Notas iniciais
Me perdoem pela demora! Estava sem computador e não consegui postar pelo celular!

Wyvia não teve um pesadelo sequer naquela noite. Aquela tinha sido, na verdade, a noite mais calma e tranquila de sua vida. Em Jaman, a moça mal conseguia encostar a cabeça em um leito para descansar, pois logo era perseguida e o inferno começava... naquela noite, pelo contrário, a moça dormiu como um bebê, envolvida no abraço quente e aconchegante de Mihawk. A cada momento da noite, em cada movimento para trocar de posição, cada vez mais era amparada pelos braços dele. No meio do frio, se aconchegava mais no peito dele e recebia um terno abraço... e quando o calor batia, a falta de cobertor era sentida. Era como se Mihawk velasse seu sono, ajustando a temperatura a cada movimento da moça. E pela primeira vez na vida, Wyvia descansou de verdade.

Quando abriu os olhos naquela manhã, já estava pronta para dar de cara com o olhar frio de Mihawk como sempre... mas ele já não estava mais ao seu lado. Ele geralmente levantava cedo para preparar o café da manhã, então não era estranho que não estivesse ao lado dela. Por um lado até que aquilo era bom, pois não saberia o que dizer a ele alí naquela cama... na sala de jantar sabia que conseguiria conversar sem se sentir extremamente envergonhada, até porque Mihawk estava completamente nu naquela noite.

Será que o Mihawk-san realmente gostou de ter dormido comigo hoje? Fiquei insegura... mas após receber o abraço dele... sei que ele também se sentiu bem. Do contrário teria me rejeitado.

E então a moça se preparou para ir tomar seu café da manhã.

Ao sair do quarto e seguir para a sala de jantar, a moça não reparou que alguém a observava. Perona estava escondida quando viu a pequena sair do quarto de Mihawk. Ela ficou corada com o que pensou.

Na sala de jantar, Mihawk já estava sentado, bebericando um café como sempre. A mesa estava farta, e tinha de tudo: frutas, pães quentes, geleias e sucos. Tudo foi feito caprichosamente por ele, que já admitira para si mesmo que teve uma noite incrível, mesmo que apenas dormindo ao lado da moça. Ele a viu se aproximando, com Perona logo atrás, com uma expressão espantada e confusa.

— Bom dia, Mihawk. –disse Wyvia docemente se aproximando. Ao invés de sentar na cabeceira da mesa, ela sentou na cadeira do lado direito de Mihawk. Estava corada de encarar o homem após entrar debaixo do cobertor dele no meio da noite... e pelo fato de que sentiu o corpo dele, totalmente nu lhe aquecendo.

— Bom dia, Wyvia... –ele disse sem esbanjar reações como sempre, porém estava revigorado... ninguém notaria isso além dele mesmo. Só esbanjou alguma emoção quando viu a cara de Perona, que estava de pé diante deles, apontando para Wyvia e tentando falar alguma coisa, mas parecia ter um bolo na garganta que a impedia. — O que foi, Perona?

— Como assim?! –ela quase gritou, fitando a cara inocente e corada de Wyvia e depois o olhar frio do Falcão. — Wyvia! Você... estava no quarto dele! Argh! Que nojo de vocês!

O rosto de Wyvia queimou como nunca havia queimado. Será que Perona imaginava alguma coisa? Sem graça e sem querer olhar a expressão de Mihawk, ela começou a gaguejar, tentando se explicar. Não sabia o motivo de querer dar satisfações... mas não gostava que as pessoas lhe acusassem de algo. Porém, antes que pudesse gaguejar mais para o olhar acusatório de Perona, o falcão se manifestou, interrompendo os olhares das duas.

— Cale-se, Perona. –disse ele rispidamente. — Deixe a Wyvia em paz. Não aconteceu nada demais, e mesmo que tivesse, isso não lhe diz respeito.

Chocada com aquelas palavras, Perona arregalou os enormes olhos negros. Enquanto isso, Wyvia assistia aquilo em silêncio, ainda com o rosto ardendo em chamas e o coração acelerado.

