A Órfã Doce
86 Nos olhos da bruxa
Notas iniciais

– Aquela garota não se parece com a Lynn? – minha mãe indagou.
Minha mãe havia se divorciado do meu padrasto havia feito alguns anos, mas tivemos que nos mudar forçadamente. Sinceramente, não dava para viver numa cidade com um cara que vivia ameaçando a gente de morte. Então minha mãe juntou nossas coisas e saímos escondidas para outra cidade, com uma ordem judicial nas mãos. A cidade para qual fomos, era nossa antiga morada quando Lynn era minha irmã. Nós morávamos lá, mas nos mudamos quando minha mãe arrumou um emprego na cidade vizinha. Ela teve que pedir demissão desse emprego para que pudéssemos vir embora.
Lynn sempre foi uma garota de sorte, por mais que ela quisesse negar. E eu sempre fui uma pessoa de azar, ou quase isso. Talvez eu não estivesse fazendo por merecer a proteção do universo. Tudo era um talvez. Uma questão sem ponto de interrogação e sem uma resposta.
Aquela viagem para a Alemanha foi uma porta que se abriu para mim, não só uma porta: uma porta e várias janelas. De certa forma, eu conheci e compreendi a situação de Alexy. Ele estava com problemas. E apesar de que, eu não fui a favor sobre ele mentir para os pais, não neguei ajuda. Neguei inicialmente, mas esse é outro ponto. Acabei tendo o meu primeiro beijo com ele, o que foi meio forçado... Mas senti um vazio tão grande, que não considerei aquilo como um primeiro beijo.
Alexy havia me dado, como recompensa por tê-lo ajudado, um teste de seleção para a Sweet Amoris, do qual eu poderia ganhar uma bolsa, e a ganhei. Quem fiscalizou a prova foi o representante. Quando fui até a sala dos representantes para completar minha ficha, ele sorriu e me parabenizou pela excelente nota. E eu fiquei feliz por ter reconhecimento pelo menos uma vez na vida.
A biblioteca passou a ser um lugar bastante frequentado por mim, para vê-lo com mais frequência. E ele não se importava, ia para lá mesmo quando tinha algo para fazer na sala dos representantes. Disso eu sei por que a diretora já o repreendeu por estar na biblioteca quando havia milhões de tarefas para serem feitas por ele.
Nem tudo era flores, e eu percebi isso logo. Lynn me contou algumas coisas sobre o Nathaniel assim que viu que eu estava tendo uma “queda” por ele. Ela me falou sobre a tentativa de suicídio, na escola e no apartamento. Sobre problemas que Nathaniel tinha com a família e sobre uma possível depressão.
– Não sei não, Lana. Uma vez quando eu entrei na sala dele, ele estava se esfregando com a Melody.
– Quem é essa?
– É uma das garotas que também realiza trabalhos no grêmio. É só mais uma vagabundinha sem auto-estima, entende?
Engoli aquilo para mim, por muito tempo. Acabei enterrando tudo aquilo no fundo da minha consciência e simplesmente continuei fazer o que estava fazendo, mas com um pé atrás.
Por uns momentos, eu achava que tudo estava progredindo, tudo mesmo. Um dia, Nathaniel me chamou para ir a casa dele. Ambre havia saído com as amigas e os pais de Nathaniel haviam viajado. Ele me chamou para irmos estudar.
– Se sua irmã chegar, ela não vai se importar?
– Isso não acontecerá. Ela só volta à noite, como sempre faz. – ele respondeu sem tirar os olhos de um dos livros que estava lendo.
Alguns dias se passaram, seguidos do mesmo convite. Um dia Lynn acabou tendo conhecimento disso, e maliciou tudo que estava acontecendo. Além disso, fiquei realmente pensativa e duvidosa.
“Será que ele me convida com alguma intenção”. – pensei. Bom, se ele tinha intenções, estava na hora de saber quais eram. Aliás, estava na hora de saber de muita coisa.
E foi nesse dia que eu resolvi pegar uma pá e desenterrar o que eu havia enterrado na minha consciência. No dia que eu fui para a casa de Nathaniel, fui decidida.
– Hei. – chamei a atenção dele. Nathaniel tirou os olhos do livro e me encarou.
