A Órfã Doce
7 Coração de gelo
Notas iniciais

— Castiel, é você? — interroguei incrédula.
— Frio. — ele sussurrou enquanto seu corpo tremia. Estava congelando, parecia um picolé.
O prédio mais próximo era o do observatório público. Como eu era boazinha! Boa demais! Castiel me sacaneou lindamente, mas mesmo assim eu estava o ajudando a sair do meio da neve e ir para um lugar mais quentinho.
— Que frio terrível! — queixou-se ele. A neve em seu cabelo caía no chão da entrada do observatório.
— Se estava tão frio, o que diabos estava fazendo parado ali enquanto nevava? — rebati.
— Estava esperando uma garota. Marcamos encontro ali. — Castiel encarou o chão. Parecia estar altamente desapontado. — Aquela loira burra me deixou esperando como um babaca.
— Você é um babaca. — cruzei os braços e ri. Não estava preocupada nem um pouco com a vida amorosa daquele mala sem alça. Parecia que o universo não estava muito a favor de Castiel naquele dia. E por mais que ele não merecesse, resolvi dar um tempo e ser gentil com ele. Quem sabe, nossa briga foi iniciada porque estávamos no lugar errado e hora errada. Ele não havia pagado por tudo, mas já estava lamentável o suficiente para que eu sentisse pena. — Vem, te pago um café.
— Tem algum restaurante por aqui? — parecia ser uma pergunta bem inocente. Burra, mas inocente.
— Não. Parece até que fez curso para ser tão lerdo. — revirei os olhos. — Nunca veio em um lugar como este?
Ele negou com a cabeça. Por mais que não fosse um cara do qual não prefiro elogiar, admito que estava sendo bem agradecido em não ficar puxando briga comigo por conta dos insultos. Depois que percebi isso, fiquei pensando seriamente se tiraria proveito da situação. O tal café vinha de uma máquina que tinha ali perto, era barato, mas era uma bebida quente o suficiente para que não congelássemos. O observatório era melhor do que estar lá fora, mas também não era tão quentinho assim.
— Café barato. — reclamou. — Belo jeito de morrer.
— Melhor do que morrer de hipotermia esperando uma garota que te deu bolo. — questionei. — Engole logo essa droga de café! — ordenei ranzinza. — Só me responde uma coisa: por quanto tempo ficou parado ali?
— Cinco horas. — respondeu ele. Notei até que foi em tom baixo, parecia que estava envergonhado. Eu também estaria. Levar um bolo já é vergonhoso, imagina quase morrer de frio e levar um bolo ao mesmo tempo?!
— Quantas horas? — indaguei incrédula.
— Era uma pessoa especial. — o ruivo se justificou. — Mas não sei se é mais tão especial assim.
Quando vi Castiel com aquela expressão no rosto, quase esqueci do monstro horrível que ele era e o modo como fui tratada. Eu o chantageei com a foto, e ele não parecia que ia dar um jeito de revidar. Aparentemente tínhamos dado uma trégua. Resolvi ser legal com ele, talvez assim ele também fosse legal comigo.
— Vem cá! — o convidei puxando pelo braço. — Tem um lugar bem legal aqui que eu gosto de ficar.
Passamos por uma porta de vidro, havia umas cadeiras com estofados bem grandes e uma escada. Subimos a escada e nos sentamos no ultimo degrau.
Ficamos conversando muito. Sobre a escola, a oficialização da nossa trégua e sobre alguns lugares dos quais Castiel já havia visitado. A conversa estava tão interessante que quase esqueci que havia combinado de ir dormir na casa de Iris.
— Droga! — exclamei assim que lembrei. — Vamos descer, eu preciso ir.
Assim que chegados na porta de vidro e eu tentei empurrar, vi que tinha um cadeado.
— Ah meu Deus! — exclamei. — Trancaram a porta!
— O que? — Castiel me olhou. — Como assim trancaram?
— Estamos presos. — conclui. Peguei meu celular automaticamente em busca de saída.
— Liga e pede ajuda! — sugeriu ele.
— Está sem sinal. — respondi aterrorizada.
— O meu também está sem sinal. — lamentou-se o ruivo. — Deve ser por causa da neve.
— Ah meu Deus. — coloquei as mãos na cabeça. — Eu estou presa com você.
— Calada. Ao invés de ficar me ofendendo, deveria pensar em alguma coisa para nos tirar daqui. — Castiel resmungou se sentando em uma das cadeiras. — Não tem nada pra jogar na porta de vidro?
— As cadeiras são chumbadas no chão. E isso é vandalismo. — o lembrei.
