A verdadeira magia
17 O reconhecer
Notas iniciais
Estávamos no portão da casa dela, com o sol a pino indicando ser próximo do meio dia, e aconteceu de novo o que havia acontecido ontem. Amanda se irou de repente, me puxando pelo braço pra dentro da casa dela, atravessando o portão e o pequeno jardim com velocidade descomunal, subindo aos tropeços a escada, e sendo arremessado pra dentro do quarto dela, caindo sentado perto da cama. Minha surpresa foi enorme, mas eu até que tinha que esperar isso.
– Como você não me contou sobre esse homem antes? – Ela falou, os cabelos quase voando de tanta raiva.
– Eu contei. – Respondi, ainda tentando processar como havia chegado ao quarto dela tão rápido. – Ontem. Pelo Face. Foi a primeira coisa que fiz.
– Porque que só você encontra essas pessoas? – Ela falou, agora mais de desabafo do que querendo uma resposta. Mas eu nem percebi a diferença sutil que ela falou.
– Sei lá, porque sou... – Parei pra pensar em alguma coisa, mas gelei ao ver os olhos de Amanda olhando como se arrancasse meu coração fora. – Parei.
– Ai, que ódio de você! – Ela gritou. Ela andava pelo quarto bufando com as mãos na cabeça, e tentei aproveitar essa deixa pra fugir de lá. Mas não deu certo, porque quando Amanda viu minha tentativa de fugir, ela deu um pequeno pulo e se pôs entre eu e a porta. – Nem pense que você vai fugir de mim.
Quando Amanda andou pra frente eu ouvi um barulho de vidro quebrando. Olhei instintivamente pra janela, e vi sombras gigantescas entrando no quarto, com velocidade assombrosamente alta, causando um vento gélido entrar violentamente no ambiente. Assustado, não tive tempo de ter reação nenhuma, isso porque Amanda havia pulado na direção das sombras, desferindo socos e chutes que jamais havia imaginado ela ser capaz de fazer. Os ataques, mesmo fracos, destruíam parte das sombras a cada impacto. Mas isso fazia com que as sombras se dividissem em várias partes, cada uma dela fazendo investidas contra Amanda.
Tomando noção do que aconteceu, fiz uma Esfera de luz rapidamente e joguei na direção das sombras, mas os pedaços que sobraram escapavam dela. Eu precisava acertar uma delas pra fazer efeito. Então imaginei um novo uso pra Dimensão alternativa. Um que seria difícil de usar, e também cansativo. Mas medidas desesperadas pedem uma bola de luz explosiva.
Criei uma Esfera de luz novamente e joguei, mas não querendo acertar uma. Quando a esfera estava perto das sombras eu estalei meus dedos. Ao som do estalar a esfera de luz liberou sete raios de luz parecendo fitas, indo em direção a cada um dos pedaços de sombra, destruindo-as por completo. Caí sentado no chão quando as luzes destruíram as sombras ali dentro.
O quarto estava bagunçado depois dessa entrada forçada das sombras pela janela. Pedaços de vidro e terra estavam no quarto, com alguns itens jogados pelo chão, como livros e almofadas. A entrada brusca de uma empregada interrompeu o estado que estávamos.
– Milaide, você está bem? – Ela falou com pressa.
– Sim, estou, pode se retirar. – Amanda falou.
– Mas milaide, o quarto está... – Ela tentou argumentar.
– Uma bagunça. – Ela falou. – Bagunça essa que Filipe se dispôs a arrumar.
Agora eu olhava pra ela. Estava realmente sem saber o que pensar de Amanda. Explosiva e cautelosa, sacana e envergonhada, um minuto isso, no outro aquilo, essa menina tem problema. A empregada me olhou, olhou pra Amanda em seguida com cara quase horrorizada, então fechou sua expressão.
– Entendido, milaide. – E fechou a porta.
Com a empregada longe eu falei novamente.
– Bem... Quem disse que eu vou limpar isso de novo? – Falei.
– Eu disse. – Ela respondeu. Sua voz era firme e suas ações calmas. Nada de bom podia surgir daí.
– E quem concordou com isso? – Continuei.
– Eu. Agora comece. – Nada nela mudou, mas juro que uma aura vermelha tinha aparecido ao seu redor.
Me levantei pra começar a forçada limpeza no quarto dela, quando fiquei muito tonto e me desequilibrei, caindo de cara na cama dela. Isso pareceu trazer de novo a Amanda que eu conheci antes.