— Claro que diz! Eu moro aqui! Não quero andar pelo castelo e me deparar com vocês fazendo algo que não pretendo ver! –gritou ela, nervosa com a situação. Estava extremamente sem graça, mas não conseguia manter-se calada.

Mihawk deixou a xícara de café sobre a mesa e cruzou as pernas, fitando a mulher com os olhos dourados tão afiados quanto a lâmina de sua espada. A blusa abotoada até o início do peito revelava a joia que era sua pequena adaga em forma de cruz, e aquilo trazia memorias frescas em Wyvia, que dormiu naquele peitoral, sentindo o calor de Mihawk e o gelo que era o crucifixo quando esse pinicava suas costelas. Ela estava emocionada por vê-lo defender sua honra daquela forma.

— Você invadiu meu castelo. É um fantasma que assombra esse lugar. Pode ir embora se achar ruim. –murmurou Mihawk. Não gostava de discutir com ninguém deliberadamente, mas já que ocorreu, não deixaria barato por Perona envergonhar Wyvia daquela forma.

Fez-se silêncio na sala. Perona se sentou emburrada e começou a comer com verocidade para ignorar o olhar reprovador de Mihawk. Claramente não queria ter que dar de cara novamente com o “casal” dormindo junto, portanto evitaria... mas não iria embora. Não daria a ele aquele gostinho.

Em seu canto, Wyvia apenas comia em silêncio, de vez em quando olhando para Mihawk, que apenas lia o jornal. Ela não reparava, mas ele também olhava pra ela de vez em quando. E no caso de Mihawk, a situação era um pouco diferente.

Ao sentir a menina dormir em seus braços naquela noite, ele sentiu como um elo se formando entre eles, como algo que o prendeu a ela de uma maneira forte e linda. Ele sabia que sentiria falta daquilo em algum momento do dia... até porque não contara a nenhuma das duas que estava de saída.

Mihawk recebera um recado no dia anterior. Tinha uma nova reunião dos Shichibukais para ir... e como não fora na anterior, ele preferiu realmente ir naquela. Queria sair da ilha um pouco e talvez conseguir roupas para Wyvia... algo que não lembrasse Perona. Compraria um belo vestido para a moça, um que achasse que combinaria com sua pele linda e seus cabelos cor de palha. Novamente o falcão se pegou pensando demais nela. Como uma moça como ela podia tomar totalmente a atenção dele daquela forma? Após aquela noite a abraçando e velando por seu sono, o espadachim soube que não teria mais volta. Nunca pensara na possibilidade de ter uma companhia feminina para si, mas agora que encontrou, sabia que aquilo era necessário. Ter alguém em sua cama para aquecer todas as noites era algo inexplicável.

— Wyvia. –ele a chamou. Quando recebeu o olhar terno e amável dela, o espadachim então se levantou, ciente de que ela o seguiria com o olhar. Ele desabotoou a camiseta branca e a pendurou sobre a cadeira em que estava sentado, logo vestindo o sobretudo vermelho vinho que jazia em um cabideiro no outro extremo da sala. — Vou viajar hoje, então ficará sobre os cuidados da Perona até que eu volte.

Ele ouviu a cadeira fazer um rangido atrás de si, sabendo que a moça agora caminhava mancando em sua direção.

— Mas Mihawk... eu...

— Me acompanhe até a praia. –ele disse calmamente se virando para a moça. Ela tinha o olhar triste. Os olhinhos dourados pareciam quase marejados.

No outro lado da sala, Perona os observava. Mihawk parecia outro homem... mais sensível e “gentil”? Era essa a palavra que a moça pensava? Observando-os saírem pela porta, ela imaginava o quanto teria que aguentar a choradeira de Wyvia por sentir falta de Mihawk. Quando viajava, as vezes só voltava após mêses. Pelo menos ela teria companhia... era isso que acalmava a mulher. O fato de imaginá-los na cama ainda incomodava, mas agora com a notícia da viagem, talvez aquilo passasse. Ela sorriu com a visão dos dois, se sentindo culpada por formar um casal com eles e ao mesmo tempo odiar isso.

Ah eles são fofos... tomara que fiquem juntos pra sempre.

