A Última Aurora
1 Ecos na Terra Enlutada
A terra de Nightreign gemia sob o peso da Noite. Não era um som audível, mas o Guardian sentia-o nos ossos, como uma dor antiga que nunca cicatrizara. Caminhava sozinho entre colinas cobertas de cinza, a lança firme na mão, o escudo marcado pelos símbolos do seu povo agora deformados, tal como eles.
Quando as criaturas surgiram, não houve surpresa. A Noite raramente avisava. Corpos incompletos, olhos vazios, avançaram como um único organismo. O Guardian respondeu com precisão treinada, mas o cansaço acumulado tornava cada golpe mais pesado.
Foi então que a chama violeta rasgou a escuridão.
O ataque cessou quase de imediato, as criaturas recuando como se tivessem sido chamadas de volta ao nada. Ele virou-se, desconfiado, e viu-a.
A Recluse estava imóvel, com o manto negro a ondular lentamente, como se respirasse com a Noite. Os olhos encontraram-se por um instante demasiado longo.
— Ainda estás vivo — disse ela. Não era ironia. Era constatação.
— Não costumo dever a vida a estranhos — respondeu ele.
— Compreendo, então não me vejas como tal.
Caminharam juntos até um abrigo natural. O silêncio entre ambos não era desconfortável, mas denso. Quando ela se sentou junto à fogueira, o Guardian reparou nas mãos dela: firmes, mas marcadas por tremores subtis.
— És uma estudiosa da Noite — disse ele.
— Sou alguém que sobreviveu a ela.
Durante a noite, foram atacados novamente. Mas desta vez, lutaram lado a lado, quase sem trocar palavras. Quando tudo terminou, o Guardian sentou-se pesadamente. A Recluse aproximou-se e pousou-lhe a mão no antebraço, num gesto breve, quase inconsciente.
— Estás ferido.
— Não é nada.
Mesmo assim, ela ajoelhou-se à sua frente, tocando-lhe no braço com cuidado. O toque era quente, real, inesperadamente reconfortante. Ele deixou-a ficar.
Naquele instante, sem saber porquê, o Guardian sentiu que a sua solidão tinha acabado.
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