A Órfã Doce
47 A mulher da katana
Notas iniciais

Engoli a saliva, entrei no quarto e fechei a porta. A tia era bem cuidadosa, nunca deixava as portas abertas, só as necessárias, até hoje eu me perguntava o porquê.
Andei pelo quarto, era enorme. Estranhei, não era muito infantil para uma mulher adulta? A cama tinha uma coberta cheia de babados, ela tinha um closet cor-de-rosa. Não mexi em nada, imagina só se ela soubesse que eu mexi?! Não duvido nada de uma mulher como ela, que é super detalhista. Era errado da minha parte estar xeretando o quarto dela, ainda mais porque se ela o deixava trancado, era simplesmente para manter a sua privacidade.
“Ninguém liga para a sua opinião, Lynn. Nem você mesma liga para a sua opinião”. – pensei com um sorriso continuando a olhar as coisas. Coloquei a mão na maçaneta para sair, não tinha mexido em nada que desse para notar. Uma pintura perto da porta caiu no chão, fechei os olhos por conta do barulho, passei a tranca na porta e fiquei em silêncio.
“Será que o Kentin ouviu?” – pensei comigo.
Passaram uns três minutos e não houve sinais que ele tinha ouvido. Peguei a pintura para por no lugar, então notei que havia algo escrito atrás dela.
“A senha é Miki, é meu nome, óbvio que eu não vou esquecer”. – li mentalmente, logo coloquei o quadro no lugar, já pensativa.
Mika era nada mais nada menos que o nome da Tia. Eu sempre a chamei de Tia, as vezes até esqueço que ela tem nome. Mas... Miki? Olhei para o outro lado, encarei a foto das gêmeas.
“Miki e Mika Takamura”. – li mentalmente a legenda que tinha na moldura um pouco abaixo da foto, como se fosse um quadro.
Eu sabia que a tia tinha uma irmã, mas não sabia que era uma gêmea. A diretora é mãe da tia, Kentin é neto da diretora, achei que Kentin fosse filho da irmã da tia. Até hoje não entendo porque a tia mentiu tanto para mim e para Kentin. Quando eu me feri na missão de resgate, Castiel disse que a mãe do Kentin tinha falado com a minha tutora, eu só não sabia que as duas eram a mesma pessoa. Admito que fiquei chocada, mas até que me acostumei rápido com a ideia de ter Kentin como irmão.
“Não foi um homicídio. Porque eu acho que a sua mãe amava muito aquela mulher até mesmo para deixar essa casa”. – foi o que se passou na minha cabeça, aquilo foi o que Lana disse dias antes do ritual.
– Então foi a irmã da tia...? – falei baixinho para mim mesma. – Mas... Por que? – deduzi, mas era outra coisa que eu não fazia a mínima ideia que tinha acontecido. Como eu disse, eu sabia que a tia tinha irmã, mas não sabia que era gêmea, e muito menos que ela estava morta.
Eu estava vendo demais? Sim, acho que estava vendo demais. Na hora eu pensei o que Lana me diria para fazer, com toda certeza ela me mandaria ficar e investigar o que eu quisesse.
“Querendo ou não, uma hora a Lynn vai precisar saber de toda a verdade. Você a deixou desinformada está apenas a colocando em perigo, isso mostra o quão bom irmão você é”. – lembrei-me do que Lana havia dito, balancei a cabeça de um lado para o outro como se estivesse acordando para a realidade. Claro que eu deveria ficar! A obrigação de Kentin era me contar, não só dele, mas da Tia também. Já que nenhum falou nada, eu mesma descubro as coisas.
Bateu-me um arrependimento, a Tia fez tanto por mim, não era certo fazer aquilo. Não era certo invadir a privacidade dela e sair revirando tudo só porque ela não está pronta para me contar. Estava num conflito interno, a quem deveria dar ouvidos? Havia dois lados no meu interior: um que pendia pro lado da razão que Lana tinha e o outro pendia para a consideração que eu tinha para com a Tia.
Quase dei um pulo, ouvi um barulho, parecia um estalo. Olhei para o canto do quarto onde havia um computador, ele havia ligado sozinho.
“É um sinal?” – pensei. – “Será que é mesmo a Miki?” – respirei fundo tomando coragem e fui até o computador.
Engoli a saliva com lágrimas nos olhos, eu deveria estar ficando muito mimada para simplesmente perder a coragem de uma hora para a outra.
“Você já tomou um tiro, Lynn”. – pensei comigo tentando recuperar a coragem. – “Não seja medrosa!”.
Depois que o computador ligou, observei a área de trabalho, o plano de fundo era outra foto das duas. Fiquei pouco tempo observando.
“Digite sua senha”. – li mentalmente. – “Mas eu não cliquei em nada”.
