Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. Vai ter duas músicas nesse capítulo (referencias). Aqui estão os links das mesmas (escutem a primeira quando ela for mencionada). http://youtube.com./watch?v=RiWsDDW48Is - River Flows in You http://youtube.com./watch?v=olbbAuQUZd4 - Clarice Falcão feat. Silva - Eu me lembro. Boa leitura.

– Vá para casa. – Nathaniel pediu, talvez porque me viu naquele estado.

– Tem certeza? – perguntei.

– Sim. – ele respondeu. – Mas antes... – ele deu um suspiro repousando a mão no meu ombro. – Não conte o que sabe, não conte o que viu, não conte a ninguém sobre nada. Entendeu?

– Por quê? – perguntei. Essa entrava para minha pasta de perguntas idiotas.

– Minha família não sabe, exceto essa minha tia. Minha tia prestou depoimento pela minha mãe, só ela precisa saber. Entendeu? – ele perguntou para ver se eu tinha fixado a ideia.

– Claro. – respondi engolindo a seco. – Cuide-se, Nathaniel.

Ele disse que ficaria bem, fui em direção a meu apartamento. Destranquei a porta e a fechei assim que entrei. Deitei-me e me agarrei ao travesseiro.

– O que aconteceu? – um dos outros gritou checando as costas do menino em quem eu tinha atirado. – Quem usou munição de verdade?

– Ajuda ele, porra! – um menino da minha escola falou tirando o colete e a blusa, ele embolou a blusa e pressionou contra o ferimento. – Vamos levar ele pra diretora.

Uns quatro meninos se juntaram e começaram a carregar o menino para fora do campo de treino.

“Eu não tive coragem de descer da árvore, fui egoísta”. – pensei. – “Fiquei imaginando que eu seria expulsa da escola militar...”.

Desde aquele dia eu fiquei com trauma de sangue, não do meu, mas dos outros. Aquela imagem me traumatiza até hoje, aquela fita que rebobina toda vez que eu vejo o sangue de alguém na minha frente. Aquela angustia de não saber se aquele menino estava vivo ou morto.

“Óbvio que ele está vivo”. – pensei enxugando uma lágrima que escorria. – “Se ele tivesse morrido, a escola dele tinha se juntado com a minha para enterra-lo”. – tentei ser positiva.

Simplesmente o representante tinha armado para mim, sempre soube que ninguém daquela escola gostava de mim... Mas nunca imaginei que logo o REPRESENTANTE iria querer me ferrar na frente de todo mundo. Ele queria tanto que eu fosse expulsa?

“Filho da puta. Se um dia eu encontrasse com ele, atiraria na cara dele pra ele deixar de ser viado”. – pensei zangada limpando as lágrimas.

No dia seguinte eu fui à escola, nada demais parecia acontecer. Depois da escola fui trabalhar. Lana parecia meio inquieta.

– Algo errado? – perguntei.

– Eu soube de uma pessoa que tentou se matar no seu prédio, quem foi? – ela perguntou.

– Eu... – pausei um pouco me lembrando do combinado com Nathaniel. – Eu não sei. Perguntei ontem a Nathaniel e ele disse que naquele prédio tem um histórico grande de suicídios.

– Quem é Nathaniel? – ela perguntou.

“Nem deveria ter mencionado o nome dele”. – pensei.

– É o representante da turma lá da Sweet Amoris. – sorri forçadamente. – Quando eu me mudei, ele já morava num apartamento perto do meu.

– Acha seguro ficar ali? – ela fez uma expressão de preocupação. – Assim como pode haver suicidas, pode haver homicidas.

– Não se preocupe. – sorri. – Eu sei me defender.

Lana sorriu, pareceu ficar mais tranquila. As coisas estavam tão boas na escola, no trabalho, em casa.
Fui nadar na piscina da escola pela manhã. Nadei de um lado para outro, encostei a mão na borda da piscina. Ao tirar os óculos de mergulho vi um rosto com um sorriso, me observando agachado.

