Notas iniciais
Olá queridos, aqui estou pontualmente com um novo capítulo! Espero que gostem *u*

No dia seguinte, pareceu tudo ter voltado ao normal, exceto por um detalhe: Mihawk parecia um pouco distante e pensativo.

Wyvia notou que após beijá-lo de surpresa, o homem tomou um pouco de distância. Se ele já falava pouco, agora falava menos ainda, porém continuava sendo atencioso e cuidadoso como sempre, principalmente porque continuava cozinhando as melhores refeições que a moça já comera na vida e quando falava com ela, perguntava se ela precisava de algo. Agora, os olhos de falcão a atiçavam como brasa, procurando algo nela, algum motivo para não ignorar os pensamentos mais profundos.

A lembrança do beijo ainda estava cravada em suas memórias, especialmente em Wyvia, que se pegava sorrindo sozinha lembrando da coragem e ousadia que teve para unir os lábios com os deles. Nunca havia beijado alguém na vida, e aquela foi a melhor experiência de sua vida. Naquela tarde, sabia exatamente onde Mihawk estava e o que estava fazendo: treinando. Ele era um espadachim tão habilidoso que não havia um treino sequer que não soubesse fazer ou que lhe desse um pingo de trabalho. Não havia mais o que treinar, mas ele ainda o fazia. Pegava sua enorme espada negra e ia para um campo aberto com destroços do castelo e começava a cortar o vento. Usava apenas uma mão, depois a outra, depois alternava entre cambalhotas e piruetas no ar. Era tão magnífico e perfeito que Wyvia se perdia o observando e mais ainda queria aprender.

Naquele campo, ela ficou no alto de uma torre, apenas observando o homem e torcendo para que ele não a visse. Ele estava sem camisa, expondo o peito forte e musculoso. O suor marcava os contornos dos bíceps e do abdome, dando a ele um aspecto selvagem e perigoso. A moça corria os olhos pelo corpo dele, cada vez mais sentindo vontade de o beijar novamente e sentir as mãos dele lhe segurando. Agora Wyvia sabia que realmente sentia algo forte por ele. Aquele beijo foi decisivo para compreender os próprios sentimentos.

Os olhos amarelados da moça o encaravam como se ele estivesse bem próximo dela. Como um binóculo, ela podia ver perfeitamente o contorno dos músculos, os cabelos pretos fio por fio, grudando na testa e na nuca e as sobrancelhas unidas naquela expressão sempre ranzinza e autoritária. Mihawk era um homem sem igual aos olhos dela.

Porém, enquanto o observava totalmente encantada, algo lhe chamou a atenção. Os olhos da moça eram tão desenvolvidos que ao longe, no extremo da ilha, pôde ver um navio ancorando. O coração dela quase parou ao ver o navio. Ela sabia muito bem que ninguém aparecia naquela ilha sem motivo, pois era um lugar assustador e perigoso, governado pelo olhos de falcão, um Shichibukai. Wyvia apertou os punhos, torcendo que aquele navio não pertencesse a Arthur. Se fosse um navio dele, ela correria um perigo considerável.

Porém, antes que o medo dominasse sua mente e a cegasse, ela lembrou das palavras do falcão que treinava naquele local. Ele disse que nada lhe aconteceria naquele lugar.

Mihakw-san não vai deixar ele me machucar... então vou coloca-los para correr e me deixar em paz! Ela pensou, determinada e confiante na força daquele homem. Nem mesmo a lembrança mais macabra de Arthur era capaz de tirar a proteção que Mihawk colocou em si apenas com palavras.

E então a moça seguiu para o outro lado da torre, do lado oposto de Mihawk, bem longe do campo de vista dos olhos de falcão astutos e perigosos.

Naquele lado da torre, ela olhou para a mata abaixo de si e pensou muito bem em como faria para seguir até aquele navio. Não queria avisar a Mihawk sobre aquilo, pois não queria causar problemas. Se ele soubesse daquilo, talvez destruísse aquelas pessoas, ou talvez ficasse insatisfeito com a presença deles, incomodado. Não queria nada daquilo, queria evitar completamente qualquer tipo de confronto naquela ilha. Não queria que algo acontecesse com Mihawk ou com Perona.

Wyvia era especialista em fuga. Por dois anos escapou de Arthur e de praticamente todos os habitantes da ilha. Não seria difícil seguir até o extremo da ilha sem ser vista. Olhando para o céu, a moça se concentrou. O vestido era leve e não rasgaria, ela tinha certeza, então ficou tranquila.

