CAPÍTULO IV

Dois espíritos puros vagavam neste nosso cosmo universo sem rumo algum, apenas procurando um lugar calmo e reservado para seu infindável repouso. Em uma tempestuosa e intrínseca dança, os dois seres etéreos permeavam a passo lento a atmosfera do nosso planeta, declinando em espiral até alcançarem o solo fértil do bosque de Nurkassa. Essa floresta não é um local físico, sendo impossível seu acesso aos homens. Nurkassa se encontra presente em todos os cantos do universo, para deleite dos seres divinos e sagrados que desejam meditar sobre todas as coisas que acontecem conosco ou que estejam para acontecer. Árvores? Possui em abundância. E se ainda não é o bastante para ti, um rio corre por todo o lugar para saciar a sede dos animais e plantas que ali coexistem tão festivamente.

E é neste local onde eu medito atualmente, ao lado de antigos espíritos que fazem a árdua vigília deste planeta tão caótico que só traz dor de cabeça a nós deuses, outrora felizes e em harmonia com a natureza e seus habitantes! Após horas de diálogo, finalmente me atualizei sobre tudo que está acontecendo nos nove mundos, sobre um misterioso plano de boicote aos deuses e um casal que fora pusilanimemente separado em prol de não sei o quê. Týr é o meu nome, mas aqui não recebo nenhum tipo de vocativo. Todos são tratados como iguais, desde uma criança até um poderoso gigante de gelo. Ah, veja! Meu velho amigo acaba de chegar!

—Me caro amigo Sun Tzu, como é bom reencontrá-lo!

—Saudações, mestre Týr. Recebi teu chamado e vim o mais rápido que pude. Algo lhe incomoda? –A voz grave de Sun Tzu rememorava os gloriosos anos em que o mesmo liderou exércitos e venceu guerras enquanto esteve vivo. Atilado e sagaz, esse general tornou-se aprendiz ainda criança do deus do combate, Týr. E, mesmo depois de finado, ele continua aprendendo com seu mestre que tanto tem a lhe doutrinar sobre a gloriosa arte da guerra e estratégia bélica.

—Preciso que me ajude a impedir uma invasão. Loki está liderando uma revolução e pretende invadir Vanarhein, o mundo da paz, e Ásgarðr, o mundo dos deuses guerreiros. Não quero provocar uma guerra, mas tenho de estar preparado para o pior.

—Entendo. O senhor já possui um exército?

—Não. Iremos utilizar teus soldados leais que a tanto descansam no paraíso com Xi Wangmu. Iremos até lá e pediremos a permissão da deusa chinesa para dá-los uma última batalha em terreno mundano, e logo após isso a recompensaremos com o mais belo tesouro de todos os mundos!

—Pode funcionar, mestre. Porém, Yama é um dos lordes do mundo inferior, e junto de Ah Puch, irá tentar bloquear tua volta ao mundo superior, para que se torne um eterno prisioneiro e submisso.

—Ceridween irá nos ajudar, amigo. Agora fale mais baixo, pois Nav é um mundo incorpóreo que está coevo em todos os lugares, promovendo a espionagem de certos espíritos indesejáveis do mundo inferior que almejam nos obstar.

***

Longe dali, Hades, um dos lordes do mundo dos mortos, repousava serenamente em um lindo campo que fora acunhado a muito tempo de Campo dos Elíseos. Mesmo estando muito longe, meus sentidos conseguem captar a aura incógnita do deus da morte, que á muito perdera sua força total com o declínio da fé politeísta. A Grécia antiga perdera sua autonomia total com o domínio do Império Otomano, e com isso a crença nos deuses se perdia um pouco a cada dia decorrido... Todavia, isso não foi o suficiente para sobrepujar os deuses, ledor. A própria força vital da natureza os mantém de pé para guardar esses infelizes pérfidos que se renderam tão facilmente à Igreja católica, ainda que contra tua pretensão. Hades, um soberbo falaz, nunca simpatizara comigo; mas, como deus guardião da luz e da justiça, é meu dever alertar a todos os deuses que eu puder sobre os recentes afazeres de Loki, para que todos possam precaver-se o quanto antes.

Após meditar com meu discípulo Sun Tzu, saí de Nurkassa e pus-me a caminhar rumo à Grécia Otomana, com o intuito de encontrar velhos companheiros. Cogitei a possibilidade de convocar Marte á minha empreitada, mas sua sede de sangue é algo bárbaro, insaciável. Isto, claro, é algo pouco relativo, por hora. O importante é que o caminho que se vai até lá está livre e...

