A Órfã Doce

57 O amor de outro


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. Tem certos capítulos em que o título não é tão bem feito, mas eu tento u-u E até tem relação entre o capítulo e o título se você for parar para ver direito xD Então, não tenho muito o que falar. Boa leitura.

– Então, quem foi? – forcei mais um pouco, ele puxou ar para falar.

– A Iris.

Quase tive um troço, me deitei um pouco na cama para conter mais o choque, se eu tivesse de pé, aposto como teria caído no chão.

– Não pode ser. – falei incrédula me sentando e olhando para o chão, mexia a cabeça tentando achar outra resposta. – Iris é a minha amiga. A Iris ama a mim.

– A Iris ama ao Castiel. – Kentin suspirou.

Na minha mente, as recordações voltavam como se fossem uma luz no meio da escuridão. No começo, Iris não queria que eu falasse com o F4. Achei que era porque ela os achava mesquinhos e não gostava do modo como eles se comportavam, aliás, acho que muitos ali pensam assim, mas têm medo de se manifestar. Eu até evitava falar sobre o F4 ou que estive com alguns deles. Acho que ela sabia que eu andava com alguns, mas contanto que não fosse o Castiel, ela não se manifestava. Aposto que ela soube que Castiel se declarou para mim, me tirar do caminho seria mais viável. Eu pensava aquilo agora, claro. Nunca pensei que Iris iria me trair de tal forma. Agora isso fazia sentido, ela não queria que eu me aproximasse do Castiel.

Depois que a Lety chegou, Iris parou de falar comigo. Não duvido nada que ambas armaram para mim, Lety quer Kentin e Iris quer Castiel. As duas já tinham algo em comum: Tirar-me do caminho. Perguntei-me se essas mocreias são tão inseguras para acharem que eu sou um obstáculo tão grande para ter a necessidade disso! Claro que eu não sabia se Lety tinha entrado no meio daquilo, mas que ela tinha motivos, ela tinha!

FLASH BACK ON

Iris havia ficado doente, eu e Lana fomos a visitar. Acabou que Lana teve de sair mais rápido do que eu. Iris estava com uma bactéria no estomago, mas segundo a ela, não era nada grave. Ela já tinha sido medicada e já poderia voltar para a escola brevemente.

– Eu vou ao banheiro. – ela disse sorrindo, logo entrou e fechou a porta do mesmo.

Fiquei sentada na cama com os olhos passeando por todo o quarto, era enorme. Realmente dava-se para perceber que a família de Iris era rica, o quarto dela parecia com aqueles de princesa que aparecem em filmes. Havia várias prateleiras com vários livros, levantei-me da cama e fui xeretar um pouco. Pelo visto, Iris tinha um bom gosto literário e era do tipo que lia muito, havia livros de medicina sobre cirurgias, romances, ficção cientifica. Meus olhos pararam em um livro de capa cor grafite, nele havia escrito “Anuário escolar”. O abri e comecei a folhea-lo, vi a foto da Ambre, Charlotte, nada demais. Daí eu vi a foto do Castiel e meio que não me aguentei, dei uma risada super alta e escandalosa. Fala sério! Aquilo parecia uma menina! Parei os olhos na foto de Iris, estranhei. O rosto estava coberto por rabiscos de uma caneta de tinta preta.

– O QUE ESTÁ FAZENDO? – Iris gritou, quase pulei de susto, nem tinha visto que ela estava ali. – ME DÊ ISSO! – ela continuou com o mesmo tom e tomou o livro de mim.

– Desculpe, eu só fiquei curiosa. – arqueei a sobrancelha, o que tinha de mal em olhar simples fotos?

– Desculpe-me também. – ela corou. – É que eu não gosto que mexam nos meus livros.

FLASH BACK OF

Depois que ela me tratou dessa forma mesmo eu me preocupando com ela, eu apertei a tecla do foda-se. Que raio de amiga é essa que troca umas pelas outras? Óbvio que era por outro motivo, ela se ilude se acha que eu engoli aquela desculpa.
Ainda me perguntava o que tinha demais naquela foto do anuário, que ela tomou de mim na maior agressividade.

– Que história é essa do Jade? – perguntei. – No vídeo até descrever outra pessoa ele descreveu.

