A Águia e o Falcão
7 Cuidados
Notas iniciais
De volta ao quarto, Mihawk deixou Wyvia sentada na ponta da cama e puxou com o pé um banquinho que estava encostado em uma penteadeira. Ele sentou de frente pra ela e pegou a perna da moça gentilmente, a colocando em seu próprio colo. Ouvindo-a fungar após tanto chorar no ombro dele, o homem tentou se manter o mais frio possível. Não tinha ideia de onde Perona estava, pois ela não apareceu quando ele gritou por seu nome. Teria que cuidar daquilo sozinho, da melhor forma possível. Ele trouxe consigo uma caixa de curativos, que pertencia a Perona, que ainda estava no quarto da menina.
Começou a desenrolar a faixa molhada de sangue, ate que finalmente chegou na carne. Inchada e com um corte simples, nada que precisasse de pontos. Ele suspirou e começou a tocar os arredores do ferimento, para verificar a reação de Wyvia.
Ela apenas apertava os olhos com a dor.
— Não danificou o osso. –disse ele então abrindo a caixa de primeiros socorros e começando a limpar o ferimento. — Não tente usar aquela espada novamente. Ela destrói tudo o que toca.
E enquanto Mihawk fazia o curativo, Wyvia pensava nas palavras dele. Revia em sua mente todos os momentos daqueles dias que passou naquele castelo. Foram os melhores dias de sua vida, onde teve o que comer, o que vestir e cuidados... não a atrocidade que presenciava todos os dias em Jaman. Mihawk era pra ela como um rei. Um rei que cuidava de sua princesa, de sua filha ou de algo assim.
Com aquele pensamento, ela se entristeceu um pouco. Será que ele a via daquela forma? Afinal, ela realmente tinha idade para ser filha dele. Será que se apegou a ela como se fosse a uma filha? Ou uma irmãzinha? De qualquer forma, Mihawk confiava nela e disse claramente com todas as palavras que a protegeria. Ele precisava entender a situação, precisava conhecer todos os detalhes da vida miserável de Wyvia. Se ainda assim ele a quisesse por perto, a moça então lutaria para ser considerada por ele de uma forma diferente... da mesma forma que ela.
Olhando as feições dele, Wyvia sempre se encantava todos os dias. Ele era tão belo e selvagem que parecia realmente como uma ave indomável, solitária e caçadora. Os olhos dourados dele eram uma armadilha para os sentimentos da garota, que pensava seriamente em todos os dias poder tocar na face dele, com as pequenas mãos, deslizar pelo bigode diferente e pelo cavanhaque modesto. Deslizar as mãos pelos cabelos e chama-lo de Mihawk.
Tirando aquela vontade da cabeça, a menina voltou a ter foco no que queria realmente contar.
— Mihawk-san... –disse ela apertando a mão ferida contra o peito. O sangramento já estava estancado, porém a ferida ardia e queimava como nunca. — Você sabe que as pessoas de Jaman são muito cheias de ideologias e leis, não sabe?
Mihawk ergueu o olhar atento para a moça, sabendo que a partir daquele momento ele saberia tudo sobre ela. Concordando com um gesto, ele voltou o olhar para o curativo na perna em seu colo.
— Aquela ilha é pequena. Todos cresceram com sua monarquia rígida e cruel. –contou a menina, observando as mãos firmes e grandes envolvendo sua perna dolorida com curativos. — Eles acreditam que existe um guardião sagrado que esconde um dos maiores tesouros sobre as nuvens. Jaman é a terra das jóias. Mineradores viviam naquele local, que acreditavam que era a maior reserva de minerais e pedras preciosas dos mares, mas isso se perdeu. As escrituras antigas dizem que o guardião escondeu o tesouro sobre as nuvens para que ninguém o pegasse. Esse guardião vem a terra a cada 80 anos... e dessa vez ele surgiu no auge do reino de Arthur Zaki.
— Arthur Zaki? –perguntou Mihawk sem tirar os olhos do ferimento da moça.