– O que te trás aqui, Lysandre? – perguntei saindo da piscina.

– Desculpe, parece que eu só apareço para te pedir as coisas. – ele sorriu sem graça. – É que eu perdi meu bloco de notas, poderia me ajudar a achar?

– Oh... Certo. – o tom de desanimação e preguiça eram evidentes.

– Desculpe o incomodo, mas é que parece que quando você está comigo, eu tenho boa sorte. – ele sorriu.

– Certo. – dei um sorrisinho corando um pouco.

Troquei de roupa no banheiro e fui procurar o bloco de notas com Lysandre, após passar mais de dez minutos procurando ele sugeriu que nós nos separássemos.

Por incrível que pareça, foi só eu me separar de Lysandre que encontrei o bloco de notas. Havia escrito o nome dele na primeira folha do bloco de notas. Parecia errado ler... Mas como eu sou uma menina teimosa...

“Então uma menina veio para cá, uma garota fofa com tranças tão escuras quanto à noite fria. Seria ela que dominou meu coração? Seria ela quem despertou uma paixão?” – li mentalmente.

Fechei o bloco de notas, se na segunda folha tinha aquilo imagina só o que tinha no resto? Lembrei que na primeira vez que apareci na Sweet Amoris depois que saí da escola militar, eu estava com o cabelo preso em tranças. Lysandre realmente era um menino muito romântico, a forma que ele escreve e canta deixa meu coração palpitando.

– Oh! Lynn! – ele exclamou tocando no meu ombro. – Você achou. Eu disse, quando estou com você eu fico com boa sorte. – ele sorriu, apenas soube retribuir o sorriso. – Fiquei meio aflito, não quero que ninguém leia meu bloco de notas... Você não o leu, ou leu?

“Sim.” – pensei.

– Não. – respondi encarando ele como se tivesse levado aquilo como uma ofensa para mim.

– Oh! Desculpe. – ele sorriu. – É que às vezes você é uma menina curiosa, fico feliz por não ter lido.

– Me diga Lysandre... O que você normalmente escreve? — perguntei corada.

– Poesias... – ele corou. – Por quê?

– Só fiquei curiosa. – respondi desviando o olhar. – Você escreve poesias sobre pessoas?

– Você leu... – ele revirou os olhos. – Céus! Como você é curiosa! – ele suspirou.

– Desculpe. – corei olhando para ele. – Você escreve sobre pessoas?

– Talvez. – ele corou desviando o olhar. – Às vezes escrevo sobre pessoas que eu nunca cheguei a conhecer.

– Isso não é estranho? – perguntei.

– Estranho é quem não tem imaginação. – ele deu um meio sorriso. – Quer ir para casa do Castiel depois da aula?

– Pode ser. – cocei a cabeça.

Horas mais tarde eu fui até a casa de Castiel, Lysandre disse que mesmo que Kentin estivesse lá, Castiel ainda se sentia aborrecido.

“Por favor, Lynn, você sempre muda o ânimo das pessoas”. – as palavras do pedido de Lysandre percorriam na minha cabeça.

– O que quer? – Castiel perguntou quando me viu.

– Oi pra você também. – dei um sorriso sarcástico. – Deve ser por isso que você está na merda. Você é muito chato.

– Muito engraçado. – ele revirou os olhos.

– Me disseram que você estava vegetando aqui no quarto. – falei sentando-me numa cadeira do quarto de Castiel.

– Não saio enquanto o Kentin não sair. – ele cruzou os braços.

– Vocês são amigos há tanto tempo. Por que se matam por causa de uma menina? – perguntei.

– Você não conhece a Angela. – Castiel cruzou os braços. – Ela não é como as outras.

– E como seriam “as outras”? – perguntei fazendo aspas com os dedos.

Castiel corou e desviou o olhar, parecia que não sabia o que responder. Ao julgar pela personalidade dele, ele parecia ser do tipo de menino que nunca teve uma namorada na vida.

– Eu... – ele falou com uma pausa quase interminável. – Não sei explicar.

