Jessica se dirigiu até um dos troncos que tinham caído ali devido a ontem. Eu a acompanhei, garantindo que ela não fugiria de novo.

– Não sabemos sua origem, nem seu objetivo. – Ela começou. — Parece que querem a destruição das cartas, e também de quem as usa. Elas seguem aqueles que usam o poder das cartas, por isso elas te seguiram agora a pouco. – Isso também explica porque nós fomos atacados na casa da Amanda. – Precisava de um grande poder pra atraí-las, pois eu estou usando duas cartas.

– Uma pra manipular gelo e outra pra manipular fogo. – Comentei. – São um bom combo pra usar.

– E também difícil. – Ela respondeu. – Juntar fogo e gelo é mais complicado do que parece.

– Você tinha falado que elas seriam capturadas. Quem as quer capturar? – Perguntei.

– A Irmandade. – Irmandade? Se fosse um grupo de pessoas em um lugar secreto esse nome parecia um muito clichê. – É uma instituição de ‘pesquisa’ sobre isso. – Ela usou os dedos desenhando as aspas. – Na verdade é um pequeno grupo de usuários de cartas que tentam entender melhor a natureza das cartas, das sombras, e o que elas significam mesmo. – Ela explicou.

– Quantas pessoas formam a ‘Irmandade’? – Falei, imitando suas aspas.

– Quatro, contando comigo. Nosso ‘líder formal’ tem uma carta muito útil, de Inteligência. – Pera, o Will tem essa carta. Poderia o Will ser esse ‘líder formal’ que Jessica disse? – Ela pode aumentar o raciocínio, a associação de informações, esse tipo de coisa. Ele está focado completamente pra isso, dando até pra ver alguns efeitos negativos de vez em quando. – Ela contou, como se lembrasse de um evento anterior.

– Qual o nome dele? – Perguntei, tentando manter minha curiosidade baixa.

– Kenni. – Ela respondeu. – Um nome que ele preferiu adotar. Ninguém nunca o perguntou seu nome verdadeiro.

– Ceeerto. – Falei. – E esse Kenni é um jovem, tipo, parecido com você? – Continuei. Preciso confirmar se ele é Will.

– Sim, nós todos somos. – Ela disse. – Ele é o mais jovem de nós, parecendo ter dezessete, dezesseis anos.

– E ele conseguiu imaginar alguma coisa? – Eu mudei de assunto para parecer pouco interessado nele.

– Ainda nada. Planejávamos capturar essas sombras para estudá-las. – Ela respondeu.

– E é possível? – Porque até agora não vi um meio de prendê-las em canto nenhum.

– Íamos descobrir. – Ela falou, agora com um olhar acusador pra mim. – Mas agora terei que procurar outra. E chega de perguntas agora. – Ela disse se levantando rapidamente. – Minha busca recomeçará mais uma vez. Aqui, pegue isso. – Ela falou, estendendo um papel pra mim.

– Não vou cair nessa de novo. – Eu falei.

– Esse é meu contato. – Ela falou, parecendo revoltada por ter falado aquilo. – Me ligue caso você precise saber mais algo.

Peguei o papel de suas mãos e olhei. Vazio novamente. Quando olhei ao redor ela estava correndo na direção da rua, sumindo de minha vista. Olhei ao redor com raiva por ter caído em um truque tão besta de novo, e notei em cima do tronco onde ela estava sentada um papel. O peguei e nele estava escrito “Todos dizem isso”, e logo abaixo disso estava seu nome e um telefone ao lado. Ela é esperta.

Peguei esse papel e fui imediatamente pra casa. Cheguei e vi o carro dos meus pais na garagem. Entrei e logo vi meu pai sentado na sua poltrona lendo um livro de psicologia. Minha mãe estava deitada no sofá lendo uma revista qualquer, e logo notou quando eu entrei na sala.

– Filipe, onde você estava? – Ela falou preocupada. Eu havia chegado cheio de lama, poeira, e ralados em certas partes do corpo devido aos contatos com o chão.

– Lá no terreno de novo. Eu estava treinando um pouco e caí algumas vezes. – Verdades, mas não eram relacionadas entre si. – É coisa pouca, mãe.

Meu pai agora havia retirado os olhos do livro e visto o meu estado. Ele deve ter pensado que eu ainda era um moleque crescido, porque deu uma risadinha e voltou a ler. Minha mãe, entretanto, não parou de ficar preocupada.

– Vá tomar um banho que eu pego o merthiolate. – Ela falou, ficando em pé e indo em direção ao armário de remédios na cozinha. Eu, sem poder nem argumentar, subi derrotado pra tomar banho.