Como uma mágica e bela transformação, penas começaram a surgir por todo o corpo da moça. Toda a extensão do braço foi coberta por enormes penas castanhas e de cor marrom. As pernas, uma delas com curativos, começou a assumir um tom amarelado, os pés viraram enormes garras cortantes. Os cabelos cor de areia se tornaram marrons e sua cabeça assumiu a forma de uma bela e gigante ave. O bico alaranjado e perfeito para dilacerar surgiu.

E como uma usuária da Akuma no mi da águia real, tipo Zoan, Wyvia se tornou a bela e indomável águia, protetora do tesouro segundo as lendas de Jaman. Todos naquela ilha eram ignorantes e não compreendiam o poder da Akuma no mi, principalmente a própria usuária. Era incrível o que uma simples lenda podia fazer aos habitantes daquele país. A moça foi amaldiçoada apenas por comer uma fruta e conseguir a forma de uma águia real... apenas por conta de uma lenda.

E então ela levantou voo. Primeiramente começou com um voo planador dinâmico entre as árvores, desviando habilmente entre os galhos, como a vida lhe ensinou a ser naqueles dois anos fugindo. Tinha uma envergadura de no mínimo dois metros, mas aquilo não era nada, pois ela conseguia planar entre as árvores sem dificuldade. Alternando entre obstáculos, ela finalmente conseguiu chegar a praia.

Voltando a sua forma normal, ela ficou atrás de uma árvore, ouvindo o movimento que surgiu na praia, não muito longe de si, apenas o suficiente para poder observar. Sabia que não tinha sido vista pelas pessoas do navio, mas foi vista por outras coisas.

Sons de galhos brutalmente quebrados, árvores caindo com violência assustaram a moça. O sol quase não penetrava o dossel das árvores naquele ambiente tão escuro e assustador, então a garota se encolheu em um canto, torcendo para que não estivesse encrencada e insultando a si mesma por não ter contado a Mihawk o que vira. Ele saberia o que fazer.

Com um som assustador e grave, Wyvia viu um enorme babuíno surgir entre as árvores, carregando uma enorme espada nas costas. O macaco a olhou com fome e com os olhos irritados, e de repente outros três apareceram junto com ele.

— O que são vocês....? –ela perguntou assustada. Será que a viram sobrevoar as árvores? Tremendo, a moça recuou alguns passos, mas os babuínos encararam aquilo como uma afronta e sacaram suas armas. — VÃO EMBORA!

E antes que pudesse ter medo e correr, um por um os babuínos caíram ao chão, parecendo em sono profundo. Com o sentimento pesado e duro do ambiente, a moça caiu de joelhos e se escondeu entre as raízes de uma arvore, segurando um graveto nas mãos como se pudesse se defender do que estivesse chegando. Os babuínos dormiram no chão, parecendo enfeitiçados, e aquilo a assustou. O que estava acontecendo?

Passos leves surgiram entre as arvores. O homem que apareceu tinha o mesmo porte físico de Mihawk, porém sua expressão era completamente feliz e animada. O casaco enorme caía até as canelas, cobrindo completamente um dos braços... que simplesmente parecia não existir. Um único braço era usado para coçar a cabeça enquanto o homem olhava de Wyvia para os babuínos. Ele tinha cabelos ruivos lindos caindo até o queixo. Três cicatrizes marcavam seu olho esquerdo, que estava arregalado.

— Hum?... –exclamou ele se aproximando um pouco mais de Wyvia para vê-la melhor. — O que uma moça tão bonita como você faz nessa ilha tão feia e perigosa?

Deve ser um mercenário da ilha! Oh não... o que eu faço agora? Ele fez com que os macacos dormissem sem problemas! Pensou a moça, erguendo o braço trêmulo que segurava o galho da árvore, como forma de defesa. Ela sabia que era pouco, mas tinha que tentar. Se levantando devagar, ela se colocou de pé erguendo o galho como se fosse uma espada, exatamente como via Mihawk fazer. Seu ato chamou a atenção do estranho ruivo a sua frente, que observava tudo com um sorriso pequeno e curioso.

— O que quer comigo? –ela perguntou tentando parecer ameaçadora, mas não conseguiu. — Escuta aqui, você não pode me machucar, o dono dessa ilha é meu amigo. Ele é muito perigoso!

Ao dizer isso, ela notou que o olhar do ruivo mudou para uma expressão de surpresa. Os olhos escuros se arregalaram e ele ficou pensativo.

