A Órfã Doce
87 Remédios
Notas iniciais

“12/11/2025. A tia Mika apareceu dias depois que invadiram a casa, ela ficou bastante eufórica quando soube, não era para menos. Acabei contando para Lana quando ela veio à minha casa de noite. Falando na Lana, quando eu fui abrir o portão para ela, Nathaniel e ela estavam conversando, mas ela não quis comentar nada sobre o assunto. Kentin acabou falando tanto da porcaria da festa do Castiel, e acabou me convencendo a ir”.
Kentin usou argumentos de que eu deveria esquecer meus atritos com Castiel, que eu teria que superar aquilo uma hora ou outra. Que eu teria que suportar viver no mesmo ambiente que ele, mesmo que fosse por pouco tempo.
– A Rosalya nos convidou para o casamento dela. – Kentin contou. – O Leigh perguntou se você poderia ser uma das madrinhas.
“Madrinha? Por que eu?”.
Talvez Leigh simplesmente tivesse simpatizado comigo. E mesmo quase sem esperanças, eu torcia desesperadamente para que Lysandre estivesse no casamento do irmão.
– Não, ele não vai. – anunciou Kentin. – As coisas estão bem... Complicadas para ele.
– Poderia me dizer o verdadeiro motivo? – perguntei, Kentin arqueou a sobrancelha. – O motivo real dele ter ido embora. – completei.
Um suspiro, mas uma justificativa.
– Ele se sentiu culpado. Na ultima vez que viu o pai, eles brigaram porque Lysandre não queria se mudar para lá. – assenti levemente com a cabeça, desviando o olhar para as paredes do cômodo – E ele não foi morar na França porque não queria se afastar de certa garota.
Pelo olhar que Kentin me lançava, deu para deduzir que a “certa garota” era eu. Porque não queria se separar de mim... E tudo que eu fiz foi magoá-lo.
– Achei justo ele ter te largado. – Kentin deu de ombros. – Você mereceu, tampinha.
Poderia ser duro ver Kentin de braços cruzados para mim. Talvez estivesse me escutado quando falei sobre a super proteção desnecessária. E sem sombra de duvidas, eu estava merecendo, e eu tinha que começar a encarar as coisas de frente, e sem ajuda.
Às vezes, quando tomava algumas doses de bebida morna a mesa junto com Kentin, tinha trechos de memória do dia em que acordei desmaiada na escada sem blusa. Naquele noite, já meio tonta, decidi tocar nesse assunto.
– Você se lembra de algo daquele dia? – perguntei, ele fez careta para entender sobre o que eu falava. – Aquele dia que eu acordei largada na escada.
– Não sei do que se trata.
– Não seja mentiroso, eu te contei sobre isso. Até contei que te achei pelado no banheiro.
– Tá, eu lembro. Só não precisamos falar sobre isso.
– Por que não quer falar? – arregalei os olhos. – Não me diga que aconteceu algo?
– Não, não aconteceu nada. Por isso não é preciso falar sobre isso. – ele encerrou, corado e constrangido. – A festa do Castiel é amanhã a noite, certo?
– Certo. – virei uma dose de tequila – Que horas mesmo?
– Na hora que der na telha. – ele se espreguiçou e voltou as mãos desengonçadas para a garrafa, enchendo o copo para tomar mais uma dose. – Eu nunca vou na hora que ele me diz para ir. No começo sempre todo mundo está engomadinho e certinho, depois de umas duas horas é que todo começa a roçar um no outro. É nesse horário que eu quero ir.
Revirei os olhos, e ele virou a dose de tequila garganta abaixo.
– Estava mesmo com a Lety?
– Quando?
– Quando você me ligou reclamando sobre o Armin.
– Ah. Estava. Por quê?
– Porque eu te acho patético por ficar se rebaixando a uma garota do nível dela.
– E o que você tem com isso? – ele fez careta. – Não deveria ficar se metendo nos meus assuntos.
– Você não tinha que ficar se metendo na minha vida, mas você cuidava mais da minha vida do que da sua própria. – rebati. – Mas reconhecer, você não reconhece.
