A Órfã Doce
88 O heterocrômico
Notas iniciais

Em minha vida, todos os versos que escrevi foram forma de aliviar o estresse e frustração.
Tive amigos, amigos bons, pelo menos na maior parte do tempo. Quando o F4 se separou e se reuniu novamente, eu senti desde o inicio que eles já não eram os mesmos. Não podia culpa-los, nem eu era o mesmo depois de todas as experiências que tive durante aquele período. Viajei com meu grupo e gravei um CD, mas nenhuma gravadora grande se interessou por nós, nosso CD não tinha venda. Confesso que me frustrei, e isso só aumentou o número de letras eu escrevia.
Meu bloco de notas antes servia como lembrete para coisas que eu teria que fazer. Depois disso, já havia outra utilidade para o mesmo, eu escrevia o que vinha na cabeça. Era uma espécie de diário ambulante que carregava. Mas a minha memoria ruim me fazia correr riscos. Dentro dos meus poemas havia um fato enrustido, às vezes implícito, às vezes não.
Eu costumava a me encontrar com algumas das alunas da Sweet Amoris na cafeteria, depois disso, elas saiam dizendo que haviam tido um “encontro” comigo. Até os garotos do F4 davam corda para elas, mesmo que fosse tudo mentira. Elas só me encontravam na cafeteria por acaso. No fundo talvez os garotos estivessem felizes por mim, já que eu havia voltado da França com uma frustração imensa. Mas eu não conseguiria tapar meu fracasso profissional com um bando de garotas eufóricas que só se interessavam por mim por causa da minha imagem na Sweet Amoris.
“Talvez você seja jovem demais, Lysandre”. – me convenci. Era um consolo.
Castiel continuava o mesmo: mandão e marrento. Apesar disso, todos nós do F4 sabíamos o porquê de Castiel ser assim. Minhas maiores frustrações vieram do meu fracasso como cantor, mas Castiel havia sido frustrado a vida inteira, principalmente por causa da família dele. Lembro-me que o conheci quando pequeno na Sweet Amoris, ele era briguento e gritava bastante. Mesmo que tenha memoria ruim, lembro-me que os pais dele ainda eram juntos e aparentemente viviam felizes. Quando saí da cidade com o meu grupo, os pais de Castiel haviam se separado e o pai dele foi internato em uma clinica de reabilitação. O humor dele só piorou e ele continuava a se tornar mais frio e mais grosseiro com as pessoas. Eu não gostava nem um pouco do modo como ele se comportava, mas não adiantava querer me meter.
No decorrer de minha vida, aprendi a ser uma pessoa conformada. Quando não era, só fazia besteiras. Houve um tempo em que eu desviei do bom caminho e comecei a me drogar para chamar a atenção do meu pai. Além do Leigh, eu tinha outro irmão. O nome dele era Viktor, o filho da Stripper com quem meu pai se casou. Meu pai dava mais atenção e assistência para aquele garoto do que para os próprios filhos. Eu sentia falta de uma mãe, apesar de que eu me entendi por gente sem tê-la ao meu lado. Mesmo assim isso doía, e doía mais ainda por ver meu irmão vivendo do passado daquele acidente. Tentando descobrir o que ocorrera, já que meu pai sempre se recusava a contar sobre isso. Isso tudo porque nunca quis admitir que por culpa dele, nossa mãe havia morrido.
Quando eu voltei para a Sweet Amoris, fui convidado para uma festa que Castiel estava organizando. Naquela festa eu havia sido induzido a beber, no outro dia eu acordei com as costas ardidas e uma tatuagem enorme que cobria a minha cicatriz. Carreguei aquela tatuagem como minha prova de fraqueza e vergonha. Por isso resolvi deixa-la por baixo das roupas que a escondesse. O que me magoou foi ver Kentin falar aquelas coisas que o pai dele falou sobre tatuagens. Não sei se ele falava por si ou pelo pai dele, mas eu sentia pena do pobre Kentin. Por mais que pena fosse um sentimento errado para sentir. O que aconteceu com o pai dele foi muito inesperado... E ele voltou diferente, foi o ultimo do F4 a voltar. Tive dificuldade em recolhesse-lo, muitas vezes duvidei que aquele fosse o Kentin de anos atrás, mas era.
