A Órfã Doce
48 Peças montadas
Notas iniciais

“Firme Lynn, firme”. – disse para mim mesma sem temer.
– Você leu meu diário. – ela disse em um tom de voz uniforme, calmo e melancólico.
– S-sim. – confirmei nervosa.
– Deve ter muitas perguntas... Por exemplo, por que eu apareci para você. – apenas concordei com o olhar, mas continuei em silêncio. – Você tem uma boa energia e parece ter a cabeça no lugar. Nunca apareci para a Mika, ela ficaria louca de novo.
Miki explicou que após a sua morte e a morte da mãe, a tia Mika ficou louca, saiu escrevendo nas paredes, falando sozinha, quebrando coisas em casa. O resultado foi ela ser internada. A mãe dela havia morrido, então como a diretora era mãe da tia Mika? A resposta veio em seguida. Na verdade a diretora era tia da Miki e da Mika, mas com os problemas que a tia Mika teve, acabou acreditando que a diretora era mãe dela. Isso foi pelo simples fato de não querer aceitar que a mãe havia morrido.
“Então foi ela quem escreveu aquilo na parede do quarto?” – pensei. – “Ela também não quis aceitar a morte da irmã”.
– Ela engravidou e saiu daqui por dois anos. Depois voltou e eu não vi filho. – Miki explicou. – Vários anos depois eu fui ver o Ken.
– Ken? – fiz careta, ele era chamado assim?
– A mãe dele o chama assim. – ela sorriu. – Não pense que eu sou má. – ela mudou de assunto.
– E por que negou a ajuda da minha amiga? Aliás, porque a jogou na porta durante o ritual? – perguntei fazendo careta.
– Realmente eu agradeço sua amiga Lana, ela me deu uma mão e fez eu me recompor. Eu estava tomada por ódio, pelo ódio de eu ser simplesmente esquecida por Mika. Eu fiquei tão furiosa quando Ken veio para casa pela primeira vez e eu percebi que Miki não tinha contado nada a ele... – ela encarou o chão, com um olhar triste. – Aconteceu a mesma coisa agora, com você. — logo o tom de voz dela mudou, parecia ser de desprezo. – Me tratou como se eu fosse uma dor a ser esquecida, como se estivesse brincando comigo, como se eu não existisse. Fiz aquilo com a Lana por raiva, foi errado da minha parte.
– Não a culpe. – pedi. – A tia passou por muita coisa, acho que não tem forças para contar.
– Engano seu, as pessoas podem ser fortes. – ela cruzou os braços.
– Você não pode falar isso. Você se matou! – falei com um tom de voz alterado.
– Me matei mesmo, mas eu espero mais força dela. Os sentimentos de angustia, de ódio, de tristeza, todos eles me fizeram ficar aqui, eu me comunico com Mika pelo diário, ela sabe que existe uma parte viva de mim dentro dessa casa. – logo ela se aproximou de mim, o que fez meu coração acelerar, medo? Um pouco, não tinha me acostumado com aquilo. Ainda mais porque ela estava com uma katana na mão. – Não me leve a mal, mas se sua amiga tivesse vindo para querer me expulsar, eu mataria os três que estavam aqui. – ela sorriu. – Não aceitei ajuda dos “elementais” porque eles queriam me convencer a desistir disso e me concentrar em achar o caminho para a “luz”. – logo ela fez uma careta e uma voz como se estivesse debochando ou imitando alguém.
– Desculpe, poderia afastar-se? – perguntei sem jeito.
– Oh! Isso? – ela olhou para a katana. – Ela não corta nada no mundo físico. – o mundo físico é o mundo onde vivemos, acho que foi isso que Lana disse que era.
– Ela não corta nem papel. – sorriu. – É que o mala do Ken ficou com todas as outras minhas.
“Então as katanas do quarto dele pertenciam a ela?” – pensei.
– Você não gosta do Kentin? – perguntei.
