A Órfã Doce
37 Alemanha
Notas iniciais

Dentro do jato em plena porra das cinco horas da manhã, eu me perguntava somente o que Lana fazia naquele jato.
– Como a trouxeram? – perguntei observando que Lana aparentava estar mordida de ódio.
– Eu disse que você tinha sofrido um acidente. – Alexy sorriu. – Precisávamos de duas meninas, não tinha a quem chamar.
– Tinha que inventar isso? – Lana fechou a cara. – Eu quase morri do coração.
– Como eu disse, precisávamos de duas meninas. – Alexy cruzou os braços.
– Mas... O Armin me disse que era pra eu me fingir ser namorada dele só pra concertar as coisas com os pais. – arqueei a sobrancelha.
– Não é só ele quem tem que concertas as coisas. – Alexy retrucou. – Preciso de dinheiro para uns projetos, e eles têm que me dar.
– E o que eu tenho com isso? – Lana cruzou os braços arqueando uma das sobrancelhas.
– Vai fingir ser minha namorada. – Alexy respondeu com total naturalidade.
Os olhos dela se arregalaram e a boca se abriu lentamente. Uma perfeita expressão de surpresa.
– POR QUE EU? – ela bradou.
– Porque o Armin já tinha escolhido a Lynn. – Alexy fez bico e cruzou os braços.
Na viagem Armin falou sobre os pais dele. Ambos nasceram na Alemanha, eles se conheceram em um dos pontos turísticos de lá. Após o começo do noivado eles saíram da Alemanha, se casaram e tiverem Armin e Alexy em outro país... Do qual aconteceu aquelas coisas com Alexy que fizeram eles voltarem para a Alemanha.
A mãe de Armin é artista plástica e paisagista, ela sempre foi uma pessoa muito ligada a arte visual, segundo a Armin, ela pintava bem antes de conhecer o pai dele. O pai de Armin era um dos três escritores mais famosos da Alemanha, escrevia de mistérios a romances, mas por trás desse grande dom havia um grande defeito.
– Ele não interage com as pessoas. – Alexy comentou. – Ele mantinha a casa com mais de 100 câmeras, é assim que ele observa o movimento das pessoas, se inspira e escreve algo que em poucas semanas vende milhões de cópias... Queria saber como ele consegue.
– Ele é formado em psiquiatria, mas não sei qual a graça que ele vê em estudar as pessoas sem nem ao menos ouvi-las. – Armin suspirou.
– Não tem escutas na sua casa? – Lana começou a entrar na conversa, embora ainda estivesse zangada.
– Não, minha mãe nunca concordou com isso. – Alexy respondeu.
– Ela falou que era invasão de privacidade até demais. – Armin olhou pela janela do avião. – Então. O problema dessa viagem não é a minha mãe.
– É o meu pai. – Alexy completou a sentença, parecia que os dois tinham combinado o que falar. – Minha mãe na maior parte do tempo ou está trabalhando, ou recebendo visitar, ou na cozinha. Como vamos estar em casais, aquele velho pervertido vai ficar nos olhando, principalmente a mim.
– Lana, eu vou explicar pra você. – falei a olhando. – O Alexy é gay e os pais dele não gostam disso. Quando eles eram menores e deduraram que o Alexy ficou com um menino, os pais deles iam por o Alexy pra fora de casa, mas Armin queria ir embora e assumiu a culpa para isso. Agora todo mundo quer fazer de conta como se nada tivesse acontecido, entende?
– E por que eu deveria? – Lana disse em tom rude. – Vocês mentiram pra mim e agora querem que eu minta também?
– Ninguém está mandando mentir, se você calar a boca e seguir só o plano, tecnicamente não vai mentir. – Alexy corrigiu. – Só peço que colabore, prometo que não vai ser problema pra você, eu até combinei tudo com a sua mãe sem você saber.
– O QUE? – ela bradou. – EU DEVERIA DAR UM GOLPE DO CHICO TRIPA EM VOCÊ! VOCÊ COMEU A BOCA DA LYNN, AGORA QUER COMER A MINHA TAMBÉM? NEM PENSE NISSO!
Alexy era uma pessoa teimosa, mas para o azar dele, Lana era teimosa e era até demais. Armin ficou rindo enquanto os dois discutiam, nem se pronunciar na briga ele se pronunciou, a não ser pra por lenha da fogueira como é típico dele. Estava vendo a hora rolar sangue naquela bagaça.
Depois de horas arrastadas e brigas dentro do jato, finalmente chegamos à Alemanha. Um carro já estava parado para nos levar, Armin comentou que era uma tia dele. Ela nos levou a uma casa de campo, e como era bonita! Parecia que toda a paz do mundo se concentrava num lugar, que era aquele. Havia um lago bem do lado da casa, congelado devido ao frio intenso. A grama meio coberta pela neve, ainda dava para ver a sua cor viva. De frente, a casa parecia ser enorme, imagina por dentro.
Lana sempre gostou de paisagens naturais, talvez a raiva dela tivesse passado mais com aquela vista. Ao chegarmos, vi uma mulher pintando algo, deveria ser a mãe de Armin. Quando ela nos viu, tirou o avental de pintura e deu um abraço em cada um, logo ela nos olhou com as bochechas coradas.
– Não pensei que meus gêmeos iriam namorar outras gêmeas. – ela sorriu.
– Não somos gêmeas. – sorri sem jeito.
– Mas somos irmãs. – Lana falou segurando a minha mão com um sorriso no rosto.
Armin fez uma cara confusa, mas também não comentou nada para não levantar suspeitas.