– Sim?
– Posso perguntar uma coisa?
– Sim.
– É verdade que tentou se matar?
O silêncio se proliferou. Apenas assentiu com a cabeça e voltou os olhos ao livro.
– Ou você soube por alguém da escola, ou soube dela Lynn. De qualquer forma, não tenho como mentir. E nem por que. – ele falava em tom seco.
– Pelo visto, não gosta de falar desse tipo de coisa. – mordi o lábio inferior, me preparando para as próximas palavras que seriam ditam. – Então me diga qual é a sua.
– Perdão?
– Seus pais viajaram e sua irmã não está. Quais são suas intenções em me trazer para cá? Santo você não é, eu soube muito bem das coisas que você já fez. Com a Melody, por exemplo.
Nathaniel ficou boquiaberto com frase dita com tal ousadia. Joguei de uma vez na cara dele, mas não descobri as coisas do mesmo dia. Levou certo tempo para que ele se acostumasse com a idéia de contar coisas mais particulares para mim. Mesmo assim, ele não tinha más intenções e eu o julguei mal. Ele só havia me chamado para estudar mesmo, porque se sentia sozinho em casa.
Eu descobri tudo, ou quase tudo, mas descobri o porquê das coisas que a Lynn me contou. Ele passava por problemas na família. Os pais o pressionavam, gritavam com ele, exigiam demais. E da irmã, nada. Apenas um passar de mãos pela cabeça e quase nenhuma exigência. Isso tudo porque Nathaniel não era o modelo exemplar de “representante do grêmio”, e sim um garoto malvado, que foi mudando ao decorrer do tempo.
Um dia Nathaniel sentiu a raiva tomar conta de si, brigou com a irmã e chegou até a agredi-la. Por esse motivo, a mãe o jogou de lado e o pôs para morar num apartamento apertado em um prédio de aparência estranha. Ele dizia ouvir coisas por lá. Até chegou a dizer que a pressão e o trabalho (no grêmio e no abrigo de animais) estavam o destruindo, e que talvez o que ele ouvia, era o som da própria loucura. Por isso as tentativas de suicídio, por isso que ocorrera toda uma confusão, o que fez voltar para a casa dos pais. Ele fez algumas semanas de tratamento no psiquiatra e as coisas voltaram a girar normalmente nos eixos.
E mesmo assim, eu só conseguia gostar dele cada vez mais. Como quando o vi, e nada derrubou isso. Depois disso, eu só comecei a ficar mais obcecada. Apesar de Nathaniel não gostar de falar sobre Melody, eu insistia de vez em quando.
Quando soube, detalhadamente, sobre a tal Melody, a paranóia só aumentou. A obsessão crescia como uma massa fermentada. Cheguei até a usar feitiços com ele, a levar os doces do amor para a casa dele. Uns doces de maçã com cravo da índia. Na minha religião, isso atrai o amor.
E parecia que tudo estava começando florescer. Como botões de rosas que se abrem na primavera.
Daí a Debrah apareceu, e ela e a Melody estragaram tudo.
Não só elas, eu também estraguei tudo.
Debrah chegou, e quis me chutar para o canto como uma simples pedrinha incômoda. Não sei se Armin estava adivinhando o que iria acontecer, mas o interesse dele por mim não parecia ser normal. O encontrei no restaurante, estava saindo no momento para ir ao pet shop.
– Vou com você, e trago de volta. Assim será mais rápido. – ele propôs.
Aceitei a proposta gentil, inocente, na época eu não desconfiava de nada. A humilhação e a necessidade de desabafo aumentaram. Acabei contando a Armin o que estava acontecendo.
– Sempre suspeitei que existia uma Debrah assim. – Armin respondeu com um suspiro. – Sabia que não existia só aquele lado “perfeito” que Castiel tanto amava. – ele deu de ombros. – Não se preocupe, você e a Lynn valem mil vezes mais do que garotas como a Debrah.
– Você acha?
– Claro. – ele sorriu, com um ar divertido. – Os peitos dela são silicone, você coloca uns novos depois.
Mesmo que não fosse lá um elogio, eu me senti bem por mais alguém estar do meu lado. E, aparentemente, quase ninguém do F4 estava.