Armin não voltara com o irmão, e não falou sobre ele ou o que tinha acontecido. Estava fechado, sem luz. Apenas com a cara naquele PSP sem desgrudar do sofá. Ele não tinha opinião, tudo se resumia em um “tanto faz” e ele sentia prazer com a desgraça dos outros. Não sabia o que havia acontecido com ele, mas aquilo me doía no coração.
“Deveria ter escutado Leigh” – pensei.
Leigh havia sugerido bem antes que acabássemos com aquela banda, mas eu sabia que ele tinha um interesse por trás disso. Ele estava se relacionando com uma garota pela internet, uma garota que tinha um pai que era sargento e que havia coberto o caso do acidente da nossa mãe. Choquei-me quando descobri que a garota era a Rosalya, a irmã de Castiel. Ela estava com o pé na carreira policial. Quando voltei para a Sweet Amoris, Leigh foi morar na cidade vizinha e nós mantínhamos contato poucas vezes por semana. Ele era independente, eu também era. Agora eu era.
Havia a irmã de uma garota estranha que me seguia por todos os lugares. Por mais patético que fosse, gostava de uma garota que era mais velha e mais madura que eu. Era a primeira garota de quem eu gostava, e eu não sabia como me aproximar. Suas tranças eram escuras e longas, meu andar era gracioso em cima de um salto plataforma em belos trajes escuros e estonteantes. Eu a intitulei em meus poemas como “A garota das tranças”. Seu nome era Nica.
– As garotas gostam muito de você. – ela riu, apoiando o cotovelo na mesa da cafeteria. – Você deve ser um galã que fala os que as mocinhas querem escutar, não?
– Engano seu. – neguei com a cabeça. – Não sou esse tipo de pessoa.
– Claro que não é. – ela deu um sorriso de lado e tomou um gole do café. Pela primeira vez eu me sentia um completo bobo enquanto falava com alguém. As palavras não fluíam mais como em uma conversa normal, eu não conseguia falar direito com ela. – Perdoe se minha irmãzinha anda sendo inconveniente seguindo você. – neguei com a cabeça. – Francamente, você me parece ser um garoto cheio de atributos. Acho que até eu te seguiria por aí.
Ela deu uma risada discreta, minhas bochechas coraram e um sorriso sem graça brotou em meus lábios. Era um sorriso esperançoso, talvez. Não era a primeira vez que conversávamos, não era a primeira vez que nos encontrávamos para um café. Provavelmente a irmã contou que eu vinha a este lugar com frequência, por isso tive a sorte de encontra-la aqui.
– Gosto de café. – comentou. – Meu pai nos acostumou a gostar, pelo menos.
Ela era uma garota séria, charmosa e discreta. Sua beleza era estonteante e seu cheiro era levemente doce, se respirasse profundamente de olhos fechados, poderia jurar que estaria inalando o cheiro de um lírio. Ela era diferente da irmã, tanto na personalidade quanto fisicamente. Mas Nina era apenas uma pré-adolescente, talvez parasse com aquelas bobagens mais cedo ou mais tarde.
Nossos encontros saíram da cafeteria, Nica sempre com aquele ar casual. E aquele sentimento era particular, poderia até dizer que era secreto. Sentia que não poderia compartilhar aquilo com nenhum dos meus amigos. Se é que ainda eram meus amigos, se é que eram as pessoas de antes com quem eu tive laços de companheirismo e amizade. Decidi manter em segredo meus encontros com a garota das tranças. Um dos meus blocos de notas foi feito de poemas especialmente voltados para ela. Que, quem sabe, um dia poderia criar coragem para revela-los. Talvez ela me achasse patético por mostrar que escrevi tudo aquilo, sendo que estávamos saindo há pouco tempo.
Ela era doce, uma mulher cheia de atributos e beleza. Nós nunca havíamos nos beijado, e eu esperava fazer aquilo no encontro daquela noite. Mas aquele encontro não aconteceu, tudo porque eu descobri a verdade antes disso.
– Você está aéreo, Armin. – Kentin comentou. – Aconteceu algo?
Armin corou e fez careta, talvez estivesse odiando admitir o que iria admitir.
– É que eu estava pensando na garota que eu estou saindo.
– Sério que alguém te fisgou? – Castiel debochou.
Era por isso que eu tinha receio de contar.