...O que foi isso? Um barulho incomum acometeu meus ouvidos, que, no entanto, não puderam identificá-lo facilmente. Aquele campo era um ambiente deveras agradável para mim, com a gramínea cobrindo toda a zona rural da Grécia que se estendia desde os limites da região até os muros da zona urbana. Desembainhei minha espada, mas ninguém se manifestou; então, decidi correr em direção a uma aldeia para obter um mapa e qualquer informação importante acerca daquele local.

—Týr! Venha até aqui velho amigo! –A minha peregrinação foi interrompida por um chamado que não ouvia há muito tempo... E que alegrou meu velho coração guerreiro que há tanto anseia por um afago amigo.

—Galates! Como é bom vê-lo, Por onde andas? –Galates era um jovem magricelo, que trajava apenas uma calça de pano e um capuz de algodão que fora presente meu.

—Atrás de um trabalho, senhor. Já faz anos que não o vejo, desde que descobri que era filho de Hércules, o guerreiro! Mas o que tens em mente para perambular por aqui?

—Quero por abaixo o misterioso plano de Loki, o falaz. Talvez os gregos possam me ajudar a acabar com tudo isso, de um jeito ou de outro. Sabe, desde a ascensão do cristianismo, há um milênio e meio atrás, as nossas forças vêm diminuindo mais e mais, devido ao ínfimo número de fiéis e pagãos devotos a nós. Daqui a pouco, já não existiremos mais, como aconteceu com algumas divindades antigas. E, no fundo do coração, Loki quer salvar a todos nós, eu sei disso. Mas os seus métodos...

—Esqueça isto por um instante e venha beber comigo!

Após alguns minutos de caminhada, Galates e eu chegamos a um vilarejo com uns dez ou dozes casebres, não me lembro quantos eram. Pelo chão de terra batida, crianças gregas corriam livremente, sem nenhum receio ou pudor ante a mim, um estranho que se achegava naquele canto sem ao menos se apresentar ou dizer oi aos moradores dali.

—Venha Týr, quero que conheça Júlia, minha irmã de criação. –Cumprimentei-a simploriamente, com um beijo em sua mão direita. Nunca vi uma mulher mais bonita que aquela, de cabelos ruivos e corpo esbelto. Ela retribuiu a cortesia com um sorriso, que por osmose fez-me sorrir também.

—Chamo-me Týr, e sou um velho amigo de seu irmão.

—É um prazer conhecê-lo, Meu irmão falou muito de ti. Não se acanhe; sei que é um poderoso deus nórdico, e que não viria até a Grécia apenas a passear.

—De fato, és muito esperta. Pedirei ajuda a Hades, para que eu possa entrar no mundo dos mortos e reunir um antigo exército que caíra em combate há muito tempo. Que tal sentarmos um pouco? –Fomos até a casa de Júlia, que ficava a poucos metros dali. Após uns instantes, já estávamos todos em uma mesa bebendo vinho e comendo um suculento animal assado, enquanto debatíamos acerca de meus interesses.

—Desde que nossa nação foi sobrepujada pelos turcos, a fé dos gregos diminuiu muito, fazendo com que os deuses se tornem mais fracos e menos influentes. Se não for sagaz, não conseguirá nada de Hades, já que nenhum deus abatido irá se lançar em uma missão suicida em prol de não sei o que. Aliás... Por que não tenta descobrir o plano de Loki ao invés de impedi-lo?

Fique imerso em meus pensamentos durante muito tempo, e logo me recordei o porquê de impedir Loki. Tentar invadir Ásgarðr? Fazer com que Odin expulse Bragi da terra dos deuses? Isto é um ultraje, isso sim!

—Sabe Julia, Loki tenta fazer o certo, mas opta por meios errados para isso. Ele não está acima das leis divinais para fazer tal coisa, e não tem o direito de imolar nenhum ser vivo em prol de seu disparate. Claro, não é de hoje que ele discorre estes planos. Há milhares de anos, ele tentou usurpar o trono de Utgard-loki, o rei dos gigantes de Jötunheim. Por motivos óbvios ele não obteve sucesso, mas suas idéias revolucionárias ainda fervilham em sua cabeça, prontas para serem executadas por ele a qualquer momento.

—E como pretende falar a Hades? E o que oferecerá em troca? –Galates e Júlia escutavam atentamente ao que eu dizia, sem me interromper ou questionar.

—Tentarei invadir algum templo, onde a comunicação com o mundo divino é mais fácil. Quanto à barganha, irei oferecer minha energia restante a ele, já que necessito apenas de inteligência para vencer uma batalha. –Os dois se entreolharam e Júlia indagou-me:

—Týr, não acha isso muito arriscado? Quero dizer, dar toda a sua energia espiritual para resgatar soldados mortos em combate é muito precipitado! E pelo o que disse Loki ainda não declarou guerra a ninguém, então...

—É melhor estar preparado para a guerra e não haver guerra, do que ter e não estar prevenido.