A Órfã Doce
39 Natal
Notas iniciais

Era dia de natal, havíamos combinado com os pais de Armin que iríamos passar o Natal e Ano Novo na Alemanha em companhia deles.
– Desculpe por ontem. – foi o que Armin falou quando me viu acordada.
– Desculpe pelo chute. — pedi, mas as desculpas não foram sinceras, ele merecia aquele chute.
– Eu mereci. – ele suspirou.
“Ainda bem que sabe”. – pensei.
– Depois daquilo eu fiquei pensando, lembrando-me de algumas coisas. – ele corou.
– Do que, por exemplo? – perguntei ainda sem me importar.
– Você me salvou do sequestro e depois eu fui o que menos te agradeci. – aquilo era verdade. – Eu peço desculpas por ontem, mas também não me arrependo pelo que fiz. – ele começou a falar as coisas mais aceleradamente. – Me desculpe por te chantagear, mas você é burra. Deveria saber que eu nunca iria contar um segredo seu, mesmo você não aceitando a minha chantagem.
– Você não ia? – fiquei o encarando surpresa. – ENTÃO EU VIM AQUI PARA NADA? – bradei empurrando ele.
– Não foi pra nada... – ele fez uma expressão triste. – Eu me sinto inútil em ver você só me ajudando, queria retribuir.
– Eu nunca faço nada pensando em como as pessoas vão me retribuir. – fiz bico.
– Isso é porque você é uma pessoa boa. – ele sorriu. – As vezes eu queria me apaixonar alguém como os meus pais se apaixonaram. Mas, tenho medo que aconteça comigo o que aconteceu com eles e meus filhos acabem como eu.
Apenas ouvi e fiquei calada, Armin tinha que achar uma pessoa que espantasse seus medos. Quando eu parei para observar, o F4 não era formado por pessoas firmes e fortes. Era formado por pessoas cheias de inseguranças que adotam uma pose mais agressiva, pelo menos foi o que Armin disse que a analista de Castiel disse.
– Você já conhece? – Armin perguntou.
– Quem? – interroguei.
– A pessoa que é capaz de espantar seus medos. – ele me olhava nos olhos.
Por mais que eu quisesse sair daquela cama e mandar aquele viado virar homem, eu não o fiz. Mantive o contato visual, fiquei de boca fechada, na verdade eu não tinha nem o que responder a Armin.
Ele chegou mais pertinho e ainda ficou me encarando. Logo ele desfez o contato visual e fechou os olhos, vindo à minha direção. Ia me beijar? Por quê? Fiquei imóvel, nervosa, só fechei os olhos e aguardei.
– BOOOOM DIA COLEGUINHA COMO VAI. – Alexy apareceu chutando a porta, eu e Armin nos afastamos na hora. – A NOSSA AMIZADE NUNCA VAI. – Alexy continuava a cantar abrindo as cortinas. – FAREMOS O POSSÍVEL PARA SERMOS BONS AMIGOS, BOM DIA COLEGUINHA COMO VAI.
Com essa eu não resisti e caí na gargalhada, Armin ficou com a sobrancelha arqueada.
– Ganhei presente, você não. Você é adotado. – Alexy debochou de Armin enquanto balançava uma caixa que havia ganhado.
– O que ela te deu? – Armin perguntou.
– Não importa, eu ganhei presente da mamãe e você não. – Alexy saiu do quarto todo saltitante gritando pelos corredores. – Acorda! Acorda todo mundo! Requebra!
Armin disse que ia sair com a mãe dele e Alexy, disseram que iam ver os tios que moravam na mesma rua. Chamaram a mim e a Lana, mas negamos o convite. Enquanto Lana tomava banho e o pai de Armin me vigiava, tirei a caixa debaixo da cama e peguei minha bolsa com os diários.
“Eu acho que não deveria abrir”. – pensei enquanto olhava. – “Dane-se, nem eu ligo para o que eu acho”.
Tirei meus óculos da bolsa. Abri o diário com a mão mesmo, quando eu era pequena eu tinha um diário desses, são aqueles diários com as trancas mais vagabundas conhecidas pelo homem. Comecei a folhear sem parar, as datas eram de quando Armin tinha em torno de sete anos.
“Hoje mamãe me mandou com Alexy para dormir na casa da vovó. Ela e o papai devem estar brigando de novo.” – li mentalmente. – “Mamãe briga com papai por ele passar o dia escrevendo e por não passar um dia comigo e Alexy”. – continuei a folhear o diário. – “Hoje mamãe apareceu com curativos no braço, ela disse que caiu, mas acho que alguma coisa deve ter acontecido ontem enquanto eu os ouvia brigar”.
Fiquei boquiaberta. Havia outro diário que estava com a chave, o abri e comecei a ler também. A Data era de quatro anos depois.
