A última poesia
6 Laxmi e o mundo dos mortos
CAPÍTULO IV
10 de Janeiro de 1500 D.C. (tempo presente)
Após descansarmos bastante, saímos do vilarejo e pegamos uma estrada que levava até a mais bela cidade Grega sob comando turco: Constantinopla. Uma caravana transportando peças de bronze e ouro transitava por ali, e logo atrás de nós um grupo de beberrões cantarolava antigas músicas da Grécia que há muito não se ouvia naqueles confins.
—Vejam! –Júlia indicava um bloqueio na estrada, feito de troncos e pedras. Sentado em uma das rochas, um homem fixava seu olhar em nós.
—Aquele sujeito não me agrada. Vamos por outro caminho! –Galates sugeriu um porto de madeira a uma milha dali que, aliás, possuía uma horrível reputação por seus comerciantes locais.
—Todos os caminhos são perigosos, no entanto, o porto está muito longe, e não temos tempo a perder. Vamos pela estrada, e que os deuses estejam conosco. –Findei.
—O que será que fazem ali? – Galates inquiriu.
—Discorro duas teorias em minha cabeça: Se for um pedágio, nós teremos muito ouro a tributar; agora... Se for uma emboscada, teremos muito ouro a ser furtado. –Júlia rematou, cômica e ironicamente.
Caminhamos serenamente até o bloqueio, onde um brutamonte sentado em um dos troncos nos indagou, prepotente até o último fio de seus escassos cabelos:
—Onde pensam que vão? A estrada está fechada, e apenas os oficiais podem transitar por aqui. –Sua pele morena e seus olhos negros indicavam sua origem incomensurável, mais especificamente de Jötunheim. Distingui logo, e já pude discorrer quem seria seu líder a maquinar um bloqueio desses. Mesmo existindo outras cidades por perto, Constantinopla ainda era a única alternativa viável, pois seus templos eram de uma magnificência extraordinária, e por esse mesmo motivo insisti:
—Façamos assim, nobre sentinela: Dou-lhe cinqüenta peças de ouro e tu nos deixa passar. –O vigia aparentava concordar, mas hesitava ante alguma coisa de ruim que lhe adviria se ele o fizesse. Sua forma mortal não era tão diferente de sua natural aparência colossal, mas ainda sim era melhor do que um venta de colosso.
—Não posso senhor. Não sabe o que me aconteceria se eu fizesse isso.
—Sei sim, caro gigante. Sou Týr, o guardião da justiça, e hei de proteger aqueles que sofrem com as maquinações de Loki. Por favor, deixe-nos passar, pelo bem de todos os mundos, inclusive o seu! –O grandalhão levantou de seu acento e ergueu um dos troncos em nossa direção, mas o lançou a uns quatro metros dali.
—Sou grato por isso, amigo. – Fiz uma breve referência ao gigante, e logo após isso ajudei a caravana de bronze a continuar seu caminho livremente pela estrada turca.
Após horas de caminhada, saímos da via e seguimos por uma trilha de pedra que levava até uma clareira, nosso breve acampamento. Com o advento da noite, Ártemis e as estrelas se achegavam no céu para tomar o lugar do deus sol, que se despedia de nós enquanto se deitava a oeste. A lua, em toda a sua magnificência, lançava seus raios fúlgidos em nós, que permanecíamos deitados sobre a grama enquanto discutíamos sobre o atual estado do mundo. Enquanto eu explicava aos gregos sobre os deuses e a diversidade de panteões existentes nesse mundo, Galates me perguntou sobre divindades hebraicas, e eu o respondi da forma mais clara que pude:
—Javé -ou Jeová- um dos antigos espíritos da criação, um dos filhos da grande explosão. Adjunto de seus anjos e apóstolos, sua essência tornou-se muitíssimo pura para carecer de algo como a fé mundana, o que o torna um dos seres mais poderosos do universo. Jesus, o semideus, também protege todos os seres de Midgard, e devotos a ele, os cristãos vos fortalecem com sua fé e esperança. –Respondi.
—Realmente. Se pudéssemos desviar todo este poder para nós...
—Não diga isso, Júlia. Essa é uma de minhas suspeitas acerca do plano de Loki. Entenda: parte desta fé já é convertida a nós, deuses sem religiosos, que somos eternamente gratos a ele. Ou discorre em tua mente que nós sobrevivemos com todos os nossos devotos mortos? –Continuamos apreciando aqueles belíssimos astros celestiais quando uma estrela cadente cortou os céus. Contemplávamos toda a natureza ao nosso redor, e eu continuei com a elucidação. –Seria uma catástrofe se tudo isto desaparecesse, não? É o que acontecerá se Loki alterar o equilíbrio divinal do nosso mundo. Não me queixo de estar enfraquecendo, pois tenho certeza absoluta de que os antigos espíritos guardam um futuro melhor para nós, e que não devemos alterá-los por nada nesse universo.
