador do time.
O silêncio pairou entre os calouros que assistiam na lateral. Diego parou no meio-campo, apoiando as mãos nos quadris.
— Que porra foi essa, capitão? — Diego gritou de longe, rindo do vexame. — Tá moscando na frente dos bichos? Esqueceu como se domina uma bola ou o pé acordou virado para trás hoje?
Ele buscou a bola que estava na rede de proteção e chutou de volta para o amigo com violência. O impacto seco do pé contra o couro ecoou pelo campo, mas não foi suficiente para abafar o barulho em sua mente.
— Cruza outra, Diego! E manda com força de verdade se você souber chutar a bola — rebateu, batendo as travas da chuteira na trave para descarregar a tensão. — Vamos de novo. Ninguém vai pro chuveiro até essa jogada sair perfeita!
Ele precisava que o impacto físico e o cansaço daquele treino arrancassem a sensação das mãos frias dela no volante e o mistério daquele namorado da sua cabeça. Nem que precisasse correr até desabar no gramado.
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À noite, o silêncio do quarto de Gabriel pareceu torturá-lo.
Em vez de estar no apartamento de Rafaela, sentindo o aroma de café misturado ao perfume dela e ouvindo as correções ácidas que o faziam andar na linha, ele estava sentado sozinho na escrivaninha. O livro de biologia estava aberto na parte de metabolismo celular, mas as letras impressas pareciam jogadores correndo sem tática alguma.
Ele tentou focar nos parágrafos: "A glicólise é a via metabólica..." Mas sua mente traduzia em perguntas obsessivas: "Com quem ela está agora? Será que estão num encontro? Na casa dela? Em um motel?”
— Que inferno…
Gabriel jogou a caneta contra a parede, um estalo que soou alto demais no ambiente vazio. Ele se levantou e começou a marchar de um lado para o outro, sentindo o teto parecer cada vez mais baixo. Ligou a TV em um jogo da Champions, mas nem o brilho do gramado europeu ou a narração frenética conseguiam prender sua atenção. O futebol virara um ruído de fundo irrelevante. Ele queria o tom carinhoso dela, aquele que descobriu que existia, porém não era destinado a ele.
A estática sob sua pele agora era um curto-circuito completo.
Eram 21h40. O horário em que ele costumava estar ouvindo-a reclamar do seu vocabulário limitado. Gabriel olhou para a chave do carro. O orgulho dizia para ele ficar ali e encarar a matéria. O instinto — aquele que o fazia desarmar atacantes antes mesmo de eles pensarem no drible — avisava que ele não ia conseguir dormir sem arrancar uma resposta.
Ele não ia segui-la. Era o capitão dos Falcões, não um perseguidor. Mas... Gabriel apelou para o celular.
Na sala escura e silenciosa do cinema, Rafaela sentiu a vibração contra o tecido da bolsa em seu colo. O brilho da tela revelou o nome de Gabriel e uma notificação que ela nem precisou ler inteira para entender o subtexto. Ela arqueou uma sobrancelha, um pequeno sorriso de satisfação surgindo no canto dos lábios, antes de colocar o aparelho no silencioso e devolvê-lo ao acessório.
Na cobertura, Gabriel encarou o visor pelo que pareceram horas. A mensagem que ele enviara continuava lá, sem nenhum sinal de leitura. Seus dedos batucavam na borda da madeira em um ritmo frenético, acompanhando o latejar de sua têmpora. Ele finalmente cedeu ao impulso e enviou outra:
Gabriel:Página 148. O livro diz que o ciclo de Krebs é uma via anfibólica. Não entendi nada. Se o seu compromisso não estiver muito animado, podia me explicar o que isso significa agora?
Ele tentou voltar ao texto, mas seus olhos não saíam da barra de notificações. Um minuto. Dois. Cinco. O "visto" finalmente apareceu. Mas o símbolo de que ela estava digitando não veio.
A angústia subiu pela sua garganta como um refluxo quente e ácido.
Dez minutos depois, o telefone vibrou. Gabriel saltou da cadeira como se tivesse levado um choque elétrico.