Os dias se passaram e eu acabei batendo na Debrah, na Melody e no Nathaniel. Charlotte nos defendeu, e eu soube o porquê. Alexy acabou me contando depois que ficamos de bem. Ele disse que Charlotte era contra a Lety. Lety simplesmente espalhou boatos pela escola inteira sobre Charlotte, o resultado foi que ninguém mais quis ser amiga dela. A saída foi andar com Li e Ambre. E eu soube o quão venenosa era aquela garota. Era uma peça igual a Debrah.
Naquele dia, quando agredi Melody e Nathaniel, os professores me arrastaram para a diretoria. Eu nunca na minha vida vi uma pessoa gritar tanto como aquela diretora. Depois do sermão e da ameaça de expulsão, fui conversar com Nathaniel.
– Você é bem fortinha. – Nathaniel brincou. Estava com uma bolsa de gelo no nariz.
– Eu sinto muito, mas a culpa não foi minha! – exclamei. – Foi a Debrah, a Debrah armou para mim e para a Lynn. A Debrah...
– Eu sei o que a Debrah fez. Eu sei quem ela é. – ele arqueou a sobrancelha. – Ela já armou para mim também.
– Eu sei disso! A gente tem que fazer alguma coisa!
– Não Lana, eu não farei nada. Sinto muito, mas não posso ajudar.
– Não pode ou não quer?
– Os dois. – suspirou. – Por favor, Lana, não comece isso. Não me faça ter dor de cabeça.
– Mas você tem que...
– Não, Lana. Não seja teimosa! Ela já ganhou.
– Não! Ela não ganhou. Só está começando. Se quiser ficar se esfregando com a Melody, pode ficar. Você sabe que nós não temos nenhuma espécie de relacionamento. Mas se ficar se esfregando com a Melody, saiba que você não pode mais ficar dando um de certinho. Você é fraco, isso sim! Fica se cortando, fica desistindo. Sua vida está uma merda por culpa sua.
– Você não sabe de nada. – ele suspirou, tentando manter a calma. – Eu entendo que você está zangada, mas eu sei que você brigou com a Melody porque ela disse aquelas coisas sobre mim. Eu sei que você gosta de mim, Lana.
– E-eu não...
– Não adianta negar. Se não foi por isso, por que brigou com a Melody? – fiquei em silêncio, meu cérebro rodou para tentar achar uma resposta rápida e concreta. Nada. – Desculpe, Lana. Mas você e eu... Acho que não dá certo... Não do jeito que as coisas estão para mim.
– Nathaniel. Você me viu dizer que gosto de você? Aliás, você me ouviu te pedindo chances? Engraçado que é só a Melody estalar os dedos que você vira o cachorrinho dela. Você é muito equivocado, isso sim! E quem ficou me levando para a sua casa com desculpas de “estudar” foi você! Você ficava lá dando em cima de mim!
– Eu não ficava... – não ficava mesmo, mas tinha que dar um jeito de sair por cima naquela briga.
– FICAVA SIM!
– E se eu ficava, por que ainda ia para lá?
– Porque eu não tinha nada melhor para fazer.
Saí andando e avistei Lynn no corredor, ao lado da porta. Ela apenas se encolheu numa tentativa de que eu não a visse. Eu a vi, mas continuei a andar. Ela iria querer falar sobre aquilo e eu não queria.
A situação estava complicada na casa dele. A irmã dele havia descoberto que eu estava andando por lá, e com isso, eu acabei parando de andar por lá. De qualquer forma, eu acabaria parando depois de uma discussão daquelas. E em pouco tempo, com coisas pequenas, eu já estava arrasada. Mas nós vencemos a Debrah, tudo foi resolvido, porém aquilo não era um consolo tão bom para mim.
Eu me sentia pequena perto da Lynn. Ela era sortuda, tinha vários garotos ao redor dela, que gostavam dela. Ela tinha um irmão legal. Embora que eu não fosse muito com a cara dele, eu reconheço que eu daria o mundo para ter um irmão que cuidasse de mim como ele cuidava da Lynn.
Eu tinha minha mãe, o restaurante, um ex-padrasto perseguidor, uma ordem judicial, um livro de feitiços e um coração partido. E era só isso que eu tinha.