— Que?... –perguntou ele coçando a rala barba com a única mão que tinha. Ele voltou o olhar para Wyvia, tentando entender como ela conhecia o dono da ilha e por qual motivo. — Eu sou mais perigoso que o Mihawk-senpai! –ele riu um pouco, mas quando a moça não riu de volta ele voltou a ficar sério. — Não sou inimigo, fique tranquila, não vou te machucar.

Wyvia recuou alguns passos.

— Você conhece o Mihawk-san? –ela perguntou, cautelosa. Se ele era amigo de Mihawk, então não era uma pessoa má, porém a moça continuou atenta.

— Claro! É um amigo de muitas batalhas! –disse o ruivo se aproximando devagar, tentando não parecer ameaçador para a pequena garota na sua frente. Ele ficou perto o suficiente para que a moça pudesse se sentir segura com seu graveto como arma. — Meu nome é Shanks. –ele estendeu a mão, mas quando não foi cumprimentado, recolheu a mão novamente. — E você, quem é e o que faz nessa ilha horrível?

Shanks tinha um olhar descontraído e simpático. Não tinha postura de alguém que queria fazer mal a ela. Aos poucos, Wyvia abaixou o graveto. A presença daquele homem não era assustadora e mórbida quanto a de alguém de Jaman. Algo nele trazia uma calmaria na moça que era difícil de segurar. Era como quando abraçara Mihawk, a mesma sensação: segurança.

— Meu nome é Wyvia. –disse ela devolvendo o sorriso que estava estampado no rosto bronzeado do ruivo. — Eu estou hospedada aqui nessa ilha por um tempo. Vi seu navio se aproximando e achei que... eram pessoas ruins.

Com os olhos arregalados, Shanks percorreu muito bem toda a extensão do corpo da menina, dos pés a cabeça, procurando alguma coisa que ele mesmo não sabia o que era. Aquela moça parecia tão inofensiva quanto uma criança. Ela tinha corpo, era notável, mas era tão magrinha e baixinha que não parecia ter porte de uma mulher da idade de Mihawk. Os cabelos loiros cor de areia e os olhos dourados eram tão bonitos que o ruivo precisou se recompor da vontade de tocar e penetrar os olhos com os seus. O que aquela menina tinha então que a permitia morar naquela ilha... com Mihawk?!

— Você está hospedada aqui? –ele perguntou ainda sem conseguir acreditar. — Nossa... para alguém chato como o Mihawk permitir alguém além da garota fantasma morar aqui... ele só pode estar apaixonado por você.

Quando ouviu aquilo, Wyvia corou imediatamente. Ela tentou esconder o rubor virando o rosto. Seu coração acelerou de forma perigosa com aquelas palavras, que pareciam uma chave para os próprios sentimentos. Ficou mais vermelha ainda enquanto Shanks ria bem baixinho de sua expressão.

— Então deve ser isso mesmo! –disse ele então estendendo o braço, formando um arco e o apresentando a moça. — Venha, vamos encontrar aquele homem apaixonado!

Envergonhada e sem saber o que pensar ou dizer, Wyvia apenas passou o braço por debaixo do de Shanks e foi guiada por ele dentro da mata. Conversavam sobre algumas coisas durante o caminho escuro e silencioso. Wyvia não sentiu curiosidade em perguntar sobre como ele fizera os macacos dormirem tão facilmente e nem sobre a tripulação dele, apenas estava encantada demais com a forma com que ele falava de sua amizade com Mihawk, que deveria ser algo muito forte e profundo. Ele contava de confrontos e parcerias, contava que ganhara de Mihawk em várias lutas –e Wyvia não acreditou –e que gostava de beber e conversar com o homem. Durante vários momentos da conversa, o ruivo olhava bem para o olhar admirado da moça e se perguntava como um ser tão pequeno e frágil como aquele pareceu ter conquistado um homem duro e implacável como Mihawk.

Eles são tão diferentes... aposto que essa é a resposta, pensou o ruivo, quem diria... será que é isso mesmo? Ela não diz muito, mas fica muito envergonhada quando digo a palavra “apaixonado”. Se ele está apaixonado por essa menina, eu não sei... mas ela está apaixonada com toda a certeza.

Após uma longa caminhada, ambos finalmente chegaram onde Mihawk treinava. No momento em que o falcão ouviu os passos, ele se virou imediatamente e se surpreendeu com o que viu. Os olhos dourados se arregalaram primeiramente por ver Shanks... e piorou por ver Wyvia junto com ele. Onde ela esteve?

