A verdadeira magia
16 O ensinar
– Filipe... Eu... – Ela deu uma pausa. – Eu... Eu preciso de um vestido.
Caí pra trás. Essa era a emergência?
– Como assim ‘Preciso de um vestido’? – Vociferei. – E você pede pra mim?
– Sim, porque... Não tenho muita gente pra pedir. – Ela falou, abraçando ainda mais os joelhos.
– E como eu vou poder ajudar? Eu sou homem! – Falei, agora dando um pouco de graça pra situação, mas ainda não acreditando. – Não sou bom nesse tipo de coisa, minha munheca é firme. – Falei, girando a mão pra ela ver. Ela olhava tudo atenta, e ria levemente.
– Você não pode me salvar? – Ela falou com voz de gatinha manhosa.
– Ajudo, claro, mas já aviso que não vai dar certo. – Respondi rapidamente e ela abriu um grande sorriso. – Você não podia pedir para suas ‘empregadas’? – Falei, usando os dedos para fazer aspas no ar.
– Elas iriam dizer que fico linda com qualquer coisa. – Ela disse. – Vem comigo agora no shopping?
– Agora? Porque agora? – Perguntei.
– Porque preciso dele pra essa noite.
A situação não estava melhorando. Mas promessa é promessa. Droga.
– Ok, mas eu tenho que passar em casa primeiro. Não quero ir pro shopping assim. – Falei, olhando ao redor. – Na verdade nem iria vir aqui assim.
– Porque não, está tão casual. – Ela falou, agora se esticando na cama.
– É, mas... Não é... – Gesticulei bastante. – Adequado. Enfim, eu terei que me trocar mesmo. – Falei, esperando Amanda agir. – E como vamos?
– Vou pedir pro Jamie levar a gente. – Jamie?
– ... Ok. – Concluí lentamente. Amanda ainda não tinha saído da cama. – E esse pedido inclui você se levantar?
Amanda fez cara manhosa, e se levantou visivelmente contra sua vontade.
– Filipe, espera lá em baixo. Eu tenho que me trocar. – Ela falou.
– Ok, mas a gente vai ter uma grande conversa sobre emergências. – Eu respondi. – Me fez correr desesperado pra cá.
– Filipe, espera. – Ela falou séria.
Eu me virei e olhei pra ela.
– Diga.
– Eu descobri uma coisa quando usei Velocidade e Transformação juntas. Velocidade conseguiu melhorar Transformação.
Eu fiquei mais sério. Eu não havia notado efeito nenhum usando Velocidade e Dimensão alternativa juntas.
– Qual efeito? – Perguntei.
– Olhe. – Ela disse.
Amanda se ajeitou e ficou parada no meio do quarto. Vi rachaduras surgirem pelo seu corpo, semelhante ao que tinha visto no meu quarto. Elas cresciam em número, até que começaram a quebrar. Mas dessa vez eu não vi as cicatrizes que Amanda tinha. Dessa vez eu vi Amanda com uma roupa diferente. Não entendi o que isso significava.
– Entendeu? – Ela me perguntou assim que os pedaços sumiram no chão.
– Não muito... Você ativou Transformação. – Concluí.
– Sim.
– Mas não desativou a transformação anterior, que você disse que era uma proibição da carta.
– Sim, e isso foi por causa de Velocidade. – Ela disse. – Eu percebi essas mudanças desde quando equipei Velocidade, junto com Transformação. O tempo mínimo diminuiu também, e eu posso fazer uma transformação por cima da outra. – Ela falou quase pulando de alegria.
– Isso é maravilhoso! – Foi contido, mas foi um grito. – Isso é incrível. – Lembrei da descrição de Velocidade. – Efeito aprimorável. Será que era isso que ela quis dizer?
– Pode ser. – Ela falou. – Eu imagino o que outras cartas podem fazer... – Ela concluiu pensativa.
Essa informação fez meu cérebro entrar em overdrive de novo. Imaginar a possibilidade de cartas se combinarem e melhorar o efeito uma da outra, fiquei pensando no número infinito de possibilidades. Amanda tinha me empurrado pelas escadas para a sala de estar, mas quase não prestei atenção no que dizia. Ouvi a parte do fica aqui, e respeitei isso, me sentando no sofá ali próximo. Até fazia sentido, pois eu senti uma grande diferença usando Inteligência e Velocidade juntas.