– Ninguém me “fisgou”, Castiel. – Armin rebateu com uma expressão séria.
– Ui. – Castiel respondeu sarcástico.
– No que estava pensando? – perguntei para quebrar a tensão.
– É que eu estava pensando em pedir ela em namoro. Só tenho medo de ela me achar patético. Estamos saindo há pouco tempo.
Armin retirou o celular do bolso, foi uma foto que ele mesmo tirou enquanto os dois se beijavam. Era ela, era Nica. As tranças estavam lá e o cabelo não tapava seu rosto. Mas óbvio que eu não contei a Armin naquele mesma hora, até porque eu não queria ser humilhado por Castiel, e não queria que Armin também fosse.
– Vadia. – foi o que ele disse quando eu o contei. E Armin voltou a ser o sem brilho de antes.
E eu? Eu fiz quase a mesma coisa, e continuei meus versos frustrados no bloco de notas.
Passou-se um ano, na verdade, mais de um. A vida era rotineira, sem graça. Mais um ano passava e nada, mais um ano escolar começava e nada. Foi isso o que eu pensei. Castiel fazia suas maldades de sempre. Eu e os garotos já tínhamos desistido de impedi-lo, então alguns assistiam enquanto outros apenas olhavam para o lado e fingiam que não estavam vendo.
Avistei uma garota de cabelo trançado. Baixei a visão e continuei a andar. Castiel fez a maldade diária, dessa vez tinha sido com uma garota, um bolo na cara. Uma das “três belezas” soltou uma piada e Kentin deu de ombros, louco para sair dali. Ele as odiava, porque elas o esnobavam antes dele voltar da escola militar.
Cheguei a ver a garota das tranças mais de uma vez, mas as tranças já não estavam mais presentes. Na outra vez a avistei com Iris, a inglesa. A garota a defendeu e teve a ousadia que ninguém teve antes. Ela jogou um sorvete em Castiel. Apesar de não aprovar violência e nem nada do gênero, aquilo tinha sido interessante, ela era interessante. Só não foi tão interessante quando Castiel começou a fazer brincadeiras de mau gosto com ela. Como quando ele ordenou que jogassem farinha e ovos nela. Meu coração apertou, algo me disse que eu teria que ajuda-la, de alguma forma pelo menos. Talvez dar um apoio, mesmo que fosse mínimo. Talvez ela estivesse arrasada.
– Não chore. – ela falou alto. – VAMOS, NÃO CHORE.
– Castiel é bem criativo. – foi a primeira frase que eu lancei para ela.
Ela me encarou, com espanto. Peguei o lenço que carregava no bolso e limpei um pouco seu rosto sujo. Ela se sentia ameaçada, não poderia culpa-la. Ela me viu andando em companhia do Castiel.
– Por que não fugiu? – perguntei. A sua atitude tinha sido bem diferente do que eu imaginava.
– Não quis. – falou. – Aprendi a ser forte.
Depois de conversar com ela, percebi na hora que ela tinha parentesco com alguém que fosse militar ou ela mesma poderia ter sido de uma escola militar. Na hora isso me preocupou, lembrei-me do tiro que Kentin havia levado de uma garota. Poderia ter sido ela, mas eu nem mesmo sabia se ela era daqui ou de outro lugar. Normalmente as pessoas que estudam na Sweet Amoris chegam de fora.
Acabei descobrindo seu nome. Ela se chamada Lynn.
Em toda minha vida, os meus versos sempre foram dedicados a alguém ou a alguma coisa. Fosse minha frustração, meu estresse. Fosse uma pessoa, uma garota, uma nova garota com tranças. Um novo sorriso. Uma garota dura, de fato. Mas uma garota de personalidade e coragem. E eu dediquei meus versos a ela. Dediquei a capa do meu CD, dediquei uma música e no final, dediquei meu coração.
Houve surpresas, várias. Eu vi que meu coração estava sendo ameaçado, ameaçado por meus próprios amigos. Kentin não era alguém de confiança, ele era uma pessoa com a sexualidade a flor da pele, e Lynn tinha que ser justamente a sua irmã. Eu sabia que Armin a havia beijado, ele sempre tira uma foto escondido da garota quando a beija, e eu cheguei a ver essa foto uma vez por acidente. E claro, Castiel. Castiel havia se declarado para ela. Então eu resolvi por as cartas na mesa.
