A Órfã Doce
38 Debaixo do gelo
Notas iniciais

No outro dia de manhã estava mais frio que ontem a noite, me virei para o lado contrario, Armin ainda estava lá.
– Oi. – ele falou me olhando. – Acordou cedo.
– Igualmente. – respondi me espreguiçando.
– Não dormi. – Armin suspirou.
Não perguntei por que ele não dormiu, deveria ter sido pelo mesmo motivo do choro. Aquilo me deixava meio desconcertada, mas...
“Pressionar alguém triste é muito ruim”. – pensei, afirmava aquilo por experiência própria.
Não entendo por que as pessoas não interpretam a tristeza dos outros, ou agem sem pensar se aquilo pode ser uma ação ruim ou não. Por estar na casa de estranhos o tempo todo, eu tinha aprendido a observar, a observar mais do que falar. Para mim, a maioria das minhas famílias adotivas era um bando de estranhos, no máximo eu passava dois anos antes de alguma desgraça acontecer e eu voltar de novo para o orfanato. Claro que eu não posso ser hipócrita o suficiente para falar que eu nunca agi ou falei sem pensar. Já fiz isso várias vezes e acabei magoando as pessoas por causa disso.
Levantei-me da cama e fui até a janela, passei a mão para limpar o vidro. Um mar branco cobria a paisagem de inverno que tinha visto ontem.
– Aqui é sempre assim, com a neve entristecendo tudo. – Armin falou se encolhendo nas cobertas.
– Não há muita diferença do lugar onde nós moramos. – dei um meio sorriso dando uma olhada para ele.
– Mas existem pessoas lá que não deixam a tristeza chegar, diferentes das pessoas daqui. – a voz dele parecia alterada, ele havia escondido o rosto nas cobertas.
Voltei para o meu lado da cama, me encolhi um pouco e fui fazendo umas piadinhas para ver o que acontecia.
– Que frio. – reclamei. – Você me recomendou calor humano, não vejo efeito. – ouvi uma risadinha vinda da parte dele.
Ele chegou mais perto quase me abraçando, fiquei olhando para ele segurando a risada. Estava feliz por ver que ele também sorria.
– Você é engraçada. – ele falou sorrindo. – Obrigado. – ele falou por fim me abraçando.
– As câmeras ligaram. – mudei de assunto.
“Não vou perguntar por que ele estava chorando, não é da minha conta”. – pensei.
– É... Acho que está na hora de levantar. – Armin suspirou afastando as cobertas e levantando.
Qual é o problema de Armin? Ele fala como se os pais deles fossem monstros. A mãe dele é uma mulher muito doce, o problema é que o pai dele não é muito presente. Para mim Castiel tem mais problemas com os pais do que Armin e Alexy com os pais deles. Apesar de que os pais de Armin e Alexy são preconceituosos em questão da homossexualidade de Alexy.
“Pare, Lynn. Você chegou agora! Ainda tem muito tempo para tirar conclusões.” – pensei.
– Mamãe deve pedir para a gente limpar a calçada. – Armin falou tirando a blusa.
– Não pode se trocar no outro quarto? – perguntei desviando o olhar.
– Ah! Claro. Foi mal. – ele deu uma risadinha sem graça.
Armin saiu do quarto. As câmeras estavam ligadas, então aquele velho pervertido estava me olhando? O único lugar sem câmeras era o banheiro, por razões óbvias até. Troquei-me lá. Assim que terminei, a mãe de Armin bateu na porta e entrou no quarto.
– Armin e Alexy estão limpando a calçada, poderia entregar isso a Armin? – ela perguntou enquanto colocava uma caixa bem grande no chão.
– O que é isso? – perguntei.
– Quando Armin e Alexy foram para a Sweet Amoris, eles moravam com um tio deles e não conosco. Tem umas coisinhas aqui que eu sempre quis entregar a Armin, mas ele estava longe. – ela sorriu. – Poderia entregar?
– Claro. – respondi sorrindo.
– Eu entreguei as do Alexy a sua irmã, ok? – ela falou referindo-se a Lana.
– Certo. – devolvi o sorriso.
Assim que ela fechou a porta eu comecei a revirar a caixa como se não tivesse amanhã.
Fotos, boletins da escola, provas em que ele levou bomba, livros rabiscados, desenhos. Então eu peguei ao com um valor bem maior do que eu imaginaria.