– Ela deve ter se disfarçado ou algo assim, ela foi bastante discreta e sei que aquele cara foi muito bem pago. – Kentin explicou. – Ele nos falou isso também, mas foi antes do Alexy tirar a câmera da bolsa. Ele pensava que íamos espancar o Jade, então ele quis gravar para te mostrar. – ouvi um suspiro. – Mas Jade só foi mais um que rodou na história, ele não foi o protagonista de nada.

– Algo já me dizia isso... – encarei o teto. – Ele me contou uma história sobre ser o ex da Iris e falou algumas coisas que ela fez que acabou fazendo com que eles terminassem, algo assim... – me enrolei um pouco, não lembrava mais com tanta clareza.

– Ela deve ter pagado essa quantia a mais para ele contar essa historinha, para que você se tornasse presa mais fácil. – Kentin sentou-se ao meu lado. – Eu ia sair, mas queria perguntar algo. Quero uma resposta sincera. – fiz que sim com a cabeça, então ele continuou. – Por que diabos fez tudo aquilo? Por que saiu? Por que mentiu para mim?

– Não bote só a culpa em mim, por que saiu também? Você sempre dá um de protetor, por que não fez isso no dia em que eu saí? – arqueei a sobrancelha, ele fez uma cara nada boa. – O que? Você me mandou ser sincera. – justifiquei.

– Um erro não justifica o outro. – ele retrucou.

– Você vive mentindo, fazendo as coisas escondido de mim. – alterei o tom da voz, logo coloquei a mão no rosto, já sabia que ia acabar falando coisas que não deveria. – É melhor essa conversa não se prolongar. Preciso descansar.

Foi uma forma de expulsar ele do meu quarto. Voltei com o silêncio, o deixei na merda como ele me deixou, nada mais do que justo.

Passei dias sem ir à aula, por causa dos machucados. Mas quando eu fui, a confusão estava armada. Todo mundo estava sabendo da verdade, mas não era só isso, havia fotos de Iris na TV.

– Que ordinária. – uma comentou de um lado.

Duas fotos, uma com a legenda “antes” era uma menina bem gordinha com um rosto bem redondo, tinha a aparência de uma criança. A outra era a de Iris atualmente, tinha a legenda de “depois”.

– O que é isso? – perguntei confusa.

– Iris foi pra Inglaterra para passar por um procedimento cirúrgico. – Charlotte explicou dando um suspiro.

– Dizem que essas cirurgias só podem ser feitas uma vez, e a recuperação é muito dolorosa. – Li acrescentou com um sorriso superior.

– Que cretina! – Ambre completou com um comentário maldoso. – Quem ela pensa que é?

Dei passos, fiquei de costas para a TV tapando toda a visão. Apontei para Charlotte.

– Seu nariz. – afastei o braço e apontei para Li. – Seus olhos. – a ultima foi Ambre. – Seus seios. – baixei o braço e puxei ar. – Vocês os compraram, não é? Na verdade, o que o dinheiro não compra? Vocês acham que pessoas bonitas podem pagar para ficarem mais bonitas, mas acham que pessoas feias não podem pagar para ter beleza? É isso? – alterei o tom de voz, se tornava cada vez mais agressiva e rude. – Ela encarou as consequências! Vocês não estão nem a altura e nem em posição de julga-la. Nenhum de vocês. – apontei para os outros lá atrás.

Todos silenciaram, as três ficaram cabisbaixas, os lá de trás encaravam a escada, que era uma das formas de acesso à cantina. Desviei o olhar para onde os outros olhavam. Iris estava lá, parada na escada, me olhando. Dei passos a frente com as mãos nos bolsos. Ela desceu a escada e veio até mim. Fiquei a olhando fixamente, ela estava meio cabisbaixa.

– Eu... – ela levantou a cabeça. – Não vou pedir desculpas.

Estava com uma expressão séria, tinha que ter uma postura adequada para lidar com aquela situação. Assim que ela falou, retirei a mão do bolso e dei uma tapa no rosto dela. Coloquei a mão de volta no bolso e fiquei esperando a reação.

– E... – ela continuou assim que levou a tapa no rosto. – Eu também não quero seu perdão.

Tirei a mão do bolso novamente e dei outra tapa no rosto dela.