Ele deu de ombros, encheu o copo com a ultima dose, a virou e levantou-se.
– Vou dormir.
E saiu cambaleando um pouco até as escadas, subiu e eu fiquei sozinha na cozinha. Debrucei-me sobre a mesa e fiquei pensando em como tudo deu errado. A doença, o Lysandre, saber que eu tinha uma irmã e que ela estava morta junto com a minha mãe biológica. Tudo aquilo ainda me assombrava. Acabei adormecendo na mesa e acordei deitada no sofá, com um cobertor.
Nevava, nevou o dia inteiro. Exceto na hora de sairmos à noite. E eu passei o caminho resmungando.
– Está tarde. – reclamei. – Nem deveríamos estar saindo numa hora dessas.
– Não é nenhuma festa de criança para começar cedo, tampinha. – retrucou Kentin. – É uma festa de adultos. Se não se sentir bem, eu te levo para casa e te compro uma mamadeira.
– Hei! Não fale como se fosse milhões de anos mais velho do que eu!
Quando chegamos, vi que era para ser uma festa mais elegante por ver a roupa de alguns convidados. Entretanto, a maioria já cambaleava com taças de bebida na mão, mas nada do que Kentin havia descrito.
– Ele sempre faz isso, sempre tenta fazer uma festa toda certinha. – Kentin explicou. – Mas até que não tem ninguém roçando em ninguém. Acho que chegamos cedo.
Andava entre as pessoas agarrada ao braço de Kentin. Havia alguns homens na festa, e os mesmos olhavam descaradamente para qualquer mulher que passava, de forma totalmente maliciosa.
– Tem uma garota sozinha ali. – Kentin comentou dando um passo em direção a ela.
– É, e vai ter uma sozinha aqui se você for atrás de qualquer mocreia nessa droga de festa. – o puxei pelo braço. – Se veio para a festa para passar o rodão, deveria ter me deixado em casa. Pode tirar o cavalinho da chuva, não vim até aqui para simplesmente ser deixada de lado.
Ele fez bico, e o segurei pelo braço mais fortemente, insistindo o sermão anterior.
Um som agudo ecoou pelo salão, vindo de uma caixa de som. Logo após a voz do ruivo que organizara o tal evento.
– Espero que todos estejam se divertindo.
Castiel começou a discursar, e eu nem ao menos senti vontade de olhá-lo ou de prestar atenção no que ele nos falava. Saí puxando Kentin pelo braço até chegarmos à mesa dos doces, onde eu apanhei vários brigadeiros. Kentin cutucava meu ombro insistentemente, e eu apenas fazia um gesto vago com a mão para que ele parasse de perturbar.
– Olha ali. – disse ele, apontando para o ruivo que acabara de abandonar o microfone.
Quando me virei para olhar, lá estava o ruivo: de mãos dadas com a loira pugilista. Senti meu estomago revirar. Por que ela? Por que ela? Por que era sempre assim? Por que Castiel preferia se meter com mulheres que não pode ter? E por que ela estava fazendo aquilo? Ela tinha um noivo, ela tava grávida. Eu sabia que estava! Kentin me disse que ela havia descoberto e que fazia algumas semanas que ela carregava o feto, não havia nem um mês ainda.
Sentia um aperto no coração, e não sei por quê. Eu não o queria, eu o negaria e o rejeitaria, mas eu senti como se eu quisesse correr atrás de Castiel e separá-lo da loira imediatamente.
– Que porra é essa? – sussurrou Kentin.
– Você sabia disso? – indaguei.
– Não, não sabia. – Kentin passou a mão pelo cabelo. – Eles devem estar bêbados.
– A Angela nunca bebeu.
Kentin mordeu o lábio inferior. Ele queria achar uma desculpa que justificasse aquela barbaridade que estava vendo. Fiquei me perguntando se ele sentia a mesma coisa pela Angela como eu senti pelo Castiel quando o vi de mãos dadas com ela.
– Estão só de mãos dadas. – ele explicou. – Isso não quer dizer nada. – ele sorriu para cortar a tensão no ar. – Pegue mais uns docinhos.
