A Águia e o Falcão
10 Frio
O jantar não foi diferente do que Wyvia esperava. Estava constrangida, pensando no beijo que aconteceu naquela tarde. Em sua mente um turbilhão de emoções aflorou. A lembrança do beijo era doce e morna em sua mente ainda, e de vez em quando ela levava o olhar para o espadachim do outro lado da mesa, que não pareceu ter sido alterado por aquelas emoções. Ele lia o jornal, prestando atenção em cada letra enquanto bebericava vinho em uma taça.
Entre eles, Perona comia e de vez em quando prestava atenção nos dois. Wyvia estava sorridente demais para quem comia uma simples seleta de legumes com frango. Pensou em perguntar, mas será que devia fazer isso na frente de Mihawk? Por que não?
— Está sorridente hoje. –disse a mulher entre as mastigadas. E com isso ela atraiu o olhar das duas pessoas na mesa. Mihawk até abaixou o jornal para olhar para Wyvia.
E a moça ficou corada, como sempre. Não era novidade que seu rosto ruborizasse com qualquer tipo de olhar ou comentário, mas daquela vez foi diferente. Mihawk notou o quanto ela estava sem graça e voltou para o jornal. Queria ouvir a resposta dela.
— Eu... –ela começou dizendo, encarando os legumes do prato. — Estou feliz. Eu nunca fui tão feliz na vida.
E com a resposta, Mihawk olhou pra ela novamente. As palavras foram pronunciadas de maneira doce e verdadeira, com carinho e algo muito mais forte. O homem se sentiu tocado de alguma forma com aquilo... será que sentia o mesmo? Ele era um homem sério, praticamente não sorria e não esboçava emoções... mas isso era algo que apenas intensificava o que ele sentia no coração. Nenhuma expressão era capaz de demonstrar o que ele sentia e como isso era parecido com o sentimento de Wyvia... apenas atos comprovariam aquilo. Ele teve vontade de se levantar e atravessar a mesa, tomar Wyvia nos braços novamente e beijá-la como naquela tarde.
Ele queria comprovar algo quando a beijou... e agora sabia bem o que era, pois foi totalmente comprovado. Ele amava Wyvia de uma forma que nem mesmo conseguiria explicar. E pensando naquele sentimento, ele sentiu o olhar da moça, tão sincero e com um sorriso calmo e delicado. A pele não estava mais avermelhada, apenas parecia ela mesma. O dourado dos olhos estava mais lindo que nunca.
Aquela troca de olhares constrangeu totalmente Perona. Ela empurrou a cadeira e se levantou.
— Ficar sobrando é uma droga. –disse ela flutuando devagar até a saída da sala.
— Espere, Perona. –interveio Mihawk, agora olhando para a mulher, que se virou para ele. — Arrume mais roupas para a Wyvia. Essa ilha também é o lar dela agora.
Com aquela declaração, Wyvia arregalou os olhos dourados e começou a abrir um sorriso imenso... e esse sorriso evoluiu para risadas, e de repente a moça já estava de pé atravessando a mesa em direção a Mihawk. O homem pensou rápido e deixou a taça sobre a mesa, que foi quando recebeu os braços da moça se jogando em seu pescoço, o abraçando alí mesmo. Ela o abraçava com tanta força que por alguns segundos, ele ficou um pouco desconcertado, assim como quando ela o beijou da primeira vez. A alegria que emanava da moça enquanto ria e sorria no vão de seu pescoço era algo que o falcão nem conseguiria descrever.
Perona assistia aquela cena com admiração. Estava feliz por dentro porque a garota agora viveria alí para lhe fazer companhia, alguma coisa diferente de fantasmas e de Mihawk. O momento estava constrangedor demais para ficar assistindo, então a garota fantasma saiu da sala de jantar.
— Obrigada, Mihawk-san! –exclamou a moça o soltando do abraço agora. De pé na frente dele, que estava sentado, ela ainda era muito pequena e magra, parecia totalmente quebrável e vulnerável.
Sem se importar novamente com o momento, o falcão estendeu os braços e enroscou na cintura de Wyvia. Bem devagar ele a puxou para mais perto, o suficiente para que a garota pudesse ficar de pé entre suas pernas estendidas. Ela estava um pouco mais alta, e daquela distância os dourados dos olhos se cruzaram por longos segundos. Foram segundos provocativos e cheios de um amor escondido.
— Eu que te agradeço. –disse ele por fim. Agradecia por conhecer uma jovem tão doce e diferente... por mudar a vida dele em pouco tempo, por desconstruir uma armadura de frieza e de invulnerabilidade como a dele apenas com sorrisos e com um olhar tão hipnótico como o dele. Mihawk nunca se sentira tão completo em sua vida.