– Filipe, o que foi? Você tá bem? – Ela falava com os olhos preocupados me encarando.
– Tô... Só um pouquinho tonto, só isso. – Falei. Usar Dimensão alternativa assim foi novo pra mim, não sabia que me cansaria tanto. Me levantei de novo, dessa vez lutando contra a tontura. – Porque eu tenho que limpar mesmo?
– Você não tem que limpar. – Ela falou. – Mas assim a gente pode discutir mais sobre isso. Sobre essas sombras. – A voz dela aumentou de potência. – Elas nos atacaram em casa! Filipe, o que temos que fazer?
Eu não sabia, então me limitei a pegar os objetos e arrumar. Passamos alguns minutos organizando tudo e ouvi um grande barulho bem próximo, como se estivesse me avisando de algo. Senti um tremor em meu estômago, e então notei que era fome. Cabeça estúpida.
Amanda parecia ter notada também, pois ela parou de pegar os cacos de vidro no chão.
– Terminando isso eu vou pra casa, ok? – Perguntei.
– E o almoço também. Eu te puxei até aqui, é o mínimo que posso fazer. – Ela respondeu. Não disse nada, pois estava pasmo com isso. Eu realmente não sei mais no que acreditar.
Passado o tempo do almoço eu recebi uma mensagem dos meus pais. Eles disseram que iriam retornar mais a tarde, então não precisava ficar esperando acordado. Como se eu realmente fosse dormir mais cedo por causa disso. Eu preferi almoçar mais rápido, pois estava me sentindo muito desconfortado por ser assistido por três empregados enquanto almoçava. Caminhei de volta, mesmo com Amanda insistindo que Jamie me levasse. O sol estava a pino, mas a caminhada não foi desagradável.
O sol na cabeça foi bom pra cozinhar uma nova ideia, e essa até que seria útil usar. Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi tirar a roupa, mas não do jeito normal. Tentei usar a carta para mandar a camisa que usava. Imaginei ela sendo mandada, e ela ativou, mandando unicamente a camisa. Maravilha, a ida funciona, agora a volta. Imaginei a camisa, e me imaginei vestido ela, com o máximo de detalhes que pude. A carta ativou.
Fechei os olhos de apreensão. Quando senti que ela havia parado eu abri os olhos e olhei no meu corpo. A camisa estava perfeitamente colocada, sem danos nem a ela nem a mim. Isso é legal, isso é legal demais.
Pulando de felicidade, subi e me troquei para uma roupa simples de novo e fui ao mesmo terreiro de antes, para continuar treinando. Me concentrei em usar os métodos mais fortes de passagem, para poder treinar a minha resistência nelas.
O treino parecia funcionar. Comecei a usar de transposição com arremesso com mais potência, precisão e velocidade, e resistia bem melhor. Após usar alguns modos algumas vezes, notei uma grande bola escura em baixo de mim, mas não parecia viva. Parecia ser uma sombra natural, como se tivesse alguma coisa grande sobrevoando. Olhei pra cima e então eu vi quem havia criado essa sombra em baixo de mim.
Uma onda de sombras estava em cima, descendo com força na minha direção. Evitei no último segundo o contato, pulando para longe. Quando bateram no chão, elas se espalharam para todos os lados, varrendo todas as direções pelo chão. Vendo isso, corri para longe, tentando evitar, mas não iria dar certo. Elas avançavam mais rápido do que eu podia correr.
Estava fugindo delas quando senti mais uma vez um calor forte, e uma luz alaranjada que brilhava fortemente. Olhei pra trás e vi uma flecha de fogo presa ao chão. Lembrei de Jessica, ontem no beco. A flecha de fogo emitia um calor mais forte, afastando as sombras de perto dela. Uma rajada de flechas criou uma área segura, criando uma proteção temporária pelo chão. Jessica apareceu com um pulo no espaço que havia ali.
– Jessica! – Falei logo ao vê-la.
– Eu te avisei pra ficar longe de mim. – Ela vociferou com raiva. – Porque me seguiu?
– Eu... Não te segui. – Respondi confuso, olhando de relance pra ela, prestando mais atenção nas sombras a minha frente. – Além do mais você me enganou. – Falei, agora me virando em sua direção. – Me deu um papel em branco e fugiu.
– Técnica de distração. – Ela falou, encarando as sombras, que agora criaram um círculo ao redor das flechas. – Funciona sempre. Porque meu seguiu até aqui?