Um dia, tarde da noite, Armin apareceu no restaurante. Foi o ultimo cliente da noite. Mamãe já havia fechado as portas do restaurante e estava na cozinha lavando os pratos. Fiquei sentada numa mesa com Armin, um sundae para ele, um café bem forte para mim.
– Nunca pensei que veria uma pessoa tomando um sundae em um frio desses.
– Esqueça isso. – ele pediu. – Tem certeza que não quer vir comigo até o observatório?
– Bom, talvez outro dia. – desviei o olhar. – É que eu estou tendo muito trabalho ultimamente.
– Certo. – ele suspirou, mas não parecia que tinha se dado por vencido. – Tome meu número. – ele me entregou um papelzinho que havia tirado do bolso. – Já estou indo, ok?
– Ok. – respondi. – Boa noite.
– Boa noite.
Eu acabei não indo, e não liguei para ele. Acabei indo para a casa da Lynn, estava meio confusa com o Armin. Dar o número, chamar para ir ao observatório... Será que ele gostava de mim? Disso eu não sabia, mas eu sabia exatamente o que ele queria quando me convidou para ir ao observatório. Lynn me contou que eles se beijaram no observatório.
E naquele dia eu estava triste, fiquei arrasada. Kentin havia falado comigo anteriormente, contando-me sobre a doença da Lynn. Estava meio sem brilho, sem expressão. Com várias coisas acumuladas nas minhas costas que pesavam tanto quanto um enorme saco de batatas.
E naquele mesmo dia, quando eu saí, vi duas pessoas se beijando. Duas pessoas que trabalhavam no grêmio, o representante loiro beijando outra garota. Apenas voltei para dentro da casa de Lynn, dizendo que dormiria por lá naquela noite. E eu chorei, chorei a noite inteira.
Nas férias, fomos a Madagascar, a insistência de Armin era maior. Eu gostava de Nathaniel, e esse era o motivo que me atrapalhava de olhar para Armin, o desejar e sentir culpa. Acabou que eu fiquei evitando-o. Às vezes acompanhava Alexy para jogar vôlei com ele e os garotos da ilha. Evitei e evitei, achando que isso seguraria as pontas por um tempo, mas de nada adiantou. Ele só insistia e pressionava, e eu apenas empurrava o assunto para o lado e pedia tempo. E ele só insistia.
Houve até uma noite em que eu estava na ilha, dentro do quarto que correspondia ao número 6. Armin adentrou no quarto, com um chaveiro em mãos. Ele queria conversar, e eu não podia mais evitar. E com aquela conversa, naquela madrugada nós quase nos beijamos. Confesso que estávamos totalmente perto disso, o que me “salvou” foi um estrondo, seguido por mais dois. Corremos para fora do quarto, quando eu vi, estava Kentin segurando Lynn nos braços. Os dois estavam em frente ao quarto de Lysandre, onde Kentin berrava como um louco:
– Dê um jeito nele ou eu dou um jeito nele. E você não vai querer que eu dê um jeito nele.
Lynn estava toda machucada, sangrando, a blusa estava com alguns rasgões. E Kentin continuava gritando.
– O que aconteceu com a Lynn? – perguntei, mas fui ignorada. Preferi não ter insistido como Castiel, que levou uma porta na cara como resposta quando perguntou o mesmo que eu.
A Lynn quase tinha sido estuprada, e os dias só pioravam naquela ilha. Não queria reclamar, mas queria ir embora. Não falei nada porque tive medo de parecer ingrata. Afinal, não era todo dia que eu era convidada para ir à uma ilha tão bonita. E pessoas da minha classe social não iam a esse tipo de viagem. Minha mãe ficava feliz por eu ter esse tipo de oportunidade, por isso sempre me permitia ir.
Na minha família, nunca fomos pessoas de ostentar farturas. Nunca tínhamos muito, mas tínhamos o suficiente. A Lynn sabia disso, mas ela nunca foi uma pessoa de se importar com dinheiro, ela nem costumava a notar esse tipo de coisa. Depois que meu padrasto começou a nos ameaçar de morte, acabamos tendo que nos mudarmos e abrirmos o restaurante, foi uma época difícil até o restaurante ganhar clientes. Precisávamos de ajuda, mas não podíamos pagar uma pessoa em tempo integral. No caso, acabamos achando a Lynn. Mas depois minha mãe acabou dispensando ela.
