A Órfã Doce
6 Problemas resolvidos
Notas iniciais

"Plebeia entre nós. A estudante Lynn foi tirada de um orfanato caindo aos pedaços".
Tudo começou a explodir dentro de mim. Como se o apocalipse estivesse acabando com minha sanidade naquele mesmo momento. Corri até o terraço para acertar as contas que o primeiro suspeito da lista.
— Kentin! Eu sei que você está aí!
— Hã? — ele respondeu com a voz sonolenta. — Qual é o seu problema, hein? — o garoto de cabelos castanhos interrogou enquanto levantava-se. — O que você quer me acordando?
Assim que se ergueu, me aproximei e soquei seu braço com toda a força. Entretanto o mesmo me olhou sem entender nada e a raiva veio até ele.
— Hei! Qual é a sua?
— Se não sabe brigar fica no útero! — mesmo assim ele continuava sem entender. — Por que colocou aquelas porcarias sobre mim na TV da cantina?
— O que? — ele arqueou a sobrancelha. — Para começar quem exibe as "porcarias" na TV da cantina é a Peggy. Ela é a "repórter" da escola. — ele fez aspas com os desdo e logo em seguida passou a mão no braço que acabara de ser socado. — E para encerrar, não sei nem do que está falando. Estava dormindo e sequer fui à cantina.
— Você não sabia disso?
— Se eu soubesse não contaria. — ele cruzou os braços. — Se quisesse ferrar com você, não te avisaria. Sua burra.
— Isso é raivinha porque eu ganhei de você? — provoquei.
Kentin deu um sorrisinho. Foi tão rápido que mal pude perceber. O garoto girou meu braço, colocando-o em minhas costas. Logo após colocou seu antebraço sobre minha garganta. Ele poderia começar a me enforcar naquele mesmo momento, mas não fazia força alguma. Quanto exibicionismo!
— A única perdedora aqui é você. Ter ganhado de mim não significa muita coisa. — ele sussurrou em minha orelha. — E como eu te disse antes: pegamos leve porque você é uma garota.
Eu senti um arrepio inexplicável e aquela paralisia foi total. Tinha que fazer uma nota mental: não subestimar o moleque exibido. Ninguém nunca havia me pegado tão desprevenida assim. Nem na escola militar.
Aprendi artes marciais com uma loira que na época foi minha "irmã temporária". Lembro que ela era filha de um tailandês rico que tinha os filhos em pé de guerra, os mesmos buscavam uma herança milionária. Essa garota hoje é uma lutadora de boxe profissional. Campeã e tudo!
Confesso que já tive algumas experiências ruins, mas a ultima foi a melhor que me aconteceu. Era um velho muito rico da empresa de bebidas, o apelidaram de “Tio fadinha”, mas seu nome era Louise. Ele não tinha muito tempo para cuidar de mim, já que vivia viajando. Ele até me matriculou na Sweet Amoris e foi assim que obtive experiências ruins durante um ano. A Sweet Amoris era algo do qual eu não conseguia me adaptar, por isso acabei saindo no ano seguinte.
O Tio fadinha tinha uma prima que era diretora da escola militar, então ele a deixou responsável por mim. E sinceramente, eu não seria 10% do que sou hoje se não fosse por ela. Faz três anos que o Tio Fadinha faleceu. Ele foi assassinado por mafiosos no exterior, não quiseram me contar a verdade, mas eu ouvi boatos que ele traficava armas de fogo ilegalmente e estava tirando o lucro da máfia do local.
— Vai ficar parada aí? — Kentin indagou.
Ele se afastou de mim risonho. Organizei minha cabeça para voltar a pegar o fio da meada.
— Você acha que o Castiel falou para a Peggy sobre... — umedeci os lábios. — Você sabe.
— Logicamente deve ter sido. — ele respondeu com as mãos nos bolsos. — De onde ela tiraria isso? Só o Castiel e a Melody sabiam.
— Eu não vou permitir isso. — tentei disfarçar, mas estava triste, frustrada e louca para torcer o pescoço de alguém como uma toalha molhada.
"Eu vou colocar a cabeça daquele babaca numa centrifuga". — pensei.
— Isso é meio chato de se fazer. Castiel realmente exagerou. — Kentin coçou a cabeça. Ele parecia muito incomodado com a situação, e isso era até um pouco estranho.
— Não é chato. — falei com as mãos nos bolsos do uniforme. — É uma sacanagem. Aquele idiota é filhinho de papai. Não sabe o que é ficar em um orfanato colecionando milhares de sonhos entre várias crianças. Não é fácil ser adotada, principalmente porque a família pode escolher devolver a criança ao orfanato. O que ele fez não tem nome. Sacanagem não tem poder para descrever.
Kentin encarou o chão, calado. Colocou a mão em meu ombro e me foi me puxando com ele para a escada.
— Não quer falar com o Castiel sobre isso? — o moreno interrogou.
— E o que adiantaria? — rebati a mão dele. — Você mesmo disse que quando alguém o questiona, ele aperta a tecla “foda-se” e faz o que bem entender? — relembrei. — Eu não o conheço tão bem quanto você, mas sei que o ruivo é um moleque teimoso e não vai me dar ouvidos. Estou errada?
