A Órfã Doce

21 Todo mundo quer saber


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. To passando aqui bem rapidinho para deixar mais um capítulo. Como já é dia 29, eu irei postar mais tarde. Boa leitura.

“Estudante Lynn salva F4 e leva tiro”. – li mentalmente. – “Esse pessoal gosta de me foder mesmo”.

– Oh! É verdade? – Ambre se aproximou de mim. – Você me parece saudável, deve ser outra noticia errada.

– Ela faltou uma semana. – foi a primeira frase de Charlotte para mim. – Fizeram uma cerimônia de premiação e falaram dela.

– Oh! Aposto que quem foram os heróis da vez foram a Rosalya e o Kentin. – Li falou cruzando os braços. – Deve ter levado o tiro porque você não sabe fazer nada. Nem sei como te deixaram ir. Aposto como foi só um estorvo.

– E você sabe? – perguntei com toda calma e aguardei a resposta, já que não a recebi, continuei. – Por que não foi lá para ser baleada e morrer? Garanto que ninguém sentiria falta.

– Não fale bobagens, plebeia! – Ambre pôs a mão no meu ombro e me empurrou de leve.

– Lynn! – Alexy veio gritando e pegou minha mão. – Eca! – ele exclamou olhando para as meninas e fez cara de nojo. – Por que está falando com elas?

– Elas que vieram me perturbar. – expliquei.

– De qualquer forma venha, o F4 quer agradecer a você. – ele falou dando uns passos e me puxando.

Logo Alexy parou de andar, virou a cabeça para trás e mostrou a língua para as meninas. Virou-se para frente dando uma risada e foi correndo enquanto me puxava para a sala do F4.

– Lynn. – Lysandre sorriu a me ver. – Entre. – pediu.

Na sala do F4 haviam vários balões e uma faixa que dizia “Obrigado por nos salvar”. Kentin estava com uma cara meio emburrada.

– Algum problema? – perguntei baixo ao me aproximar dele.

– Estão dando mais mérito a você do que a mim, obrigado hein! – ele cruzou os braços e saiu me deixando sozinha com os meninos.

“O que deu nele?” – pensei. – “Nem atiraram nele para ele estar se queixando”.

– Deixe-o – Armin falou. – Às vezes Kentin é meio egoísta. – ele afirmou, aparentava saber exatamente o que Kentin havia falado antes de eu aparecer.

– É até meio intimidante o jeito que ele fala com as pessoas. – Lysandre comentou. – Acho que muitos aqui nessa sala deveriam ser mais calmos. – Lysandre lançou um olhar de censura para Armin e Castiel.

– O que? – Castiel o olhou. – Está falando de mim?

– É claro, sua moça. – Armin bradou. – Quando nos prenderam na sala, você gritou como uma menina.

– Hei, seu idiota. – Castiel corou e começou a falar nervoso. – Não fale essas coisas na frente dos outros.

Fiquei meio sem jeito apenas observando a confusão. Notava-se que Armin era uma pessoa que arrumava confusão com todo mundo, até porque ele nunca se incomodou em falar a verdade. Ele gostava de fazer confusão e de colocar lenha na fogueira para assistir a outras confusões. Mas era cômico o modo como ele falava.

– Tanto faz. – ele fez bico. – Pelo menos fomos resgatados.

– É claro. – Alexy sorriu. – Mas... Sinto-me meio mal pelo Kentin.

– Que nada, isso é só birra. – Castiel revirou os olhos. – Ele está sendo infantil, isso sim.

– Olha quem fala de ser infantil. – Armin sorriu irônico.

– Calado. – Castiel bradou.

– Calado você! – Armin exclamou colocando a mão na cintura.

– Calado. – Castiel repetiu novamente.

– Fiquem quietos, eu quero todo mundo quieto! – Lysandre levantou a voz e logo a sala silenciou. – Lynn, compramos um bolo pra você, mas não deu para ele ser entregue hoje.

– Como você é estraga prazeres. – Alexy cruzou os braços e fez bico. – Era pra ser uma surpresa.

– Quem encomendou o bolo não fui eu, Alexy. – Lysandre retrucou mandando uma indireta. – Fiz isso para você. – ele me estendeu um envelope. – Abra ao chegar em casa.

Retirei-me da sala, disse que tinha combinado de ir nadar com Iris. Ao chegar lá ela estava com outra menina, a menina estava com um maiô azul, combinava com seu cabelo que era da mesma cor.

– Oi. – cumprimentei as duas.

– Oi, Lynn. – Iris falou sorridente. – Essa aqui é a Lety. – ela falou apontando para a menina.

– Oi. – ela acenou para mim.

