A última poesia
3 ...e lá se vai Loki
CAPÍTULO III
Quatro de Janeiro de 1500 D.C. (tempo presente), em Jötunheim.
Montados em belos cavalos, Victória, Loki e seus cavaleiros seguiam por uma estrada de terra enquanto discutiam as minúcias do misterioso plano. Victória recebera do deus a missão de liderar seus soldados para atacarem Heimdall, o guardião da ponte que liga Ásgarðr à Midgard — também chamada de Bifrost. Sem ele, os portões da terra dos deuses estariam desguarnecidos satisfatoriamente para que Victória pudesse lacrar a saída para Midgard, impedindo-os de interferir no estratagema do deus falaz.
—Devo alertá-la de uma coisa, Valquíria: Heimdall possui uma visão e audição exacerbadas, permitindo que o mesmo consiga erradicar uma iminência previamente. Se forem descuidados, ele tocará seu retumbante chifre Gjallarhorn, avisando todos os Ases e aniquilando vocês rapidamente. –Loki alertou.
—Não temo. Uma emboscada deverá ser o bastante para neutralizá-lo; em seguida, os soldados cerrarão os portões (impossível de ser fechado apenas por mim) e, usando a sua magia, lacraremos a saída. Vosso poder é suficiente, não?
—Olvidastes com quem estais falando? Após Álvaro roubar a lança de Odin, eu a encantarei para que fique infrangível, podendo utilizá-la como arma na invasão. –Ao ouvir o nome de seu amado, Victória teve um ligeiro lapso de memória, por conseguinte fazendo-a cair em um breve devaneio. Ela, no entanto, não informou a ninguém tal acontecimento, pois seus instintos impediram-na de confiar em qualquer dito-cujo desconhecido. Se sua memória voltasse naturalmente... Sim... Talvez não precisasse se submeter a esta missão suicida.
Loki estendeu sua mão direita e entregou a Victória uma bela tiara reluzente; esta, no entanto, não compreendera a utilidade daquele acessório.
—Este artefato lhe permitirá entrar e sair de Ásgarðr livremente, para que possa recuperar tua armadura e teu broquel.
—Mas como o farei sem ser vista?
—Uma índia que conheci há um tempo envenenou todos os alimentos de Ásgarðr, deixando os Ases impossibilitados de lutar ou até mesmo falar. Obviamente, seu afazer será facílimo.
—Desejo conhecer esta nativa, pois ela parece ser bastante ágil para tal feito; se ela quiser, poderá voltar junto a mim para podermos derrotar os deuses e juntas darmos continuidade ao plano!
—Creio eu que ela ainda não tenha saído; fique a bel-prazer para tal. –Loki admirava a empolgação de Victória, mas receava de tua atitude repentina para com o plano.
Após cavalgarem por uma longa estrada de terra, o grupo finalmente alcançou um local especial para Victória: a caverna na qual a guerreira desfalecera durante uma chuva ácida que caiu naquele lugar. Desmontando dos cavalos, todos os compartes de Loki adentraram na gruta e um deles sacou de uma bolsa um pequeno punhal, cuja lâmina refletia a luz do sol que penetrava timidamente na úmida toca. Sem dizer absolutamente nada, o elfo negro ergueu a faca o mais alto que pôde e fez um corte longitudinal na própria mão, deixando seu sangue víscido alcançar as runas que Loki acabara de esboçar no chão arenoso. Quase que por instante, um feixe de luz se originou do inscrito, deixando Victória temporariamente cega; logo em seguida, a parede paralela a entrada da gruta começou a desintegrar-se, fazendo com que uma passagem se abrisse para um enorme salão iluminado por tochas e fogueiras.
—Que lugar é esse? –Indagou a guerreira de madeixas douradas.
—Jontunkrar; ou, como gosto de chamar: a gruta do diabo. –Arkran respondeu.
—Antigamente era usado para fins ritualísticos, mas agora é meu esconderijo particular. Conseguir abrigo aqui em Jötunheim não é algo simples, portanto, esse lugar é bastante valioso para nós e deve permanecer oculto ao resto do mundo. –Loki completou.
Ao visualizar o patamar, Victória avistou a silhueta do que parecia ser um elfo, mas... Quando a luz de uma das tochas clareou sua face, a guerreira abismou-se com seu olhar frígido e intenso, adornado por uma cicatriz verticalizada que se estendia de sua testa até os lábios opacos.