Quando viu o amigo, Shanks demonstrou um enorme sorriso, soltando o braço de Wyvia e acenando.

— Olhos de falcão! –gritou o ruivo. — Eu trouxe nosso sake e essa garota perdida na floresta! –ele notou que Mihawk estava confuso. — Você a conhece ou eu posso ficar com ela?

Vermelha, Wyvia se afastou alguns passos de Shanks e de sua risada constrangedora e logo caminhou em direção ao falcão, que parecia confuso, embora sério logo na frente deles. Somente quando chegou perto que a moça notou que fez besteira: saiu do castelo sem avisar a Mihawk.

— Onde estava? –perguntou Mihawk deixando a enorme espada encostada no muro do castelo e indo em direção aos dois. Seu olhar era como sempre sério, porém havia resquícios de preocupação.

Sem graça e sem saber o que dizer, a moça virou o rosto e viu Shanks, que estava com o único braço apoiado na cintura e rindo igual bobo.

— Ela foi me receber na praia! –disse Shanks se aproximando um pouco dos dois. Ele repousou a mão sobre o ombro de Wyvia e deu uma piscadela discreta pra ela. — Espere lá dentro, moça, preciso ter uma conversa com o olhos de falcão.

Sem graça com a situação, Wyvia apenas olhou para Mihawk, como se esperasse algum tipo de comentário vindo dele, mas ele não disse nada. Os olhos dourados apenas a encararam de volta, frios e duros como sempre eram. Com isso, a moça então começou a caminhar de volta para o castelo, deixando os dois amigos para trás.

Quando já estava longe do alcance de vista de ambos, Shanks retirou uma bolsa das costas e surgiu de dentro dela uma garrafa de sake e duas canecas enormes. Ele se sentou no chão mesmo e começou a encher as canecas até a borda, ignorando o olhar sério do homem diante de si. Mihawk estava confuso com toda aquela situação. Não esperava ver Shanks.

— Como a encontrou? Onde ela estava? –foi tudo o que o falcão conseguiu perguntar. Ele se sentou sob uma pedra diante de Shanks e ficou aguardando uma resposta. Não pensou em primeiramente perguntar o motivo da presença de Shanks na ilha, apenas pensava em Wyvia e como ela saiu da proteção que ele oferecia.

Shanks ergueu uma das canecas e entregou a Mihawk, sorrindo igual bobo como sempre. Já havia traços de embriaguez no homem, mas não era tão evidente assim.

— Ela é linda! –disse ele tomando um longo gole, ignorando as primeiras perguntas de Mihawk apenas momentaneamente para tentar verificar se havia algum tipo de sentimento nele. — Posso levar ela comigo?

— Cuidado com o que fala. –Mihawk o repreendeu, segurando a caneca com força. — Ela é minha hóspede agora, não é uma mulher qualquer que você possa levar para beber.

Como se descobrisse uma coisa nova, o ruivo começou a gargalhar. Ele tomou outro gole de rum e limpou a boca com a manga da blusa. Encarava Mihawk agora com um pouco de seriedade, buscando interpretar a expressão sempre vazia e ranzinza do amigo. Tentava buscar alguma explicação para um homem como Mihawk cuidar daquela menina como se fosse realmente alguém especial. Será que realmente gostava dela?

— Não falei sério. –disse o ruivo tentando amaciar a expressão dura do olhos de falcão. Pretendia mudar o assunto, pelo menos para colocar o papo em dia e depois disso finalmente tentar interpretar o coração do amigo. — Enfim, como foi a reunião com os Shichibukais? Quero novidades, você é o único deles com quem mantenho contato, assim fico a par dos assuntos importantes em que não envolvem nós Younkos.

Tomando um gole de rum, Mihawk sacudiu a cabeça. O suor dava um brilho a sua pele, iluminada pelo sol. A pele alva era marcada por belos músculos. Pele que se arrepiou com um gole da bebida quente e forte naquele calor.

— Não fui na última reunião. –disse olhando para o conteúdo da caneca. — Tive que cuidar da Wyvia. Eu a encontrei ao mar, boiando em destroços de um bote e com uma fratura na perna.

Shanks sorriu. Seu sorriso foi admirador e sincero.

— Faltar uma reunião dos Shichibukais por uma moça encontrada no meio no mar... quem é você e o que fez com o olhos de falcão chato que eu conheço? –riu Shanks.

Notas finais
E aí, o que acharam?