Eu nunca tivesse certeza se meus sentimentos poderiam sentir-se seguros por Lynn, esperando-a. Esperando que ela tivesse a certeza que ficaria ao meu lado. Começou com um desentendimento. Eu tive conhecimento de que Iris havia dado uma festa na sua casa. O F4 havia ido naquela festa, Kentin chegou a ver a irmã, mas ao invés de ir encara-la e perguntar o que ela estava fazendo lá, ele apenas se escondeu dela. Já havia tomado uns goles de whisky e disse que queria ficar na festa.
Bêbado, Kentin se agarrou com Peggy. Fiquei me perguntando onde Lynn estava, mas não gostei da resposta quando a obtive. Havia fotos na TV da cantina. Fotos dela com um cara de cabelos verdes. Fotos dela deitada com esse cara com uma camisola provocante. Meus olhos não podiam crer no que estavam vendo. Meu coração se partiu. Castiel a condenou. E ela apenas chorava desesperadamente. Não tinha certeza se era verdade ou não, aposto que nem o próprio irmão dela tinha certeza da situação naquele momento. Então eu fiquei em meu canto, esperando agir quando fosse necessário. E tive utilidade naquele mesmo dia. Ainda guardava na sala do F4 o antigo teste de drogas que Leigh havia esquecido em casa. Havia sido uma armação, descobrimos tudo. E meu coração voltou a palpitar tranquilamente, como antes.
A relação dela e Castiel estava cheia de atritos, achei que talvez seria hora de tomar logo uma iniciativa. Foi em um dia, quando a neve começou a cair novamente. Na cafeteria, disse que gostava dela. De uma forma sútil, claro. Ela demorou um pouco para entender, mas quando entendeu, corou e gaguejou. Quando saímos da cafeteria, ela insistiu que continuássemos a conversa. Vi que ela estava envergonhada, mas parecia querer insistir para ver até onde isso chegaria.
Eu tomei iniciativa, mesmo que nunca tivesse feito isso com outra garota, mesmo que nunca tivesse feito isso na vida. A agarrei pela cintura e segurei seu queixo calmamente. Ela permaneceu catatônica com o olhar vidrado e surpreso. Eu confesso que estava tão nervoso quanto ela, mas sempre fui bom em ser discreto e disfarçar.
– Eu poderia te beijar aqui, agora, sem hesitar. – a encarei nos olhos, suas bochechas ficavam mais avermelhadas – Mesmo que seu irmão e o Castiel descobrissem e acabassem conosco.
– Você... – ela parou, e a frase simplesmente sumiu de seus lábios.
– Você gosta do Castiel? – perguntei.
– Eu... – ela desviou o olhar. – Não sei o que dizer.
– Você não pensou mais sobre isso? – ela negou. – Como uma pessoa se declara pra você e você nem pensa mais nisso?
– Aconteceu muita coisa, Lysandre. Não pense que eu sou uma insensível.
Eu a larguei. Não sabia se era a coisa certa a se fazer. Se ela estava pensando, eu não deveria interferir. Não poderia pressiona-la, ela já me parecia bem confusa. Eu poderia esperar por ela, estaria pronto para ela. O tempo dela seria meu tempo.
– Sente ciúmes? – ela provocou com um sorriso divertido, então eu fui ao mesmo ritmo.
– Você não sabe o quanto. – brinquei. – Acho que aprendi a ter senso de humor de uns tempos para cá. Graças a você, claro.
– Graças a mim?
– Fala sério! Você é engraçada. – dei uma risada. – Primeiro você deu uma voadora no Castiel...
Controlei um pouco minha risada e logo a converti em um sorriso calmo.
– Se quiser podemos conversar mais tarde. – sugeri.
Ela veio até mim, aproximou-se. Se Lynn estava pronta, eu também estava. Toquei-a no rosto e esbocei um sorriso tímido.
– Você é uma garota indecisa.
– Concordo com você.
– Tem certeza? – ela confirmou.
Se não tivesse sido rápido e a beijado de uma só vez, talvez nunca tivesse a beijado. Talvez eu tivesse a deixado escapar como fiz com Nica. Tudo que eu sabia sobre beijos ou romance, tinha lido nos livros que havia na estante do quarto da minha mãe. Ou dos romances que ela mesma havia escrito contanto a sua história com meu pai.