Rafaela: Anfibólica significa que serve tanto para degradar quanto para construir moléculas. É como você, Gabriel: ora destrói sua média, ora tenta construir um interesse súbito por mim. Agora me dê licença, estou ocupada.
Sem raciocinar, os dedos voaram pelas teclas virtuais:
Gabriel: O Ciclo de Krebs é um lixo. O 'amor da sua vida' por acaso entende de Fisiologia?
Rafaela teve que morder o lábio inferior para conter a gargalhada no meio da sala escura, sentindo o celular trepidar com a fúria em cada letra. As questões existenciais de O Sétimo Selo foram completamente eclipsadas pelo entretenimento muito mais imediato de desestabilizar o grande Gabriel Duarte.
Rafaela: De fisiologia eu não sei, mas não posso negar que a química aqui estava perfeita até você atrapalhar. Boa noite, Gabriel.
Aquela resposta foi o estopim que faltava para sua irritação já crescente. Ele tocou diretamente no ícone de chamada.
Chamou uma vez. Duas. Três. Caiu na caixa postal.
— Desgraça... — ele rugiu para as paredes do quarto. Jurando para si mesmo que não insistiria. Mas, trinta segundos depois, já estava com o aparelho no ouvido outra vez. No quinto toque, a chamada foi atendida. Houve um segundo de silêncio, apenas o som de um sopro de voz do outro lado, antes da fala abafada e rouca de Rafaela preencher seu ouvido.
— Gabriel... eu já disse que estou ocupada.
O coração de Gabriel errou a batida. O tom de voz contido dela disparou todos os seus alertas de perigo.
— Por que você está falando desse jeito? — ele inquiriu, a voz saindo mais agitada do que gostaria. — Onde você está, Rafaela? Quem está aí com você?
— Não te devo satisfações, seu louco... — ela sussurrou novamente, e Gabriel pôde jurar que ouviu um som de movimento ao fundo, como tecidos se movendo. — Me deixa em paz.
A ligação caiu.
Gabriel ficou encarando o nada, o smartphone ainda colado à orelha. A voz murmurante dela ecoava em sua mente, transformando-se em mil cenários torturantes. Ele não tinha como saber que ela estava sozinha, em uma sala escura de um cinema de rua, assistindo a um filme sueco em preto e branco sobre a morte e a existência humana. Na cabeça dele, aquele cochicho tinha um único motivo: esconder a conversa do cara que estava com ela.
As paredes cinzas do seu quarto de repente pareciam cinzas demais, sufocantes, quase zombando da sua cara. O orgulho e a banca de conquistador tinham sido reduzidos a pó por um sussurro de cinco segundos.
Gabriel girou sobre os calcanhares, atravessou o corredor e empurrou a porta do quarto de Daniel com um estrondo.
Entrou sem bater, com o rosto vermelho, a respiração curta e o celular apertado na mão como se fosse uma arma.
Daniel estava jogado de barriga para cima na cama, com as pernas cruzadas e os olhos fixos na tela do próprio aparelho, embalado pelo som de trap que ecoava pelas caixas de som embutidas no teto. Com o impacto da porta batendo contra o batente, ele deu um sobressalto, quase deixando o telefone cair no rosto.
Olhou para Gabriel, sem assimilar a figura transtornada do amigo, e soltou uma lufada de ar irritada.
— Pode entrar, pô. Fique à vontade. A privacidade é um conceito abstrato mesmo — ironizou, ajeitando-se nos travesseiros.
Gabriel nem se importou com a provocação do amigo. Deu dois passos para dentro do quarto, gesticulando com o celular, a voz saindo em um tom de indignação pura, quase infantil de tão verdadeira:
— Ela está com outro agora, Daniel.
— "Ela" quem, ô energúmeno? — Daniel sentou-se na borda do colchão, apoiando os cotovelos nos joelhos. — E do que caralhos você está falando?
