A Órfã Doce
43 Atividades noturnas
Notas iniciais

O rapaz tirou o capacete e me encarou profundamente, me surpreendi ao ver quem era.
– Por que não voltou para casa? – ele perguntou já irritado.
– Eu esqueci,Kentin. – cruzei os braços desviando o olhar, logo ele fez um olhar incompreensível.
– Esqueceu-se de voltar para casa? Que desculpa! – ele bradou.
– Ela só confundiu o caminho. – Lysandre explicou. – É natural, ela ficou desatenta e mudou o caminho por estar acostumada. Não brigue com ela.
– Sou o irmão mais velho dela. – ele revirou os olhos. – Qualquer coisa que acontecer a ela a culpa vai ser minha.
– Você não é meu irmão. – retruquei colocando a mão na cintura. – Não te pedi para se responsabilizar por mim, não sou uma pirralha.
– Sim, você é. – Kentin arqueou a sobrancelha. – Sobe logo na moto antes que eu atropele você.
– Vá, Lynn. – Lysandre sorriu. – Já deveria estar em casa há tempos.
Sorri e dei tchau. Assim que subi na moto, Kentin deu uma acelerada de proposito, eu quase caí.Assim que chegamos em casa, Kentin parou a moto na garagem e saiu com uma cara de bunda. Qual era o problema dele? Quase me atropelou e ainda fica com cara de bunda, quem deveria estar com cara de bunda era eu.
– Qual o seu problema? – perguntei enquanto o seguia.
– Meu problema é que eu esperei você no portão por uns vinte minutos. – ele virou-se para mim todo descabelado por causa do capacete. – Você é burra, é? – ele revirou os olhos. – Que tipo de pessoa se esquece de voltar para casa?
– Estava distraída. – expliquei.
– Isso é desculpa? Acha que eu queria ficar esperando por você? – ele rebateu o argumento.
– E por acaso eu pedi isso? – me defendi arqueando uma das sobrancelhas.
– Se dependesse de mim, eu tinha passado por cima de você e dado ré só para passar por cima de novo. Você é uma menina muito irritante, da próxima vez seja mais atenta. – assim que ele terminou de bronquear, foi até seu quarto onde bateu a porta com força.
Fiz bico, precisava exagerar assim? Será que ele sabia o que aconteceu na viagem para ficar me criticando? Apesar de que ele tinha um pouco de razão, eu não deveria ser tão desatenta. E se ele não fosse me buscar e Lysandre não estivesse lá? Como eu ia voltar se estava nevando? Apenas tinha tido sorte, não poderia abusar da mesma para não me dar mal.
Por volta da meia noite, eu terminei de lavar os pratos e fui tomar banho para ir dormir. Meia hora depois eu comecei a ouvir uns barulhos.
“Deve ser Kentin”. – pensei levantando a coberta me cobrindo dos pés a cabeça. – “Oh cobertor! Manto mágico contra satanás, funcione agora”.
Os barulhos aumentaram, eu tremia todo o tempo. Corri até a porta e passei a tranca, deite-me novamente. Os barulhos aumentavam cada vez mais, eram barulhos de passos e maçanetas sendo giradas. Levantei-me de novo, remexi na minha bolsa pegando minha pistola. Destranquei a porta engolindo a saliva, abri bruscamente a porta apontando a arma para o corredor. O quarto de Kentin estava destrancado, ele sempre deixa destrancado, segundo ele pelo menos. Ouvi um barulho de alguém correndo por aquele corredor, o resultado foi que eu entrei em pânico e abri a porta do quarto de Kentin quase chorando.
– TEM UM BICHO NO CORREDOR! – gritei me jogando por cima dele na cama, Kentin estava deitado de barriga para cima, com meu pulo ele virou de lado.
Kentin se assustou tanto que gritou junto comigo, eu abracei ele bem forte enquanto ainda quase chorava. Eu tinha visto no corredor uma maçaneta girando sozinha.
– O que você viu? – ele perguntou indo até a porta e a trancando.
– A maçaneta girou sozinha. – eu falei com as mãos no rosto. – Se você estiver tentando armar uma pra mim eu juro que eu...