Senti medo, receio. Talvez ela percebesse, mas ela não disse nada nem no dia e nem depois. E quando nos separamos, ela tomou a iniciativa e prolongamos o beijo. Agora eu tinha certeza e estava seguro de mim. Meu coração estava alegre e eu poderia dar pulos de felicidade a qualquer momento. Ela não me achava patético e não iria achar, estava decidido.
Suspiros me vinham quando eu a via. Ela era estonteante. E naquele dia, eu pude ver que apesar de ser ameaçadora como ela era quando eu a conheci, ela se tornou uma garota meiga da qual eu tinha o privilegio de contemplar. Era uma garota magnifica.
Mas por causa do irmão, Lynn teve problemas na escola... Muitos problemas. O primeiro é que ninguém sabia que agora Kentin e Lynn eram irmãos. A fofoca começou na casa de Ambre, que é vizinha dos dois. Ela saiu espalhando que os dois estavam morando juntos. Não sei o que mais ela disse, mas chegou nos ouvidos de Castiel que ela estava grávida de Kentin, mas havia abortado. Pensei em tocar delicadamente nesse assunto, todos sabiam e um ruivo e um moreno já estavam de cabelo em pé com toda essa história. Pobre Lynn, ainda não sabia.
Às vezes eu notava que Alexy, o irmão de Armin, soltava algumas piadas na sala do F4 sobre a Lynn. Sobre mim e a Lynn. Armin ria, Castiel e Kentin ficavam emburrados e eu ficava sem graça.
– O modo como você olha para ela não me engana. – dizia ele. – Ela é “estonteante”, não? – ele falou, tirando meu bloco de notas da jaqueta. – Vê se não esquece mais. – advertiu.
De uma simples brincadeira, acabaram tocando no assunto dos boatos sobre Lynn. A discussão começou, Castiel acreditava nos boatos e depois que Alexy me entregou o bloco de notas, as coisas ficaram assim:
– Fala sério! Vai tomar no cu! – Kentin trovejou.
– Você é um pervertido, com certeza faria. De qualquer forma, se não fez, alguém acabou fazendo. – Castiel gritou de volta.
– Ta pensando o que? – Kentin esmurrou a mesa e virou uma poltrona que estava sentado. – Ta achando que eu comi a minha irmã? Você come a sua por acaso?
Olhei para os gêmeos, Alexy mantinha um rosto assustado e Armin segurava a risada diante da situação. Quis intervir, mas Armin entrou em minha frente e não deixou que nem eu e nem Alexy fizéssemos algo. Continuaram os gritos e o reviramento na sala, em questão de segundos, tudo estava bagunçado.
– Ela não é sua irmã! – Castiel retrucou.
– É SIM! CALA A BOCA! – Kentin rebateu, e por um momento quis partir para cima de Castiel.
Lynn entrou na sala, frustrada, com raiva. Pediu para falar com o irmão, então Castiel teve a incrível ideia de responder, mesmo que ela não estivesse falando com ele.
– Eu já contei tudo que ele precisava saber, sua fingida! – Castiel exclamou desamassando a roupa.
– Não sou fingida, não pedi que acreditasse em mim. Você disse que gostava tanto de mim, onde está o amor que disse que tinha? – Castiel se calou. – O único fingido aqui é você.
Senti-me como Armin, fiquei feliz por eles terem brigado. Mesmo que fosse errado gostar da infelicidade alheia, eu estava adorando.
Infelizmente Lynn pagou um preço por algo que não fez. Por causa dos boatos ela foi machucada pelos outros. Tentei ajuda-la, mas Castiel foi mais rápido. Ele se tornou o herói dela, mas era eu quem queria aquele lugar em seu coração. Castiel estava no meu caminho, Castiel não merecia aquele lugar depois de tudo que fez.
Encontrei Lynn na cafeteria novamente. Desta vez, a acompanhei até em casa. Conversamos por um tempo, ela estava sendo gentil, mesmo que eu estivesse fazendo perguntas incômodas. Senti-me mal por estar pressionando ela a me dizer se gostava do Castiel ou não. Olhei para o relógio e me lembrei que teria que ir a uma reunião do F4, que com certeza Kentin não iria. Ele adorava fazer aquelas coisas para irritar Castiel. As reuniões de Castiel nunca eram boas, mas foi em uma delas que eu soube do boato sobre a Lynn.