— A nerdzinha, porra! A... a... não. Esquece, ela não é mais nerdzinha nenhuma, ela é uma calculista sem coração! — Gabriel passou a mão livre pelo cabelo, puxando os fios para trás, andando de um lado para o outro no quarto. — Eu mandei mensagem, Dani. Uma dúvida legítima, juro por Deus, era sobre a porcaria do metabolismo celular! E ela me deu um fora. Um esculacho seco. Aí eu liguei. Liguei porque eu sou um otário, e sabe como ela atendeu? Sussurrando, cara! Com a voz... a voz toda ofegante, meio trêmula, como se... como se estivesse... — Ele parou de repente, esmurrando o ar com o punho fechado, os olhos arregalados de puro ódio. — Ah, merda, eu não quero pensar! Eu me recuso a imaginar o que aquela garota estava fazendo com o "amor da vida dela" enquanto eu estou aqui fritando os neurônios sozinho!
O zagueiro franziu o cenho, encarando o cara que costumava despachar mensagens de três pretendentes diferentes na mesma noite sem mover um músculo da face e que agora estava ali, parecendo um adolescente que acabou de levar um fora no recreio.
Uma gargalhada limpa ecoou pelo quarto.
— Não tem graça, imbecil! — Gabriel vociferou, avançando um passo. — Eu tô aqui tentando não bombar na matéria daquele careca desgraçado e a garota tá... tá em algum lugar com um maluco, me fazendo de palhaço!
— Cara... para tudo. — Daniel levantou as mãos, tentando recuperar o fôlego enquanto limpava uma lágrima no canto do olho. — Deixa eu ver se eu entendi. O terror das calouras, o homem que tem uma planilha de contatos que vai de A a Z, está tendo um ataque de pelanca, às dez da noite de uma quarta-feira, por causa da nerd pela qual ele afirma não sentir nada? É, meu amigo... o carma é mesmo uma cadela.
— Eu não estou tendo um ataque de pelanca — Gabriel cuspiu as palavras, com os dentes tão trincados que a linha de sua mandíbula parecia esculpida em pedra. — Eu só... eu tenho um código, você sabe. Eu não mexo com mulher dos outros. Se ela tem namorado, a aposta acabou. É só isso. É uma questão de princípios.
Daniel soltou outro riso gozador, cobrindo o rosto com as mãos antes de voltar a falar com uma sinceridade cortante.
— Princípios o cacete, Gabriel. Olha para o seu estado. Tá bufando feito um touro reprodutor que viu a capa vermelha. Você não está puto por causa de aposta nenhuma. Você está é mordido de ciúmes porque a sua nerdzinha provavelmente está dando para outro nesse exato momento.
O quarto pareceu emudecer num estalo, restando apenas o som do trap abafado no teto, e a imagem mental que ele vinha tentando evitar a noite toda ganhou contornos nítidos na voz de Daniel.
O sangue subiu para o seu rosto com tanta força que suas orelhas arderam.
— Não fala assim dela, valeu? — Gabriel soltou, apontando o dedo na direção do amigo. — E eu não estou com ciúmes. Para ter ciúmes, eu precisaria me importar, e eu só quero passar na matéria.
Daniel deitou-se de lado na cama e apoiou a cabeça na mão, assistindo ao espetáculo de camarote.
— Ah, claro, Duarte. É por isso, sim, que você está parecendo um psicopata, invadindo o meu quarto às dez da noite. Conta outra.
Gabriel quis voar no pescoço dele. Quis chutar a cama, quebrar o celular, sumir dali. Mas a pior parte de toda aquela humilhação era perceber que, por mais que tentasse vestir a carcaça de capitão marrento, a verdade estava ali, escancarada.
— Ah, na moral? Vai se catar, Daniel.
Ele deu as costas para o amigo sem dizer mais nada e saiu batendo a porta de Daniel com a mesma violência com que havia entrado.
De volta ao seu próprio quarto, ele jogou o celular na cama como se o aparelho queimasse seus dedos. Ele não sabia direito que sentimento era aquele que estava contraindo seu peito, mas de uma coisa ele tinha certeza: ele odiava não ter o controle.
Enquanto o silêncio do quarto sufocava o capitão com o peso de suas próprias paranoias, a poucos quilômetros dali, o som de uma chave girando na fechadura trazia uma atmosfera completamente oposta.