***

O sol daquela manhã era morno e aquecia a pele frienta de Wyvia. Estava ainda usando as roupas que Perona emprestou: a blusa fina de algodão que mostrava praticamente toda a barriga e a fina calça de plush que quase ultrapassava seus pés. As vezes ela pisava na barra da calça e tinha que ficar puxando para cima, arranhando as bandagens da perna ferida. A dor na perna parou, já não parecia mais ter algum hematoma, mas Mihawk não deixou que retirasse as ataduras, pois ainda não devia ser a hora. Obviamente que Perona trocara os curativos durante os dias, então a pele logo estaria completamente restaurada pela higiene e cuidado.

Caminhava ao lado da figura alta e forte de Mihawk. O brilho do sol iluminava a espada negra e imensa nas costas dele. Aquele brilho da morte assustava Wyvia de vez em quando, mas ela resolvia fitar o rosto do homem, sombreado pelo chapéu de mosqueteiro que sempre usava. Já fazia tempo desde que o vira daquela forma, como no dia em que foi encontrada por ele... no dia em que sua vida mudou para melhor.

— Mihawk... –ela começou falando. Queria dizer algo sobre a noite anterior, e talvez ouvir algo da parte dele... nem que fosse um resmungo ou uma rejeição –algo que ela sabia que era improvável. Só queria saber se aquilo causou nele o mesmo que causou nela. — Me desculpe por ter invadido sua privacidade ontem... eu estava com frio... e queria ficar do seu lado. Tive medo de pesadelos... eles sempre me atacavam nos dias frios.

Mihawk não precisou pensar muito no que dizer a ela. Saber que ela se sentia da mesma forma que ele era aliviador. Lembrou no dia em que a recebeu... a moça teve um pesadelo e precisou de seu abraço para se recompor. Agora ele sabia que pra ela, ele era como um porto seguro. Ela necessitava de cuidados... e ele queria mais que tudo cuidar de alguém. Queria cuidar apenas dela agora. Pensando nela, olhando pra ela, apreciando suas palavras... ele nunca notaria que pessoas os observavam de longe... muito longe.

Não eram babuínos... eram pessoas.

— Não precisa pedir desculpas... nem se justificar. –ele disse parando de caminhar e se pondo na frente dela. Segurou nos ombros dela gentilmente e passou a fitar seus olhos dourados. Novamente as peças do quebra-cabeça se uniram e revelaram o eterno carinho que aqueles olhares transmitiam. Era paixão para Mihawk e proteção para Wyvia. — Eu...

Antes que ele pudesse terminar a frase, sua respiração parou. Ouviu sons vindos de todos os lados e sentiu presenças. Não teve tempo de sacar sua espada nem de se defender de alguma forma de toda aquela ameaça, pois somente pensava em Wyvia e em sua segurança. Ele a abraçou contra seu peito e então saltou quando centenas de flechas cercaram ambos, vindas de todos os lados. Em seus braços Wyvia gritava assustada enquanto eles aterrissavam no chão macio de folhas. Várias flechas se cravaram no chão onde anteriormente estavam. Por estarem em uma mata fechada de galeria, Mihawk não conseguiu identificar imediatamente a direção do inimigo, e em sua mente apenas a segurança de Wyvia importava.

Sem soltá-la, ele novamente saltou para os galhos de árvores quando ouviu os sons de flechas cortando o ar. Saltava de galho em galho, ouvindo os choramingos de Wyvia enquanto o abraçava nas costelas. Os pés dela não tocavam o chão por estar presa ao peito dele com seus braços fortes como tiras de aço. Os olhos de falcão de Mihawk vasculharam todo o ambiente procurando a origem das flechas e se perguntando onde estavam os babuínos daquela ilha, que nunca deixavam brechas para inimigo algum... e não havia nada alí... nem mesmo o som das cigarras.

— Apareçam, covardes! –gritou ele parando em um galho quando a torrente de flechas cessou. Por uns insantes abaixou a cabeça para Wyvia e beijou o alto de sua cabeça. — Você está bem?

— Eles... estão aqui... –ela choramingou e logo aquilo se tornou um choro desesperado e cheio de dor. — Eles vão me matar, Mihawk! Eles estão aqui!