– Você acha que eu ia perder meu tempo de sono com isso? – ele retrucou sentando-se na cama. – Se eu quisesse assustar você eu ia lá no seu quarto e puxava a sua perna enquanto você dormia, seria mais simples.
– Por que a maçaneta girou sozinha? – perguntei retendo as lágrimas me acalmando mais.
– Não faço ideia. – ele desviou o olhar.
Comecei a prestar atenção no quarto dele, as paredes eram de uma cor creme e as paredes tinham vários suportes. Tinham coisas nesses suportes, armas, o taco de beisebol, katanas, etc. Cada parede com as respectivas coisas. Na quarta parede, era a parede da porta. De cima da cama dava para ver claramente, TINHA UM POSTER DE UMA MULHER QUASE PELADA.
– O QUE É ISSO? – apontei para o pôster.
– É um peito, ué. – ele respondeu com total naturalidade.
– Como você fala calmo assim quando tem um bicho no corredor? – bradei fechando a cara.
– Não use essas expressões. – ele broqueou. – Para falar a verdade isso não acontecia há muito tempo, você que é azarada, aposto como está acontecendo isso por sua causa.
– Já aconteceu antes? – perguntei arregalando os olhos. – O que é isso então?
– Vamos dormir. – ele falou deitando-se. – O seu mal é sono, vá dormir que tem aula amanhã.
Estava ficando cansada de deixar as pessoas cortarem os assuntos pela metade. Costumo a permitir isso por educação, para não ter que ficar discutindo por bobagens... Mas as pessoas realmente estavam se aproveitando dessa minha qualidade.
No dia seguinte eu acordei grudada no braço de Kentin, isso é o resultado de uma noite apavorante. Kentin já estava acordado, ele ficou encarando o teto como se estivesse pensando em algo.
– Estou com medo de sair. – falei apertando o braço dele.
– Fantasmas só aparecem durante a noite. – ele falou ainda encarando o teto.
– Aquilo era um fantasma? – choraminguei.
– Talvez sim, talvez não. – ele bocejou. – De qualquer forma, temos que levantar. A aula começa daqui à uma hora.
Levantei-me da cama, eu tinha certeza de que estava amarela de medo. Kentin abriu a porta e foi para a cozinha e eu fui para meu quarto para tomar banho. Ao colocar a mão na maçaneta percebi que ela estava muito gelada.
“Deve ser porque fez frio”. – tentei ser positiva.
Ao abrir a porta dei um grito enorme e saí correndo. O papel de parede tinha sido rasgado e por baixo dele estava escrito “Quem está morto?”. Kentin foi até meu quarto e ao ver essa mensagem fez uma expressão negativa com a cabeça.
– Pegue suas coisas. – ele falou. – Vamos para minha casa.
Nem a aula nós fomos nesse dia. Ao chegar na casa de Kentin, imediatamente ele ligou para a tia.
– Mãe, aconteceu de novo. – ele falou com o celular na orelha soltando um suspiro. – Sim, eu já vim para cá. – ele andava de um lado para outro. – Se eu fiz a oração...? Era... Ontem...? Acha que foi isso?
A cada expressão que Kentin fazia eu sentia arrepios e mais vontade de chorar. Ao desligar o celular ele suspirou, logo me olhou.
– Não seja chorona. – ele falou colocando a mão no meu ombro.
– Não vai me contar o que está acontecendo? – ele hesitou. – Está mesmo falando sério?
– Te conto outro dia, outra hora. – ele falou andando de lá para cá fazendo uma expressão pensativa.
– Você disse uma vez que não queria que eu viesse aqui muitas vezes porque você só trás garotas aqui. – fiz bico.
– Se antes eu já te via como um menino, vejo mais ainda porque agora você é minha irmã. – ele deu um sorrisinho sarcástico, torci a cara e desviei o olhar cruzando os braços.
Kentin me provocava sempre que podia, aquilo me irritava profundamente e me fazia querer bater nele até ele chorar, só para ser divertido. Sentia-me mais aliviada, apesar de Kentin ser um chato, ele pareceu se preocupar tanto com a situação como comigo, aquilo era até fofinho.