– Um diário. – falei quando o coloquei em mãos.
“Isso não é da sua conta Lynn”. – pensei quase mordendo a língua de curiosidade. – “Engano meu, Dona Curiosidade. A senhora só mata gatos, não a mim”.
“A curiosidade matou o gato”, nunca tive problemas por causa da minha curiosidade, até porque ela se manifestava poucas vezes. Peguei minha bolsa e joguei dois diários lá dentro. Empurrei a caixa com o pé para debaixo da cama, resolvi não falar disso com ele naquele dia.
Fui para o quarto ao lado onde Lana deveria estar. Ela estava mesmo com a caixa de Alexy.
– Está mexendo? – perguntei dando um sorriso.
– Sim. – ela sorriu. – Olha isso. – ela me mostrou uma foto. – Deve ser o menino que ele beijou. – Lana falou mexendo em mais coisas.
Observei a foto. Alexy ainda era idêntico a Armin. Na foto eles estavam numa paisagem verde, ambos sorrindo. O menino ao lado tinha a mesma altura que Alexy, era moreno e usava um boné de cor escura, tinha um piercing no lábio do lado direito. Era fofa aquela foto, Alexy sorria como nunca. Eu ainda não sabia ao certo o porquê de eles se separarem, mas estava quase tendo certeza que foi por causa dos pais de Alexy.
– Alexy é uma pessoa muito confusa, ora ele beija meninas ora meninos.
– Isso se chama bissexualidade. – fiz uma cara de “Mr. Óbvio”.
– Não foi só isso que eu quis dizer. – ela fez bico. – E também não é só isso. Ele se contradiz toda hora, ora ele fala uma coisa ora ele diz que essa coisa está errada e ele não deveria ter falado.
“Exatamente como aconteceu na festa quando ele falou de Castiel”. – pensei.
Fui para fora onde encontrei os meninos jogando neve um no outro.
– Não deviam estar limpando a calçada? – perguntei, com resposta levei uma bolada de neve na cara. – PORRA! PERA AÍ QUE VOCÊS VÃO VER. – falei juntando um montinho de neve.
Acabamos espalhando mais neve do que limpamos. Fui para perto das árvores pegar mais neve para jogar.
– Lynn, sai daí! – Armin gritou vindo na minha direção.
Dei um passo para trás e escorregue. Não era neve , era gelo. Eu estava em cima do lago, quando percebi o gelo quebrou e eu afundei.
FLASH BACK ON
– Vamos as lições de natação, vocês precisam saber a nadar. – uma professora falou enquanto colocava a touca.
– Eu não sei nadar. – levantei a mão.
– Você aprende rápido, não se preocupe. – ela sorriu.
– Professora, vem cá. – um menino chamou e lançou um olhar maldoso para mim.
Outro menino me empurrou na piscina, já que eu não sabia nadar fiquei agonizando até a professora vir me tirar de lá.
FLASH BACK OF
Depois que eu afundei abri os olhos dentro da água e fui procurando a saída. Tinha me perdido e saí batendo as mãos contra o gelo procurando desesperadamente sair da água fria. Duas mãos surgiram dentro da água, agarrei as duas. Armin e Alexy me tiraram da água. Não passei nem um minuto, mas para mim foram séculos, ainda mais porque estava um frio desgraçado.
Perdi a consciência, quando acordei estava deitada na cama com Armin sentado ao meu lado.
– Demorou a acordar. – ele comentou sem me olhar. – Tive que conversar com papai enquanto você não acordava.
– É? O que ele disse? – perguntei me espreguiçando.
– “Você nunca beijou sua namorada, tem certeza mesmo que ela é sua namorada?” – ele fez um tom de voz grossa enquanto fazia uma careta, o que deixava tudo engraçado.
– E o que você respondeu? – perguntei enquanto ria.
– Eu disse que você era tímida inventei uma porrada de mentira. – Armin bocejou. – Quer jantar? Lana já está lá embaixo.
Concordei. Durante o jantar, a mãe de Armin fazia perguntas indiscretas a Lana enquanto o pai de Armin me olhava fixamente. As vezes eu até desviava os olhares para não ficar tão constrangida. Armin me cutucou e deu um olhar para que eu não ligasse para ele.