Fechei a caixinha que pedia a senha, logo o mouse se mexeu sozinho e clicou num ícone de uma pasta.
“Diário dos sonhos”. – li mentalmente quando vi o nome da pasta que estava sendo selecionada.
– Senhora Miki. – dei um meio sorriso, ainda estava assustada. – A senhora é uma mulher bem insistente.
“A senha é Miki, é o nome dela”. – pensei lembrando-me do que tinha visto atrás do quadro. No caso, a pasta era dela? Impossível, mortos não fazem isso, fazem?.
E não é que deu tudo certo? O computador era de ultima geração, mas os arquivos foram colocados há dois anos naquele computador. Eram arquivos de texto, vários. Todos eles constituíam um diário, cada arquivo era um dia. Com datas de dezessete anos atrás.
“Minha psicóloga mandou que eu escrevesse um diário porque minha irmã começou a carreira de modelo e não tem muito tempo para conversar comigo sobre meu tratamento”. – li mentalmente, logo curiosa continuei. – “Eu e meu marido estamos com uma crise no casamento, nunca quis contar a ele que eu era estéril, eu o amava muito e ele já havia dito muitas vezes que queria ter um filho comigo. Meu marido não tem mais nenhum parente no mundo, todos morreram de velhice ou de doenças, então já dá para saber o porquê dele querer um filho. Não se pode apenas ser feliz com a esposa, e se a esposa morrer? Quem ele terá no mundo depois? Mas devo admitir que quando ele descobriu... Isso se tornou um problema muito grande...” – continuei a ler e baixei mais o texto para continuar lendo. – “Por causa disso eu comecei um tratamento para conseguir ser fértil e conseguir ter um filho, esse tratamento exige muito de mim, vários cuidados especiais. Um deles é a preparação psicológica, por isso estou fazendo sessões na psicóloga e por isso estou escrevendo isso.” – aquele era o fim de um dia, fechei o arquivo e abri outro. – “Mika voltou para casa depois de muitos dias, veio com a noticia de que tinha conseguido ser a capa da revista mais famosa do país. Meu coração se encheu de alegria, ela está cuidando muito bem de mim depois que soube que eu estou fazendo esse tratamento. Para falar a verdade, nem meu marido sabe. Ele viajou à trabalho e talvez ele acabe demorando para voltar. Não tem problema! Ele vai ficar muito feliz quando souber que eu serei fértil e conseguirei dar um filho para ele”.
Ouvi um barulho no corredor, de passos. Minha espinha gelou, fiquei em silêncio total.
– Lynn! – Kentin me chamava no corredor. – Cadê você?! – ele chamava mais alto. – Hei Lynn, eu vou aqui na casa do Castiel, qualquer coisa você chama a Lana. – ele falou dando passos pelo corredor que logo foram perdendo o som.
Aquele viado devia estar com preocupação zero. Certo que a dona Miki parecia não ser um espirito maligno, mas não era meio negligente da parte dele me deixar sozinha depois de tudo que aconteceu? Que se dane!
Voltei meus olhos para o computador, o próximo arquivo tinha a data de uma semana após a ultima coisa escrita. Como eu sabia? No começo do texto ela colocava o nome completo e a data em que escrevia, se não fosse assim eu não teria noção do tempo, já que os arquivos foram adicionados há pouco tempo no computador.
“Hoje eu voltei do ginecologista, ele disse que o tratamento tinha chance de 45% de falha, e se falhasse... Eu não conseguiria mais fazer outro”. – suspirei parando um pouco a leitura, aquilo era realmente triste de se ler. – “O tratamento exigia muito do meu organismo, tinha vários efeitos colaterais. Se esse falhasse e eu forçasse outro, talvez acabasse morrendo por conta dos medicamentos pesados e esse tipo de coisa. Bom... Foi o que o médico disse”. – dei um suspiro, fechei o arquivo e comecei outro que foi escrito mais de um mês depois. – “Estou tão feliz! Meu marido voltou de viagem, quando fui ao médico, ele disse que eu estava grávida! Grávida, eu! Eu vou ser mãe! Ele disse que eu estou com três semanas de gravidez, o embrião parece saldável e o tratamento parece ter surgido efeito! Todos ficaram felizes, minha mãe, minha irmã, meu marido... Minha irmã ficou tão feliz que comprou o enxoval de duas cores, já que não sabia o que ia ser o bebê. Nos mudamos para uma casa que ela comprou depois que fez sucesso como modelo. Era uma casa enorme, Mika tinha decorado somente quatro quartos, demorei séculos para me acostumar com aquelas portas todas, já que era um corredor enorme com vários quartos. O meu quarto por enquanto ia ser um do final do corredor, ela fez a mancada de fazer o quarto dos bebês longe do meu. Ela disse que qualquer coisa trocaria de quarto comigo, o quarto dela era o que ficava de frente ao quarto que ela tinha feito caso o bebê fosse menina”. – fechei o arquivo.