Rafaela entrou no apartamento sentindo uma leveza que não experimentava há meses. O silêncio reflexivo de Bergman ainda ecoava em sua mente, mas era a intensidade residual da fúria de Gabriel em seu bolso que a fazia caminhar com um sorriso de orelha a orelha.
Na sala, o brilho da TV iluminava o rosto de Letícia, que estava em transe com a tela, abraçada a um balde de pipoca como se sua vida dependesse disso. Rafaela jogou a bolsa no chão, tirou os sapatos e se jogou no sofá ao lado da amiga, mergulhando a mão no balde sem pedir licença.
— Ei! — Letícia protestou, os olhos colados na TV. — Eu acabei de começar Nosso Destino e o Rowoon acabou de aparecer de terno. Não ouse estragar o meu momento.
Rafaela riu, mastigando a pipoca enquanto observava a amiga já completamente rendida pelo novo vício.
— Eu tenho uma coisa muito mais interessante do que esse tal de Rowoon para te mostrar — Rafaela cantarolou, esticando as pernas no estofado.
Curiosa, Letícia pausou a imagem bem no rosto sério do advogado de terno e se virou. Rafaela desbloqueou o celular e entregou o aparelho na mão dela, direto na tela da conversa com Gabriel. Letícia começou a ler, e seus olhos foram se arregalando a cada linha. Quando processou o nível de desespero e ciúme nas mensagens do capitão, ela soltou um engasgo ruidoso, tossindo farelos de pipoca.
— Que história é essa de "amor da sua vida", Rafa? — Letícia perguntou, recuperando o fôlego e olhando para a amiga como se ela tivesse acabado de confessar um crime. — E desde quando você flerta com esse nível de... periculosidade?
Rafaela deu de ombros, mastigando uma pipoca com satisfação.
— Ele ouviu quando a Micaela me ligou ontem à noite e eu atendi. Como você sabe que eu adoro perturbar ela, então eu brinquei: "Oi, amor da minha vida". O Duarte ouviu de longe, tirou as próprias conclusões e está surtando desde então.
— Você deixou ele achar que a sua irmã era o seu namorado? — Letícia começou a rir, uma gargalhada limpa que quase a fez derrubar o balde. — Rafa, isso é cruel. — Ela fez uma pausa dramática, os olhos brilhando de orgulho. — Adorei! Ele deve estar socando as paredes do quarto agora.
— Deixa ele socar — Rafaela pegou o celular de volta, visualizando a chamada perdida que não pretendia retornar tão cedo. — Ele precisava de um choque de realidade. Parece que o ego inflado dele não funciona contra um bom mistério.
⚽📖⚽
O céu tinha acordado cinzento na manhã de quinta-feira, o que parecia combinar perfeitamente com o humor de Gabriel. Ele atravessou os corredores da universidade de óculos escuros, escondendo as olheiras de quem passou a madrugada inteira revisando o Ciclo de Krebs, não por dedicação, mas porque, cada vez que fechava os olhos, ouvia o sussurro de Rafaela no telefone.
Gabriel avistou o rabo de cavalo dela perto da biblioteca. Ela conversava com Henrique, um veterano da Engenharia de cabelos compridos. Antes que pudesse desviar o caminho, o engenheiro disse algo que a fez rir, e seus dedos tocaram o braço dela com uma intimidade casual. O passo de Gabriel empacou no piso de granito. O que o afetou não foi a presença de outro cara, mas a reação dela: em vez do habitual escudo de gelo que reservava para ele, Rafaela ofereceu a Henrique um sorriso aberto e sincero. Um lampejo de doçura que Gabriel nunca tinha visto, nem nos melhores dias de monitoria.
Ela parecia irritantemente impecável. Os cabelos sem um fio fora do lugar; usava uma calça wide leg escura e uma camisa branca com a frase “Science Doesn't Care About Your Feelings” estampada na altura do busto. Gabriel encarou as letras pretas de longe, sentindo que o aviso na camiseta era um recado direto para o conflito que ardia dentro dele. A vivacidade e a meiguice dela com outro cara eram um insulto ao seu estado deplorável.
Então é com esse tipo de cara que ela é legal? Porra, será que o Henrique é o senhor “química perfeita”?