– Lynn agora é de uma família rica. Não fará falta para ela. – foi o que minha mãe disse.
Numa madrugada, Lynn bateu na porta do meu quarto. Acordei e me assustei com o rosto da mesma. Estava vermelho, com uma marca de bofetada na bochecha. Peguei algumas coisas no meu quarto para ajudá-la, e ela me contou que iríamos embora ao final da manhã.
E eu achei melhor assim. Queria voltar para casa, para ficar ao lado da minha mãe novamente.
A mãe da Lynn e do Kentin veio nos buscar. Ela parecia preocupada, bastante preocupada. Olhava para a marca no rosto da filha e engolia a seco, esperando uma conversa quando chegassem em casa. Eu tinha certeza que as coisas seriam duras para a Lynn. E sinceramente, nunca tive um nojo tão grande como eu tive de Castiel.
Alexy me convidou para um passeio no shopping. Eu comprei um vestido novo, enquanto Armin procurava por um jogo novo que ele havia falado. Alexy me acompanhava com várias sacolas na mão, falando sobre alguma coisa que havia acontecido na Alemanha quando eles foram para lá no dia dos pais.
– Daí tipo, minha mãe retocou a tatuagem dela. Aquela lá do dragão. – ele falava incansavelmente desde que chegamos. – Então. Como eu ia dizendo. – ele corou um pouco e olhou para os lados para se certificar de que não havia ninguém. – Minha mãe fez a tatuagem com uma mulher que conhece aquela pessoa.
– Você nunca diz o nome dele. – questionei. – Por acaso ele é o Voldemort?
– Quem? O namorado do Alexy? – indagou Armin, entrando na nossa conversa.
– Ele não é meu namorado! – Alexy exclamou.
– Não mais. – Armin deu de ombros.
Alexy fez bico, apressou o passo e saiu andando feito um pingüim por conta das várias sacolas que carregava. Ele foi à frente, eu e Armin ficamos um pouco mais atrás.
– Como aguentou?
– O que?
– A conversa fiada dele. – Armin suspirou. – Ele fala sem parar, toda hora! Parece até uma garota.
– Se não o atura, provavelmente também não atura garotas. Toda garota tem um momento em que fica falando demais. E se isso te irrita, acho que é melhor passar para o mesmo time do seu irmão.
Armin deu uma risada, levando na esportiva. Passou o braço em volta do meu ombro e me puxou para perto de si, como um casal que passava ao lado. Mesmo incomodada, apenas disfarcei, olhando para as vitrines que passávamos. O celular de Armin tocou, era o toque das mensagens. Foram aproximadamente uns quinze em menos de um minuto. Armin, estranhando, tirou o celular do bolso para verificar. Logo que o viu, arregalou os olhos e saiu andando mais rápido, me puxando pelo braço.
– Alexy! Alexy! – Armin bradou para o irmão que estava prestes a entrar em outra loja. – A gente tem que ir à casa do Castiel.
– Do Castiel? Não! – Alexy fez cara feia.
– Alguém tem que ir acalmá-lo. – Armin explicou.
– Acalmá-lo? E eu tenho cara de maracujá? Estou cansado dos chiliques do Castiel. Ele que vá procurar outra pessoa para ter paciência com ele.
– Ele quer expulsar a Lynn e o Lysandre da Sweet Amoris.
Alexy o olhou com cara de espanto. Em questão de minutos estávamos no carro indo em direção a casa de Castiel, e quando chegamos, ele estava bufando de raiva.
– Castiel, acalme-se. – Armin pedia.
– Eles não merecem estar lá. E eu não sou obrigado a vê-los lá! – Castiel bradava enquanto andava de um lado para o outro. E ele gritava tanto que aquela baboseira toda já estava me enjoando.
– Se a Lynn prefere o Lysandre a você, a culpa é absolutamente sua.
– O que disse? – Castiel me olhou com seus olhos grandes.
– Lana! – Armin me repreendeu me dando um cutucão no braço.