—Loki, atrasado como sempre. Então esta é a Valquíria de que tanto fala, não? –O suposto elfo que permanecia sentado em um trono de madeira despontou do acento e pôs-se a contemplar a beleza de Victória. Ela fitava seus olhos com um semblante incógnito, e ele por sua vez permanecia frio como um cadáver.
—Quem és tu, que não desgruda os olhos de mim? –Victória perguntou soberba.
—Me chame de Alf, senhorita. Sou um elfo guerreiro caído, que fora acolhido por Loki em meio à tempestade moral que devastava todo o meu mundo, fazendo todos aquilatarem o que era certo ou errado... Mas falemos do plano! Já fora informada de tua missão?
—Já. Irei bloquear a entrada de Ásgarðr, facilitando a tomada de Valhala e o roubo da lança de Odin. O que faremos depois? Os Vanir e os elfos claros estarão prontos para um ataque após isso! –Victória respondeu.
—Os elfos são um povo pacífico, que manipula a imaginação, o espírito e as emoções dos homens mortais. Os Vanir, deuses da paz, é que são teus verdadeiros obstáculos. Se descobrirem esta rebelião, estaremos condenados, e por isso é que você ficará encarregada de segurá-los em Vanarhein enquanto o plano é concluído. –Mal fechara a boca, e Loki já fora questionado outra vez.
—Mas este lugar é inacessível, somente os...
—Elfos claros podem transitar lá. Esqueceste de mim? Encontrarei um modo de levar você e seu exército para lá. –Alf concluiu.
—Uma companhia composta por Anões e elfos negros, contando até mesmo com alguns homens corrompidos estará pronta para servi-la em breve, Victória. Após obstar os portões de Ásgarðr, você e seus guerreiros irão combater os gloriosos aguerridos que vivem ali; em seguida, Álvaro lhe entregará a lança de meu pai, para que a mesma convenha-lhe de arma durante suas futuras batalhas.
A noite caía receosa em Jötunheim, com o sol se pondo a leste para dar lugar à suntuosa lua que se achegou ali perto. Aquele lusco-fusco criara uma bela miscelânea de cores, dando ao mundo dos gigantes um suspiro da arte moderna inspiradora aos amantes e guerreiros. Enquanto contemplava aquele ocaso, Loki foi ao encontro de Victória, para que juntos pudessem testemunhar o esplêndido sol indo embora daquele lugar desértico e infértil.
—A única coisa boa deste lugar é seu crepúsculo. Veja, a lua é tão próxima daqui que quase dá para pegá-la!
—De fato; Mas tenho de lhe perguntar uma coisa. –Victória disse, fria e pensativamente. —Quando iremos executar esse plano? Álvaro já deve ter penetrado em Valhala, e a tal índia não tardou em envenenar seu pai e seus semelhantes. Se adiarmos mais isso, não acha que eles irão se recuperar e descobrir tuas maquinações?
—Sim. Por isso, ao amanhecer tu cavalgarás para o sul, de modo que encontrará teus soldados a fim de marcharem rumo a Ásgarðr. Eu havia concentrado alguns guerreiros lá, mas os mandei para Muspelhein, o mundo ardente. Týr foi o único que não se envenenou com a comida, e viu quando eu dei as ordens ao pelotão de Arkran; Todavia, ele nada fez, apenas desapareceu na penumbra com uma atmosfera incógnita.
A conversa fora interrompida, pois os dois que ali dialogavam sentiram algo perturbador. Um vento célere soprou do norte, trazendo consigo o odor daquelas criaturas que Victória tanto abominava, os...
—Gigantes! -Alf, um guerreiro nato, surgiu da caverna com sua espada em mãos, escutando atentamente as vibrações do solo que eram oriundas dos largos passos dos gigantes. Seus sentidos apurados eram admiráveis, mas também pudera; seu espírito etéreo encarnara num corpo vazio que antes fora de um guerreiro, e logo apodrentava no relento sobre o campo de batalha adormecido. Sua vontade de guerrear era tanta que o tal Álvaro Ericsson resolveu treiná-lo até o fim de seus dias, tornando-o um exímio combatente que se mostra hoje.
—Droga, nós estamos numa rota de escravos dos soldados gigantes! Se nos virem aqui, acabarão com nossa pele em segundos! –Um velho anão chamado Teranon afiava seu machado enquanto ansiava pela possível batalha que se aproximara deles, mesmo sendo deveras perigosa para todos ali presentes.