– Obrigado por cuidar de mim. – agradeci fazendo bico enquanto encarava o chão, estava meio envergonhada em falar aquilo, me lembrava daqueles filmes que quando a menina falava isso o menino a abraçava ou beijava. Algo assim. Não que eu esperasse isso, eu só lembrei.
– Sou seu irmão mais velho. – ele suspirou.
– Quer parar de repetir isso? – bronqueei. – Você fala como se eu tivesse Alzheimer.
– Não sei se tem, mas está perto. – ele arqueou a sobrancelha. – Se já esqueceu de voltar para casa, eu não me surpreendo se um dia você acordar, olhar para mim e perguntar “Quem é você?”. – ele fez uma voz feminina no final, logo continuou. – “Você é o negão bonitão que eu conheci na balada?”.
Dei um tapa no braço dele, mas até que dei risada da piada mal feita dele. Meus dias tinham mudado por causa daquela adoção. De qualquer forma a Tia tinha razão, eu precisava de uma mãe, não só de uma mãe como de uma família. Na verdade eu só precisava de alguém, de um ombro, de alguém que se preocupasse comigo. Eu só precisava daquilo.
Após uns minutos, fui tomar banho,descansei um pouco lendo um livro. Assim que me deitei na cama e comecei a leitura,Kentin apareceu para mim.
– Castiel perguntou se você quer ir tomar um café com ele amanhã depois da escola. – Kentin falou indiferente segurando o celular na mão.
– Um café? Ok. – respondi voltando os olhos para leitura.
Depois da escola como combinado, Castiel saiu comigo para uma cafeteria. Eu pedi café com creme e Castiel pediu um cappuccino descafeinado com caramelo. Sentamos numa mesinha, a me ver com olhar triste ele se pôs a falar.
– Antes de eu te chamar para vir tomar um café comigo, Kentin tinha me contado o que tinha acontecido na casa da mãe dele. – Castiel falou, logo após deu um gole no café. – Eu já vi aquilo, não é brincadeira.
– O que você viu exatamente? – perguntei.
– Foi mais ou menos assim. – ele olhou para o teto, parecia tentar lembrar-se de algo. – Foi quando F4 se reuniu depois de muito tempo, a gente foi para a casa nova do Kentin. A mãe dele é bem estranha, ela anda com um chaveiro gigante cheio de chaves, devem ser todas as chaves da casa. Ela abriu uns quartos para a gente, eram quartos bem... – ele pausou procurando a palavra certa. – Não sei explicar, sei que o quarto que eu fiquei dava medo. Kentin falou alguma coisa sobre um bebê e que aquele quarto ia ser dele. Era cheio de animais de pelúcia, provavelmente seria uma menina, mas não era um quarto muito feminino.
“A tia estava grávida?” – pensei.
– Sei que cada um foi para um quarto, no meio da noite as maçanetas começaram a girar, as maçanetas foram forçadas e chegaram a arrombar a porta do quarto que eu estava. Eu quase morri do coração. – ele suspirou, logo ficou sério. – O papel de parede foi arrancado sozinho e debaixo dele tinha uma mensagem.
– Quem está morto? – repeti a frase que havia visto na parede do meu quarto.
– Era essa mesma. – Castiel confirmou. – O quarto que eu estava era o de frente pro de Kentin, foi fácil ir pro quarto dele.
Raciocinei um pouco. Segundo a Kentin, era um fantasma, mas talvez ele podia ter só brincado com a minha cara. Depois do que Castiel me falou, ou todos estavam curtindo com a minha cara, ou era alguma alma vingativa do além querendo minha cabeça. Com a referencia de Castiel, eu tinha descoberto que o quarto onde aconteceu isso com ele era o mesmo que eu estava. Balancei a cabeça de um lado para outro, incrédula. Por que a Tia me colocou naquele quarto? Ela sabia disso?
– A Tia ficou sabendo disso? – interroguei apertando copo de café de leve.