Beijei-a brevemente e me despedi com um breve aceno. No sábado de manhã resolvi ir até a casa de Lynn. Não era com intenção de vê-la, era só para escrever um pouco debaixo da arvore do jardim. Lá eu conseguia ter inspiração, não consigo explicar o motivo.
Deu para ouvir de longe os gritos dela e de Kentin. Pensei em não me meter, mas fui movido pela curiosidade. Cheguei perto de onde eles estavam e passei a observar tudo através de uma janela. Era errado, eu sabia.
– PARA DE SER CRIANÇA!
Quando Kentin esbofeteou a própria irmã, um ódio cresceu dentro de mim. Senti vontade de espanca-lo para que ele pagasse pego que fez. Não sei se ele havia feito aquilo só por raiva e ciúmes. Eles estavam discutindo porque Kentin me viu beijar Lynn. Kentin seguiu Lynn, minutos depois desceu as escadas, e eu já estava sentado a espera dele.
– Escute, seu bruto! – falei agarrando-o pela gola da camisa e o jogando contra a parede. – NUNCA mais eu quero te ver levantar a mão para ela, me ouviu?! Sujeitos como você não merecem uma irmã como ela, e também não merecem ter uma mão.
– Não se meta! – ele rangeu os dentes.
– O que tem de tão mal comigo e ela? – indaguei. – Estava mesmo defendendo o Castiel porque ele gosta dela? Por que ele pode humilhar a Lynn, confundi-la, magoa-la e eu não posso beija-la? Reveja seus conceitos.
– Saia daqui. – ele falou.
– Eu saio, mas eu volto. E se eu voltar e ver o que eu vi, eu acabo com você!
Eu jurei que nunca ficaria contra um amigo por causa de uma garota. Eu jurei aquilo quando Nica fez o que fez comigo e Armin. Nós não brigamos, apenas prometemos isso. E eu quebrei minha promessa, mas tentava me convencer de que a Lynn era diferente de Nica e Kentin estava errado.
Depois daquele dia, parecia que um abismo tinha se aberto e ficado entre nós dois. Minha relação com Lynn não era a mesma e as coisas esfriaram definitivamente. Eu estive ao seu lado quando Debrah veio para mostrar quem Castiel realmente era. Mesmo ficando do lado da Lynn, eu não tinha mais certeza se tudo era sólido. Eu sentia que as coisas estavam se sedimentando.
Acabei indo para a França no dia dos pais. Meu pai pediu que eu e Leigh ficássemos na França e isso acarretou em uma discussão terrível. No final daquele dia eu saí para me acalmar. Fui ao shopping e comprei um colar para Lynn, com um pingente da torre Eiffel. Naquele lugar, esbarrei em alguém.
– Lysandre?
– Perdão?
Era uma garota de cabelos curtos que eu nunca tinha visto na vida. Nem sei como ela sabia meu nome.
– É você mesmo? – ela sorriu. – Eu comprei seu CD! Pode tirar uma foto comigo?
Fiz que sim com a cabeça. Sorridente. Uma fã, uma garota que eu nem conhecia.
Acabamos conversando um pouco na praça de alimentação. Ela contou que conhecia Armin e que ele já falara de mim e do F4, ela sabia que eu era do F4, ela sabia sobre a Sweet Amoris. Ela sabia muita coisa.
– Eu não sei se o Armin já te contou, mas eu já fui namorada dele. Ele falou que tinha um amigo que cantava e eu comprei seu primeiro CD na internet. Devo confessar que você melhorou muito. – ela sorriu.
Não sabia se ficava em choque por Armin já ter tido uma namorada que nunca contou a ninguém ou se ficava agradecido por ela ter comprado meus CD’s desde o inicio. Assenti com a cabeça, tentando processar todas aquelas informações.
– Por que se separaram? – perguntei.
– Na época ele era jovem, e nossos caminhos não tiveram a mesma direção. Ainda bem que terminei, soube que depois ele foi embora. Acho que depois seria mais doloroso.
Assenti com a cabeça. Tinha descoberto o porquê de Armin ter voltado para a Sweet Amoris daquele jeito.
