A Órfã Doce
16 Situação pesada
Notas iniciais

– Sente-se bem? – perguntou Lysandre. – Você está branca.
– Sim, estou bem... – respondi nervosa. – Está tudo bem. – reforcei.
Ao adentrarmos no prédio, sentia minhas pernas tremerem.
“Eu posso cair dura e bater a cabeça no chão” – pensei. – “Assim não vou ter que atirar e nem ser reconhecida por ninguém”.
– Hei. – Kentin colocou a mão no meu ombro. – É ali. – ele falou me puxando para o lado.
– Mas... Os meninos estão indo pra lá... – questionei.
– Oh! Devem estar indo cumprimentar a diretora. – explicou abrindo um sorriso.
“É verdade, a diretoria fica daquele lado. Estou meio desorientada” – pensei.
– Hei Kentin. – o chamei enquanto o acompanhava. – Você disse que a sua avó é militar.
– Ela é a diretora daqui. – ele falou revirando a bolsa.
Pensei que ele ia tirar a arma, munição, garrafa de água, uma árvore, uma estatua budista. Mas não, ele tirou um pacote de biscoitos de chocolate.
– Quer um? – ele ofereceu com um sorriso.
– Hm... Ok. – aceitei pegando um e dando uma mordida. – Isso não engorda?
– Nunca engordei. – ele falou com um biscoito na boca, metade para dentro metade para fora.
“Estou vendo que não”. – olhei para a bunda dele. – “Tenho que parar de fazer isso. Do jeito que esse menino é, vai acabar percebendo”. – corei.
– Você era dessa escola? – mudei de assunto, nervosa.
– Não. – ele respondeu. – Eu morava em outro país, eu sei que o Alexy abriu a boca e falou alguma coisa da gente.
– Sim, ele falou do tempo que o F4 se separou... – falei pausando um pouco tentando lembrar das exatas palavras.
– Oh! Claro. – Kentin suspirou me puxando para outra direção até chegar à base de treinamento de rifles. – Acho que o único que ficou aqui enchendo o saco dos outros foi o Castiel. – brincou. – Para falar a verdade eu fui o ultimo do F4 a voltar para a Sweet Amoris.
– Você me disse que passou cinco anos na escola militar, certo? – perguntei sorrindo, me fazendo de inocente.
– Sim. – ele confirmou. – Meu pai... – ele pausou e quase não continuava. – Me colocou na escola militar... Fui para a Alemanha.
– Seu pai era militar? Ou você tinha um comportamento ruim? – perguntei.
– O que quer dizer com isso? – ele me olhou se sentindo ofendido com a segunda alternativa.
– É que... A maioria dos casos são esses... Pelo que eu ouvi falar, claro. – cocei a cabeça desviando o olhar.
“Está vendo, Lynn? Não reclame quando for descoberta” – pensei. – “Não estrague tudo com sua curiosidade”.
– Quem falou isso? – ele perguntou. – Algum idiota que te adotou?
– Não. – respondi com calma, mesmo que uma veia pulsando na minha testa dissesse revelasse o meu verdadeiro humor.
– Fui para a escola militar porque meu pai era militar. – ele falou.
– Ué... – parei de andar e o encarei. – Mas você não disse que só a sua avó era militar?
– Chegamos. – ele mudou de assunto quando chegamos ao local de treinamento.
– Até que enfim. – falei levantando os braços. – O rifle está pesado.
Tinham espécie de balcões ou sei lá como eram – mesmo passando sete anos numa escola militar, não sei qual era o nome daquelas coisas– , mas serviam para deixar a munição lá em cima e apoiar o rifle.
Como eu era a atiradora sniper da minha turma da escola militar, costumava a atirar deitada. Peguei um banquinho baixinho, subi nele e me debrucei sobre aquele apoio que citei agora a pouco.
– Por que jogou os peitos aí em cima? – Kentin perguntou me olhando.
– Hei! – gritei o olhando. – Estava olhando para os meus peitos?!
– N-Não! – ele respondeu corado. – É que essa posição é de quem é atirador sniper.
– Eu era atiradora sniper. – sorri falando até demais.
– Quando? – ele perguntou me olhando com desconfiança.
– Lembra-se que eu sou órfã e fui adotada várias vezes? – comecei a enrolar para arrumar uma desculpa. – Meu ultimo pai era um cara colecionador de armas. Era o hobbie dele, digamos. – digamos que eu nem menti, em parte o tio fadinha realmente era perito em armas, mas ele só vendia. Isso SE os boatos que me contaram forem verdadeiros.
– Passou quanto tempo morando com ele? – Kentin perguntou enquanto mexia na munição.
– Sete anos. – respondi já mirando no alvo.
– O que houve com ele? – Kentin perguntou.
– Ele... – logo desfiz minha posição. – Foi assassinado.
Kentin pareceu receber um choque momentâneo.
– Você já perdeu muitas pessoas na sua vida. – ele me olhou.
– Não me olhe assim. – falei soltando a arma e apontando o dedo para ele. – Esse olhar de pena é repugnante.
– Você é muito orgulhosa, não é? – ele deu um sorriso sarcástico. – Aliás, não precisa responder. Foi uma pergunta retórica.
– Vamos atirar ou não? – perguntei zangada.