– Oh! Bem... – ela corou. – Pra ser sincera, pensei que fosse mentira quando Armin me contou sobre ele ter uma namorada. – ela chegou perto de mim e Lana e começou a falar mais baixo. – Eu sempre achei que fosse ele que jogasse no outro time.
– MÃE! – Armin bradou totalmente corado.
– Entretanto. – ela levantou o dedo indicador. – Já que nenhum dos dois meninos é, isso é bom! Ainda mais quando eles conseguiram namoradas tão bonitas.
– sorri meio corada. Logo ela começou a falar mais baixo ainda. – Normalmente eles só traziam feias pra casa.
– MÃE! – Armin e Alexy repreenderam em conjunto.
Era uma mulher cheia de energia que aparentava ser realmente simpática. Será que o problema sempre foi o pai deles?
– Não sei o que fez com o cabelo, mas eu adorei. – ela sorriu bagunçando o cabelo de Alexy.
– É pra saberem nos diferenciar. – Alexy cruzou os braços e fez bico.
– Coloca uma placa na testa então. – Armin revirou os olhos.
Ao entrarmos em casa e nos instalarmos, notei que aquela mulher era muito safada.
– Não se incomoda de dormir no mesmo quarto que Armin, não é? – ela deu um sorriso safado.
– Não, não me importo. – devolvi o sorriso, só que era de constrangimento.
– Ótimo, só não façam muito barulho. As paredes são finas. – ela sorriu novamente se afastando e indo mostrar o quarto de Lana.
Armin me mostrou a casa e me mostrou uma porta no final de um corredor.
– Meu pai fica aí. – ele apontou para a porta. – Deve saber que nós estamos aqui. – foi só ele falar que a porta se abriu.
– Olá. – ele falou em um tom baixo. – Você deve ser a namorada do Armin, ele falou muito sobre você. – ele apertou minha mão.
– Espero que tenha sido coisas boas. – dei uma olhadinha para Armin enquanto apertava a mão do pai dele.
– Se me derem licença, eu vou voltar a meu posto. – ele falou virando de costas e voltando à sala.
Lana e Alexy passaram o dia brigando, claro que longe de onde a mãe de Alexy poderia ouvir. Armin combinou comigo de fazer algo para que pudéssemos espionar os dois no quarto ao lado. Armin passou o dia com o pai prometendo fazer algo nas instalações das câmeras. Disse que ia reposiciona-las e fez um papo de nerd. Na verdade ele só mandou a imagem pra TV do quarto dele para que nós ficássemos espionando os dois sem que o pai dele desconfiasse.
Passaram-se várias horas, fomos para o quarto assim que Alexy e Lana foram para o deles. Armin conectou uns fios e fez umas coisas lá.
– Senhoras e Senhores. – Armin pegou o controle sentando-se ao meu lado na cama. – O espetáculo vai começar.
Eles estavam em cima da cama, um sentado de frente para o outro. Quem não conhecesse diria que eles estavam conversando. Dava pra ouvir os gritos do nosso quarto.
– EU NÃO VOU FAZER ISSO! — Lana gritou do quarto vizinho.
– Ele deve estar tentando convencer ela a se pegar com ele na frente das câmeras. – Armin pegou um balde de pipoca. – Quer? – aceitei e peguei o balde. – Pera, é pra dividir. Não é pra ser porquinha e comer tudo.
– Silencio. – pedi enquanto olhava as imagens.
– Não to conseguindo ouvir. – Armin se levantou e colocou o ouvido na parede.
– Bem melhor... O que eles estão fazendo?
– Ainda discutindo. – respondi.
– Alexy está dizendo que é só por enquanto as câmeras não desligam a luz vermelha. – Armin sorriu sem olhar para trás ainda com o ouvido grudado na parede. – Ela não quer concordar.
– Armin, Armin, Armin! – o chamei quase gritando. – Eles estão se beijando.
– BEIJANDO?! – Armin correu para frente da TV soltando uma risada.
Os dois estavam brigando. Quando Alexy se cansou, empurrou Lana contra a parede e a beijou. Eu nunca na minha vida vi um beijo durar com aquele durou. Lana ficou quietinha, ou talvez tentasse se mexer, mas o peso de Alexy era maior que o dela. Eu e Armin nos silenciamos no nosso quarto, só observando os movimentos deles. Passou uns três minutos, assim que o beijo terminou, cada um virou pra um lado e foram dormir.
– Como o Alexy é sem sal. – Armin riu.
– O que foi exatamente aquilo? – perguntei.
– Isso foi só por causa das câmeras. – Armin falou como se eu fosse uma retardada. – Acho que papai ficou satisfeito com isso, até desligou as câmeras. – ele apontou para as câmeras.
– Então Alexy já acertou as contas dele? – perguntei.
– Por assim dizer. – Armin bocejou. – Mas ainda falto eu. – Armin olhou para o chão triste.
– Espera aí, se você pensa que vai...
– Não vou fazer nada com você. – Armin revirou os olhos. – A não ser que você queira. Aproveita que eu to bem facinho. – ele piscou e deu uma mordidinha no lábio.
Joguei a cabeça para trás dando uma risada enorme, Armin riu junto comigo. Claro que ele também estava brincando, bem... Assim espero.
– Está bem frio. – Armin deitou-se ao meu lado colocando as luvas nas mãos. – Recomendo calor humano. – ele sorriu, deveria estar brincando de novo.
– Não, obrigado. – virei para o lado me deitando.
Passaram-se uns minutos no silencio, no silencio e escuro. Eu já estava pegando no sono quando Armin me abraçou forte enquanto dava soluços baixinhos.
“Ele está chorando?”. – pensei sem dar sinais de que estava acordada.
Cinco minutos depois ele virou pro outro lado e foi dormir.
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