“Ela me mandou embora com o Alexy e agora quis nos trazer de volta como se alguma coisa tivesse mudado, acho que esses anos eu sempre culpei minha mãe, mas o problema sempre foi aquele retardado que nunca foi um bom marido para ela”. – li mentalmente passando as páginas. – “Tinha que ter acontecido justo quando eu tinha achado amigos na Sweet Amoris, justo quando eu conheci e entrei pro F4... Todo mundo se separou... Espero que um dia ainda voltemos a ser uma equipe”. – passei as folhas para o mês seguinte. – “Completei 13 anos hoje. Conheci uma garota, comecei a namorar ela. Não sei o que ela teve na cabeça em namorar um menino três anos mais novo. Ela disse que quer fazer uma faculdade de design de games”. – passei mais páginas para frente, passando meses no tempo. – “Ela me deixou, como eu pude ser burro assim? Tenho que ir embora, não aguento mais meus pais brigando e Alexy chorando por causa das brigas deles dois, tenho que arrumar um jeito de ir embora”. – passei para a ultima folha do diário. – “Fui para uma festa com Alexy, ele beijou um menino que ele estava namorando e meus pais descobriram. Hora perfeita pra sair daqui.”.
– O QUE ESTÁ FAZENDO? – Armin bradou ao entrar no quarto. – São os meus diários? – ele os tomou de mim. – Como se atreve?
– Era por isso que você estava chorando? – perguntei encarando o chão.
– O que? – ele se fez de confuso.
– Você estava chorando porque seus pais brigavam e seu pai batia na sua mãe. Era por isso? – interroguei para ver se estava certa. – Era por isso que dizia que aqui era um lugar triste? Se é um lugar triste, por que veio?
– Porque eu sou burro e achei que devia alguma satisfação a eles. – ele suspirou batendo a mão na testa. – O casamento é deles, não meu. Eu sempre dificultei as coisas para eles, principalmente para minha mãe.
– Você só foi uma criança com problemas de comportamento. Isso não é anormal, ainda mais quando o pai não ajuda a mãe a controlar os filhos. – segurei na mão de Armin.
– Como sabe disso? Leu isso também? – ele me olhou arqueando a sobrancelha.
– Não, eu deduzi. – menti.
Quem me tinha contato que Armin era uma peste, foi Lysandre. Foi até enquanto ele contava sobre as brigas de Kentin e Castiel, a história do chip e tudo isso.
– Acho que não foi culpa sua. – cruzei os braços. – Por que se sente culpado por isso?
– Não sei. – ele falou dando um suspiro no final. – Por isso disse que sou burro por achar que devo satisfações a eles. Na verdade eu nem sei bem o que eu devo pensar.
– Como se sente? – perguntei.
– Me sinto triste, sinto que não devo satisfação a eles. Mas... – ele pausou sem conseguir continuar.
– Lá no fundo uma voz grita dizendo que você se preocupa? – lancei minha suposição.
Armin não respondeu, estava juntando forças enquanto retia as lágrimas. Levantei-me ficando de frente pra ele e o abracei.
– Vai ficar tudo bem, está tudo bem. – foi o que eu disse enquanto o abraçava.
No Natal correu tudo bem, a mãe de Armin preparou sozinha uma ceia gigantesca. Logo três dias depois eles tiveram uma conversa que nos fez arrumar as malas.
– Tem certeza que quer ir? – a mãe de Armin perguntou.
– Claro, tenho sim. – ele acenou com a cabeça. – Você disse que iria viajar com o papai na virada do ano, nós preferimos não atrapalhar isso.
– Mas... – ela contestou.
– Mãe. Seu casamento está em crise desde que nasci, cuide um pouco dele. – Armin arqueou a sobrancelha.
Na viagem de volta, tudo parecia mais calmo. Inclusive Alexy e Lana, que dormiam em poltronas vizinhas.
– Eu e Lana tomamos banho com a sua mãe. – comentei olhando para Armin. – Eu vi a tatuagem nas costas dela.
– A do dragão? – Armin perguntou sorrindo. – Sempre gostei daquela tatuagem.
– Fazer tatuagem dói? – fiz careta.
– Sei lá, devia perguntar ao Lysandre. – Armin falou com o queixo apoiado na mão.
– O Lysandre tem tatuagem? – arregalei os olhos.
– Sim, várias asas nas costas. – Armin bocejou. – Ele fez com 14 anos.
– Os pais dele deixaram? – interroguei.
Logo me lembrei do que Alexy me contou, os pais de Lysandre eram muito indiferentes com ele e o irmão. Não ligavam muito para as decisões deles dois.
– Claro. – Armin olhou pela janela. – Antes disso ele só tinha uma cicatriz nas costas, acho que ele quis cobrir. Daí fez a tatuagem.
– A cicatriz era grande? – fiquei curiosa.
– Não. Mas a lembrança o incomodava. – Armin já nem prestava mais atenção em mim, olhava para a janela e suspirava ao ver que o voo ainda iria se arrastar por mais longas horas.
– Como ele ganhou essa cicatriz? – interroguei novamente.
– Hei, não vou contar a vida inteira do garoto para você. – Armin fez careta. – Se quiser saber, pergunte a ele. Não que ele vá falar, claro.
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