O resto da tarde eu passei sem descer, porque teria que enfrentar a preocupação da minha mãe o tempo todo. Fiquei no meu quarto até a hora do jantar, única hora que desci pra ‘socializar’ com eles. Logo fui à mesa e esperei as perguntas surgirem.

– Filho, como foi esse treino que te deu esses ralados? – Minha mãe perguntou.

– Foi bom. Até divertido. – Eu respondi. Claro que se machucar não era assim tão divertido como eu fazia parecer, mas ver a cara que ela fazia não tinha preço.

– O seu treinamento envolvia pular rolando no chão? – Meu pai perguntou cheio de sarcasmo.

– Um pouco. – Respondi com cara de pau. – Isso, escalar árvore com uma mão, pular de cima da árvore, esse tipo de coisa. – Meu pai e eu ríamos, enquanto minha mãe ficava horrorizada.

– E vocês ainda brincam com isso? – Ela falou.

– E quanto a vocês, como foi na casa desse amigo? – Eu não queria realmente saber como foi, porque eu sabia. Teve bebida, música, carne assada, que sempre eles gostavam de dizer que teve, e outras coisas de reuniões assim.

– Foi muito boa, a música estava animada pra dançar. – Meu pai respondeu, então se aproximou um pouquinho de mim e pôs a mão pra esconder a boca da minha mãe. – E a gente arrebentou na pista de dança. – Falou isso alto o suficiente pra ela ouvir. Eu ri imaginando isso. Meu pai voltou como estava antes. – E a carne, pelos deuses, estava divina! – Ele falou, levando a mão na boca e lançando um beijo falso no ar. – Nunca havia comido uma carne tão boa antes na vida. Ai! – E isso foi minha mãe chutando sua canela.

Por mais que fossem meus pais, eu gostava deles. Ele sempre a provoca de algum jeito, ela sempre revida, e eles continuam apaixonados. Eu havia terminado meu jantar, mas fiquei um pouco ouvindo as histórias que já sabia como iriam acabar, só pela diversão. Quando chegou na parte do apaixonados de novo eu peguei meu prato, pus na pia e vazei. Ser vela é doído, ainda mais para seus próprios pais.

Subi no quarto e senti uma brisa fria vindo da janela. Brisa estranha, porque eu não gosto de deixar minha janela aberta. Estranho mesmo era a pessoa que estava sentada na minha cama. Era um homem alto, magro, vestindo uma camisa preta do Black Sabbath e uma calça jeans clara com manchas brancas e alguns buracos e rasgados aqui e ali. Ele usava um cinto também preto, com quadrados prateados colados nele. Usava um óculos escuros de motoqueiro, mesmos estando de noite, e tinha bastante gel no cabelo castanho dele, usado para deixar o cabelo fixo numa posição alta. Usava luvas de couro preto reluzente e uma jaqueta de couro também, com as mangas arrancadas.

– Quem é você e o que faz no meu quarto? – Eu perguntei, ainda tentando processar tanto preto em uma pessoa só.

– Quem é você e o que falou com Jessica? – Ele retrucou.

– Perguntei primeiro. – Falei infantilmente.

– Então responda primeiro. – Ele retrucou novamente, usando o mesmo tom que eu.

– Porque eu tenho que responder? Você invadiu meu quarto primeiro.

– E você entrou no nosso caminho primeiro. – Ele falou, agora apoiando os cotovelos no joelho.

– Eu nem... Ahhh, pera aí, você é da Irmandade... – Concluí.

– Então ela contou quem somos. – Ele falou como se isso fosse o maior crime desde Judas.

– Um pouco, não entrou em detalhes. Ela me disse que vocês têm cartas e que querem entender as sombras. – Eu disse.

– O que mais? – Ele continuou.

– Somente isso. Agora que falei demais é sua vez. Porque está no meu quarto? – Falei, criando coragem.

– Investigando. – Ele respondeu simplesmente.

– O que? – Eu continuei. Ele se levantou e se aproximou de mim, ficando a alguns centímetros de meu rosto.

– Se você é uma possível aliança... – Ele pausou. – Ou se é uma possível ameaça.

– Sou nenhum dos dois enquanto o seu bafo não se afastar. – Falei, usando uma resposta passiva-agressiva-ofensiva.

– Sua graça não te salvará sempre, Filipe. – Ele disse, então foi em direção à janela. – Não entre no nosso caminho de novo, pois você não pode me impedir. – E dizendo isso ele sentou no parapeito da janela, e se jogou dali. Corri pra ver onde ele havia caído, mas vi ele deslizando pelo ar até a rua atrás de casa.

O encontro com esse rapaz não seria esquecido tão cedo por mim, principalmente por causa do que Amanda provavelmente fará amanhã. Com isso ainda em mente, me preparei pra dormir, abraçando o corpo defensivamente durante toda a noite.