– Oi. – sorri indo para o banheiro da sala da piscina para me trocar.

“Quanto peito”. – pensei triste encarando os seios de Lety. – “Ela bem que podia me fazer uma doação”. – choraminguei um pouco olhando para os meus seios no espelho.

Ao voltar, vi que Iris não parava de falar com Lety. Lety e Iris eram amigas de infância. Mantiveram contato pela internet, Lety se mudou por conta do emprego dos pais, mas Iris não comentou nada sobre o porquê ter voltado para a Inglaterra e finalmente ter retornado a Sweet Amoris há alguns anos. Lety havia retornado há algumas semanas.

“Por isso que Iris não vinha nadar constantemente, estava com ela”. – pensei.

– Hei, é verdade que aquele Ken do F4 foi para a escola militar? – Lety perguntou.

– Sim. – afirmei, não tinha outro mesmo.

– Nossa. – ela deu um suspiro triste. – Eu já estudei aqui na Sweet Amoris, Ken era muito diferente.

“Ken... Duvido que ele deixe alguém chama-lo assim, ele não permitiu nem que Armin o chamasse assim”. – pensei.

– Como assim? – perguntei curiosa, até ignorava os olhares de censura de Iris que diziam mais ou menos: “Não seja curiosa, não faça essas perguntas”.

– Ele estudou aqui desde pequeno, e eu já fazia parte da Sweet Amoris na mesma idade dele. – ela suspirou. – Ele era muito zoado, magrelo dos óculos fundo de garrafa e cabelo tigelinha.

“Como ela fala assim das pessoas?” – pensei. – “Isso é falta de educação”.

– Eu caçoava muito dele com as meninas. – Lety riu.

– Que meninas? – perguntei.

– Ah! Você sabe... – ela deu pausa, logo viu que eu não sabia de quem se tratava. – Ambre, Li, Peggy, Violette... Essas meninas.

– Você fazia isso com aquelas nojentas? – perguntei fazendo careta.

– Eu queria fazer uma máquina do tempo pra ser gentil com ele. – ela fez bico. – Ele entrou no F4 quando Castiel descobriu o nível da família de Kentin, você sabe né? Na época o pai do Ken era um militar super famoso e rico... Até ele falecer.

“O PAI DO KENTIN MORREU?” – o pensamento gritava e ecoava na minha cabeça, puro espanto, puro choque. Por isso ele não falava do pai? Por isso que ele disse que só a avó dele era militar? Por isso ele ficou diferente quando tocou no nome do pai por acaso?

– Enfim. – Lety continuou como se não tivesse falado nada demais. – Se eu soubesse que ele ia ficar gatinho assim, teria sido gentil com ele. A escola inteira ia olhar pra mim. Imagina só: eu namorada de um membro do F4.

– Não gostei de você. – confessei de uma vez, ela aparentava estar surpresa.

– LYNN! – Iris falou com tom repreensivo e com olhar de censura.

– Você é muito superficial. – continuei séria vendo a expressão dela mudar. – Deveria se importar com o que as pessoas são e não com o que elas têm ou e são ou não bonitas! – exclamei me levantando. – Com licença, tenho que ir.

Saí abotoando os botões da blusa, nem cheguei a nadar muito. Deparei-me com Kentin fazendo a mesma melodia no violino, a mesma melodia triste. Kentin estava com a expressão que combinava com a melodia melancólica. Fiquei observando de longe, não queria atrapalhar. Kentin estava cabisbaixo. A luz invadia todo o ambiente, mas era amenizada por todas as árvores que ali tinham. Vi uma lágrima escorrer, vi duas, três. Logo as notas foram desafinando e eu ouvi o ruído de uma das cordas no violino partindo.

Kentin sentou-se no banco ao lado, com os cotovelos apoiados no joelho, chorando. Havia notado que quando a corda partiu havia feito um corte em seu dedo. Apareci, eu devia dizer alguma palavra bonita, alguma coisa que fosse conforta-lo. Mas achei melhor me fazer de desentendida por uns instantes.

– Kentin, se aborreceu muito comigo porque eu roubei a cena? – dei um meio sorriso, tentando anima-lo.

– Você...? – ele baixou a cabeça mais ainda para que eu não visse que ele estava chorando, mesmo que a voz revelasse isso de uma forma ou de outra. – Não estou zangado por isso.

– É por causa da Lety? – perguntei.

“Nossa Lynn, tão sútil quanto um alarme de carro”. – pensei logo me arrependendo da mancada que tinha acabado de cometer. – “Lynn, você tem que aprender a pensar antes de falar”.

– Ela abriu a boca, não é? – ele interrogou, mas já que sabia a resposta, não me deu tempo para responder. – Eu sempre vou repugnar aquela estupida por tudo que ela fez.