—Quiçá possamos montar uma arapuca para derrubá-los, e então usar seus escravos como nossos soldados. Alguém me dê uma arma, pois não pretendo lutar de mãos vazias contra aqueles monstros. –Loki fez surgir uma lança em pleno ar e entregou a Valquíria, que se mostrou satisfeita com a arma.
—Está louca! Quer lutar contra todos aqueles gigantes? E como pretende derrubá-los? –Um elfo negro se manifestou ante a guerreira, que nada fez em relação à pergunta dele.
—Teranon, eu vi que carrega consigo uma corda bastante grossa na mochila. Poderia emprestar-me? –O anão sacou a corda do compartimento e passou a Victória. Com um nó triplo, a guerreira atou a corda em sua lança, logo em seguida estendendo o restante do material pelo chão de terra.
Os gigantes se aproximavam, e todos ali se preparavam para a pugna. Com exceção de Loki, claro, que permanecia sentado no chão arenoso completamente disperso. Ao avistar a primeira cabeçorra, Teranon ergueu seu machado o máximo que pôde e gritou a todos os guerreiros que ali jaziam:
—Atacar!
Os elfos negros correram uns quinze metros até alcançarem os gigantes, atacando-os com suas espadas de bronze avelhantado. Muninn, um dos corvos de Odin, pairava cauto sob o deserto, vigiando os guerreiros e aguerridos que ali pelejavam bravamente. Atirando sua alastra no abdômen de um corpulento de duas cabeças, Vitória conseguiu fixar a corda que se mantinha vinculada a lança, correndo então até outro colosso que vinha em sua direção. Ágil e sorrateiramente, a donzela esgueirou-se por entre as pernas do gigante, atando seus pés com a corda de Teranon; não satisfeita, ainda atacou o monstro com sua lança, perfurando sua lombar com toda a força possível.
—Loki, ajude-nos! –Um dos lacaios do deus astuto rogava a ajuda do mesmo, que despontou do chão de terra desinteressada e vagarosamente. Erguendo sua mão esquerda, Loki fez surgir do solo uma chama que envolveu os gigantes remanescentes, carbonizando-os lentamente enquanto estertoravam sob a expiação daquele fogo infernal.
—Discorri a possibilidade de um exército estar a trás de nós, mas apenas quatro deles vieram. O que faremos com estes escravos, falando nisso? –Se destacavam entre eles duas púberes mortais que de tanto assustadas entrelaçavam suas correntes para permanecerem de mãos dadas. Sete homens e dois anões também se mantinham atracados ao resto do comboio, que de tão cansado acabou por se lançar ao chão de areia e terra, em busca de descanso da longa viajem.
—Eles regressarão aos seus respectivos lares, eu mesmo cuidarei disto. Venham todos vocês, os levarei para casa. –Usando seu incrível poder, Alf teletransportou os ex-escravos através de extraordinários portais mágicos que perduravam a poucos centímetros do chão. Após se reorganizarem, os soldados voltaram para gruta em busca de uma boa noite de sono.
—Vamos passar a noite neste refúgio e ao dilúculo iremos para Ásgarðr para a tomada de Valhala. –Loki voltou ao seu esconderijo para descansar um pouco, mas Victória ficou ali, pensativa e preocupada com seu futuro, sua memória, e esse tal de Álvaro que tanto lhe incita.
***
Longe dali, um corvo voava lento sobre a colossal Yggdrasil, a desmedida árvore que sustenta a nós deuses e a vocês mortais nos nove mundos. A ave ficara confusa com tal cena inopinada que avistou em Ásgarðr, a terra dos deuses. Valaskjálf, um dos palácios do passional deus Odin, jazia vazio há muito tempo, já que muitos Æsir permaneciam enfermos devido ao veneno exótico de Anahi. Malditas Urd, Verdadi e Skuld, que nada fizeram para mudar o destino dos guerreiros onipotentes! Ah, e tomara que elas não me ouçam, por que tenho problemas demais com o advento deste evento tão temido por todos os deuses de todas as crenças. A natureza se enfraquece, mas meus poderes retrogradam há mim pouco a pouco. Que os grandes espíritos possam salvar-nos deste arremate, e pro diabo com essa fábula de destino! Logo irei ocupar este belo palácio, e me sentarei no majestoso trono daquele que sempre me ajudou, para então aniquilar aquele que escarnecia de mim todas as vezes que avistava a minha pessoa, Loki.
Fale com o autor