Tive pouco tempo pra refletir sobre isso, pois Amanda novamente me forçava a andar. Ela me puxou com força do sofá, mas agora eu já estava mais focado em onde eu estava. Nós saímos e seguimos até um carro e já entramos direto nele. O rapaz que dirigia tinha uma calça social preta e um colete cinza claro sobre uma camisa branca, com uma gravata vermelha passando por dentro do colete. Usava luvas pretas de dirigir, algo que eu achava muito ridículo de se usar, mas nele havia combinado com a roupa, o deixando parecido com um agente secreto disfarçado. O cabelo era bagunçado, predominantemente loiro. Isso porque algumas partes pareciam ser bem mais perto do castanho do que com o loiro mesmo.
– Para onde vamos hoje, madame? – Madame? Não era milaide? Aliás, porque diabos chamavam ela de milaide?
– Descendo a ladeira, perto da escola. – Ela falou, se apoiando um pouco no banco da frente. Nós dois estávamos atrás e Jamie sozinho na frente.
– Então vamos. – Ele falou, soltando um sorriso logo depois.
O carro começou a tremer indicando que a chave havia sido girada, e logo seguimos pelos portões da casa até a rua. Descemos a ladeira que eu lutei para subir, e logo chegávamos aos portões da escola. Dali em diante Amanda o guiava pelas ruas até chegarmos na minha casa. Ele estacionou no meio fio e logo descemos, mas Jamie não pareceu que iria descer.
– Amanda, ele não vai descer com a gente? – Cochichei perto de seu ouvido.
– Se você o convidar... – Ela falou, deixando o silêncio concluir suas palavras.
– Jamie, gostaria de entrar? – Perguntei me virando pra ele.
– Não é necessário. Obrigado pelo convite. – Ele respondeu com um sorriso.
Abri a porta ligeiramente e entrei em casa com Amanda logo atrás de mim. Segui para as escadas enquanto Amanda se jogava no sofá. Subi e entrei no meu quarto pra me trocar. O cheiro até era suportável, não tinha muuuuuito suor. Vesti um short jeans largo e uma camisa azul escura, e já descia de novo. Com velocidade e habilidade treinada por anos, desci as escadas dois a dois degraus. Na sala, Amanda estava jogada no mesmo lugar de antes. Agora eu tinha notado a roupa que estava. Um short azul curto e uma camisa regata branca com um colete rosa por cima. Ela havia prendido os cabelos castanhos num rabo de cavalo para exibir o colar prateado em seu pescoço, com um simples coração pendurado nele.
– Amanda, estou pronto. – Falei, depois de notar estas coisas. – Vamos indo.
Ela se levantou do sofá e foi em direção à porta para sair. Eu olhei ao redor confirmando a casa e fechei a porta, trancando com volta dupla, e entrei de novo no carro.
– Pra onde agora, madame? – Esse madame tá me irritando demais.
– Pro shopping. Na entrada sul, perto...
– Das lojas de roupa. – Jamie completou. – Vamos nós. – E acelerou o carro.
Jamie seguia pelas ruas com facilidade, devido ao dia ser de fraco movimento, mas à medida que chegávamos perto do shopping o trânsito foi ficando mais pesado. Jamie contornava isso indo por ruelas e becos que me eram antes desconhecidos, mostrando seu imenso conhecimento da cidade. Chegamos no shopping em tempo recorde, se comparado com dias de tráfego pesado. Descemos do carro na calçada do shopping, e logo Jamie dirigia novamente, pegando um sinal verde e sumindo de vista entrando numa rua à direita.
– Amanda. – Comecei assim que entramos pela porta do shopping. – Primeiro quero dizer que foi muito bom conhecer sua casa, tal e tal... – Parei de mover os braços. – Mas me diga, como não passou pela sua cabeça de contar que você é rica? – Havia saído mais forte e alto do que eu esperava. Amanda olhou incrédula pra mim.
– Eu não sou rica. – Ela respondeu utilizando o mesmo tom de voz que eu tinha usado no rica. – E nem meu pai. Não muito. – Fiz uma cara de “You don’t say” pra ela. – Só que meu pai tem um negócio simples, ainda pequeno. E ele resolveu fazer uma casa um pouquinho maior. – Meu rosto não havia mudado ainda. – E isso importa no que? – Ela falou, agora olhando pra mim como se eu estivesse doido.
