A Órfã Doce

56 Novos machucados


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. Pois é, meninas. Está chegando o tempo de postar capítulos inéditos

Naquela noite, Kentin mal falou comigo. Que grande ajuda estava me dando, me ignorando! Fiquei quieta, apenas pensando em como conseguiria convencer Castiel de que eu estava falando a verdade. Castiel é a pessoa mais teimosa da humanidade! Será que eu tinha partido o coração dele?

No dia que eu acabei trancada no observatório com ele, ele estava na neve esperando a Angela, mas naquele dia o voo dela foi cancelado e ela só veio depois. Certo que Castiel estava firme mesmo que ele tenha quase morrido de frio por culpa dela, mas... Eu sabia que a minha situação não dava nem para comparar, era algo muito maior, mais grave. Ele estaria bravo comigo por causa disso? Será que ele realmente estava bravo? E o namoro da Angela com o filho do presidente? Ele soube disso, lógico que ele soube, estava na primeira página dos jornais... Mas ele se esqueceu disso?

Na minha cabeça tudo se misturava formando um vendaval de confusão, queria muito dizer que estava sã do que estava pensando ou fazendo, mas era muito pelo contrário. Estava na dúvida do que iria falar com Castiel, eu sei que com ele as coisas só funcionam na base da arrogância, mas ao mesmo tempo eu fiquei com medo de piorar as coisas e de magoar ele, se é que ele não estava magoado.

Como é que eu estava ficando tão sentimental assim? Preocupando-me com as pessoas a todo momento, até estava parecendo Lana, só que em um nível não tão avançado. Primeiro foi a preocupação com Kentin, agora com Castiel. Lysandre tinha razão quando falou sobre meus laços com Kentin, apesar de serem estranhos eram bonitos. Mas com Castiel a coisa era outra, ele não era meu irmão. Então o que é que eu tava pensando?

Naquele dia eu decidi deixar as coisas de acordo como Kentin queria, em silêncio. No dia seguinte eu estava decidida a falar com Castiel, mas depois veio a noticia de que o F4 não estava na escola, nem Kentin. Kentin veio comigo, onde ele estava? Aliás, onde todos estavam? Nem Lana tinha vindo para a escola.

A chave da moto tinha ficado comigo, e a moto ainda estava na escola, sinal que ele saiu com o F4 e não sozinho. Já era a hora de ir embora, a tarde eu iria trabalhar, aproveitaria e perguntaria por que Lana não foi para a escola. Peguei o capacete e liguei a moto indo em direção a porta da escola. Parecia errado, mas eu estava indo numa velocidade não muito recomendável, na verdade eu mal sabia dirigir aquela moto.

Ao acelerar e chegar na curva para o portão notei que haviam vários alunos por lá, e aquilo não era normal. Senti algo tremer na moto, perdi a direção, colocaram uma correte numa altura que batia no meio da roda dianteira, com o impacto eu voei longe. Rolei vários metros no chão e caí quase inconsciente, tirei o capacete para tentar entender o que estava acontecendo. Tinham vários pregos no chão, haviam furado os pneus, mas por quê?

– Vadia. – disse uma de lado. – Achava que poderia se safar?

– É, vadia! – Ambre disse do outro lado concordando com a primeira que falou.

– Como pôde, Lynn? – Lety perguntou de braços cruzados. – Você e o Kentin estão juntos e você o traiu na festa. Você é o que os boatos diziam!

– O que os boatos diziam? – interroguei com dificuldade, estava com vários machucados pelo corpo.

– VOCÊ FICOU GRÁVIDA DELE! – Lety exclamou quase chorando. – E ABORTOU!

– O que? – encarei ela de olhos arregalados.

Os boatos sobre a menina grávida, que palhaçada. Eram sobre mim. Agora eu sabia por que ninguém falava o nome da menina perto de mim ou na presença de Lana, se Lana soubesse, viria me contar. A escola não sabia que agora eu era irmã de Kentin, devem ter me visto ir para casa junto com ele. Mas mesmo assim aqueles boatos eram BEM mais do que estava acontecendo, isso tudo era obra da mesma pessoa! Aqueles bocós do F4 também não falaram nada sobre eu ser irmã de Kentin. E a fama de puta só aumentava, agora eu sabia o porquê. As que me chamaram de vadias, são mais vadias ainda. Se concluírem o ensino médio sem engravidarem, seria um milagre.

Ambre e as sombras dela se foram junto com Lety. Mais pessoas se aproximaram de mim, jogaram bexigas com água dentro e um menino usava um extintor de incêndio em mim. Além disso, jogaram álcool na moto e atearam fogo nela.

– É só isso? – resmunguei me levantando. – É SÓ ISSO QUE VOCÊS TÊM?