– Está falando da sua mãe? – revirei os olhos e fiz que sim com a cabeça. – Ela ficou sabendo, cancelou o ensaio e voltou o mais rápido que pôde. Ela deu uma bronca em Kentin por causa de alguma coisa. Eu tinha perguntado a ele se já tinha acontecido isso, ele disse que não e ainda disse que não sabia nada sobre o que estava acontecendo.
– Quando foi isso? – mordi o lábio inferior, já aflita.
– Vamos ver... – ele fez uma expressão pensativa. – Há alguns anos, mas foi nesse mesmo mês. – ele concluiu. – Sua mãe não bate muito bem da cabeça, pelo menos não batia. Kentin disse que ela sempre foi assim, mas ele não sabia o porquê. Hoje falando ao telefone ele ficou se fazendo de desentendido, ele deve saber o que está acontecendo. Só não quer contar.
– Obrigado por compartilhar isso comigo. – dei um sorrisinho dando o ultimo gole no café.
– Eu te chamei aqui justamente para isso. Eu entendi como você se sentiu, achei que poderia se sentir melhor em relação ao que aconteceu. – ele arqueou a sobrancelha e olhou para cima. – Ou não né, mas em resumo eu só quis ajudar.
– Agradeço por isso. – sorri novamente.
– Hei. – Castiel corou. – Quer ir ao cinema comigo na quinta?
– Vai só você? – perguntei.
– Não, acho que vão mais pessoas. Talvez o Armin e o Alexy. – ele coçou a cabeça. – Você vai, né?
– Vou pensar. – sorri.
“Qual é a dele?” – pensei. – “Uma hora me inferniza e na outra me chama para sair com eles e os amiguinhos dele”.
– Em qual cinema? – perguntei.
– Na minha casa. – ele respondeu. – Tem uma sala lá que é uma sala de áudio e vídeo.
– Entendo... – pausei um pouco. – Te digo depois sobre isso.
Naquele dia a Tia tinha voltado, a casa parecia normal. Mas por conta do que tinha acontecido no meu quarto, ela mandou que eu dormisse no quarto de Kentin.
– Não é melhor eu ir para outro quarto? – perguntei fazendo careta.
– Não. – a Tia respondeu de um jeito que eu até senti medo, a expressão facial que ela fez foi realmente medonha. – Durma no quarto dele, não é uma boa ideia ir para os outros.
– Isso sempre... Aconteceu por aqui? – me arrisquei a perguntar.
– Quando eu comprei essa casa, ela já era assim. – ela suspirou. – Tem certas coisas que temos que aprender a lidar.
– Mas a senhora é rica. – questionei. – Poderia muito bem comprar outra casa.
– Essa é especial, só isso. – ela lançou um olhar triste para o chão diminuindo o tom de voz.
Certo, então a desculpa era essa? Sinceramente se eu comprasse uma casa e tivesse algum bicho rondando pelos corredores, arrombado as portas e arrancando o papel de parede, eu vazava na hora.
– Se você se mexer enquanto dorme, eu derrubo você da cama. – Kentin resmungou deitando-se de costas para mim.
– Estou nervosa. – choraminguei enquanto me cobria.
– Mamãe está aqui hoje. – Kentin respondeu em um tom que indiretamente me mandava calar a boca e ir dormir.
– Ela vai chamar os caça fantasmas? – ironizei.
– Vá dormir, só isso. – ele reclamou batendo a mão no meu ombro.
– Castiel me contou... Que aquele quarto era o quarto de um bebê... – esperei Kentin falar, mas o silêncio se instalou e ele não respondeu nada. – A tia estava grávida?
– Não, o bebê não era dela. – o tom de voz dele parecia triste. – Era de outra pessoa.
– De quem? – perguntei.
– Não seja curiosa, vá dormir! – ele exclamou se remexendo na cama. – Mesmo assim é uma pena... Eu quem escolhi o papel de parede daquele quarto.
“Espera... Se arrancaram o papel de parede, significa que aquela frase já estava lá desde que aquilo aconteceu com Castiel”. – pensei. – “Então... Quem escreveu aquilo?”.
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