– O que? – rebati. – Não disse nenhuma mentira, disse? – olhei para Castiel e aumentei o tom da voz. – Eu nunca disse que gostava de alguém sem gostar, disse?
Castiel me olhou furioso, cerrou o punho e veio em minha direção. Armin entrou na frente e empurrou Castiel para trás, afim de me defender.
– Acha que eu tenho medo de você, seu babaca? – bradei. – Se quiser vir para cima, vem para cima! Você só vai apanhar como uma moça! Eu treino karatê, o que te faz pensar que você vai bater em mim? E o que você merece é isso: apanhar até parar de querer bater em garotas.
– Lana! – Armin me repreendeu novamente, me olhando por cima do ombro. Rangi os dentes e por fim, me calei.
Voltei para casa com a garganta entalada de coisas para jogar na cara dele. No outro dia eu fui para casa da Lynn, mas não contei praticamente nada do que havia acontecido. Disse que tive um pouco de medo de Castiel, eu tive, mas não deixei que isso me impedisse de falar o que eu queria falar.
Para a minha surpresa, Armin estava perturbando Kentin por causa daquilo. Nem acreditava que Kentin simplesmente cruzava os braços, mesmo sabendo que Castiel queria expulsar sua irmã da escola. E por motivos injustos, pelo menos em minha opinião.
Kentin saiu, saiu para se encontrar com a nojenta da Lety. E deixou a Lynn naquele estado, naquela situação. Mas ela não parecia tão preocupada com isso.
Após receber uma ligação de Kentin, Lynn decidiu que iria até a casa de Castiel ver o que Armin queria. Ela quis ir, e eu decidi ir junto. O problema foi o que aconteceu depois. Castiel fugiu da gente e eu pensei que iria morrer naquela moto em alta velocidade indo atrás daquele garoto ridículo.
A salvação foi a aparição da irmã de Castiel e uma garota chamada Angela. Rosalya, sem sombra de duvidas, era a mulher que conseguia colocar controle na situação. Era uma mulher de atitude, e com certeza seria uma noiva que Leigh teria orgulho.
Alguns dias se passaram. Às vezes eu sentia vontade de ver a Lynn, de ir visitá-la. Mas ao mesmo tempo, eu não queria dar de cara com o representante que morava na casa em frente. A cena de Nathaniel beijando Melody era algo que eu não queria presenciar na minha vida, nunca mais. Aquilo me corroia por dentro sempre que lembrava. E o que me corroia mais, era que Armin estava interessado por mim, mas eu não parava de pensar no Nathaniel.
Um dia nos encontramos perto do observatório. Fui obrigada a entrar lá porque a chuva forte caía lá fora, e os trovões altos avisavam que não iria parar tão cedo.
Apenas nós dois no observatório.
– Quer um café?
– Não, obrigada. – recusei, meio constrangida por ter que estar ali. Toda molhada pela chuva, ainda por cima. Meu cabelo com certeza deveria estar parecendo um macarrão escorrido.
– Quer sentar-se ali? – ele apontou para uns assentos.
– Não, obrigada. A chuva parece que já vai passar e...
Três trovões, um atrás do outro, ecoaram pela cidade assim que eu pensei em concluir a frase. Passei os cabelos para detrás das orelhas, para disfarçar o nervosismo.
– Eu sei que ficar sozinha comigo era a ultima coisa que você queria, não é mesmo? – fiz que não com a cabeça. – Não adianta negar, Lana. Eu sei que sim. Mas, por quê?
– É que eu não me sinto muito bem sabendo que...
– Que eu quero ficar com você enquanto você pensa no Nathaniel? – ele arqueou uma das sobrancelhas e deu um meio sorriso. – Conte-me uma novidade.
– Se você sabe, por que fica me pressionando?
– Porque eu queria algo rápido. Porque eu não quero que você pare de pensar no Nathaniel, porque eu não quero que você goste de mim.
– Não quer que eu goste de você? Isso significa que você não gosta de mim? – ele fez que sim com a cabeça. – Se não gosta de mim, por que quer ficar comigo?
– Você é só uma garota, Lana. Queria ficar com você por pura curiosidade.
– E até onde sua curiosidade fez você chegar?