Estávamos sentados em uma mesa, algumas pessoas já tinham ido embora, ou só estavam desmaiadas pelos cantos da casa. Eu estava debruçada sobre a mesa, onde tinha uma garrafa de Whisky no seu centro.
– Não é justo. – resmunguei.
– O que não é justo, tampinha?
– Aquilo lá. – Kentin demorou a entender, mas compreendeu que eu me referia ao casal da noite.
– Por que não é justo? Pensei que não ligava mais para o Castiel.
– Não ligo, é que... – me apoiei com os cotovelos na mesa. – Eu não sei muito bem o que houve. Eu só... Senti raiva. Quis separar eles dois.
Ele afagou minha cabeça, deu um suspiro e se levantou.
– Vamos?
Eu já estava tonta, mais do que deveria, para falar a verdade. Kentin me carregou nas costas até o estacionamento, mas não estava sendo fácil, já que eu não parava de me mexer.
– Por que as coisas sempre são assim pra mim? – resmunguei.
– Não sei, mas que tal parar de se mexer tanto?! – ele berrou.
– Não seja fraco, Kentin! Vamos lá: um, dois, um dois! Marchando! – exclamei. – Se isso serve, eu te darei um presente.
Eu estava com um lenço em volta do pescoço, o tirei e o coloquei em Kentin da forma mais desajeitada possível. Kentin cambaleou comigo nas costas por uns segundos até conseguir manter o equilíbrio novamente. Ele parecia ter ficado mais bravo, mas continuava a seguir comigo nas costas.
– Suas costas são realmente quentes. – murmurei – Queria saber se as costas do meu pai também eram assim.
– Seu pai nunca te carregou nas costas?
– Não.
– Sei como é.
– Estar com você é o mais próximo de algo reconfortante. Não é lá essas coisas, mas é melhor do que nada.
– Não tem de quê! – ele ironizou, me largando e abrindo a porta do carro.
Kentin ainda me fez o favor de me ajudar a subir as escadas e me deixar no quarto. Discutiu comigo e me deu sermão de que eu nem deveria estar bebendo daquele jeito porque ainda estava tomando os remédios por causa da doença. Nem sabia se deveria levar a sério um sermão de Kentin sobre bebida.
E quanto aos remédios, pareciam remédios bons mesmo. Estavam retardando a doença para que eu pudesse viver normalmente por mais algum tempo. Eu tinha pouco tempo e só o desperdicei. Lysandre foi embora, eu cortei laços com Castiel. E Armin não seria uma opção nem em um milhão de anos, tanto ele não gosta de ninguém como ele não serviria para ser namorado de alguém.
O mais perto que eu tenho de companhia masculina é Kentin, mas é um tipo diferente de companhia. Óbvio que eu não o vejo como eu vejo outros garotos. Mas não sei... Kentin é uma boa pessoa, apesar de todos os defeitos irritantes. Se ele não fosse meu irmão, acho que ele seria uma boa opção. E se ele não tivesse esse mal gosto que ele tem também, vale salientar. Nem sei se ele ainda está saindo com a Lety, e nem vou perguntar. Quando pergunto, ele dá aquele sermão, me manda deixar de ser curiosa e diz pra eu cuidar da minha própria vida.
Fiquei deitada na cama me revirando de um lado para outro. Não era isso que eu queria, afinal? Começar do zero e parar de ficar me enrolando por causa da minha relação com os garotos? Quem tudo quer, nada tem. Eu mastiguei mais do que podia engolir, deveria ter sido breve e franca. Talvez nada do que aconteceu tivesse acontecido. Talvez, de alguma forma, o pai de Lysandre estivesse vivo se ele tivesse concordado ir morar na França. Havia horas em que eu não havia me importado de perdê-lo daquele jeito, eu só me importava com a dor que ele estava sentindo por conta da perda do pai. E isso me feria muito, era como se eu tivesse matado o pai dele. Depois acabava lembrando que o pai de Lysandre foi responsável pela morte da minha mãe. Mas eu não sentia que o pai de Lysandre merecia ter morrido. Eu não queria que ninguém morresse!