– Entre ela e Ambre não se acha muitas diferenças. – comentei me aproximando. – Como sabe que ela falou de você para mim?

– Eu fui até a piscina assim que a vi. – Kentin falava ainda cabisbaixo. – Ela falou tudo sobre mim para Iris. – ele suspirou. – Ela é pior que a Peggy. E logo você, que tem uma ligação indireta com o F4. Ela não deixaria de te contar algum podre meu. Talvez para tentar fazer você caçoar de mim, assim eu teria ódio de você e talvez esquecesse mais meu ódio por ela.

– E ela tentaria ficar com você, claro... – pausei um pouco entendo tudo. – Mas se você tem um pingo de cérebro...

– Acha que eu sou burro? – ele me cortou e falou rápido, parecia estar ofendido. – Antigamente eu era bobo, me apaixonava por meninas idiotas. Hoje eu tenho o prazer de pisar quem pisou em mim. – ele levantou a cabeça, parecia não se importar com as lágrimas. Seu rosto ainda estava molhado, mas nenhuma outra escorria.

Kentin era uma pessoa orgulhosa, talvez esse ego inflado era resultado de gente idiota que caçoava dele. Eu tinha o direito de julga-lo? Claro que não. Para falar a verdade, eu faria o mesmo. E não posso falar dele, eu também sou uma pessoa orgulhosa, ainda mais quando as pessoas tentam me jogar no chão e pisar em mim.

– Não quis dizer isso. – me corrigi sentando no banco de costas para ele, ele também estava de costas para mim.

– E por que veio aqui? – ele me olhou. – Sente que tem alguma dívida comigo?

– Para falar a verdade, eu vim cobrar algo de você. – cruzei os braços. – Eu me senti muito mal quando contei para você sobre os meus pais, ainda mais que isso foi depois de virar noticia da escola inteira.

– E o que você quer de mim? – ele perguntou me olhando.

– Por que não falou sobre o seu pai? – bradei.

– É mais fácil escutar a desgraça alheia do que por a sua na mesa. – ele falou descaradamente dando um sorriso forçado. – Eu apenas perguntei, não forcei você a nada, disso você não pode discordar. Você contou por livre e espontânea vontade.

– Isso é... – pausei mordendo o lábio inferior.

– Mas... – ele baixou a cabeça novamente, segurou minha mão de leve. – É verdade... Perdi meu pai na guerra, assim como o seu. Senti algo em comum, achei que eu era o único... Fingi estar zangado por sua causa, mas não era. Era por causa daquela fofoqueira que iria sair espalhando minha desgraça como se fosse uma doença. Apenas quis disfarçar para os meninos não pegarem no meu pé.

Kentin já soluçava, o seu olhar baixou novamente. Meus olhos marejaram. Eu posso ter sofrido desigualdade na escola militar, posso ter sofrido na mão de famílias gananciosas, eu posso ter levado um tiro, eu posso dizer que eu me sinto mais resistente com tudo isso que eu vivi, posso dizer que eu sou forte. Mas tudo isso e quebra quando eu vejo alguém sofrer, quando eu vejo alguém chorar.

Agachei-me ficando frente a frente com Kentin. Peguei um lencinho na mochila e pus na mão dele, segurando fortemente como se nunca mais fosse soltar. Os olhos dele se encontraram aos meus, ele estava corado, parecia que chorar na frente de uma menina era uma vergonha e tanto.

– Se sente menos homem quando chora? – perguntei.

– Sim. – ele afirmou puxando a mão para si.

– Não devia. – puxei a mão do mesmo de volta , que ficou entre as minhas duas mãos que eram bem menores comparadas com as dele. – Vocês homens são tão orgulhosos. – dei um meio sorriso.

– Não seja boba. – ele devolveu o sorriso, mesmo que quisesse continuar chorando. Aquilo era meio que evidente. – Mas eu cometi um erro em não te agradecer.

– Não precisa me agradecer por nada. – falei dobrando o lenço e amarrando ao dedo dele. – Sabe... Certa loira... – pausei um pouco o encarando. – Uma vez me falou que devemos fazer aquilo que achamos certo, independente de agradecimentos ou recompensas.

Kentin limpou as lágrimas e deu um sorriso ainda olhando para baixo. Levantei-me e segui meu caminho acenando para ele sem olhar para trás.

As horas passaram como se o vento tivesse as arrastado como faz com as areias da praia. Estava chegando em casa, logo lembrei do envelope de Lysandre, o abri e comecei a lê-lo.

“Mas... O quê que é isso?” – pensei corando.

Notas finais
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