A Órfã Doce
14 Passado alheio
Notas iniciais

Na Sweet Amoris, apesar de ter uma desordem horrível, tinha sempre um lugar que eu poderia ir para relaxar. Era o mesmo lugar que Kentin costumava ir, o terraço. Já que ele reclamava tanto, fiquei em silêncio dessa vez. Ele devia estar por aí dormindo feito um bêbado largado.
– Que vento bom! – fechei os olhos enquanto uma brisa batia levemente contra meu rosto.
De repente ouvi uns soluços vindos do final da escada.
“Kentin está aqui?” – pensei.
Fui indo em direção ao barulho até encontrar uma pessoa sentada no chão, apoiando as costas na parede, em seguida vi que a pessoa chorava e abraçava as pernas. Só o reconheci pela cabeleira azul.
– Alexy? – falei o nome do mesmo.
Alexy olhou para mim nervoso, limpando as lágrimas. Agachei-me e coloquei a mão em seu ombro.
– Eu não vou perguntar por que você está chorando. – o tranquilizei. – Eu sei que perguntar isso só piora tudo.
Fiquei de joelhos a seu lado e o abracei, ele se desmanchou em lágrimas com o queixo apoiado em meu ombro.
“Eu sei como é se sentir triste”. – pensei lembrando-me do que ocorrera ontem.
– Sabe... – peguei um lenço do bolso e limpei suas lágrimas. – Você é muito bonito, não devia ficar se escondendo nos lugares para chorar.
– Não está apaixonada por mim, está? – ele perguntou.
– O que? – estranhei. – Não. – respondi fazendo bico.
– Ah! Claro... – ele corou olhando para o chão. – Ainda bem que você não é como as outras meninas.
– E como elas são? – interroguei com um tom de curiosidade.
– Normalmente elas se jogam para cima de mim e isso me deixa meio mal. – ele se levantou e estendeu a mão para que eu me levantasse. – Elas sempre acham que eu sou como o Armin, e eu não sou. E eu não gosto de magoar ninguém...
Normalmente garotas que se jogam em cima de caras porque querem apenas conquista-los para usa-los como um troféu na frente das amigas. As garotas daquela escola eram desse tipo. E se o F4 fosse composto por mulheres, os garotos daquela escola fariam o mesmo que as garotas. Após uns minutos de conversa um silêncio se instalou, encarei o chão. Vi Alexy limpando outras lágrimas com o lenço que eu havia lhe entregado.
– Espera. – falei mexendo numa bolsinha e pegando um pó compacto. – Sabe... Eu trouxe isso caso você precisasse.
Alexy deu um meio sorriso, pedi para que ele não chorasse mais. As lágrimas haviam tirado o pó, o que revelava a brancura anormal da sua pele.
– Você é a única em que eu confio. – ele me olhou triste. – Aqui as coisas nunca foram fáceis pra mim. – ele encarou o chão. – E eu não posso mais voltar pra casa.
– Onde seus pais moram? – perguntei.
– Bem... – ele olhou para mim. – Teve um tempo que eles passaram uns meses morando aqui, Armin e eu estudávamos aqui na Sweet Amoris, o F4 se formou naquela época, tínhamos uns oito anos. Voltamos para a Alemanha nas férias, mas a minha mãe nos mandou de volta, ficamos sob a responsabilidade de um tio nosso. Castiel já era maligno naquela época. – Alexy riu. – Eu nunca gostei de Castiel. Também nunca gostei da amizade entre ele e Armin, mas isso é uma coisa que eu nunca pude mudar. Por não gostar de Castiel, eu não gostava do ar ditador que o F4 tinha. Eu simplesmente quis me afastar, mas por ser gêmeo de Armin, isso se tornou complicado. – ele suspirou encarando o chão.
Alexy explicou que houve um tempo da separação do F4. Ele e Armin foram para a Alemanha, Kentin foi para a escola militar e Lysandre formou uma banda no exterior com outras pessoas.
– Daí... – Alexy falou segurando as lágrimas. – Na Alemanha... Eu me apaixonei por uma pessoa.
– Qual era o nome dela? – perguntei.
Alexy me olhou e ficou em silencio por uns segundos.
– Me viram com essa pessoa. – ele prosseguiu sem me responder. – No outro dia meus pais souberam e quiseram me por para fora de casa... Armin assumiu a culpa por mim, como você sabe até alguns dias éramos simplesmente idênticos. – ele encarou o chão. – Armin faz muito drama em relação a isso, como se ele tivesse sacrificado a alma ele. Ele estava até planejando fugir de casa. Mas essa foi a oportunidade perfeita para ele ir embora.
– Não entendo... – comentei confusa. – O que tinha você namorar? Seus pais não davam permissão?
– Lynn. – ele me olhou corado. – Era um menino, eu gosto de meninos. Eu sou gay.
Na hora senti um choque total, Alexy não tinha demonstrado nenhum sinal de ser gay. Mas será mesmo que todos os gays têm aquele "jeito de gay" que as pessoas tanto falam?
– Você tem problemas com isso? – ele perguntou.
– Não. – respondi. – Eu só estou meio chocada. – falei colocando a mão no peito. – Meu gaydar não avisou isso. – brinquei.
– Ele deve estar precisando de manutenção. – Alexy sorriu ao ver que estava tudo bem.
– Espera. – fiz bico. – Se você é gay, por que me beijou?
– Ah... – ele colocou a mão atrás da cabeça e corou um pouco.