O pensamento o atravessou como uma lufada de fumaça quente. Ele acelerou o passo, ignorando os acenos de Lucas, que passava por ali a caminho da aula. Invadiu o espaço deles sem pedir licença, parando a poucos centímetros da dupla.
Ao notar a aproximação do capitão dos Falcões, Henrique afastou a mão do braço de Rafaela e abriu um sorriso amigável, sinceramente entusiasmado.
— Fala, Duarte! Pô, cara, inacreditável aquele teu passe no segundo tempo do último jogo contra a São Silvestre. Visão de jogo absurda.
Gabriel tirou os óculos escuros devagar. Ele olhou para o rapaz e depois para Rafaela, que imediatamente desfez o sorriso gentil, assumindo a expressão carrancuda e hostil de sempre.
— Valeu, cara — Gabriel respondeu, a voz saindo cansada. — Mano, será que você pode dar uma licença aqui? Preciso falar com a Rafaela. A sós.
Henrique piscou, olhando de um para o outro, sentindo o clima pesado se instalar entre os dois.
— É... beleza! A gente se fala depois, Rafa. Boa aula — o moreno falou e se afastou, sumindo entre os alunos.
Rafaela acompanhou a retirada do colega e voltou a atenção para Gabriel. Ela deslizou os olhos pela postura tensa dele e pelas olheiras profundas que contornavam seus olhos escuros.
— Bom dia para você também, Duarte — ela disse calma. — Pelo seu estado, o capítulo de metabolismo celular deu muito mais trabalho do que o esperado. Conseguiu entender a função anfibólica ou teve alguma distração insuperável?
Gabriel passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os numa tentativa falha de organizar os pensamentos.
— Eu tive a pior distração da minha vida ontem à noite, Rafaela — ele confessou, desprovido da usual soberba. — Foi com ele que você passou a noite?
Rafaela piscou, surpresa pela petulância e pela falta absoluta de filtro dele. Ela viu o vinco profundo entre as sobrancelhas de Gabriel e a rigidez do seu semblante. Ele está completamente descompensado, ela pensou, e um vislumbre de pura satisfação brilhou em seus olhos.
Em vez de se encolher ou dar satisfações, ela apenas cruzou os braços sobre a estampa da camisa, sustentando o olhar dele com um sorriso que era puro veneno destilado.
— Meu Deus, eu aluguei mesmo um triplex na sua cabeça, não é?
— Um triplex? Rafaela, você desgraçou a minha cabeça por completo — ele corrigiu, enquanto dava um passo instintivo para mais perto. — Eu passei a noite em claro, olhando para o teto, ouvindo nossa conversa no telefone em loop. Eu estou prestes a reprovar na matéria do Santana, porque eu não consegui ler uma linha sequer sobre o maldito Ciclo de Krebs, tentando tirar você da minha cabeça. Então, por favor, só responde. Era ele?
— Para que você quer saber, Duarte? — ela rebateu. — Vai desafiar o garoto para um duelo no campo dos Falcões?
Gabriel bufou, a paciência por um fio. Ele não queria piada, queria uma certeza para acalmar o inferno dentro do seu peito.
— Não viaja, Rafaela. Eu estou falando sério.
— Quem está viajando aqui é você — ela devolveu, mantendo a expressão impassível. — Eu já te disse que a nossa relação é estritamente de monitora e aluno. E, depois da prova de hoje, nem isso mais seremos. Mas, se a sua paranoia quer tanto saber... não, eu não estava com ele ontem. Na verdade, eu e o Henrique não ficamos mais desde o final do primeiro período. De qualquer forma, fico lisonjeada em saber que você passou a noite criando fanfics sobre o meu passado amoroso enquanto deveria estar estudando.
Gabriel trincou os dentes com tanta força que uma veia saltou na lateral do pescoço.
— Agora dá licença. Tenho aula em cinco minutos. Mas não se preocupe... — Ela se aproximou apenas o suficiente para que ele sentisse aquele maldito cheiro de lavanda que o assombrou a noite toda, e baixou o tom de voz, devolvendo o mesmo tom baixo e rouco da noite passada direto no ouvido dele: — Depois da sua prova, eu posso te contar com detalhes como a química ontem foi... inesquecível.