– Até aqui. – ele levantou os braços para cima, gesticulando o observatório onde nos abrigávamos da chuva. – E por que nega tanto? O Nathaniel é só um garoto, e digamos que ele não foi um garoto que tratou você muito bem. E além do mais, para beijar o meu irmão, você quase fez uma guerra. Você é freira por acaso?
Dei uma risada um pouco contida, meio constrangida. Armin falava de problemas que eu considerava complexos, com tremenda facilidade e simplicidade.
– Eu já tinha uma pequena idéia de que isso seria difícil, e eu tento porque eu gosto de desafios. Mas, você exagera demais, se preocupa demais. – confessou. – Eu não te culpo por gostar do Nathaniel, mas ficar se reservando exclusivamente para ele é a coisa mais idiota que eu já vi na minha vida.
– Todos nós temos opiniões de como devemos agir. – me defendi.
– É, mas algumas opiniões não condizem com a idade. – rebateu.
– Está me chamando de infantil?
– O que acha?
Rangi os dentes, umedeci os lábios fazendo uma cara feia. Ele apenas continuou a me olhar de uma forma tranquila, e às vezes, esboçava sorrisos que praticamente debochavam da situação.
– Eu acho que eu não sirvo para ser namorado de alguma garota. Minha posição é mais de um amigo. – olhou para o teto e continuou. – Um amigo de foda. – completou. – O que não vai ser o seu caso. Ou pode ser, se você preferir.
Era patético o que ele falava, e acho que ele fazia isso propositalmente para causar alguma risada.
– Eu não vou mais ficar te pressionando, sabe? Mas também não vou ficar calado ou falando que esperar o Nathaniel é algo certo. Tem que fazê-lo vir até você.
– Acho que você não conhece o Nathaniel, Armin. – suspirei.
– Você se engana. O Nathaniel era próximo de alguns membros do F4. Só que com a confusão que a Debrah fez, ele se afastou da gente. – Armin umedece os lábios, me encarando nos olhos. – Eu sei muito mais do que você. Se não soubéssemos nada dele, Castiel não enviaria Melody para seduzi-lo e roubar os dados da Lynn da sala do grêmio.
Pela explicação dele, aquilo havia acontecido há muito tempo. Quando Lynn chegou à Sweet Amoris e teve grandes desentendimentos com Castiel.
– Ele gosta da Melody, e acho que é algo que você deveria ter conhecimento. Aliás, eu acho que você tem conhecimento. Mas você quis aceitar esse fato? – o silêncio se instalou. Quase um minuto depois, neguei com a cabeça, encarando o chão. – Sinto muito, mas prefiro dizer a verdade. Não sou mais uma pessoa defensora de mentiras.
– E mesmo assim você me diz que não quer que eu pare de pensar no Nathaniel? – retruquei. – Está aparentando outra coisa. Está aparentando que você quer difamar a imagem dele para fazer com que eu goste de você.
– Se as coisas funcionassem dessa forma, eu já teria ficado com o dobro de garotas que eu já fiquei. – rebateu. – Você só está zangada porque eu te disse uma verdade que você não queria ouvir.
– Acho que está na hora de ir. – o cortei, descendo as escadas do observatório.
A chuva amansava lá fora, ao contrario de mim, que estava fervendo como água para fazer café.
– Hei Lana, não seja assim! – Armin via atrás de mim.
– Está certo, Armin. Eu não tenho nada pra resolver nem com ele e nem com você. Eu já ouvi tudo o que você quis dizer, espero que tenha dito tudo porque eu não quero ouvir mais nada.
Passei pela porta do observatório, mas o gamer me puxou para dentro do prédio novamente. Tomou meu rosto com as duas mãos e me beijou. Por um momento, quase que eu não o deixei prosseguir, mas meus ombros relaxaram e aconteceu quase exatamente da maneira que eu imaginei. Sempre achei romântico os beijos em que o garoto toma a iniciativa, não me pergunte o porquê. Acho que eu sabia lá no fundo que nunca teria atitude o suficiente para tentar beijar alguém. Foi exatamente por isso que nunca beijei Nathaniel. Afastei-me, com o rosto corado, cobrindo a boca com uma das mãos.