– Mais ou menos. – ela já falava de forma mais descontraída, o que era bom para que eu perdesse o medo. – Como seu irmão, o que ele fez não foi certo. Para ser sincera, o Kentin veio para cá há pouco tempo, você sabe me dizer onde ele estava?
– Como? Você não sabe? – arregalei os olhos, surpresa, pensei que ela soubesse de tudo.
“Com o pai?” – pensei. – “É, deve ter sido isso. E depois na escola militar. Já que a tia trabalha muito, isso faz sentido”.
– Eu só sei daquilo que eu vejo pela casa. – logo ela me lançou um sorriso pervertido. – Como o que aconteceu no ofurô.
– Você não me parece má. – dei um sorriso constrangido tentando contornar o assunto.
– Não sou. – ela respondeu. – Eu só sofri muito. Algo me diz que você também. – baixei a cabeça. – Era muito triste ver minha irmã trazendo pessoas para me expulsar daqui. Na época, as pessoas que vinham aqui diziam que o demônio tinha me tomado e que estava usando meu espírito para fazer todas aquelas coisas.
– Você arrombou uma porta só com porrada. – questionei cruzando os braços.
– Espere, mas isso foi só depois. – ela fez bico. – Eu tentei me comunicar com Mika bem antes disso, de uma forma mais calma, e ainda por cima estava me acostumando a mover coisas no mundo físico. Depois que ela ficou com medo, decidi não tentar mais nada, decidi deixar que ela se acalmasse. Eu chorava todos os dias...
– Espere. – fiz bico a interrompendo. – Você está presa na casa, você vive aqui e não quer sair. Não seria a mesma coisa se estivesse viva? Por que escolheu a morte?
– É fácil falar, Lynn. – ela suspirou. – Você não sabe como é perder um filho, uma mãe e um marido. Tudo ao mesmo tempo, toda a desgraça se espalhando como se fosse uma epidemia.
– Você sente alguma dor? – perguntei, claro que não sentia. Estava morta.
“Essa entra para o meu caderninho de perguntas idiotas”. – pensei, arrependida da tal pergunta.
– Nessa forma que eu estou, as dores são só emocionais. – ela encarou o chão, triste. – Foi muito triste ver Mika ficando louca, para falar a verdade, ela não é a mesma desde que me encontrou no quarto.
– Ela escreveu nas paredes... – pausei um pouco pensando. – Ela também trancou as portas por causa disso?
– Sim. – Miki respondeu rapidamente. – Ela achava que alguém poderia entrar na casa dela e se esconder para tentar mata-la, quem sabe. Acho que era isso que ela pensava que iria acontecer. E também é por isso que ela não tem nenhuma empregada, acho que você já deve ter se perguntado isso. Ela acha que alguém pode vir mata-la, ficou totalmente paranoica. Ela ficou andando com um chaveiro enorme e...
– Por que meu quarto? – a cortei com uma pergunta. – Pensei que fosse um lugar especial. Era para a sua filha, não era?
– Era. E é um lugar especial! – ela encarou o chão novamente. Com minhas perguntas repentinas, Miki ora ficava eufórica, ora triste. – Eu rasgo os papeis de parede e tento raspar o que ela escreveu por baixo, até hoje eu não consegui, minhas energias não chegam a esse grau. – ela suspirou.
Ouvi barulhos pela cara, deveria ser Kentin que tinha voltado. Olhei para trás, ele já subia as escadas. Ao olhar para frente não vi mais Miki.
– Miki? – a chamei encarando os lados sem vê-la.
– Outra hora, Lynn. Outra hora. – só se ouvia sua voz ecoar pelo corredor. – Não conte nada a ele, ele não entenderia.
– O que foi? – Kentin perguntou andando pelo corredor. – Ta ficando maluca agora? – Kentin arqueou a sobrancelha.
– Eu não estou ficando maluca, eu só estava... – me segurei, Miki tinha pedido agora mesmo para guardar segredo. Deixei a frase morrer, apenas desviei o olhar como se o assunto pudesse morrer ali também.