Durante alguns dias eu me encontrei com Yumi, até ter que ir embora. Quando cheguei de viagem, soube que Lynn havia sofrido um acidente. Senti-me o pior homem do mundo. Havia me recusado a sair com Lynn quando Kentin havia me pedido, por isso ela sofreu o acidente, e ele só chegou a me contar quando ela acordou. Além do acidente que quase a matou, Kentin me falou entre lágrimas sobre a doença que haviam descoberto, que mesmo que os papeis dos exames não fossem oficiais, a médica já havia quase certeza do que ela tinha.
– Não contei a ela, não contei a ninguém. – Kentin confessou.
Dei todo o apoio que podia, mas acabei me afastando porque era covarde demais para conseguir processar tudo aquilo e continuar vendo Lynn da mesma forma. Simplesmente não consegui, e achei que ela ficaria melhor sem mim. Mesmo que ainda sentisse fortes sentimentos por ela.
Acabei dando mais dois passos para trás quando, dias depois do aniversario de Lynn, tive que ir para Madagascar. Eu odiava aquele lugar com todas as minhas forças, mas fui por Lynn, porque não queria que Castiel tentasse nada com ela. Eu ainda acreditava que Kentin permitiria mesmo depois de tudo, mas eu não queria permitir!
Madagascar me lembrava Dakota. Ele havia se drogado pela primeira vez no mesmo dia que eu. Ele não parou, não teve controle, em uma semana já estava na sarjeta, trabalhando para um traficante e distribuindo droga pela ilha. Ele causava problemas, muitos problemas. A vida dele estava destruída, e eu sentia um sentimento horrível quando o via. Tentei até ajuda-lo, quis sugerir uma internação. Eu não consegui fazer nada, por isso Lynn foi quase estuprada por ele. Quando conversei com Dake depois disso, depois que ele estava “limpo”. Ele me contou que viu Lynn e Castiel, e a droga o fez ficar violento. Dakota se convenceu que se internar era melhor, pelo menos não arrumaria mais problemas.
Naquela noite eu não consegui dormir. E de alguma forma, os ventos trouxeram Lynn até mim. Justamente quando eu não sabia o que dizer para ela. Depois que Kentin tinha feito aquele escândalo quando Lynn quase foi estuprada, Lynn já deveria saber que eu tinha meio que uma amizade com Dakota. Talvez ela tivesse pensamentos maus sobre mim. Talvez ela já estivesse me detestando.
Naquela noite eu revelei as suspeitas que sempre tive. Tive até medo dela rir de mim ou perguntar do que eu estava falando. Ninguém nunca me falou nada sobre Lynn ter estudado em uma escola militar. Eu havia acertado, e pela reação dela, eu havia acertado na mosca. Além disso, revelei que sabia sobre sua doença.
– Eu sinto muito.
– Você já disse isso.
– Não é por isso. Eu sinto muito por abandonar você. Eu fiquei sem saber o que fazer quando eu descobri, por isso não fui mais para sua casa. Sinto muito.
– Quem contou?
– Quem contou?! E por que você não contou? Quase todos estavam sabendo. Você não confiou em mim?
– E por acaso você confiou? Por que não falou sobre esse garoto e o que havia acontecido?
– Porque você estava ocupada demais com o Castiel.
Não sei ao certo se eu deveria me arrepender pelo que falei. Eu me sentia magoado, me sentia triste. Meu coração estava se despedaçando. E ela havia o dilacerado várias vezes. Não sabia mais se deveria continuar. Mas eu quis dizer o quão arrependido eu estava, eu deveria pedir perdão.
– Não foi minha culpa, o Castiel me arrastou. – ela justificou firmemente.
– Por isso que eu sinto muito. Eu deixei você nos cuidados do seu irmão e do Castiel. Não sei se você sabe, mas o Kentin anda passando o dia com umas meninas da ilha. Ele nem sequer teve a preocupação de conversar com você sobre o que se passava na ilha. Mas depois que aconteceu aquilo com o Dakota, ele achou que tinha razão para vir gritar comigo. – pausei um pouco. – Acha isso justo?
– ela negou. – E é por isso que eu sinto muito. Se eu tivesse feito algo... – eu a puxei em minha direção. – Isso não teria acontecido. Sinto muito.