Armin soltou uma risada e coçou a cabeça.
– Adoro essas caretas que você faz.
E se foi.
Alguns dias se passaram, estava indo dormir na casa da Lynn. Infelizmente, tive que ir andando, e já não era tão cedo. De qualquer forma, o athame estava na bolsa.
Ia passando pelas ruas da cidade fria, escura e vazia. Na verdade, nem podia imaginar o quão sombrio aquelas ruas se tornavam quando a escuridão da noite invadia a cidade. Estava chegando perto do meu destino, era na próxima rua.
Escutei uns sussurros na rua. A luz do poste na rua oscilava, projetando sombras de duas pessoas na rua asfaltada. Um cara de capuz, uma faca, ameaças. O encapuzado estava de costas para mim, assaltando um coitado sem sorte que passou por azar naquele lugar, naquela exata hora. E o coitado sem sorte era justamente o loiro que morava na casa em frente a da Lynn.
– Eu já disse. Eu só vim comprar um sorvete para mim e a minha irmã.
– Não enrola não, seu viadinho. – ameaçava o garoto encapuzado, pela voz mais aguda, deveria ser um garoto mais novo que Nathaniel. – Tá querendo ser fatiado?
Nathaniel me avistou, e me fez uma cara de pânico. Pressionei o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio. Gesticulei para que ele esperasse, o mesmo permaneceu lá, esperando que eu fizesse algo, e eu fiz. Dei passos silenciosos até o ladrão e a vítima. O garoto estava tão concentrado ameaçando Nathaniel que nem ao menos notou minha presença, não até ser tarde demais. Um chute certeiro, na altura do pescoço. Com velocidade e força certa, o menino da altura de Nathaniel caiu no chão, provavelmente inconsciente.
Saímos em disparada, sem nem ao menos pararmos para pensar se o garoto levantaria para nos perseguir. Quando chegamos à rua desejada, o loiro sentou-se na calçada de casa, ofegante.
– Onde estava a sua namoradinha para defender você? – debochei. – O mais esperado é que ela te defenda. Afinal, você nem ao menos sabe se defender.
– Ele estava armado.
– Ele tinha uma faca menor que o meu athame. E aliás, eu consegui derrubá-lo sem maior esforço.
– Escute aqui, não fique querendo me humilhar. Eu estava assustado, você também ficaria se fosse abordado por alguém na rua daquele jeito.
Revirei os olhos, umedeci os lábios. Aquela fora a hora perfeita para sentir o gostinho de uma humilhação. Ainda estava zangada com ele, muito zangada mesmo.
– Bom, não posso dizer que esperava alguma coisa de você.
– Com licença, não posso ver o seu deboche no escuro. – o loiro me olhou, inconformado. – Ainda está tão zangada assim comigo?
– Eu te ajudei, deveria agradecer.
Atravessei a rua silenciosa, toquei a campainha e fiquei aguardando no portão, batendo o pé com impaciência. Lynn vinha andando pelo jardim com os pés descalços e o cartão de acesso para abrir o portão.
Ao olhar para o lado, o loiro estava com as costas apoiadas na parede, ao meu lado. Seus braços estavam cruzados e seus olhos apontavam para o chão.
– Obrigado.
Nathaniel ficou tempo o suficiente para Lynn vê-lo passar da calçada dela até a porta da casa dele.
– O que ele estava fazendo? – Lynn interrogou assim que acompanhou o trajeto do loiro. – Ele estava falando com você?
Dei de ombros, indiferente.
Realmente eu não cheguei a ter um relacionamento com Armin. Armin é um cara que prefere ter relações casuais, e era só isso que ele queria comigo. Meu nervosismo era imenso porque eu achava que ele sentia algo por mim, e nunca alguém havia sentia algo por mim. E fiquei imaginando que magoaria a primeira pessoa que tinha gostado de mim, e eu me consumia de culpa, por isso tentava empurrar o assunto de lado até conseguir pensar em algo que eu pudesse fazer. Mas tudo havia acabado de uma maneira tão simples que tinha até me dado um alivio. Apesar disso, foi bom pelo menos pensar que alguém gostava de mim.
E Nathaniel. Eu ainda gostava dele.
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