O pai de Armin foi o primeiro a pedir licença e sair da mesa, Armin mudou de expressão, parecia aborrecido. Logo o resto terminou e eu me ofereci para ajudar a lavar a louça.
– Eu ajudo. – Lana disse.
– Vá descansar, Lynn. Você caiu na água hoje. – a mãe de Armin questionou. – Armin, vá com ela. Não deixe sua namorada sozinha. – ela fez bico.
Subi as escadas na frente de Armin com a mão na cabeça sentindo um pouco de dor. Eu estava com um mau pressentimento, não sei por quê.
Assim que entramos no quarto Armin deu uma pancada muito forte na porta, olhei para trás. Ele me puxou e me jogou na parede, colocou as duas mãos na parede cada uma perto dos meus ombros.
– O que está... – estava quase exigindo explicações quando ele me cortou.
– Calada. – ele pediu. – Agora tira minha camisa.
– O que? – interroguei confusa.
– Vai tirar a minha ou vai querer que eu tire a sua? – ele arqueou a sobrancelha. – São as câmeras, preciso dizer mais alguma coisa?
– Não combinamos isso. – falei.
– Acha que eu quero fazer isso? – ele retrucou. – Vamos, colabore. Quer mesmo que eu saia espalhando seu segredinho?
– Eu já vim aqui e me fiz de sua namorada, o combinado era esse. – apontei o dedo para a cara dele.
– Quem está sendo chantageada tem que ser flexível com combinados. – ele rebateu meu dedo. – Preciso que você faça isso.
– Não vou fazer nada. – cruzei os braços.
– Tá, então deixa que eu faço. – Armin me segurou pelo braço e colocou no peito dele. – Abra a camisa.
– Não vou fazer nada. – me recusei corada.
Armin colocou minha outra mão no peito dele, retirei as duas e virei a cara.
– Se você colaborar comigo vai ser mais fácil. – ele disse perto da minha orelha apoiando uma das mãos na parede enquanto a outra desabotoava a camisa.
– E se eu não fizer? Vai fazer o que? – bradei cruzando os braços.
– O que eu vou fazer? – Armin aproximou-se mais da minha orelha e deu um sorriso meio assustador. – Faça mais um barulhinho e eu estupro você, me entendeu?
Arregalei os olhos e fiquei muda. Armin tirou a camisa e envolveu as mãos na minha cintura. Eu fazia uma cara feia sem tamanho, evitava contato visual com ele.
– Olha pra mim. – ele pediu.
– Não está querendo demais? – resmunguei enquanto olhava para o lado emburrada.
– Então você quem sabe, moça. – ele deu um sorrisinho.
Armin me colocou sentada em cima da cômoda do quarto. Seus braços envolveram minha cintura novamente com força e ele simplesmente atacou meu pescoço. As mordidas eram tão fortes que me davam arrepios, mordia o lábio inferior para conter quaisquer tipos de sons que poderiam sair da minha boca.
“Não vou dar esse gostinho a ele”. – pensei.
As mãos ele passavam pelas minhas coxas enquanto ele trocava o lado do pescoço. Continuava resistente, apenas esperando a hora que ele pararia ou que as câmeras desligariam.
“Por favor, velho tarado, vá dormir cedo”. – pensei.
– Se segura que eu vou te levantar. – ele avisou.
Envolvi minhas duas pernas na cintura dele e os braços no pescoço. Armin me tirou da cômoda e me deitou na cama com ele por cima de mim. Ele levantou minha blusa até a metade, deslizou uma das mãos da cintura até a perna.
– Pode me bater depois. – ele deu um sorriso ao ver minha expressão.
– Nossa! Você deve ser vidente. Como adivinhou que eu ia descer o braço em você? – dei um sorriso sarcástico, logo voltei a mesma expressão de quem tinha chupado limão.
– Não vou fazer nada demais. – Armin fez careta. – Agora fica parada.
Ele foi aproximando o rosto do meu com uma das mãos na minha nuca. Quando estávamos prestes a nos beijar, ele saiu de perto, tirou minhas pernas da cintura dele e se espreguiçou.
– Que merda é essa? – perguntei.
– As câmeras desligaram. – ele explicou.
Juntei as pernas e dei um chute no peito de Armin que logo após caiu da cama.
– Porra, eu quase quebrei o pescoço. – ele reclamou levantando do chão com a mão na cabeça.
– BOA NOITE. – bradei me cobrindo e virando de lado.
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