Ela deu um tapinha leve e cínico no ombro dele, desejando boa prova, e se afastou. Gabriel continuou parado ali por longos minutos, encarando o corredor vazio, sentindo o peito queimar de ciúme e com a terrível certeza de que a prova de Fisiologia era a menor das suas preocupações.
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A folha da prova estava estendida na mesa como um desafio, mas a mente de Gabriel era uma panela de pressão prestes a explodir. Ele encarava o papel em branco, tentando focar, mas os pensamentos colidiam violentamente dentro da sua cabeça.
De um lado, o peso da realidade o esmagava: o técnico Moura tinha sido claro ao dizer que o futuro dele como capitão e a liderança do time na temporada dependiam daquela nota.
Do outro lado — e muito mais destrutivo —, estava o embate com Rafaela no corredor. Cada vez que Gabriel fechava os olhos para tentar lembrar de um conceito, a imagem de Rafaela sorrindo para o cara da engenharia vinha à sua mente. E, pior de tudo, foi o contra-ataque dela: “Depois da sua prova, eu posso te contar com detalhes como a química com ele foi... inesquecível.”
Concentra, porra. Foca aqui e agora. O time precisa de você. Você não vai perder tudo por causa daquela provocadorazinha. Ele fechou os olhos com força, como se pudesse nocautear os próprios pensamentos, e forçou-se a expirar devagar.
O auditório estava imerso em um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo raspar frenético das canetas dos outros alunos e pelo tique-taque irritante do relógio na parede. Gabriel piscou, abaixou a cabeça e forçou os olhos a lerem a primeira questão: "Descreva o potencial de ação neuronal e o papel das bombas de sódio e potássio."
Ele engoliu em seco. Era agora ou nunca.
A prova era longa. Quarenta minutos depois, o auditório começou a esvaziar. Gabriel era um dos últimos. Ele escrevia com uma pressa quase desesperada, resgatando da memória cada explicação que Rafaela havia feito nas semanas anteriores. Palavras como 'equilíbrio', 'corrente' e 'gradiente de concentração' surgiam no papel não como teoria abstrata, mas como o único bote de salvação que ele tinha para não afundar.
Quando ele finalmente se levantou, a sala estava quase vazia. Gabriel deslizou sua prova até o topo da pilha sobre a mesa, sentindo o peso do olhar do professor Santana. O homem ergueu a vista para Gabriel, que abriu seu melhor sorriso de "bom moço".
— Professor, será que eu posso te pedir um favor? — começou ele, inclinando-se levemente sobre a mesa com uma confiança fingida. — Tem como dar uma olhada na minha prova agora, rapidão? O técnico está na minha cola por causa da média e eu queria dar essa notícia para o velho logo. Sabe como é, né? Deixar ele tranquilo, sabendo que não vai perder o melhor jogador dele por causa da sua matéria.
Santana ajeitou os óculos na ponte do nariz, soltando um suspiro ruidoso. Ele encarou a folha e depois o sorriso do rapaz.
— O Moura está achando que a minha disciplina é extensão do vestiário? — Santana resmungou, mas já estava puxando a caneta vermelha do bolso do paletó. — Sente-se aí. Se tiver escrito tanta bobagem quanto as que costuma falar, terminarei rápido.
Gabriel puxou a cadeira da primeira fileira e sentou-se. Ele acompanhava cada movimento da ponta da caneta vermelha, que começou a deslizar pela primeira folha, deixando pequenos vistos à margem do texto.
A tensão que ele sentia naquele momento era pior do que a da véspera de uma final de campeonato. É agora, pensou, sentindo a adrenalina disparar. Seu futuro nos Falcões — e o direito de continuar infernizando a vida daquela monitora — dependiam dos próximos minutos.
Santana virou a última página, parou a caneta no rodapé e elevou os olhos por cima dos óculos. Ele soltou uma lufada de ar pelo nariz, tirou os óculos de leitura e encarou o capitão com um olhar completamente impenetrável.
— Bom, Duarte... — o professor começou, a voz cortando o silêncio. — Parece que nós temos um problema aqui.
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