– Acho que já está na hora de dizer isso. – umedeci os lábios e puxei ar. – Você é fraca. – ela me olhou arqueando as duas sobrancelhas. – Não sei por que não deu certo com o Castiel, vocês são farinha do mesmo saco. Fracos e covardes, usando as pessoas para conseguir o que querem. Mas, ainda acho que ele tem salvação, ao contrario de você.

– Eu o amo. – ela silabou isso para que ficasse bem claro. – Ele me chamou de feia. Sabe o quão eu sofri pra conseguir essa aparência?

– Se você tivesse cérebro, entenderia que não vale a pena mudar por uma pessoa que não te aceita. – com isso ela baixou a cabeça.

– Eu não me arrependo. – ela levantou o olhar novamente. – Eu não me arrependo de um dia chegar à sua mesa na cantina e falar sobre comida estrangeira, eu não me arrependo de ter derrubado sorvete no sapato do Castiel, eu não me arrependo de ter sido sua amiga, eu não me arrependo de nada! – as lágrimas escorriam, ela tapou o rosto com as mãos. – Eu também não me arrependo de ter feito aquilo com você, eu sou egoísta, eu tenho consciência disso. Tudo que eu queria era que ele falasse que me amava, mas ele não disse. Ele não disse!

Há pessoas que não sabem conquistar o amor dos outros, eu não sabia muito bem o que era amor, até porque eu não tive muita oportunidade pra gostar de garotos. Claro, esse era o amor que eu não entendia, um amor de casal. Para mim o amor é como uma nuvem, tem vários tamanhos e formas, não existe só o amor dos apaixonados, há amor de amigo, de irmão, de mãe. O amor, meio que incondicional, que eu sentia por Kentin era um amor de irmão. Acho que o Castiel não pensa assim, até porque ele fez um barraco com o Kentin por causa de mim, acho que nunca pensou que o nosso amor era diferente do que ele maliciava, e duvido que vá pensar diferente. Até acho que ele sabe menos sobre amor do que eu. Aliás, analisando ele e Iris, os dois se pareciam cada vez mais.

– Isso é injusto, muito injusto! – ela exclamou e apontou para mim. – Eu sofri porque queria ele, e você que não fez nada o tem.

– Eu não o tenho. – rebati o dedo dela da minha cara. – Eu não o tenho porque não quero. Se dependesse de mim, eu o daria para você embrulhado em papel de presente.

– É assim que você pensa, Lynn? – a voz de Castiel surgiu no cenário. Olhei para a escada, há quanto tempo ele estava lá?

– É, é assim que eu penso. – dei um meio sorriso reforçando mais ainda minhas palavras.

– Que pena. – ele deu um sorriso, parecia estar relevando tudo. – Sabe o que outras aqui fariam para ficar comigo? – ele apontou para a multidão que nos assistia.

– Não sou as “outras”. – fiz aspas com os dedos, meio que ofendida.

– Você sempre diz isso, mas nunca me convence. Não acha que esse seu argumento já se desgastou? – Castiel deu passos até nós, parando com as mãos nos bolsos. – Você se acha tão diferente, coisa que você não é. Você não faz jus ao título de “diferente”. Acho ridículo pessoas que tentam se sobressair de qualquer forma.

– Está dizendo que eu quero aparecer? – interroguei arqueando a sobrancelha, ele fez que sim com a cabeça na maior cara de pau. – Você, Castiel. O único que se exibe é você. Você me vê falando com todo mundo e mandando em todo mundo como se fossem cães adestrados? Além de querer status, você quer bancar o chefão. Tsc! Poupe-me! – com isso ele se calou, o silencio se instalou em toda aquela sala. – Você tentou conquistar a Angela e fracassou, agora eu vejo o por que. Você é patético.

Saí depressa para não ouvir mais nada, dei o troco, ele já tinha feito àquilo comigo uma vez. Talvez eu fosse me arrepender mais tarde por aquilo que eu disse. Estraguei todas aquelas noites em que eu fiquei pensando, em que eu fiquei imaginando um jeito de ser delicada para falar com ele sobre ele estar gostando de mim. Agora sim eu havia magoado ele. Aquilo já estava começando a doer, mas o sentimento de raiva e decepção com Iris eram bem maiores do que a preocupação que eu tinha com Castiel.