— Ele é o atual líder de Jaman. É tão cruel e sádico quanto qualquer outro rei que possa ter pisado na terra. Ele faz com que as pessoas acreditem que deve-se torturar os criminosos para purificar sua alma. –o rosto dela assumiu uma expressão sombria de medo e pavor enquanto falava de Arthur. — Qualquer pessoa que pise na ilha sem permissão é torturada em praça pública de todas as formas possíveis. As pessoas riem disso lá, Mihawk-san. Entende o motivo de eu não querer voltar?
Ao finalizar o curativo, Mihawk colocou a perna dela gentilmente no chão e tomou sua mão entre as suas. Ele prestava muita atenção na história da garota, mesmo enquanto mantinha os olhos dourados fixos no ferimento. Limpando o sangue do braço dela, ele aguardou enquanto ela terminava de contar.
— Eu nasci em Jaman. O reino era tranquilo, porque Arthur ainda não estava no poder de tudo. As pessoas não torturavam ninguém, pois não prestavam atenção nos manuscritos antigos da cidade. Somente com a chegada de Arthur no trono que os manuscritos foram totalmente revelados para a população, e foi aí que o terror começou. –em sua mente, Wyvia lembrava de todos os acontecimentos desde a chegada de Arthur no trono. Era sinistro. — As coisas iam de mal a pior... mas começaram a piorar quando há dois anos eu decidi explorar o solo sagrado da ilha. Andei por todos os lugares, até que encontrei uma coisa... –desta vez Mihawk voltou o olhar para ela. — Encontrei uma fruta, Mihawk-san. Uma fruta linda e com um cheiro maravilhoso... e eu a comi.
Parado, Mihawk apenas segurava a mão dela. Prestava atenção total agora a expressão de desespero da menina.
— Quando eu comi, percebi que eu podia me transformar... alguém me viu e contou para o Arthur. Antes que eu pudesse aprender a usar, Arthur já tinha colocado tropas para me procurar. Ele tinha certeza que eu era a guardiã do tesouro do céu... e eu fugi dele por esses dois anos. Foram dois anos dormindo em cima de árvores, indo de uma cidade a outra, me disfarçando e vivendo nas sombras. –o olhar triste dela se dirigiu agora a mão ferida. O ferimento lembrou outros que sofreu com Arthur. — Ele me encontrou semana passada. Não sei como, mas ele podia simplesmente atravessar as coisas! Colocou uma armadilha pra mim... –e então sua voz começou a falhar e lágrimas escapuliram dos olhos. — ... ele me disse que eu devia entregar o tesouro... e me torturou mesmo quando eu ainda estava na outra forma, depois na forma original, mais, mais, mais, mais...
Mihawk sem querer apertou a mão ferida dela, causando um gemido vindo da moça. Ao ouvir aquilo, ele sentiu uma raiva dentro de si, uma vontade de partir com sua jangada até Jaman e fazer com que o tal líder Arthur se arrependesse de ferir aquela moça apenas por uma simples lenda. A questão da Akuma no mi de Wyvia não era tão importante pra ele naquele momento, nem mesmo pensou em perguntar a ela do que se tratava, apenas se sentia no senso de justiça de vinga-la. A moça mencionou também uma habilidade de Arthur. Talvez ele também fosse um usuário, mas aquilo nem permaneceu muito tempo na cabeça de Mihawk. Ele respirou fundo. Sua expressão inabalável e séria agora voltou para o ferimento na mão de Wyvia, que ele voltou a terminar o curativo. Quando já estava pronto, ele se pôs a olhar nos olhos da moça.
Ela estava com os olhos lacrimejando, como era de se esperar após trazer aquelas lembranças a tona.
— E por isso você conseguiu fugir quando te encontrei? –perguntou ele tentando manter a voz firme.
Wyvia fez que sim com a cabeça.
— Eles colocaram uma bomba naquele bote... não sei como imaginaram que eu fugiria pelo mar, mas eles foram espertos e conseguiram. Agora o Arthur deve estar atrás de mim, passando de ilha em ilha... me perdoe se ele vier aqui, Mihawk-san... –ela começou a chorar agora, sem inibições. — Só não me entregue pra ele, por favor.