– Não te segui! – Falei mais alto. As sombras então saíram do chão e voaram sobre as flechas, entrando por cima na área.
– Isso não importa agora. – Falou isso segundos antes das sombras se chocarem contra o chão, tentando acertar Jessica. Criei uma Esfera de luz, e as sombras investiram contra mim. Elas eram mais rápidas do que as outras, e vi que não daria tempo pra lançá-la neles. Quando estavam perto demais de mim, Jessica criou um caminho de gelo, causando pouco dano nas sombras. Elas, por sua vez, desistiram de me atacar, e avançaram com velocidade na direção de Jessica. Assim eu pude lançar a Esfera de luz nelas.
A esfera acertou as sombras, logo os feixes de luz se espalharam por ela, cercando toda sua extensão e desaparecendo logo em seguida. Jessica olhou pra mim como se não esperasse isso.
– Essa é sua carta? – Ela perguntou.
– Sim. – Eu falei. – Mas é um dos seus jeitos de usar.
– Tem mais? – Ela continuou. – Espera. Você ainda não me disse por que me seguiu.
– Eu. Não. Te. Segui. – Respondi. – Eu vim aqui para treinar, igual ontem.
– E porque você atraiu as sombras que me caçavam? – Ela perguntou. Como assim atraí? Como assim caçavam?
– Ok. Primeiro, eu não atraí as sombras. – Falei. – Francamente nem sabia que isso era possível. Segundo, se elas te caçavam você deveria me agradecer por te salvar, não? – Ela cruzou os braços e virou a cabeça.
– Não. Não deveria não. – Ela disse. – Estas sombras iriam ser capturadas, mas agora não podem mais. – Ela cutucou meu peito com força. – Por causa de você.
O cutucão não foi forte, mas senti uma fraqueza no corpo e me desequilibrei pra trás. Jessica ficou preocupada com isso, e me ajudou a me apoiar.
– Ei, o que aconteceu? Você usou muita energia com isso? – Seu olhar era meio preocupado.
– Mais ou menos. Deve ter sido do treino. Já estou melhor agora. – E tentei me manter sozinho, mas desequilibrei pra frente. Ela me ajudou de novo. – Ou talvez não. Maravilha.
– Precisa ir pra casa? – Ela perguntou.
– Não, não. Não é pra tanto. – Respondi, me sentando no chão. – Só... Um momento pra poder me recuperar e já fico melhor. – Falei isso criando uma Esfera de luz para mandar as coisas que estavam na dimensão de volta. Antes que pudesse arremessar senti um tapa na minha mão.
– Sem usar a sua carta à toa. Não gaste mais energia. – Pode-se dizer que ela estava preocupada, mas quem visse de fora não acharia isso.
– Tá tranquilo usá-la assim. Eu preciso tirar o que mandei pra dentro. – E fiz a esfera de novo, lançando longe e deixando que ela materializasse tudo que havia mandado. O processo dessa vez foi mais lento, pra gastar menos energia.
– Que carta é essa? – Ela perguntou.
– Dimensão alternativa. – Expliquei. – Permite eu criar uma dimensão e mandar coisas pra ela. – Continuei. – Mas eu descobri alguns usos ofensivos muito úteis.
– Foi... – Ela hesitou. – Inteligente. – Ela virou o rosto.
– Inteligente? Como assim? – Falei, e ela perdeu a compostura.
– Não vem ao caso. – Ela falou rapidamente. Me levantei de novo. – Já se sente melhor?
– Sim. – Falei. – Agora pelo menos dá pra fazer uma coisa muito importante. – Concluí rapidamente.
– O que é? – Ela falou sem fazer ideia do que iria fazer. Me preparando pra não ser enganado de novo, observava todos os seus movimentos.
– Saber quem é você. – Falei, e ela ficou confusa. – Primeiro, quem iria capturar essas sombras?
– Eu vou ter que ir. – E ela parecia que ia sumir de novo, mas eu segurei seu braço desta vez. – Ei, me solte.
– Não até você me contar o que sabe. – Eu respondi. – Eu preciso saber mais sobre essas sombras. Porque elas nos atacam? Porque podemos usar essas cartas? – Eu lancei de uma vez.
– Calma, calma. – Ela falou, se desvencilhando do meu aperto em seu braço. – Eu respondo algumas. – Fiquei aguardando sua resposta. — Essas ‘sombras’ primeiro.
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