Alexy falou que mantinha contato com Armin pela internet. Armin disse que tinha me visto entrando no restaurante como garçonete. No caso, Armin falava várias coisas sobre mim, tudo isso porque ele me achava “barraqueira”. Alexy se passou por ele e me beijou, isso foi meio que uma “vingança” ou “zoação” para com Armin, isso tudo porque ele assumiu uma culpa que não era dele só para ir embora. Armin foi meio egoísta, nem pensou no próprio irmão!
– Ele falou algo sobre o F4 que você havia recebido. – Alexy me olhou e mostrou um sorriso. – Ele disse que você é forte. Eu gosto de pessoas determinadas. E para falar a verdade. – ele falou mais baixinho. – Eu sempre quis dar uma voadora no Castiel também. – ele piscou para mim.
– Ah! Isso... – cocei a cabeça constrangida e corei.
– Sabe Lynn. – ele pegou na minha mão. – Se eu fosse realmente atraído por meninas, você seria minha namorada com certeza. – ele me deu um abraço tão apertado que eu senti minhas costas pedindo socorro. – Obrigado por tudo. – ele me soltou tocando somente nos meus ombros.
Alexy continuou a sorrir, me puxou um pouco para perto dele e selou nossos lábios.
– Um beijinho só não mata ninguém, né? – ele brincou colocando as mãos atrás da cabeça. – Somos amigos, sim?
– Claro. – murmurei totalmente corada.
– Você é a primeira pessoa que me aceita aqui. – Alexy falou fazendo bico. – Eu sou grato por isso. – agradeceu. – Agora que eu vou falar com ele.
Aparentemente Alexy ainda sofria pelo que aconteceu na casa de seus pais. Realmente ser rejeitado pelas pessoas que te deram a vida deve ser algo bem perturbador.
Ao chegar no centro da escola vi “As três belezas” vindo até mim.
“Ai que ótimo”. – pensei – “Lá vem a Ambrega”.
– Hei. – ela me chamou. – Tem algum dinheiro para me emprestar?
– O que? – arqueei a sobrancelha me impressionando com a cara de pau delas. – Está me achando com cara de banco?
– Ah Droga! – ela falou revirando os olhos. – Meninas, vamos ali, tem um nerd ali.
– Espera. – falei tocando no ombro dela. – Você rouba as pessoas?
– E isso é da sua conta? – ela falou rude, rebatendo minha mão.
– Você é baixa, isso sim. – falei. – Por que não procura alguém do seu tamanho?
– Querida. – ela começou. – Eu precisaria achar alguém digna de brigar comigo só pra inicio de conversa.
Com certeza aquilo me fazia lembrar.
– Eu acho ridículo isso que fazem com você. – a diretora me olhou
– Acha ridículo o modo que eles me excluem? – perguntei.
– Também... – ela falou pausadamente. – Você é frágil, hoje no treino eu vi um menino te derrubar na piscina de propósito. Não gosto de pessoas que fazem isso. – ela pegou o rifle e começou a carrega-lo. – Eu tenho certeza que você vai se tornar uma pessoa forte. – ela sorriu.
Aquela era a diretora. A diretora boca suja, velhota, e a pessoa mais legal do mundo inteiro.
– Quem não está na minha altura é você. – abri um sorriso provocante.
– Como? – ela virou-se de frente para mim.
Ambre levantou a mão para mim, se eu reagisse iria para a diretoria. Mas ela também iria, não?
– Com licença minha querida. – vi uma mão segurar a mão de Ambre. – O que pensa que está fazendo?
– Iris... – pronunciei seu nome em tom baixo. – Não precisa disso, eu sei me defender.
– Me solta, mocreia! – Ambre falou dando um empurrão em Iris.
– Escuta aqui seu saco de batatas. – falei empurrando ela pelos ombros. – Quem você pensa que é?
– Quem VOCÊ pensa que é? – Li falou se metendo na frente.
– Sai daqui, vai comer meu batom para lá! – exclamei empurrando Li para fora da conversa.
– Vocês acham que mandam nessa bagaça? – Iris se pronunciou. – Suas... BOBOCAS!
“Mas o que?” – pensei batendo a mão na testa. – “Porra Iris, boboca?”.
– Nossa. – Ambre caiu na risada. – Está aqui há tanto tempo e nem ao menos aprendeu um xingamento decente. – Ambre falou olhando para Iris. – Esperado de intrusos.
– Não sou uma intrusa. – ela falou ofendida. – Sou imigrante. – corrigiu.
– Por que não volta para o lugar ruim de onde veio? – Li perguntou em um tom zangado.
– Hei sua horrorosa. – a chamei irritada. – A Inglaterra que fez a primeira revolução industrial, se não fosse por ela, você não poderia estar passando esse reboco todo na cara.
– Não uso maquiagem. – Li falou cruzando os braços.
– Não, é? – falei a olhando dando um sorriso maldoso.
Meti a mão na bolsa de Iris e peguei uma garrafa de água, a abri e joguei em cima do rosto de Li.
– Toma você também que esse seu cabelo é falso. – completei jogando o resto no cabelo de Ambre.
“Charlotte não falou nada”. – pensei. – “Está com sorte hoje".
– Eu vou à diretoria agora. – ameaçou Ambre histérica, passando a mão no cabelo. – Você vai se arrepender!
Horas se passaram, fui para um longo dia de trabalho. Mais horas de passaram. Ao chegar em casa vi coisas na porta.
“Que porra é essa?” – pensei.
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