– Sempre faço tiro ao alvo com os meninos, só que fica mais divertido com uma aposta. – ele falou me olhando safado. – Que tal jogarmos Alvo Strip?
– O que é isso? – perguntei já corada por conta do nome.
– A cada rodada vamos competir, quem perder a rodada tira uma peça de roupa. – ele sorriu safado.
– O que? – gritei. – Se pensa que eu vou tirar a roupa para você, está muito enganado. Está tão enganado que acha que vai continuar tendo um saco se propor essa porcaria novamente.
– Eu estou brincando. – Kentin revirou os olhos. – O que eu iria querer com uma tábua como você?
– Tábua?! Se eu sou tábua por que estava olhando para os meus peitos? – questionei totalmente irritada, queria bater nele.
– Que peitos? – ele provocou com um sorriso na cara.
Estava quase para explodir, tomei minha posição novamente, logo Kentin voltou a se pronunciar.
– Se você perder, sai com o Castiel. – ele falou.
– Com o Castiel?! – choraminguei ainda na posição de mira. – E o que eu ganho se vencer?
– Ah, fala sério. – Kentin deu risada. – Isso nunca vai acontecer.
– Se não vai acontecer. – pausei um pouco. – Me proponha algo pelo menos, para que a aposta seja justa.
– Tá. – ele falou silenciando por uns segundos, parecia pensar em algo. – Você sai comigo.
– Ah! Droga! – exclamei reclamando. – Eu não vou ganhar nada com isso.
– Não sair com o Castiel já é uma grande coisa. — ele respondeu alto. – VAMOS LÁ! – ele gritou atirando no alvo primeiro.
Peguei meu binóculo, parecia que ele tinha tremido demais por causa do impacto da arma, chegou perto do alvo, mas não acertou no centro.
– Estou enferrujado. – Kentin justificou pegando o binóculo e fazendo uma expressão triste. – Sua vez.
Fiquei em posição me debruçando sobre o apoio que estava. Dei o tiro, logo meu coração acelerou. Peguei o binóculo, tinha errado e acertado mais longe do centro do que Kentin.
– Oh! – ele falou debochando. – Vai sair com o Castiel.
– Não, vai ser uma melhor de três. – sorri me posicionando e dando o segundo tiro.
O tiro havia acertado bem o alvo, recebi até um elogio de Kentin.
Kentin era um bom atirador, mas não era lá essas coisas. Talvez fosse verdade sobre o que ele falou de estar enferrujado. Eu nunca perdi a prática, ainda mais porque não tinha tempo pra esquecer como atirar, tinha saído dali a pouquíssimo tempo.
– Você ganhou?! – Kentin bradou com um tom inconformado.
– Meu querido. – o chamei soprando o cano do rifle. – Eu sou diva, eu sambo na sua cara.
– Ninguém nunca me venceu. – ele estava tão inconformado que foi até os alvos para ver se era verdade. – Você trapaceou.
– O que? – falei indo até ele. – Não seja um mal perdedor. – falei o agarrando pela gola da camisa.
– Fez isso só pra sair comigo? – ele perguntou com um olhar pervertido.
– Não. – o soltei e o empurrei. – Eu iria adivinhar que ia ganhar? Achei que ia perder sobre as coisas que falaram de você, mas você não é de nada. – sorri perversamente, senti que tinha deixado ele pirado na batatinha.
– Eu vou agredir você. – ele apontou para mim.
– Eu já ganhei de você duas vezes. – fiz o número dois com o dedo indicador e médio.
– Eu peguei leve com você. – ele resmungou cruzando os braços e desviando o olhar.
– Como?! – exclamei me ofendendo. – Se pegou leve ou não, não quero saber. Sei que você é um perdedor.
Fiz um L com o dedo indicador e polegar, coloquei do lado direito da testa.
– Loser. – falei com um tom provocativo.
Kentin fechou o punho e suspirou alto, recuei um pouco com receio de que ele poderia vir para cima de mim.
– Eu não bato em meninas. – ele expirou recolhendo as mãos para trás das costas. – Aliás, você não tem nível nenhum para mim.
Kentin saiu furioso. Acabou que a aposta foi cancelada por ele ser um mau perdedor. Fui segui-lo e esbarrei em alguém.
– Oh! Perdão. – me desculpei corando.
– Oi, Lynn. – a pessoa falou, logo vi que era a Tia.
– Oi, tia. – falei meio envergonhada. – Pode pedir para ninguém falar comigo aqui na base?
– Por quê? – ela perguntou. – Você sempre se orgulhou tanto de ter estudado aqui.
– E ainda me orgulho. – retruquei. – Mas... Faça só isso, depois esclareço as coisas melhor.
Acabou que os meninos nada fizeram sobre atirar. Lysandre era contra armamento, ele só atirava com munição de chumbinho e era só porque os outros iam praticar tiro ao alvo. Armin ficou sentado, nem pegou na arma, ficou jogando o dia todo. Segundo a Lysandre, Castiel ficou batendo papo com a diretora e esqueceu-se de ir praticar tiro conosco.
“Ele ficou se exibindo.” – foi a frase que Lysandre usou.
Voltei para casa aliviada. Assim que entrei no apartamento ouvi batidas na porta.
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