Tive um sonho lúcido desta vez. Eu tinha controle total sobre meu corpo, e não parecia agir sozinho como sempre foi. Vi na minha frente pessoas, e atrás delas sombras gigantescas, cada uma parecia seguir cada pessoa. Um exército gigantesco estava à frente. Eu olhei para os lados e vi as mesmas pessoas de antes. Nós seis estávamos contra essa imensidão escura. Estávamos em um círculo, cada um cuidando das costas do outro. O chão era de terra pura, parecendo bem longe da civilização.

– Filipe, a estratégia? – Ouvi a voz de Amanda.

– Estratégia? Eu... – Hesitei um pouco. Por não estar no automático eu não fazia ideia do que havia acontecido antes, tampouco o que fazer agora.

– Aqui. – Eu ouvi Will falar, e senti uma mão encostar nas minhas costas. Ela segurava Inteligência. Peguei inconscientemente das mãos dele e equipei.

– Amanda, me dá Velocidade. – Pedi, esticando minha mão em direção a ela.

– Filipe, está comigo. – A garota misteriosa esticou a mão pra trás, e eu peguei. Equipei todas juntas e observei rapidamente tudo ao meu redor. Velocidade me deu a velocidade que queria para absorver dados, enquanto Inteligência me deu a capacidade de armazená-los na mente. Amanda, Will e Jessica eu reconhecia e sabia seus poderes. Quanto à garota que não conheço e ao homem que havia visto uma vez, seus poderes ainda não sabia. A grande massa negra parecia esperar nosso primeiro movimento, e se mexia agonizantemente atrás de seus líderes. Tentei raciocinar o que faria usando o que sabia dos dois que não conhecia.

– Quem pode manipular o vento agora? – Eu perguntei e eles demoraram pra responder.

– Filipe, você esqueceu? – Ouvi Jessica falar. – Você organizou as cartas por pessoa.

– Esqueci, me digam de novo. – Falei rapidamente.

– Eu. – Disse a garota.

– E fogo? – Continuei.

– Eu. – Will respondeu.

– Faremos o seguinte. Will, crie flechas de fogo ao nosso redor, pra impedir elas de se aproximarem por baixo. – Comecei. – Faça o menor que puder. Após isso vamos fazer um furacão de fogo.

– Você tá doido? – Ouvi o homem falar. – Isso não vai dar certo. É loucura.

– Falaria ‘Isso é Sparta!’, mas não dá tempo. – Falei. – Só façam. Agora!

Falando isso, me virei e puxei Amanda mais pra perto. Will atirava as flechas rapidamente pra cima, e elas caíram em um círculo perfeito.

– Amanda, eu preciso saber sobre todos de novo. – Ela olhou estranhando. — Me diga primeiro quem é a garota e o homem. – Ela continuou estranhando meu comportamento. – Rápido, tenho pouco tempo.

– Filipe, você está... – Eu interrompi antes que terminasse.

– Só me diga.

– São Emmy e Clint, você nos apresentou a eles. — As sombras, antes estáticas, agora voavam freneticamente em nossa direção.

– Amanda, eu não sou o eu que você pensa. – Falei. Ela não entendeu. Tirei Inteligência e Velocidade e ativei nela. – Eu estou sonhando, e agora eu tenho que saber o que posso. Isso pode ser um aviso dentro do sonho. Sobre o meu futuro. Então me responda rápido.

– Sim. – Ela disse lentamente. Nós nos afastamos quando ouvimos o grito de Will e sentimos o vento passar mais forte.

– Quem são as pessoas daquele lado? – Falei, apontando. Ouvi o furacão se formar atrás de mim.

– A Irmandade. – Ela disse, e fiquei estático por um segundo.

– Garoto, sua ideia é boa, mas não será por muito tempo. – O homem disse. – Adoraríamos mais uma ideia.

– Amanda, me diga a descrição da carta de fogo.

– Ela diz que o usuário pode lançar projéteis de fogo. – Maravilha. Me levantei e fui ao ouvido de Will.

– Will, veja se pode lançar pequenas, minúsculas, bolas de fogo que não apagam. – Ele parecia não ter entendido. — Se você puder, isso vai acertar mais. – Falei isso, e ele imediatamente tentou fazer. Voltei pra Amanda.

– Porque a Irmandade faz isso? – Eu perguntei.

– Porque aconteceu um problema. A Jessica veio até nós pra pedir ajuda, mas era tarde demais.

– O que aconteceu? – Falei, agora gritando devido ao barulho ensurdecedor das sombras em cima da gente.

– A captura deu errado! – Ela gritou, e isso fez tudo ficar escuro.