– Em nada, mas pelo menos eu ficaria preparado, e não em quase choque de ver tudo isso de uma vez. – Falei. – Além disso, porque as empregadas te chamam de milaide, mas Jamie te chama de madame? – Continuei, agora tomando o controle da conversa que havia perdido antes.
– Ele não se importa com status. Ele é mais meu amigo do que um empregado. E ele usa madame ironicamente. – Ela concluiu cruzando os braços.
– Não foi o que pareceu. – Respondi. Ia até falar mais alguma coisa, só que Amanda foi mais rápida.
– Chega. – Ela falou, fechando a mão em um gesto de silêncio forçado. – Eu não vim aqui pra falar sobre isso, eu vim aqui pra comprar um vestido. – Ela concluiu, deixando sua voz transparecer raiva. – Agora vem. – Ela agarrou meu pulso e me puxou até a primeira loja.
Ela me forçou a rodar por todos os manequins, seções e cabideiros que existiam ali. Ela pegava roupa após roupa e jogava em cima de mim, e eu, devido a minha promessa anterior, fiquei segurando pra ela. Tortura de níveis que jamais havia experienciado antes. Quando pude descansar os braços foi a vez de ver Amanda em cada vestido. Teria sido mais interessante se fosse essa parte primeiro, porque agora minha mente estava mais cansada do que tudo.
Duas longas horas depois ela havia decidido por um vestido vermelho claro longo. Saímos e logo Amanda puxou seu celular, mas eu impedi.
– Não precisa ligar pro Jamie, vamos andando. – Falei.
– Você deve estar maluco... – Ela falou em resposta.
– Não, maluco é quem chama alguém pra casa dela dizendo que é uma emergência, mas na verdade só precisava comprar um vestido. – Eu respondi em tom de gozação.
– Isso não é motivo nenhum pra não ligar pro Jamie. – Ela falou cruzando os braços com voz manhosa.
– Sem essa. – E agora foi com firmeza. – Temos que ir a pé porque preciso falar algumas coisas com você. – Olhei pra ela. – E não dá pra falar com o Jamie por perto.
Ela agora tinha entendido o que eu quis dizer, e então se pôs a andar, eu seguindo ao seu lado. Pegamos uma rua pouco movimentada e então comecei a falar.
– Você notou mais algum efeito? Sabe, por causa de Velocidade? – Perguntei.
– Não, só esses mesmos. – Ela respondeu. —
– Pelo menos isso te deu algum combate. – Concluí. – Agora não haverá problema se você encontrar sombras.
– Filipe, você conseguiu um meio de usar Dimensão alternativa melhor? – Amanda me perguntou.
– Olhe só. – Falei, e logo criei uma esfera de luz na mão direita. – Vou mandar aquela lata ali no chão. – E joguei propositalmente longe dela. Durante o voo da esfera, Amanda olhou pra mim cínica.
– Filipe, você errou... – Ela falou com a voz emanando a decepção de alguém que esperava muito. – Como você pode usar... – E a esfera tocou o chão, se espalhando para todas as direções.
– Essa Esfera de luz é especial. – Falei com pose arrogante. – Ela vai se espalhar... – Estiquei dramaticalmente o espalhar para deixar a luz tocar na lata. Ela tocou e se juntou completamente na lata, fazendo ela desaparecer. – E voilá. A latinha desapareceu pra dimesão.
– Incrível... – Ela falou abestalhada. – E como você faz pra voltar?
Joguei mais uma Esfera de luz, desta vez chamando a lata de volta.
– Do mesmo jeito. – Respondi. – É claro que tem meios mais rápido e ofensivos de usar, mas serve para mandar várias coisas de uma vez.
– Quais mais? – Ela perguntou com brilho nos olhos.
Durante a caminhada até a casa dela, sempre que possível, eu mostrava um dos modos que aprendi. Até contei sobre os problemas de cada um, e suas aparentes vantagens também. Contei sobre o que aconteceu no terreiro que estava treinando, contando sobre o ataque de sombras e do homem que apareceu logo depois. Isso foi perto do portão da casa dela, quando eu terminei de contar tudo. O que aconteceu depois foi algo que eu não esperava que fosse acontecer hoje.
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