Então... Seguindo essa lógica, o quarto do Kentin era o antigo quarto da tia... Tinha ficado feliz por Miki, mas... O que tinha acontecido depois? O bebê? Ela? Por causa disso eu abri outro arquivo, a data era de cinco meses depois.
“Faz uma semana que meu marido me deixou. Por quê? Porque o tratamento falhou miseravelmente e eu voltei a ser estéril. Minha mãe estava tão feliz... Ela estava tão feliz porque finalmente eu seria mãe... Mas...”. – ouvi soluços de choro vindos atrás de mim, arregalei os olhos, engoli a saliva e continuei lendo. – “Mamãe era uma mulher de idade, eu estava presente quando aquilo ocorreu. Estava eu e Mika na sala quando ela apareceu nas escadas com a mão no peito e puxando o ar sem conseguir falar. Ela rolou escada abaixo e desmaiou, a levamos para o hospital o mais rápido possível. Ela tinha sofrido um ataque cardíaco, mas tinha morrido de traumatismo craniano, devido a queda da escada.” – os soluços do quarto aumentaram, era triste, mas o ambiente se tornava tenso com aqueles barulhos. – “Minha irmã me levou para casa, eu não saía do quarto, apenas chorava e chorava. Ela me mandou parar e disse que aquilo faria mal para o bebê. Merda! Só pensam no bebê agora?” – após ler aquilo fiquei extremamente confusa, mas confusa. Ela não queria o bebê? – “Após ter esse pensamento eu pedi perdão a Deus, continuei confeccionando todos os bichos de pelúcia, aquela era uma atividade que me ajudava a ocupar a mente... Mika não estava muito bem da cabeça, as vezes eu ouvia ela gritando “Quem está morto?” enquanto dormia. No funeral de mamãe, eu passei mal... Fui levada para o hospital e me deram noticias que tinha ocorrido um aborto espontâneo. Tudo que eu tinha desmoronou”. – após ler aquilo uma lágrima escorreu.
Após me recuperar, abri o outro arquivo, era o menor dos que eu já havia lido e era o ultimo daquele ano.
“Tudo que eu tinha era a Mika, que mal ficava em casa devido os ensaios de modelo. Ela sempre se lamentava por não poder ficar comigo. Parei de ir a psicóloga, não precisava mais já que o tratamento tinha falhado e eu tinha perdido todas as pessoas importantes para mim de uma só vez. – minha espinha gelou com o que veio a seguir. – Um dia eu comprei uma corda e me enforquei no meu quarto... Mika chegou dois dias depois e abriu a porta, a corda arrebentou e meu corpo caiu no chão, frio, pálido, morto.”. – parei de ler, incrédula. — “O ultimo quarto... O quarto dela... O quarto que Lana disse para abrir... O quarto que Lana foi arremessada de costas no ritual... Meu Deus, tudo faz sentido”. – pensei, arregalei os olhos colocando as mãos na cabeça.
Logo parei para pensar. Como ela havia escrito aquilo se ela havia se matado? A resposta veio quando as teclas começaram a serem pressionadas sozinhas. Olhei para o monitor, a mensagem que escreveu foi “Fui eu, Miki Takamura”. “A senha é miki, é meu nome”, a pasta era mesmo dela! O diário era dela! Lana estava certa quando falou sobre ela ter energia para mover coisas sólidas no mundo físico. Quase morri do coração, como aquilo era possível? Realmente aquela casa, aquela mulher, tudo me dava medo. Onde estava o mundo real que eu havia visto na escola militar? Onde estava? Eu ia acabar ficando louca naquela casa.
Não teria tempo de ver todos, fui para o penúltimo arquivo.
“Ele está... Com a data da semana passada”. – pensei engolindo a saliva, já nervosa. – “Esqueceram-se de mim novamente. Tratam-me como se eu fosse uma dor que deve ser evitada, nem a oração fizeram. Agora vamos ver quem é que está de brincadeira!”
Saí de perto do computador rapidamente, destranquei a porta e corri do quarto. Ao sair do quarto, andei rapidamente até o começo do corredor, já estava anoitecendo? Então quer dizer que eu tinha passado o dia inteiro lendo?
– Acha que fugiu de mim? – uma voz disse atrás de mim. Havia uma neblina no corredor, não estava assim antes. Olhei trêmula, vi a imagem de uma mulher de cabelos curtos, usando um sobretudo, ela estava com algo nas mãos. Oh céus! Uma katana. – É só o começo.
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