A vida como Mágica
6 Uma Mudança
– Sejam bem vindos ao maior show de mágica de Berlim! — dizia o mágico, animando a plateia — Hoje temos uma novidade! A estreia da nossa mais linda assistente: Alice Steiner! — A jovem acenava com um belo sorriso. Estava com um vestido azul, revestido de lantejoulas.
– Vamos ao nosso primeiro número da noite! — O mágico encaminhou a nova assistente para uma maca. Quando ela deitou-se, ele cobriu-a com um pano vermelho, disse algumas palavras mágicas e Steiner passou a flutuar como uma nuvem.
– Alice! Alice, acorda!
– Ãh? Ah, oi Rosa...como você entrou? — Alice ainda estava meio sonolenta.
– A porta estava aberta. Aliás, bem aberta. O que aconteceu que eu te liguei ontem e você nem me atendeu?
– Oh, nada...só rejeitei a proposta do mágico...ai minha cabeça! Me traga um copo d'água, por favor?
– Mágico? Que proposta? Você andou bebendo? Olhe só para você!
– Uma longa história, Ro...bebi só um pouco, antes de dormir...Aii! Ande logo, traga-me água. Aproveite e me traga um comprimido para dor de cabeça, por favor!
– Ok, mas quando eu voltar quero que a senhorita me conte tudo! Detalhe por detalhe! — Rosa foi até a cozinha, pegou água, remédio e voltou ao quarto.
– Aqui está. Agora me conte o que aconteceu.
Alice contou sobre a proposta, sobre o parque, mostrou-lhe o diário, contou sobre Emma e sobre a resposta.
– Não acredito que você deixou-se levar pelas palavras de uma mulher ciumenta! — Rosa estava surpresa com tudo o que havia escutado da amiga.
– Ro, você sabe que eu ainda estou sensível com tudo o que aconteceu. Eu não quis arriscar. Não quero me machucar novamente.
– Se olhe no espelho. Veja como você está. — Rosa pegou um pequeno espelho que estava ao lado da cama — Garota, desculpe-me, mas você tem que reagir. Se gosta dele, vá! Porque não adianta ficar bebendo, chorando e se lamentando. Isso não vai mudar nada. Aliás, vai mudar sim, você vai ficar cada dia pior e eu não estarei mais aqui para lhe ajudar, porque a escolha foi sua.
– Você está certa. — concordou Alice. — Amanhã falo com ele. — mas não falou.
No dia seguinte, ela acordou mais cedo. Se arrumou e fez compras. Comprou desde comida a roupas novas. Passou no restaurante que seu pai trabalhava e jantou sozinha. Foi para casa. Sua rotina foi parecida com essa por mais alguns dias, a única diferença era que ela não fazia compras sempre.
No sábado da mesma semana, Alice resolveu ir ao show de mágica. Ao contrário das outras vezes, ela sentou-se na última fila. Assistiu até o final, mesmo com Alex lançando-lhe um olhar surpreso e curioso cada vez que olhava para ela.
Cortinas fechadas. Um teatro aplaudindo. Era assim no final de todos os shows de Herr Hoffmann. Mas desta vez foi diferente. As cortinas se fecharam e o mágico fez algo que geralmente não fazia. Voltou para a frente da plateia e correu em direção à jovem, que ainda estava ali, sem reação alguma.
– Alice! Você voltou! — Alex parecia realmente feliz em rever a moça — Mudou de ideia? Por favor, diga que sim!
– Primeiramente, eu gostaria de te parabenizar pelo belo show de hoje e de sempre.
– Obrigado.
– E também quero dizer que mudei de ideia. Vou experimentar. Mas você tem que me garantir que me trará de volta se eu não me acostumar com a vida no trailer.
– Tudo bem. Prometo tudo o que quiser, desde que você esteja comigo. Obrigado por aceitar. Eu gosto muito de você. — Neste momento, o mágico tentou abraçar Alice, porém a jovem deu um passo para trás.
– Eu também gostei de você, por isso resolvi aceitar ser sua assistente de palco.
– Você pode vir morar conosco assim que estiver pronta. E lembre-se, só estaremos na cidade até a próxima segunda-feira.