E então sentiu os braços da moça rondarem seu pescoço novamente. Os cabelos expostos foram beijados por ela. Agora limpo e com cheiro de colônia de barbear –que Mihawk usava apenas para aparar a barba –a garota sentiu o aroma dele e se sentiu ser abraçada. Não mais sentia vergonha ou timidez ao lado dele, pois sabia que seria retribuída, sempre recíproco. Sentindo uma das mãos dele fazer uma trilha em seu braço, a moça quase não notou quando ele puxou bem devagar sua mão enfaixada por conta do ferimento com a espada.
Ela se afastou e observou o homem beijar sua mão sobre as ataduras. Ele também seguiu com o beijo nos dedos dela, que estavam expostos fora dos curativos. Ele fazia aquilo com a mesma expressão de sempre, aquela séria e implacável, porém quando olhou nos olhos dele, Wyvia notou que havia algo mais... e era paixão.
Wyvia não se segurou e o beijou. Beijo tão doce e carinhoso recebido por Mihawk com todo o carinho que havia escondido em si. Foi tão lento e paciente quanto da última vez, ensinando-a com gestos para acompanhá-lo naquele ato tão cheio de amor e ternura. Os lábios pareciam pertencer um ao outro, cabiam perfeitamente bem em cada posição.
O beijo durou longos segundos, intermináveis e cheios de amor. Wyvia afastou o rosto do falcão e afagou o rosto dele com a mão sadia. Ela acariciou desde as costeletas até o fino e incomum bigode, terminando tudo sorrindo para o homem, que parecia sempre sério. Era incrível como ele conseguia manter o rosto daquela forma, sem esbanjar emoções. Aquilo encantava a garota de uma forma inexplicável.
— Boa noite, Mihawk-san... –disse ela dando um pequeno e rápido beijo nos lábios do homem.
Quando a pequena e macia mão dela se afastou do rosto do espadachim, ele a observou ir. Não conseguia acreditar em tudo o que estava passando consigo mesmo.
***
Wyvia não conseguia dormir. Aquela noite estava muito fria, indicando a chegada do outono. A blusa que Perona lhe deu para dormir deixava sua barriga exposta e metade dos braços. Os botões quase não se fechavam totalmente, mesmo para ela que tinha seios médios. A jovem estava sentada no parapeito da enorme janela, observando a paisagem noturna e sinistra da floresta abaixo de si. Pensava que agora aquele era o lar dela, que viveria alí com Mihawk e Perona... e apenas de lembrar daquilo, a moça já sorria.
O frio estava começando a congelar os dedos dos pés e das mãos da moça. Por vários momentos se enroscou no cobertor da cama, mas aquilo não era suficiente para a temperatura tão baixa. Seu coração estava começando a esfriar, porém cada vez que pensava em Mihawk, o tom avermelhado da pele indicava que o coração voltava a funcionar.
Mihawk... preciso de você... sim, eu vou, eu sou corajosa! Pensou a moça então saindo da cama. O calor do beijo de Mihawk já fazia parte da vida da moça... tão natural quanto respirar. Beijá-lo novamente era uma necessidade impossível de segurar, e com o frio, a moça já não pensava com clareza e a cada passo era levada para outro cômodo.
Saiu do quarto na ponta dos pés, pois não queria fazer barulhos... e além disso, o chão de pedra era tão gelado que feria a sensibilidade da sola de seu pé. Ela murmurava para si mesma “vou, não vou”... mas acabava sempre chegando no “vou”. Ao chegar na enorme porta dupla do quarto principal, a moça abriu bem devagar, temendo que o ranger da porta acordasse o homem que amava, que dormia tranquilamente após o dia de treino.
Nervosa e com o coração palpitando, a moça caminhou até a cama, tremendo tanto de frio quanto de agitação por estar sendo tão ousada quanto da outra vez ao beijá-lo. Passou pelo chão com cerâmica, que estava tão gelado quanto o chão de pedra do hall e se aproximou da cama. Seus olhos de águia demoraram um pouco a vislumbrar o contorno de Mihawk deitado na cama, com o cobertor jogado apenas pela metade do corpo. Ele estava sem camisa, com o crucifixo dourado pairando no peito, que subia e descia bem lentamente com a respiração. O brilho da lua emanava pela janela aberta, trazendo consigo um vento gélido que congelava lentamente o nariz de Wyvia.
Mihawk... eu preciso de você... para sempre, pensou ela então se aproximando um pouco mais. Mihawk não ocupava a cama inteira. Na verdade, ele dormia em um canto enquanto que a moça estava de pé do lado vazio da cama. Ele parecia sempre esperar alguém ao seu lado para aquecer na noite fria, mas ao que parecia, ele mesmo não sentia frio... dormia com o cobertor apenas até a cintura nua, que quando Wyvia viu, seu rosto corou e nem mesmo o gelo daquela noite era capaz de aliviar o ardor do rosto. Mihawk parecia não estar usando roupas íntimas... parecia dormir nu, com o cobertor vermelho vinho jogado até os ossos da bacia, revelando um caminho até o vão do cobertor, que escondia sua masculinidade.