Era a coragem tomando conta de mim, aquilo não tinha morrido. Meu orgulho não tinha sido ferido, não ainda, não enquanto eu acreditasse em mim e lutasse para que ele continuasse em tacto. Coragem foi o que me fez ir além, eu era forte, sim, muito forte. Pessoas que tentassem passar o que eu passei, já teriam tirado a própria vida com tantas perdas. Mas eu não, eu agora era Lynn Takamura, a mais forte que existia.

Essa força e determinação eram psicológicas, minha resistência física estava quase no zero. Eu com minha mania de querer bancar a forte... É até estranho eu me contradizer em tão pouco tempo. Às vezes meus pensamentos são opostos à realidade. Isso era apenas uma idiotice, mas não dava mais para voltar atrás, certo?

– LYNN! – uma voz me chamou de longe.

Estava no chão, mal podia me mexer, minha visão embaçava um pouco. As pessoas que jogavam as coisas em mim pararam, ouvi o som de um tiro. Mais gritos com meu nome, eram duas vozes, uma aparentava ser Lana e a outra era a de Alexy. Um vulto de uma cabeleira ruiva passou por mim.

“Castiel?” – pensei.

Sim, era ele. Ele tomou o extintor do menino que estava perto de mim e bateu umas três vezes na cara do menino. Castiel veio até mim quase chorando, me pegou nos braços e saiu andando entre as pessoas, que cediam a passagem rapidamente.

– Desculpe por duvidar de você. – foi o que ele disse, aliás, era o que ele tinha a OBRIGAÇÃO de dizer.

Castiel me colocou no banco de trás do carro junto com Lana, Lana veio nos seguindo.

– Onde estava? – perguntei com a cabeça no colo dela, ela hesitou em falar. – Onde estavam? – perguntei agora olhando para Castiel, que dirigia o carro.

Sem resposta, que ótimo, além de machucada ainda fiquei na merda. Cochilei no meio do caminho, todo mundo ficou em silencio, nem sabia para onde estávamos indo.

Paramos na casa de Castiel, preferia mil vezes ir a um hospital. Estava no banheiro do quarto dele, foi o que ele disse pelo menos. O quarto dele era bem diferente do quarto do Kentin, não tinha nenhum pôster de mulher pelada na parede. Ao invés disso eu vi duas caixas de som ENORMES, amplificadores e uma guitarra em cima da cama. Tirei a roupa que estava meio rasgada por conta da queda, coloquei um roupão, Lana ajudava a limpar meus ferimentos.

– Armin me chamou para ir com eles procurar aquele menino... – Lana comentou vagamente, estava me respondendo a pergunta do carro?

– O Jade? – ela fez que sim com a cabeça.

– Eu filmei. – ela me entregou a câmera. – Veja... Quando puder. – ela saiu porta a fora retendo as lágrimas.

O que ela tinha? Coloquei o ouvido na porta, ouvia uma conversa entre ela e Castiel.

– Eu não vou contar, conta você. – Lana falou em um tom de choro.

– Por que eu preciso contar? – eu já sabia que ele ia ficar de corpo mole, de qualquer forma eu queria saber do que se tratava.

– Porque simplesmente a culpa é toda sua! – Lana exclamou alto, ouvi o som de uma porta sendo fechada logo em seguida.

Sentei-me de novo na borda larga da banheira e fiquei aguardando, já que tinha escutado passos de Castiel em direção à porta.

– Hei. – ele falou me olhando.

– Para onde foram? – perguntei. – E por que levou meu irmão?

– Foi ele quem me chamou, eu não quis fazer nada. – ele cruzou os braços. – Não viu o vídeo ainda?

Peguei a câmera e a liguei, havia um vídeo feito com a data de hoje. O vídeo se passava em um lugar que aparentava ser um beco ou algo assim. Olhei bem para a porta, havia um adesivo dizendo que era a porta dos fundos de uma boate, era isso? Jade estava sendo empurrado contra a parede, Lysandre e Kentin o seguravam. Jade estava com o rosto meio vermelho, era a marca de um soco, pelo menos era o que aparentava.

– Ok. – Castiel suspirou no vídeo com calma. – Agora você fala, certo?

– O que quer? – Jade perguntou já meio sem forças.

– Comeu a minha irmã? – Kentin bradou.

– Depende... Quem é a sua irmã? – Jade jogou outra interrogação por cima.

– A menina que você drogou na festa. – Lysandre respondeu por Kentin.

– Oh... Aquilo... – Jade pausou, a face era de arrependimento, vergonha?

– Quem mandou você? Quem foi a pessoa que tirou as fotos? – Castiel rangeu os dentes já cerrando o punho.

– Uma menina do cabelo preto! – ele exclamou rápido. – Ela veio aqui e disse que tinha um serviço pra mim, numa festa. Foi só isso.

– Não está mentindo, está? – a voz de Lana surgiu, mas a imagem dela não.

– Cara, que droga! – Jade exclamou, se sacudindo dos meninos. – Eu trabalho na boate como garoto de programa, nada mais. A vagabunda me contratou, fim.

