A Órfã Doce
42 Ano escolar
Notas iniciais

Já havia se passado duas semanas de aulas. Eu já estava no segundo ano do ensino médio, a turma era tão chata quanto a outra. Assim que entrei na sala notei a presença de uma garota cabisbaixa. Olhei e olhei, então concluí que a conhecia.
– Lana? – chamei seu nome, ela virou o rosto para mim quando me escutou.
– Lynn. – ela abriu um sorriso. – Que bom! Que bom!
– Como você conseguiu entrar pra uma escola dessas? – perguntei arqueando a sobrancelha.
– Alexy me conseguiu uma prova de seleção e eu consegui a bolsa. – Lana fez careta. – Será que foi porque eu o ajudei? Ele é gentil em ter feito algo assim para mim. – as bochechas dela coraram.
Estávamos no final da sala e havia poucas pessoas ali, conversaríamos a vontade. Para falar a verdade eu iria nadar, mas seria melhor ficar com Lana ao invés de ir para a piscina onde talvez eu encontrasse Lety.
– Essa escola é bem grande. – Lana choramingou. – Eu posso até me perder.
– Eu também quase me perdia nos primeiros dias. –sorri.
– Hei, quem era aquela menina de cabelo roxo que anda com um gravador? – Lana interrogou. – Ela quase me pôs contra a parede pra me fazer perguntas.
– Ah meu Deus... – coloquei a mão na cabeça. – O que ela perguntou?
– Ela perguntou se nós trabalhávamos juntas, que tipo de relação tínhamos e se eu conhecia o F4. –ela explicou.
– E o que você respondeu? – interroguei já temendo a resposta.
– Disse que trabalhamos juntas, que somos amigas e disse que eu conheci dois membros do F4 numa viagem. – ela sorriu.
Fiquei sem acreditar, logo a Peggy, que desastre! Não podia culpar Lana, ela não conhece ninguém e não sabia quem era Peggy, Peggy se aproveitou por Lana ser ingênua. Com um mau pressentimento, assisti às aulas tentando pelo menos fingir que tudo estava bem. Assim que o sinal bateu, automaticamente eu me levantei e saí arrastando Lana pelo braço.
– O que foi? – ela perguntou nervosa.
– Apenas me siga. – pedi.
Ao chegarmos à cantina, já sabia para onde ir. Ao pousar meus olhos na TV não vi nada, dei um suspiro de alivio. Para falar a verdade eu quase me sentava no chão de tão aliviada que eu estava, não me pergunte por que eu pensei nisso. Eu não sei.
– Oi, Lynn. – Peggy passou por mim com algo em mãos, ela dava um sorriso de deboche.
Peggy estava com um pen drive em mãos, ela o colocou na TV e mexeu em algumas coisas. Assim que vi a matéria que ela tinha feito eu bufei de ódio.
“A novata Lana, bruxa de primeiro grau, afirma ter conhecido dois membros do F4 em uma viagem. Ela afirma também que os dois a convidaram juntamente com a estudante Lynn”. – li mentalmente.
As pessoas me lançavam olhares pervertidos, Lana quase tinha tido um troço, pelo menos agora sabia quem era Peggy e que não deveria trocar sequer uma palavra com ela.
– Uma bruxa? – um comentou de lado. – Hoje em dia qualquer um entra na SweetAmoris, esse pessoal está baixando o nível.
Lana baixou a cabeça, triste. Fui tomada por uma fúria que era desconhecida até para mim, saí pisando duro em direção a Peggy que me recebeu com um sorriso de vitória.
– Gostou da matéria? – ela debochou.
– Ah, sim! Claro que gostei. – ironizei. – Escreve sobre isso também. – encerrei a frase abrindo a mão e chocando contra o rosto de Peggy.
Peggy apenas se desequilibrou e deu uns passos desorientados para o lado, minha mão ficou marcada no rosto dela. Bem feito!
– Quem você pensa que é para ficar falando dos outros? – a agarrei pela gola da blusa e a levantei.
– Isso é noticia, você não pode mudar isso. – ela retrucou.
– Quer que eu desça o braço em você? – franzi a testa. – Sua vadia, você fez de proposito, até espionou Lana para expor alguma coisa que chamasse a atenção das pessoas. Você vive disso, não é? Sabe por quê? Porque você é uma vadia inútil e ninguém gosta de você.
– Bater nela vai resolver algo? – uma voz comentou logo atrás.
Lety veio seguida de Iris, a multidão deu espaço para que elas passassem. Lety olhou Lana de cima a baixo e logo fez o mesmo comigo.
– Isso é modo de se portar? – Lety colocou as mãos na cintura me encarando.
– Querida, você fala como se eu devesse satisfação a você. –tentei ser educada, mas o tom rude tinha necessidade de se expor. Logo eu desisti de vez. – Cai fora! Eu já estou depenando uma galinha, quando chegar a sua vez eu aviso.
As pessoas ao redor deram risada, para falar a verdade até Lana riu.
– O que é isso, Lynn? – Iris me olhou surpresa. – Por que está fazendo isso?
– Iris... – afrouxei mais minhas mãos em Peggy. – Por favor, não se meta. – pedi, realmente Iris tinha feito muito por mim quando eu estava na pior, xinga-la e tratar ela como as outras seria muita falta de consideração. – Eu não sou burra, muito menos injusta ou valentona que quer chamar atenção. Se eu estou fazendo isso é porque tenho motivos.
– Se eu fosse você eu a soltava. – Letyfranziu a testa.