– Está solitária? Compra um hamster. – ele deu um sorrisinho irônico e andou até o quarto dele.
– Hei! – exclamei o seguindo. – Aonde foi?
– Não me escutou? – ele falou ao fechar a porta na minha cara. – Eu disse que iria à casa do Castiel.
– Foi lá brigar com ele? – deduzi abrindo a porta.
– Não, fui falar com ele e com os meninos. – ele me olhou quando entrei no quarto.
Kentin jogou uma mochila em cima da cama e logo tirou a camisa, notei que ele estava suado. Cruzei os braços e fiquei olhando, passei de zangada a hipnotizada e corada.
– Quer uma foto? – ele falou rude. – O que quer dessa vez?
– Não saia mais! – exclamei. – Não sabe do boato que está rolando?
– Boato? – ele franziu a testa, confuso.
– Estão basicamente dizendo que um dos membros do F4 engravidou uma menina. – cruzei os braços, falando firme.
Kentin desviou o olhar, ele fez uma cara muito desconfiada pro meu gosto. Aquilo me preocupava, aquele idiota tinha feito mesmo alguma bobagem?
– Então você quer que eu fique em casa por causa de algum boato? – ele virou de costas, foi mexer em algo no guarda-roupa.
– Não, eu estou mandando ficar em casa. Por que você fez essa cara desconfiada? – já alterava o tom da voz dando passos largos até ele. – OLHA PRA MIM ENQUANTO EU FALO! – bradei.
– Como é? – ele se virou para mim, fazendo careta. – Acha que manda em mim? Sua tampinha! Onde arrumou moral para isso?
– No mesmo lugar onde você arruma suas inúteis tentativas de parecer machão. Sua bicha! – agora sim eu estava agindo como um menino, para ser mais especifica, eu estava agindo como Castiel. Imagina só, estava falando como uma das pessoas que Kentin mais ama no mundo.
– Da ultima vez que uma garota me chamou de bicha, não deu muito certo. – ele deu um sorriso confiante.
– NÃO QUERO SABER. – gritei feito uma maluca.
– Hei, pare de querer ter autoridade. – ele agarrou meu pulso.
– Se dissessem a você que eu estava liberando para geral, o que faria? – puxei meu braço. – Não quero ninguém suspeitando de você.
– É só um boato. – ele revirou os olhos.
– Eu não quero, você me entendeu bem? – o olhei nos olhos. – E se pensar em ir contra o que eu falei, está indo contra mim. E fique sabendo que você vai se arrepender se for contra mim.
Virei as costas e saí do quarto batendo a porta com força. Era muita marra para uma pessoa só. Eu não tinha a mínima autoridade ali, mas fingi que tinha, e se ele for trouxa o suficiente, ele obedece. Apesar de que isso é bom para ele. Mesmo Kentin sendo um chato do caramba, eu nunca quis que acontecesse algo ruim com ele. Digamos que eu estava tentando proteger ele como ele fazia comigo, só que de uma forma mais rude e autoritária. Se aquilo era grosseria da minha parte? Claro que era. Mas ele foi da escola militar, e ainda por cima é um menino, já deve ter se acostumado com atitudes como a minhas.
Fiz um lanche rápido na cozinha, já estava uma zona quando eu cheguei. Fiquei com tanta preguiça de arrumar, que fiz meu lanche e fui para o quarto dormir.
No meio da noite, ouvi um barulho muito alto. Acendi a luz, foi minha mochila que caiu, o zíper abriu sozinho, meu caderno saiu de dentro da mochila e se abriu.
“Miki? O que ela quer essa hora da noite?” – pensei.
A caneta saiu de dentro da mochila e se moveu bem devagar, Lana tinha contado que não era fácil para um espirito mover sólidos no mundo físico. Observei as letras que ali se formaram, assim que os movimentos cessaram, fui ver o que tinha escrito.
“Tem alguém lá fora”. – li mentalmente a mensagem do caderno.
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