— Não está. — ele negou com a cabeça. — Entretanto, uma coisa que eu aprendi foi a chantagear as pessoas. — ele sorriu maroto. — Você é uma garotinha muito irritante. Acho que se te ajudar, me privarei da sua chatice por um tempo. Eu tenho algumas fotos do Castiel que posso te dar.
— E o que tem de errado com as fotos dele?
Kentin tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto bem antiga do F4. Quando o zoom foi dado em Castiel, caí na gargalhada. Ele tinha uma super cara de menina.
— A mãe dele queria uma menina. — explicou. — Quando a mãe dele ainda ligava em cuidar dele, o vestia com roupas de menina. Ficava muito engraçado.
Novamente foi uma gargalhada alta e eu o acompanhei. Imaginar a situação era algo cômico. O sorriso do garoto foi se desfazendo, tornando-se em uma expressão incômoda.
— Eu posso fazer uma pergunta chata? — interrogou ele.
— Já fez. — o respondi e dei uma risadinha. — Estou brincando com você. Pode, acho que assim eu estarei retribuindo o favor que me fez na piscina.
— Como perdeu seus pais?
Não era uma pergunta que me destruia por dentro, mas foi algo que sempre me incomodou. Nunca cheguei a conhecer meus pais, apenas cheguei a ouvir histórias sobre eles. Era isso que me incomodava, eu não era grande o suficiente para ver com meus próprios olhos como eles eram.
Após meu nascimento, minha mãe desenvolveu um câncer no útero. Meu pai foi para o exercito afim de conseguir dinheiro para pagar o tratamento. Aquela fora a época de conflitos do nosso país com outros e meu pai acabou morrendo em uma guerra. Minha mãe morreu em um acidente de carro poucos meses depois. Ela estava comigo e um carro bateu no nosso. Seu ultimo ato heroico foi pedir que me tirassem de dentro do carro primeiro. Houve uma explosão e foi assim que virei órfã.
— Me dê seu celular. — pediu ele.
— Para quê?
— Para passar as fotos. — Kentin arqueou a sobrancelha.
— Não está com pena de mim, está?
— Está pensando que irei te passar as fotos por causa disso? — ele riu.
— Pela cara que fez. — insisti.
— Eu não sinto pena. — ele deu de ombros. — É uma história de vida como a de qualquer outro. Todo mundo sofre nessa vida, mais cedo ou mais tarde. E se isso te faz sentir melhor, eu já tinha proposto as fotos. Você é tão nanica que nem deve lembrar, seu cérebro deve ser do tamanho de um amendoim.
Só esperei alguns minutos. Assim que ele me passou as fotos, corri para a sala do F4.
— Onde conseguiu isso?! — bradou Castiel em busca de meu celular.
— Não é da sua conta! — exclamei enquanto corria pela sala. — E não adianta pegar meu celular, tenho milhões de cópias em casa!
— Está blefando! — ele cruzou os braços.
— Quer mesmo descobrir se estou blefando? Acho que você quer mesmo que eu espalhe as fotos de quando você nem menstruava ainda.
— E a quem você pretende dar essas fotos? — o ruivo tentava se conter, havia até parado de correr atrás de mim pela sala. Entretanto eu sabia que ele estava com o cu na mão e sem discussão!
— Eu posso dar isso à Peggy! — sugeri. — Essas fotos ficariam lindas na TV da cantina. Já estou até imaginando.
— Eu irei proibi-la de divulgar essas fotos. — Castiel rebateu firmemente.
— Mas não pode proibir toda a escola de recebe-las e espalha-las. — aquele foi o checkmate. O ruivo se calou, e quem cala consente. O derrotei apenas à base de chantagem. — Tire meu F4 e fale a todos que tudo o que Peggy exibiu não passa de lorotas mal contadas.
Ele acabou cedendo, sem mais. Confesso que me senti completamente poderosa naquela situação. Mas devo admitir que não achei que o lance das fotos funcionariam. Minha conversa com Kentin foi calma como a de dois colegas, entretanto eu não sabia se ele era bom em fingir e passar a rasteira nos outros. Quem vê cara, não vê coração. As aparências enganam.
— Você devia se achar muito poderoso e metido a vilão. Errou, errou feio, errou rude. Não passa de um cuzão. Um filhinho de papai em alto grau. Pessoas não são intocáveis por terem dinheiro.
Essa foi a minha demonstração de poder naquele momento. Quem diria que o garoto que lutou comigo iria resolver meus problemas assim tão facilmente. Pelo visto Kentin não era um amigo tão fiel de Castiel, se fosse não teria entregado fotos comprometedoras para sua "inimiga".
Havia combinado com Iris que iríamos fazer uma festinha do pijama, apenas nós duas. Estava levando meus cobertores e meu pijama dentro da mochila. O frio estava tão intenso que andava pelas ruas com dois casacos e um sobretudo por cima.
— Como venta e como neva! — admirei-me.
Meus passos foram apressados por conta disso. Cheguei até mesmo a tropeçar em alguma coisa e quase espatifar minha cara no meio daquela neve suja da calçada. Que nojo! Que nojo! Tanto nojo me levou a procurar o que quase havia me feito espatifar a cara na neve suja. Visto de primeira, parecia mais uma estátua coberta de neve, mas quando olhei bem, era uma pessoa sentada no banco a tremer de frio. O mais curioso era que eu conhecia essa pessoa.
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