– Por que ainda insiste? – Lana finalmente se pôs a falar. – Para ser franca, você é amiga dessa menina pelo menos? – Lety fez que não com a cabeça. – E por que está se intrometendo?
– Esse tipo de comportamento é inaceitável. – Lety cruzou os braços.
– Você é a diretora por acaso? – Lana retrucou já fazendo uma cara feia. – O assunto não interessa a você para inicio de conversa.
– Você é novata, não sabe como funcionam as coisas. – Lety continuou. – Lynn, se eu fosse você eu a soltava.
– De novo com isso? E se ela não soltar? O que você vai fazer? – Lana se pôs a frente fazendo uma cara mais feia ainda. – Você só quer chamar atenção pagando de moralista, você é só uma posista, superficial que eu sei. Você a defende porque vocês duas são fofoqueiras, farinha do mesmo saco.
– Você me conhece pelo menos? – Lety retrucou franzindo a testa.
– Nomes de pessoas mal faladas saem da SweetAmoris, se você não tem uma boa reputação o problema não é meu. – Lana cruzou os braços e virou-se de costas, o que indicava o fim da discursão.
Ouvi gritinhos e as pessoas se movimentando, aquilo indicava que o F4 estava vindo. Apertei a gola da blusa de Peggy e a empurrei contra a parede ainda a segurando, que se foda se o F4 estava passando.
– Lynn! – ouvi de longe o tom de repreensão vindo de Lysandre.
Suspirei com uma expressão de saco cheio. Esse pessoal estava de armação para cima de mim, só pode. Desviei o olhar, soltei Peggy a empurrando contra o chão. Virei na direção em que os meninos vinham com uma cara de quem ia abrir o peito deles, arrancar o coração e chupar o sangue.
– Hei Peggy. – Kentin foi o primeiro a chegar perto com um taco de beisebol, já que ele veio nos passos mais rápidos.
– S-sim? – ela sorriu enquanto se recompunha.
– Tenho uma matéria para você. – ele simplesmente afundou o taco na TV. – Pronto. – ele deu um sorriso puxando o taco para si dando um sorriso mala.
Peggy ficou boquiaberta igual muitos ali.
– Eu quero que saibam, que ambas estão no nosso lado. – Alexy falou colocando a mão no ombro de Lana e no meu.
– Não dou ouvidos a um membro honorário do F4. Com todo respeito, claro. – Peggy se pronunciou.
– Com todo respeito, mas já desrespeitando. – Armin bronqueou. – Ambas estão do nosso lado, sou um membro oficial. Minha palavra conta agora?
– Quero ouvir isso do líder. – Lety se intrometeu mais uma vez.
– Quer que eu mande matar vocês? – Castiel fez uma cara azeda, aquela foi uma forma de mandar todo mundo se calar. – Elas estão do nosso lado, mas eu não vou dizer que é para que vocês não se aproximem delas e bláblá. – Castiel suspirou. – A Lynn é uma menina perigosa, só digo isso. Vocês se metem com ela de burros que são.
As pessoas se entreolharam trocando cochicho, lancei um olhar de censura a Castiel, na verdade eu o metralhei com o olhar. Castiel apenas retribuiu com um olhar de “Se fode aí”.
“Vadio”. – pensei me controlando para não socar ele.
Na saída comecei a andar perdida em pensamentos. Da viagem por exemplo, de tudo que ocorreu. Desde a queda no lago aos supostos amassos no quarto de Armin. Para falar a verdade nada disso me incomodava, o que eu estava pensando mesmo era como ele tinha aguentado aquilo quando criança. Certo que eu passei por muito mais que ele, mas eu nunca espero muita coisa das pessoas.
Ao reparar onde eu estava, tinha pego o caminho errado. Tinha demorado mais de meia hora para chegar ali, tinha ido para o apartamento antigo. As coisas foram começando a piorar, começou a nevar de novo e eu simplesmente não contava com essa, tanto que não saí de casa agasalhada.
Sentei num banco de praça que ficava depois do Culinária Mágica, que estava fechado. Tia Cristal tinha viajado e Lana provavelmente estava em casa. Eu sei que eu deveria ter ao menos ter voltado para a escola. Dei azar, a nova casa ficava bem mais longe.
– Dia ruim, Lynn? – uma voz masculina me interrogou.
– L-lysandre? Estava aí a muito tempo? – fiquei nervosa ao ver, não tinha percebido que ele estava ali.
– Mais ou menos. – ele sorriu. – Pelo que eu sei, sua casa não fica mais aqui.
– É... Você já sabe. – cocei a cabeça corada.
– Kentin contou que você estava olhando para as pernas dele. – Lysandre deu uma risada constrangida.
– É MENTIRA DELE! – bradei mais corada.
“É verdade, mas eu morro e não admito”. – pensei.
Lysandre me viu sem jeito, sorriu. Estava com o bloco de notas em mãos, que logo guardou no sobretudo. Lysandre foi até uns arbustos e retirou uma flor vermelha.
– Já ouvi a história dessas flores. – ele me olhou. – Cada uma delas nasce por uma pessoa especial na sua vida. – ele encarou a flor, logo a entregou para mim. – Não sou tolo em acreditar que nasçam flores para as pessoas que eu considero especiais, mas acredito que aconteça isso com você.
– Por que... Você pensa assim? – pausei pegando a flor.
– Quer que eu te leve para casa? – ele mudou de assunto.
– Não, obrigado. Eu me viro. – falei dando uns passinhos para o lado.
Uma moto passou pela rua em alta velocidade, freou perto da gente e quase ia batendo em mim.
– Hei,viado! – cerrei o punho e sacudi para o cara de capacete. – Olha por onde anda.
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