Como o homem sério e experiente que era, Mihawk tinha sua própria personalidade forte e arrogante. Nunca lutara por ninguém além dele mesmo, nunca tornara importante a vida de alguém para si, mas daquela vez era tudo diferente. Wyvia era como um pequeno anjo que caiu diante dele aquele dia, mudando tragicamente seu jeito de ser. A armadura de implacabilidade de Mihawk foi balançada velozmente por aquela menina tão delicada e doce, tão frágil e que necessitava de proteção... algo que ele nunca pensou que sentiria por alguém.
Tomando o rosto dela com as mãos e sentindo as lágrimas mornas se misturarem com o sangue endurecido das mãos, ele fez com que ela olhasse para si. Os olhos dourados estavam fixos novamente, como se fossem peças de um quebra-cabeça que se completavam. Faltava pouco para ser um jogo completo, tão pouco que Wyvia já pode sentir em seu coração o ritmo acelerado do sentimento.
— Ele não será louco de pisar nessa ilha. –disse Mihawk com o tom de voz ameaçador. — Os babuínos que vivem por essa mata vão dizimar qualquer um que pise aqui... não se preocupe, aqui você está fora do alcance deles.
Aquela frase era tão cheia de segurança que ao ouvir, Wyvia sabia que ninguém nunca lhe faria mal naquela ilha. Estar ao lado daquele falcão indomável e protetor era uma benção difícil de se acreditar. Nem mesmo as lembranças mais cruéis e terríveis foram suficientes para tirar o sorriso lindo que se formou nos lábios da moça.
Ao ver que agora a moça sorria, segura e confiante, Mihawk secou uma das lágrimas dela e a soltou. Mantinha agora uma confiança grande na moça, pois ela finalmente se abriu e contou a ele tudo o que passara em Jaman e os motivos de fugir. Não era difícil de acreditar, pois o homem sabia como funcionava a vida em Jaman, ilha onde nenhum navio que atracava voltava ao mar outra vez. Ele não podia nem imaginar as maldades que fizeram a uma moça como Wyvia, e apenas pensar nas possibilidades traziam um ódio imenso no coração do falcão. Ele preferia não pensar nisso e apenas focar no presente, onde protegeria aquela moça e a manteria segura o tempo que fosse preciso.
— Mihawk-san. –ela o chamou. A voz doce parecia ter uma nota de confiança e felicidade.
Ao erguer o olhar para ela, notou o quanto ela estava corada. As bochechas tinham um tom rosado muito bonito e seus lábios curvados no sorriso eram tão encantadores quanto os olhos dourados. Ela era uma perfeita mistura de tudo o que poderia tirar a atenção do falcão de qualquer coisa, qualquer situação. Como podia existir alguém daquela forma?
— O que? –ele perguntou.
— Obrigada por cuidar de mim... por não querer que eu encontre um tesouro que não exista! –ela disse se curvando um pouco para frente, com intenção de ficar mais perto dele. Podiam sentir o cheiro um do outro daquela distância. Cheiro de sangue era mesclado com cheiro de vinho e de sabonete. A distância era chamativa para ambos, difícil de suportar.
Ver Mihawk tão de perto novamente era tentador. O rosto dele era tão másculo e viril que parecia chamar por algo dentro de Wyvia que nunca surgiu, nunca desabrochou. A idade contribuía para tal aparência cheia de charme. A idade fez bem para Mihawk em todos os sentidos, e aqueles 40 anos o amadureceram em tudo, desde o contorno do rosto até os fios de cabelos e barba. A aparência tão experiente e adulta deixava Wyvia tremendo por dentro. A moça nunca se interessara por um homem antes... todos em Jaman eram monstros... e agora, ela sentia algo totalmente novo e diferente, que fazia com que borboletas voassem em seu estômago causando um arrepio gostoso.