Ele realmente parecia não sentir frio e dormia muito bem naquela noite tão gelada. Será que sentia falta de Wyvia assim como ela? Provavelmente sim, mas ele era um homem que a respeitava muito acima de qualquer sentimento. Jamais a desejaria daquela forma ao seu lado, assim como a moça estava idealizando. Tremendo ainda e criando coragem, a jovem então se enfiou dentro das cobertas, fazendo o mínimo de barulhos possíveis ao subir na cama, sem desgrudar os olhos da face adormecida de seu falcão. Ele estava com os braços cruzados na barriga, dormindo com a face para o teto.
Sinto muito por invadir assim sua privacidade, Mihawk... mas preciso de você. Está muito frio, pensou ela finalmente ficando com o corpo dentro das cobertas. Deitou a cabeça sobre uma das almofadas e se virou para o lado oposto de Mihawk. Temia que ele abrisse os olhos e a visse ainda acordada. Talvez dormindo ele não fizesse nada tão bruto com a moça, caso estivesse incomodado com a presença dela.
Praticamente foi o que aconteceu. Mihawk sentiu uma presença ao seu lado e seu cobertor sendo puxado bem devagar. Ele abriu os olhos devagar e primeiramente viu o teto. Será que era um sonho? Mas ele não se lembrava com o que sonhava. Quando se virou para o lado, ficou surpreso e sem palavras.
Os olhos dourados se arregalaram e ele precisou piscar várias vezes para acreditar. O corpo de Wyvia estava quase imóvel se não fosse pela tremedeira devido ao frio... e só assim Mihawk pôde compreender o que se passava no meio da noite naquele lugar.
Wyvia? O que faz aqui essa hora da noite?... entendi... está muito frio para ela, pensou ele. Mihawk não gostava de dormir com roupas. Se sentia incomodado. Talvez fosse errado estar com Wyvia na mesma cama, sem uma peça de roupa sequer além das dela os separando. Com calma e em silêncio, ele apenas se aproximou um pouco da moça. Não a rejeitaria naquele momento, de maneira alguma, mas a respeitaria como deveria ser. Com todo o cuidado, ele passou o braço direito por debaixo do pescoço da moça e a abraçou por trás, apoiando a cabeça na dela. Com o braço esquerdo ele circundou a cintura da moça, a puxando para mais perto de si. Ela estava muito gelada e ainda tremia um pouco. Seu corpo grande e quente agora aquecia o pequeno e frio corpo de Wyvia, como se fosse o melhor e mais confortável cobertor do mundo.
Wyvia nunca se sentiu tão amada na vida quanto naquele momento. Ser abraçada daquela forma por alguém tão frio era como um sonho. Mihawk era apenas frio por dentro, mas parecia se aquecer consideravelmente por ela. O corpo grande dele agora a embalava, com uma das pernas entrelaçada nas dela, aquecendo os pés frios que ela tinha devido a caminhada no chão. A moça sorriu, sabendo que ele achava que ela estava dormindo. Se encolheu um pouco mais, sendo totalmente abraçada por ele e finalmente aquecida. Se sentia em casa nos braços do falcão. O fato de que ele estava nu já não era um problema... nada daquilo foi visto por ambos como algo erótico. Aquilo era um ato de amor verdadeiro, algo que certamente mudou a vida do falcão para sempre.
— Wyvia... –sussurrou Mihawk junto da bochecha da moça. Estava com a cabeça apoiada na dela, mas sem colocar tanto peso assim. Ele depositou um beijo doce e morno na face dela e fechou os olhos, agora sabendo que pegaria no sono logo, abraçando aquele pequeno corpo contra o seu. Era o que faltava em sua cama todas as noites, e ele nunca se deu conta daquilo até aquele momento. Até mesmo o mais solitário dos falcões precisava de alguém nas noites frias.
Eu te amo, Mihawk, pensou Wyvia. Queria dizer aquelas palavras para ele ao invés de pensar... mas ainda não era hora. O frio estava começando a passar, e apenas aquilo importava para ambos. A barba rala fazia cócegas no rosto dela devagar enquanto o falcão respirava, e com aquilo a moça se sentiu massageada. O peito dele em suas costas se movia bem devagar. O braço esquerdo embalava seu corpo com carinho enquanto o direito apoiava sua cabeça e segurava seu ombro. Não demorou muito para que ambos dormissem de verdade após isso.
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