Eu a beijei, chorando junto a ela. Talvez aquilo fosse um final ou fosse um final para um novo começo. Eu estava confuso, não sabia o que fazer. Não sabia como eu viveria um romance com Lynn sabendo que ela poderia me deixar a qualquer hora. Mas eu sentia que eu deveria estar com ela. Senti que alguém além do irmão dela deveria estar ao lado dela. Eu pensei em dizer que eu entregaria meu coração, ela poderia fazer o que quisesse.
Mas tudo foi pelos ares. Castiel apareceu e estragou tudo. Como fez das outras vezes. Como sempre fazia.
Era tudo injusto. Lynn sempre parecia perdoar tudo que Castiel a causara, ela sempre o olhava torto, mas o perdoava. Ela sempre dava uma nova chance, mesmo que não deixasse isso tão evidente. Castiel não a tratava como ela merecia. Eu a merecia, eu a tratava como ela merecia. Mas eu não tinha as chances que ele tinha. Lynn me jogava de lado sempre que podia, era como quando Castiel fazia isso com ela. Eu estava virando um brinquedo, uma segunda opção.
Naquele dia eu desisti.
E dias depois, depois que a poeira baixou. Leigh me ligou dizendo que meu pai havia morrido.
Eu sentia culpa, eu me corroía de culpa. Meu pai estava vindo me visitar porque eu havia dito que não queria morar na França. Ele morreu por minha culpa. E quando Leigh me contou sobre quem morreu no acidente que meu pai causara, meu coração quase parou. Lynn havia sido uma das sobreviventes do carro que bateu com o nosso. Lynn tinha uma irmã, e meu pai havia matado sua mãe e sua irmã. Por culpa do meu pai Lynn havia virado órfã e havia sofrido tanto na vida.
Pior foi ter que contar a Lynn. Fiquei arrependido por aquilo, mas contei várias mentiras. Menti sobre gostar de Yumi e sobre a gravadora.
Entretanto, não achei que Lynn iria insistir tanto como insistiu. Eu teria por um ponto final, mas Lynn queria por um ponto continuativo. Aquilo me feria mais ainda. Além de ter que dizer adeus, tive que mentir para que as coisas não se tornassem tão dolorosas. Se ela me odiasse, talvez me esquecesse logo. Talvez não sofresse tanto. Lynn e eu chegamos bem próximos de dormir juntos. Mas como eu poderia ir embora se eu fizesse aquilo? Isso seria insuportável para ela. Não só para ela como também para mim.
Quando tive minha ultima conversa com Lynn, a vi pegar o capacete e ir embora. Assim que ela saiu, eu me desmanchei em lágrimas por vários dias até o dia que iria viajar para a França.
Foi difícil ter que contar sobre a irmã dela, mas tive essa oportunidade. Tive a oportunidade de sair de consciência limpa. Ela devolveu meu lencinho e me deu algo que eu iria considerar um amuleto da sorte. Eu lhe dei minha dama de copas e parti. Parti e sofri, chorei.
Quando voltei para a França, tive algumas surpresas. Yumi havia mostrado meu CD para um tio que trabalhava em uma das maiores gravadoras da França. Ela conseguiu uma chance para mim. Fiquei feliz por isso não ser mais uma mentira. Mas eu não gostava de Yumi, aquilo continuaria sendo uma mentira.
Eu decidi que ficaria ali. Que iria construir minha carreira e minha nova vida ali.
Lynn continuaria a dela do zero ou de onde parou. Estava na hora de mudar o percurso e seguir outro caminho. Não era um caminho bonito e enganoso, era um caminho que era preciso esforço.
Meu coração ainda pertencia a Lynn. Queria ter dito isso, e queria ter dito que ela poderia partir meu coração quantas vezes quisesse. Eu sempre seria o bobo apaixonado que faria de tudo por ela. Aquilo só iria doer, em mim e nela. Fiquei conformado com meu silêncio e como as coisas iriam ser de agora em diante.
O casamento do meu irmão iria ocorrer em pouco tempo. Eu pedi perdão e disse antecipadamente que não iria. Não queria vê-la, não podia visitar meu passado. Eu queria muito estar com Lynn novamente para beijar seus lábios macios, mas não podia. Eu não devia.
Quem sabe se na França as coisas poderiam ser diferentes? Talvez fosse uma nova chance de tentar um novo amor. Talvez fosse, pateticamente, a primeira fã que conheci.
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