— Ninguém vai machucar você! –ele bradou então saltando novamente quando as flechas retornaram a surgir. Com a avaliação rápida de seu olhar astuto, ele notou que uma quantidade imensa de flechas veio da direita, e rapidamente ele passou todo o peso de Wyvia para o braço esquerdo enquanto que com o direito sacou sua espada, ainda no ar, e lançou um corte vertical para a direção das flechas.

O brilho esverdeado e maléfico da morte emanou da espada de Mihawk e cortou o ar. Várias flechas cessaram e se partiram em todas as direções. O mesmo ocorreu com as árvores, que começaram a cair, abrindo uma enorme clareira onde o corte ocorreu. Tudo ocorreu em questão de segundos, e no ar Mihawk caía com Wyvia, ainda segurando a espada e a menina encarrapitada em si.

Se não estivesse no ar, preocupado com a moça e querendo protegê-la, Mihawk teria desviado daquela nova chuva de flechas. Desta vez elas vieram do chão, bem próximas de si. Ele só teve tempo de dar uma cambalhota no ar e pegar impulso em um tronco de uma árvore derrubada, para logo saltar novamente. Ele sabia que tinha conseguido desviar daquelas centenas de flechas... mas sabia também que tinha sido atingido por pelo menos uma.

Saltando novamente, ele seguia em direção a praia, saltando sobre as árvores. Algo o tinha acertado no ombro, mas ele não parou para ver. A dor era fraca... algo que ele não sentia há tempos, pois poucos foram bons o suficiente para lhe ferir... e aquilo não teria acontecido se ele não estivesse tão preocupado com Wyvia e com sua segurança. Ele a abraçava com força com um dos braços, pois não soltaria sua espada tão cedo enquanto aquilo não acabasse. Não queria correr o risco de ser acertado pela frente, pois na sua frente estava o corpo de Wyvia, na posição de um escudo. Não deixaria que nada a ferisse.

Como um homem acostumado com confrontos e combates, Mihawk não estava nem um pouco surpreso ou cansado com aquilo. Continuava com o semblante sério, embora preocupado, pois não havia sinal de um babuíno sequer naquela ilha. Após o choro de Wyvia cessar, ele pensou no que a moça dissera anteriormente.

Seriam mesmo as pessoas de Jaman as responsáveis por aquele ataque? Era óbvio que sim... e Mihawk ficou com raiva. Não era possível... como aquelas pessoas tiveram coragem de invadir aquela ilha em busca de uma moça inocente como Wyvia? Tudo isso por conta de uma lenda?

Quando chegou em um local aparente calmo da floresta e com pouca luz devido a galeria de árvores, Mihawk então parou sobre um galho grande de uma árvore e deixou que os pés de Wyvia se equilibrassem no chão. Ela ainda o abraçava, mesmo já de pé e solta, entretanto agora não mais chorava.

— Eles estão se aproximando. –comentou Mihawk erguendo o rosto de Wyvia para si. Ela parecia tremendamente assustada e com medo. As lágrimas começaram a escorrer quando viu a enorme flecha cravada no ombro de Mihawk.

— Seu ombro... –ela disse. A voz quase parou no meio da frase.

O homem ouviu os sons da mata. Passos pesados vindos de todos os lados, o que indicava talvez mais de 50 pessoas. Ele usou esse tempo para arrancar a flecha do ombro e observá-la melhor. Gotículas de sangue pingaram da ponta perfurante da flecha enquanto que nno outro extremo continha um pequeno laço de fita esverdeada.

— Morto vivo! –exclamou Wyvia quando viu o laço verde. A lembrança daquele veneno penetrando suas veias era complicada e dolorosa. Um momento em que ela se sentia como uma boneca de pano, imóvel, enquanto apenas podia assistir o que faziam em seu corpo sem que pudesse fazer absolutamente nada para se defender, nem ao menos gritar. Ela lembrava perfeitamente: seu corpo ficara mole até parar de se mover completamente, e a partir daquele momento a tortura começava... A lembrança grotesca da primeira vez em que experimentou o veneno daquela flecha preencheu a mente de Wyvia. Estava sozinha com Arthur naquele dia... dia em que ele fez com ela o que bem queria. — Mihawk... essas são flechas do Arthur.

Notas finais
Espero que estejam gostando