—Entendi. Agora vamos dormir, pois o dia será demasiado longo amanhã! –Galates findou. Mal cerrei os olhos, e já pude escutar um barulho vindo da floresta. Todos despontaram da grama e rapidamente apanharam suas armas: Júlia sacou uma faca reluzente, Galates um machado de cortar lenha e eu brandi minha espada de aço Asgardiano. Seguimos aquele som que persistiu durante cinco minutos, até que demos em um aglomerado de armadilhas de caça, talvez cinco ou seis; a arapuca que estava próxima a nós aprisionava uma bela raposa, ao seu lado um cervo tentava escapar e nos seguintes alguns coelhos agonizavam com a dor daquela emboscada.
Após os libertarmos, uma silhueta surgiu da mata e assaltou-nos com uma fortíssima luz, logo em seguida atenuando seu brilho até conseguirmos discernir perfeitamente este estranho corpo. Era mulher, mas não era mortal. Possuía uma beleza inconfundível, que distingui rapidamente quando mirei seu rosto que me era familiar; um rosto divino, o mais esplêndido de todos. Vestia uma túnica rubra e possuía múltiplos ornamentos em seu corpo, tais como aderires de ouro, brincos e braceletes, todos extremamente brilhantes. Todos nós mantemo-nos imóveis, até que Galates indagou-me:
—Quem é esta, Týr? Nunca vi tão bela...
—Brahma enviou-me a vós para guiá-los ao caminho certo. Sou Laxmi, a personificação da beleza, da fartura, da longanimidade e, sobretudo da riqueza. Primeiramente, agradeço por libertarem aqueles animais, que há tanto estertoravam em expiação. Não obstante, não foi para isso que declinei ao mundo dos homens, belos mortais, e... Æsir? –Sua voz suave acalentava-me os ouvidos, que desejavam ouvir sua alocução eternamente.
—Sim. Qual é então o teu desígnio, oh grande deusa? –Roguei por uma resposta. Ela sentou-se em posição de lótus e pôs-se a falar:
—Constantinopla está cercada de espíritos tristes e furiosos do panteão grego, furiosos com os turcos e com o declínio do panteísmo. Não discernindo amigo ou inimigo, eles vos atacarão cegamente, e todo o trabalho que tivemos em torná-lo um deus guerreiro, atenuar os poderes de Loki ao máximo e retardar o quanto antes o avanço do catolicismo ortodoxo será improfícuo.
—Mas precisamos de um exército, Loki provavelmente já tem um e irá invadir Vanarhein, para então ter o controle absoluto da fé humana sem nenhum deus em seu caminho! –Galates havia começava a se exasperar, mas ao vislumbrar os olhos de Laxmi, acalmou-se rapidamente.
—Meu imperante vê tudo que se passa neste e em outros planos, jovem grego. Os antigos espíritos ancestrais, estirpes da grande explosão, permeiam todo o universo, e nada é abstruso a eles. Por isso, tenha em mente que minha palavra é verossímil, quando digo que Loki anseia por em prática a mais absurda idéia já discorrida por qualquer ser vivente: a concepção de um novo mundo sobre Midgard, totalmente utópico e temente à suas leis. –Galates e Julia ficaram boquiabertos, mas eu já aguardava tal resposta. –Não conseguirão nada em Constantinopla, e nenhum deus da morte permitir-vos-ão transitar no submundo assim, tão deliberadamente.
—E o que vossa onipotência sugere que façamos? –Mesmo sendo um poderoso deus guerreiro, conservei a cordialidade para com Laxmi, uma poderosa divindade hindu.
—Queres um exército? Transportar-vos-ei para o submundo, onde a morte repousa e a vida aguarda seu regresso ao mundo dos homens. Lá, encontrarão o que procuram, mas não conseguirão argumentar com Hades ou qualquer lorde infernal. Deves falar a Lúcifer, o sagaz, se quiserem sair com uma tropa de lá, mas deixarão algo precioso para trás, como barganha.
—E o que seria essa barganha? –Perguntei.
—Nem todo o meu tesouro poderia saciar a luxúria de Lúcifer, jovem Týr. Verás quando for o momento certo e o porquê de não ter o dito cá. Agora, mandar-vos-ei para Paatal, o mundo dos mortos.
Os olhos da deusa se iluminaram com uma fortíssima chama que não a queimava; simultaneamente, seus adereços de ouro flutuavam atados em seu corpo, e ao pronunciar de uma inteligível palavra, um ser materializou-se à nossa presença, trajando uma reluzente armadura e uma poderosa espada que era chamada de Astra. Com um golpe certeiro, Atiratha, o guerreiro, rasgou nossos corpos em menos de um segundo, retalhando nossos membros e incendiando-os com um sopro de fogo. Antes de morrermos, Laxmi veio até meu corpo e sussurrou em meu ouvido:
—Vá para Paatal, e não confie em ninguém.