Por que o Mihawk-san é tão bonito e me atrai tanto? Eu quero poder abraçar ele novamente... sentir os braços dele em mim e ouví-lo dizer que vai me proteger. Gosto da forma que ele corta o bigode e a barba... é tão gracioso e diferente... sim, a boca dele é diferente. Posso sentir o hálito dele... é como se me chamasse em um vento adocicado com cheiro de vinho. Preciso sentir os lábios dele, pensou Wyvia então deixando de controlar seus próprios impulsos. De repente, apenas os olhos dourados e penetrantes diante de si lhe mantinham na terra.
Sem se dar conta, aproximou demais o rosto. Mihawk não teve tempo de ter uma reação. Não podia ter nenhuma reação brusca, apenas permitir que aquilo acontecesse. O homem levou um susto tão grande que paralisou. Sem que pudesse se dar conta, sentiu lábios macios e carinhosos se unindo aos seus como se fossem adesivos comestíveis e doces. Lábios pressionados sem nenhuma experiência, mas com um carinho e ternura indecifráveis, totalmente novos e sem nenhum tipo de controle. Pareceu durar uma eternidade, mas foi tão rápido quanto um piscar de olhos... um dos piscares mais significativos e esclarecedores.
Com a mesma velocidade com que selava os lábios de Mihawk, a garota se afastou, totalmente corada e tímida. Ela olhou para as próprias mãos, uma agora enfaixada, enquanto esperava a reação de Mihawk ao selinho tão inesperado e aguardado. O coração dela palpitava tão rapidamente que ela sentia que Mihawk poderia ouvir.
— Sinto muito, Mihawk-san...
Não ouviu resposta de imediato.
Sentado naquele banquinho da penteadeira, Mihawk estava imóvel, paralisado e com os pensamentos a mil por hora. Seu rosto estava vermelho. O sangue circulava tão rapidamente por seu corpo que ele sentiu calor e sabia que estava começando a suar. Nunca ficara daquela forma na vida. Parecia que sua armadura de frieza tinha se dissipado em poucos segundos, mas que logo voltaria ao normal. Estava desconcertado. Nenhum inimigo nunca conseguiu confundir completamente sua cabeça como aquela garota. Ele sempre se manteve frio e implacável em qualquer situação na vida... mas aquela surpresa foi grande demais para conseguir se controlar.
— Eu vou fazer o jantar... –disse ele ainda um pouco confuso, querendo sair daquele quarto o mais rápido possível para colocar os pensamentos em ordem. Não conseguia fazer aquilo enquanto estava olhando para aquele rosto tão angelical e delicado, que acabara de roubar um beijo seu. — Use as muletas novamente.
E então ele se levantou e se afastou, ainda um pouco perdido, mas logo conseguiu sair do quarto.
Quando Wyvia estava finalmente longe do seu campo de vista, ele respirou. Seu olhar voltou a assumir o tom sério e impenetrável, sem emoções aparentes e até voltou a expressão ranzinza. Ele passou a língua pelos lábios, como se ainda sentisse o selinho simples e doce da moça. Seu coração voltou a acelerar.
Não... ela não pode me desconcertar assim tão facilmente. Ela é só uma menina. Isso definitivamente não pode acontecer... nunca mais, pensou ele indo fazer o jantar agora.
Mihawk só naquele momento se dera conta do que Wyvia realmente era: uma donzela, pura e intocada. Ela tinha menos da metade da idade dele... era praticamente uma criança a seu olhar. Era uma garota tão angelical que certamente precisava da presença dele, tanto quanto ele precisava da dela de alguma forma que nem ele mesmo sabia... mas não precisava daquela forma. E então Mihawk lembrou-se do ocorrido mais cedo naquela tarde. Ele sabia que tinha agora alguma ligação forte com aquela menina, que estava sendo construída aos poucos a partir de confiança e proteção... mas claro que deveria haver algo além disso. Mihawk nunca se apegara a ninguém, nunca quis proteger ninguém na vida. Por que queria tanto cuidar daquela moça?
E tentando afastar a única resposta evidente de sua mente, o falcão ignorou a si mesmo e foi preparar o jantar, ciente de que aquela lembrança ficaria marcada para sempre em sua memória.
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