– Não, você não sabe é de nada mesmo. – apoiei o cotovelo no braço da cadeira e o rosto na mão. – Como pode abrir mão de um amigo assim?

– Angela foi a primeira menina que eu beijei. – Castiel corou encarando o chão. – E isso aconteceu... Na festa...

Arregalei os olhos quase sem acreditar. O primeiro beijo do Castiel foi antes de toda aquela confusão?
Ouvi uma melodia do violino vindo da sala ao lado.

– Oh não... River Flows In You de novo. – Castiel tapou os ouvidos com as mãos.

– Que música bonita, tio. – sorri.

– Eu vou ensinar você a toca-la no piano, você quer aprender? – ele sorriu.

– SIM! – respondi alto, bem empolgada.

Baixei a cabeça e prendi a respiração para reter o choro o máximo possível.

– Hei, está doente? – Castiel perguntou.

– Não. – respondi tentando disfarçar a voz. – Acho melhor voltar em outra hora.

Fui à sala vizinha e abri a porta lentamente, Kentin parou a melodia e sorriu.

– Eu sabia que você... – ele parou assim que me viu e ficou em estado de choque.

– Viria... – ele terminou a frase. – Não era você quem eu esperava.

Fiquei quietinha, aquela era uma sala de música, ÓBVIO! Havia um piano, continuei calada e me aproximei do piano tocando algumas teclas.

– Você sabe tocar piano, fedelha? – ele perguntou me olhando com uma cara de bunda sem tamanho.

Como resposta, sentei no banco à frente do piano e comecei a tocar as notas musicais que eram da música que ele estava tocando há pouco tempo. Olhei para trás, Kentin me deu um sorriso e me acompanhou ao som do violino. Virei-me para o piano e continuei a música.

– PAI! – gritei enquanto desciam o caixão até sua cova.

– Acalme-se, Lynn! – a diretora Shermansky me segurou.

Enquanto o caixão descia, uma música tocava, a mesma música que ele havia me ensinado há anos atrás.

As lágrimas se espremiam para sair e eu fazendo força para retê-la, continuei cabisbaixa. Assim que a música terminou, Kentin deu uma risada baixinha.

– Se eu soubesse que você tinha algum dom, já teria feito esse dueto com você. – ele falou animado. – Algum problema? – ele perguntou quando notou que eu me calei.

– Não. – respondi engolindo o choro.

– Não costumo elogiar as pessoas, devia se sentir honrada. – ele brincou.

– Certo. – falei sem me importar levantando do banco e dando um sorriso forçado. – Se está brigado com o Castiel, por que veio a casa dele?

– Não vim porque quis, fui arrastado. – Kentin cruzou os braços.

“Ele está agindo igual ao Castiel. Como eles não se dão bem mesmo sendo tão parecidos?” – pensei.

– Entendo. – concordei só para não lançar outra pergunta que poderia deixa-lo aborrecido.

– Sabe, desde pequeno eu aprendi que engolir choro é ruim. – me encarou com um sorriso. – Você não sabe disfarçar.

– Oh! Verdade? – devolvi o sorriso não me importando. – Não chorei porque não é da sua conta.

– E o que uma coisa tem com a outra? – ele arqueou uma das sobrancelhas.

– Porque você diria: “Por que está chorando?”. – falei imitando uma voz diferente e desengonçada. – E isso não é da sua conta. Como muita coisa que eu te falei não era.

– E por que falou então? – ele fez uma cara de bravinho e virou o rosto.

Não respondi, apenas saí da sala. Ao fechar a porta escutei ele voltar com a melodia, suspirei. Andei e andei pela casa, ouvi um grito e vários palavrões. Devia ser Armin jogando.

Em outra sala escutei um barulho de uma cantoria. Coloquei a mão na maçaneta e girei colocando a cabeça para dentro da sala discretamente.

– E foi assim que eu vi que a vida colocou ela pra mim ali naquela terça-feira de Dezembro. Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cór, pode me perguntar de cada coisa que eu me lembro.