Fechei os olhos e respirei profundamente por uns momentos. Relembrei dos sentimentos estranhos que tive essa noite, o que causou aquelas sensações horríveis. Quando Lysandre foi embora, eu tinha certeza que meu coração pertencia a ele, então por que eu tinha tido aquela reação quando vi Castiel com Angela? Suspeitava que não tinha superado Castiel totalmente, mas eu teria, eu deveria! Eu não poderia voltar para Castiel e implorar que ele ficasse comigo. Agora que, aparentemente ele está com a Angela, duvido que ele vá olhar para outra garota a não ser ela. Angela foi tudo o que ele sempre quis. Mesmo que ele tenha gostado de outras garotas, nenhuma foi ou seria como ela, nem mesmo eu. Estava acabado e pronto, e tudo que eu teria que fazer era me convencer e me acostumar.
As coisas não funcionam mais como antes, e nunca irão funcionar.
Peguei meu celular e encarei aquela foto que Kentin me dera para que eu pudesse chantagear Castiel. Por causa da pena que Kentin sentiu de mim, eu consegui a amizade do F4 e o amor de alguns deles. Mesmo que isso me magoasse, eu preferia ter perdido tudo a não ter vivido nada daquilo. Encarei bem aquela foto, nos mínimos detalhes e observei cada curva do rosto andrógeno que Castiel possuía na época. Uma lágrima de magoa escorreu e eu deletei a foto.
Me abracei ao travesseiro e simplesmente dormi.
Na manhã seguinte, o arrependimento de ter bebido veio junto com a ressaca. Minhas roupas cheiravam àquele whisky barato que Castiel serviu descaradamente no final da festa. Confesso que achei uma boa estratégia, ninguém ligaria para a bebida barata se já estivesse chapado.
Fui tomar um banho e lavar o cabelo que ainda estava duro do fixador que havia usado. Encostei a cabeça na parede do banheiro. As coisas seriam difíceis, duras de encarar. Meu coração era muito hipócrita, só queria Castiel porque o viu com outra. Mas eu não seria assim, eu não me deixaria levar dessa forma. E para falar a verdade, eu nem sabia concretamente quais eram meus sentimentos naquele momento. Cortar aquilo pela raiz era melhor do que prolongar o sofrimento descobrindo se havia ou não um sentimento sólido. Me decidi e pronto, mesmo que doesse.
– Lynn! – Kentin gritou.
– O que é? – interroguei.
Ouvi o som da porta do meu quarto abrir. A porta do banheiro abriu, o Box abriu e ele me agarrou. Kentin estava sem camisa, meus seios estavam espremidos contra o peito dele. E, com toda certeza, eu tinha vontade de morrer. E de matá-lo também. Quis gritar com ele, talvez perguntar: Ta doidão? Fumou merda ou o que? Mas até para respirar estava difícil.
– Você está curada! Curada!
– C-curada?!
Tudo aquilo tinha sido o entusiasmo de Kentin, e ele se desculpou logo após aquele ocorrido. Foi constrangedor para ambas as partes.
– A Morango ligou e avisou para parar o uso da medicação. Tudo havia sido um mal entendido, a máquina de ressonância estava com algum defeito.
Pelo que ele me contou, havia duas máquinas que ela usava. Uma estava passando por manutenção e a outra já havia passado pela manutenção. Por algum motivo, algo saiu errado e o meu diagnostico, juntamente.
– Mas a medicação que eu tomei esse tempo todo não irá me fazer mal?
– Aparentemente não. Ela me falou que a medicação funcionava como certo estimulante para o cérebro, mas mesmo assim não seria bom continuar usando sem necessidade. Não tem com o que se preocupar.
Meus olhos se encheram com lágrimas de alegria. Com toda certeza aquela noticia tinha sido o melhor presente que poderiam me dar. Eu viveria, eu teria uma vida normal como qualquer um. Todos os planos que eu pensei que nunca poderia executar, agora estavam nadando em esperança.
Abracei Kentin fortemente, com a força que nunca usei em quaisquer abraços. Enquanto chorava e soluçava, o sorriso de alegria continuava lá, trêmulo, mas presente.
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