Quando a aula terminou, eu fui para casa sem trocar uma palavra sequer com Kentin, lógico que ele já sabia da confusão que tinha acontecido. Fui para meu quarto tentando ter paz, mas aquele mala parece que tinha prazer sexual quando ia infernizar minha vida.

– Precisamos conversar. – ele falou fechando a porta.

– E se eu não quiser? – arqueei a sobrancelha falando com um tom de saco cheio.

– Você morre. – ele fez careta. – Vai me ouvir de qualquer maneira, a não ser que se jogue da janela.

– Eu tenho essa opção? – interroguei sarcasticamente, Kentin logo me lançou um olhar de “cala a boca”.

– Por que disse aquilo com o Castiel? – ele perguntou soltando um suspiro.

– Estava descontrolada, a culpa foi dele. – justifiquei. – Acho que ele tem a obrigação de entender, ele não viu pelo que eu passei?

– Ele sabe que a culpa foi dele, mas ele se desculpou. O Castiel é teimoso, você acha que ele se desculpa facilmente? – Kentin retrucou.

“Ele está defendendo o Castiel? Não pode ser.” – pensei.

– Pois ele deveria. – discordei. – Ele tem mais é que aprender a ser humano com um coração de carne, e não de pedra.

– Ele gosta de você! – Kentin exclamou. – A única com o coração de pedra aqui é você.

– Você está defendendo ele? Não acredito que está defendendo ele. – contornei a situação na hora.

– Estávamos como cão e gato por causa da Angela, isso não ocorre mais. Por mais que o Castiel seja idiota, mesquinho e imbecil, eu aprendi a conviver com isso. – Kentin suspirou. – Se eu não conseguisse, já teria o matado. – completou. – Eu não quero coisas más para você, você sabe disso.

Daí surgiu a expressão que eu intitulei “cara de cão arrependido”. Volta o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas, com o seu osso ruído e com o rabo entre as patas. Irônico alguém me querer o bem depois de lutar comigo numa briga combinada, me xingar, me chamar de tábua, me chamar de fraca, ficar emburrado por minha causa, me jogar para cima de uma estranha (Rosalya) que poderia ter me assassinado... Chorar na minha frente... Acreditar em mim... Cuidar de mim... É! Talvez eu estivesse pensando de forma errada! Mas a cara que ele fez era uma cara meio carente, o nome “cara de cão arrependido” grudou na minha cabeça e assim ficou.

– E o Castiel também não quer que nada de ruim aconteça com você. – ele complementou. – Apesar de que eu não gosto da ideia de você e o Castiel. – ele fez bico. – Eu sei que você não gosta dele, então eu acho que ele não tem lá muitas chances com você. Mas, você deveria ser mais humana, como você é comigo. Você é uma humana de comportamento macho dominante, mas mesmo assim ainda é humana. – ele deu uma risada, eu ri também e dei um soco de leve no braço dele. – Estou falando sério, tenha mais paciência. É ruim ser magoado, e eu sei que quando você parar para pensar, vai se arrepender e ficar chorume por causa disso.

“Vai ficar Chorume”, uma vez ele me viu chorando e perguntou “Por que você tá chorume?” daí eu dei risada. Chorume é aquele líquido que sai do lixo, que amor seu irmão dizer que seu choro é um chorume. Eu me senti meio suja depois dessa, mas tudo bem. Estávamos realmente nos dando bem, nem parecia mais que não éramos irmãos de sangue.

– Promete que não vai ficar chorume? – ele fez bico, estava fazendo birra igual a uma criança.

– Prometo. – fiz bico dando uma risada, logo ele me estendeu o dedo mindinho. – Ah! Qual é? Não está velho demais para promessas de dedo mindinho?

– Promete de dedo mindinho? – ele deu uma risadinha, fui na onda dele e fiz a porcaria da promessa de dedo mindinho.

Que patético! Tudo aquilo para tentar arrancar uma risada de mim, mas era engraçado. Assim que ele saiu do quarto e fechou a porta, minha mochila abriu e o caderno abriu, uma mensagem foi escrita nele.

“Que bom que estão felizes”. – foi o que eu li.

– Por enquanto. – murmurei.