— Eu sou rico, esqueceu? — ele arqueou a sobrancelha com um ar superior. — Eu poderia muito bem pagar outra porta.
— Esse vidro não parece ser fraco. Sem contar que mesmo que quiséssemos quebra-lo, não temos nada para jogar.
Minutos se passaram em silêncio. O frio estava cada vez mais intenso e incômodo. Tanto eu quanto Castiel tremíamos, cada um sentado em uma cadeira. Quando dei por mim, vi a cabeleira do ruivo bem de perto. Ele estava com a cabeça apoiada em meu ombro. Por um segundo quase quebrei a cabeça dele com um cascudo.
— Como você é descarado! — exclamei. — Só porque fui legal com você, isso não significa nada. Entendeu?! Pervertido!
Minha explosão se conteve por um minuto assim que vi o estado em que o garoto estava. A vermelhidão reinava em seu rosto e quando coloquei a mão em sua testa, pude notar a febre alta.
— Estou com frio. — ele gemeu se encolhendo na cadeira.
— Você está doente? — indaguei.
— Acho que sim. — respondeu ele. — O que eu faço agora?
Tirei minha mochila das costas e tirei as cobertas que estavam dentro dela. Fiquei com a mais fina por estar mais agasalhada que Castiel. Foi a primeira vez que senti dó de verdade do pobre coitado. E confesso que quando não estava me ferrando, até que ele era bonitinho.
Quando amanheceu e assim que despertei, avistei Castiel com a cabeça em meu colo.
— Sai! — berrei o empurrando. — Como você é sem vergonha!
Castiel deu um bocejo e se enrolou nas cobertas novamente, parecia nem ter acordado.
— Castiel. — cutuquei seu braço. — O carinha está vindo destrancar a porta. — avisei. O guarda veio correndo assim que nos avistou. — Castiel, acorde. — ele nem parecia dar sinal. — Castiel! — berrei, mas não só berrei. Minha paciência se esgotou e acabei dando um empurrão tão forte que o fez ir ao chão.
— Ai! — exclamou ele. — O chão está frio, sua maluca. Quer me matar?
O guarda destrancou a porta e teve a gentileza de perguntar se estávamos bem ou se precisávamos de atendimento médico. Castiel desceu as escadas berrando e brigando comigo. Ótimo, a chatice havia voltado a reinar em seu corpo.
— Ótimo, Iris vai achar que eu deixei ela na merda. Tudo por culpa sua. — sacudi os braços, já era notório que havia perdido a paciência.
— Então por que não me deixou lá sozinho e passou reto? — rebateu o ruivo.
— Eu deveria ter feito isso mesmo! Do jeito que você é ruim, passaria reto se visse uma pessoa na mesma situação em que você estava. — fiz careta. — Deveria ser um pouquinho mais grato com as pessoas que te ajudam sem pedir nada em troca. Gentileza é de graça, não se esqueça disso.
Castiel havia cumprido sua palavra quando prometeu que estávamos de trégua. Ainda não havia colocado em prática todas as condições do acordo, mas me deixar em paz já era alguma coisa. Tive uma surpresa quando voltei a meu apartamento e encontrei presentes em minha porta.
Eram grandes e cheios de laços bonitos. Os arrastei para dentro e comecei a abri-los. As flores eram rosas brancas e vermelhas que faziam um lindo contraste em um buquê grande. As rosas vinham em uma caixa e entre elas estava uma pistola. Em outro embrulho havia um perfume e vários chocolates. Junto de tudo aquilo, havia um cartão.
"Por mais que gentileza seja de graça (coisa que não irei esquecer), acho que merece ser recompensada por sua boa ação. Duvido que outra pessoa em seu lugar me ajudaria. Por isso te agradeço tanto por cuidar de mim ontem. PS: a pistola foi sugestão de um dos garotos do F4. Ele me disse que você treinava pontaria".
Não havia assinatura, mas estava mais do que óbvio que os presentes eram de Castiel. E sinceramente, aquilo fora uma gracinha da parte dele. Nunca na vida recebi presentes de um garoto, mesmo que fosse só um colega ou amigo. Apesar de gostar de sua ação, deixar uma pistola na porta de minha casa havia sido uma burrice eterna. Se algum morador a visse, eu seria expulsa do prédio em cinco segundos.
Até mesmo abri a arma para checar a munição. O lance da burrice se agravou mais quando puxei o pente da munição e vi que as balas eram de verdade. Ficaria histérica se os chocolates não fizessem parte do pacote.
— Quem será a pessoa que deu bolo no ruivo?
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