– Segura aqui Lana. – era Alexy, ele entregou a câmera a ela. – Você disse que é garoto de programa, né? – ele deu um sorriso pervertido.

O vídeo se encerrou e Castiel ficou olhando para mim, parado, com um ar distante. Tive vontade de rir por causa de Alexy, mas me contive, aquela não era uma situação adequada para risadas.

– Você poderia me agradecer. – ele fez careta.

– Fez mais do que a sua obrigação, seu palhaço! – exclamei dando um tapa no braço dele. – Por sua culpa. – apontei para ele. – Isso aconteceu comigo. – apontei para meus machucados.

– Não mesmo! – ele sacudiu a cabeça negando. – Isso aconteceu por que você é estúpida! Você vive querendo bancar a durona, a forte, quando na verdade não é! Odeio pessoas que mentem para si mesmas.

“Eu sei disso!” – exclamei mentalmente. – “Eu sei que eu estou errada, mas eu morro e não admito, não para você!”.

– E eu odeio meninos mesquinhos que pagam de machões e pintam o cabelo com tinta guache. – cruzei os braços dando um sorriso de vitória, Castiel fez uma cara muito feia que me deu vontade de rir.

A cara feia se desfez. Ficamos em silêncio, eu ainda de braços cruzados com a cara virada. Pensei um pouco, a situação estava meio tensa, ele me olhando, eu com um roupão...

– Se limpe sozinha. – ele saiu porta a fora.

– Hei Castiel! – exclamei. – Não vai contar quem armou para mim?

Ele apenas me deixou na merda, como havia feito mais cedo com Lana. Talvez fosse por isso que Lana quis chorar, ou não? Será que eles já sabiam quem foi o responsável por isso? Terminei de limpar meus ferimentos e fiz curativos em todos, me levantar? Tinha arrombado os dois joelhos, além da coxa que estava toda ralada, levantar estava fora de questão.

“O Kentin sabe que eu estou aqui?” – pensei. – “Como eu vou sair daqui?”.

No final Alexy acabou vindo me ajudar. Naquele momento eu fiquei imaginando como as coisas mudaram e de como as pessoas me pareciam diferentes. Armin, que antes aparentava ser uma pessoa alegre, tinha mostrado as garras pra mim. Alexy não era um pervertido, ele apenas era uma pessoa carente por atenção dos pais, e que era triste por ter sofrido preconceito dos mesmos. Lysandre que antes era uma pessoa muito reservada que nem sequer dava um sorriso, além de sorrir e as vezes tirar brincadeiras comigo, ele tinha me beijado. Kentin mostrou esses ciúmes idiotas que eu nunca achava que ele teria, mas era bom para ambos, um cuidando do outro. Tinha perdido o contato com Nathaniel, mas eu me identificava com o sofrimento dele como nenhum outro se identificava. E Castiel... Ah, Castiel! Era o mais imprevisível de todos, o que mudava de comportamento toda hora. Lá no fundo eu tenho medo dele, lá no fundo eu tenho pânico de pessoas imprevisíveis. Na vida existem surpresas boas e ruins, não gosto das ruins, por isso renuncio o prazer de surpresas boas. Apesar de que... Castiel tinha razão em parte no que falou. Eu tentava ser algo que não era, forte. Eu apenas me mostrava forte, mas não fazia jus a esse título. Não quis admitir na cara dele, admitir para mim mesma já era o suficiente, eu acho...

Kentin me levou para casa, ainda não tinha falado comigo. Esse silencio vinha se proliferando desde ontem. Ao deixar na minha cama, ele deu passos longos até a porta, foram passos rápidos.

– Por que está me evitando? – perguntei.

– O que? – ele virou-se para mim e me encarou. – Não estou te evitando.

– Está me dando gelo, não quer ficar sozinho comigo, claro que está me evitando! – retruquei. – Tudo isso por causa do que aconteceu na festa? Eu vi o vídeo! Você estava lá quando o Jade confessou tudo! Você sabe da verdade, aliás, foi você que convence o Castiel. Você acreditou em mim. Por que está com essa cara de desconfiado?

– Não é isso! – ele exclamou. – É outra coisa... – ele baixou a cabeça.

“Então o que é?” – perguntei a mim mesma.

– Vai ter que falar comigo uma hora ou outra, moramos no mesmo teto. – reclamei.

– Eu posso muito bem ir para a outra casa. – ele fez bico.

– Seria uma sacanagem da sua parte. Cuidei de você quando você pegou catapora. – tive o maior prazer de passar isso na cara dele, tive de fazer tantos sacrifícios, um deles foi quase ver Kentin pelado. Se eu tivesse o visto, com certeza estaria tendo pesadelos até hoje.

– Estou apenas brincando. – ele resmungou. – Você leva tudo a sério!

– FOCO! – bradei. – Quero que me diga quem armou para mim, e não se faça de desentendido. Você sabe quem foi, não é? – esperei, ele fez que sim com a cabeça.