Corvos sobrevoavam nossos restos mortais, instantes depois mergulhando em rasante até alcançarem o solo para se alimentarem. Minha visão ficou ligeiramente escura, até estarmos numa penumbra total onde não discerníamos nem nossos próprios pés. Confesso, aqui para você, que apresentei um pouco de temor, mas não havia mais volta. Estávamos sozinhos (presumi, de súbito), mas alertei a todos para serem cautelosos. Nossas almas não apresentavam quaisquer danos do ataque anterior, o que nos assustou um pouco. Galates, que estava atrás de mim, gritou, talvez de medo, e inesperadamente uma luz fulgurou por ali, chamando a atenção de todos. Era uma vela, e seu fogo tremulava uma sombra sinuosa uns... Digamos dez metros à frente. Esteja cônscio de que não tínhamos nenhum senso de distância, nem mesmo de profundidade. Com nossos espíritos intactos, conseguimos nos levantar e ficar de pé, e em seguida andamos até aquela curiosa vela sem dificuldade alguma, o que nos atenuou a dor da rápida, porém dolorosa morte que sofremos á pouco no plano superior. A obscuridade reinava naquele ambiente, e murmúrios nos acometiam a cada instante, assustando vorazmente os dois mortais que nunca haviam presenciado tal fenômeno. Estacamos em frente à rara fonte de luz, e em minutos empós, todo o local se iluminou, como um flash de luz ou uma explosão; depois de um tempo observando o local, pudemos ver um porto, onde uma barcarola estava presa por uma corda velha.
—O que está acontecendo, Týr? – Júlia buscava em mim alguma resposta, todavia eu estava tão dúbio quanto eles.
—Acho que estamos no mundo dos mortos, a julgar monotonia e a penumbra deste lugar.
—És atinado, oh poderoso Týr.
Um ossudo encapuzado, de olhar profundo e meio-sorriso veio até mim e continuou falando com sua voz de baixa ressonância.
—Seja bem vindo, grande Æsir. O que fazes aqui, neste lugar pútrido? –Sua voz gutural tremulou as aurículas de Galates, que ficou ainda mais assombrado.
—Venho em nome dos antigos espíritos, e pretendo levar comigo alguns soldados mortos para servirem a mim uma última vez. Pode me levar até eles? Não temos tempo, diga logo se irá ou não.
—Tu, maneta desajuizado, sabe o quão grande é este plano? Não posso levá-lo a lugar algum sem nenhuma informação exata! Ou pensa que sou tua bússola particular? –Aproximei-me do sujeito e o esganei velozmente, até que impetrou a todos por clemência. Os dois gregos que me seguiam se surpreenderam, porém não deveriam; Estes lacaios dos lordes infernais são tão arrogantes quanto são fracos.
—Obedecer-me-á até o fim desta missão, lacaio, ou o quebrarei osso por osso! –Após dizer isso, eu soltei o coitado, que rapidamente subiu a bordo de sua canoa enegrecida.
—Leve-nos até Xi Wangmu; tenho algo a oferecê-la.
O rio dos mortos tinha uns, vejamos, dez metros de largura, não era muito grande. Enquanto navegávamos, o velho porto ia se distanciando, até que aquela estranha vela apagou-se totalmente. A escuridão daquele lugar era demasiada que não avistávamos o horizonte, até que o barqueiro catou uma pederneira no casco e ascendeu uma lamparina que perdurava em nossas cabeças em uma viga. Após alguns minutos de náutica cega, chegamos a uma encruzilhada que levava ao reino de Hades, pelo norte; Helgardh, pelo leste; ao palácio de Anúbis pelo oeste e a outras dimensões do submundo pelo noroeste. Parando de remar, o barqueiro indagou-nos:
—Que rumo tomará senhor?
—Temos que ir à Xi Wangmu, porém devemos falar a Lúcifer para conseguirmos voltar. Qual seria o caminho para o inferno cristão, barqueiro? –Perguntei.
—Vamos para noroeste. A propósito, como morreram? È absolutamente normal dois jovens morrerem, mas não um Æsir. –Sentei numa das bordas da barcarola e comecei a falar.
—Fomos mortos por um poderoso guerreiro hindu, cônscios de que viríamos para cá. Apenas navegue, e serás recompensado no final. –Vários espíritos atormentados nos assaltavam de súbito, e de vez em quando um ser inferior tentava subir a bordo da barcarola. Júlia, que era fascinada pelos mistérios da morte, observava atenta a todos os lugares por onde passávamos, perdendo o temor aos poucos.
Fale com o autor