– Tudo bem, venho assim que puder.
– Oh, Alice, estou tão feliz de te ouvir dizendo isso, aguardo você ansiosamente.
– Bem, agora vou para casa. Vou arrumar as malas e me despedir dos amigos. Obrigada pela proposta. Até amanhã.
– Espere! — Alex segurou a mão da moça, puxou-a para perto e aproximou o seu rosto do dela — Eu te amo.
As pernas de Alice estremeceram. Por um momento esqueceu de tudo o que havia a sua volta. Não sabia o que fazer, algo dentro dela gritava "Beije-o", mas ela não sucumbiu ao desejo e afastou-se dele.
– Até amanhã, Herr Hoffmann.
No domingo a tarde, Alice foi para a casa de Rosa, contou sobre a noite anterior e saiu num jantar de despedida com a amiga.
– Querida, lhe desejo toda a sorte do mundo! — Rosa olhava a olhava nos olhos.
– Obrigada, amiga. Sabe que voltarei sempre que puder para te visitar. — Respondeu Alice, sorridente, porém com algumas lágrimas nos olhos.
– Oh, não chore, senão eu choro também! Sabe que eu não fico bem chorando...
– Você fica bem de qualquer jeito...Mas agora tenho que ir, ainda quero assistir o último show dele na cidade, você me acompanha?
– Claro!
Colocaram as malas no carro de Rosa e foram para o teatro. Ao chegar, acomodaram-se na primeira fila, como de costume. Assistiram novamente à impressionante apresentação, que sempre trazia novos truques. Aplaudiram.
Cortinas fechadas.
Rosa e Alice foram até o carro, deram mais um abraço e se encaminharam para o trailer com as malas. Alice não tinha muitas coisas, conseguiu colocar tudo em apenas duas pequenas mochilas.
– Seja bem vinda, Alice! — Emma estava estranhamente receptiva.
– Obrigada!
– Olá, minha querida! — Hoffmann falou empolgado.
– Olá, Alex. Esta aqui é minha amiga Rosa. Na verdade ela é como uma irmã pra mim.
– Oi. — Rosa estava ruborizando.
– Ela vai conosco? — Perguntou Emma, com desdém
– Não, não. Ela só veio ajudar com as malas e se despedir de mim.
– Bem, Alice, vou indo nessa...Sentirei saudades, amiga. — Rosa abraçou Alice e olhou para o mágico — Cuide bem dela por mim, ok?
– Pode deixar! — Respondeu o mágico com uma piscadela rápida.
Rosa se foi. Agora Alice estava sozinha e sem jeito. "Meu Deus, o que eu estou fazendo?", pensava. O mágico apresentou-lhe o trailer por dentro, era maior do que parecia. Tinha uma cozinha pequena, uma salinha de estar, a cabine do motorista, um banheiro e dois quartos.
– Quem dirige é você, Alex? — perguntou Alice.
– Oh, não, não. Eu aproveito as viagens para descansar. O nosso motorista chega amanhã.
– Ah, ok. Onde eu posso deixar as minhas coisas?
– Pode colocar no meu quarto.
"Como assim? Não vou dormir com você, nem te conheço! Que atrevido!", pensou a jovem.
– Vou dormir na sala. Não se preocupe. A menos que prefira que eu durma com você... — Alex falou num tom brincalhão.
– Não, pode ficar na sala mesmo. — Alice sorriu.
Emma parecia não gostar da conversa.
– Alice, minha querida, você pode dormir no meu quarto se preferir. Tem um colchão sobrando lá.
– Jamais permitirei que ela durma num lugar desconfortável, uma dama como Alice deve dormir numa cama.
– Obrigada, Alex. — Steiner agradeceu.
Os três conversaram durante o resto da noite. Na hora de dormir, Emma foi para seu quarto, Alice para o quarto de Hoffmann e ele, por sua vez, ficou na sala e dormiu no pequeno sofá.
Quando acordaram, estava tarde, o motorista já havia chegado e o trailer estava partindo.
A jovem Steiner já se sentia mais à vontade.
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