Parecia que eu tinha entrado em uma enorme encrenca, porém, se por acaso James fosse só algum tipo de maluco, que teve um surto psicótico, lendo meu livro, e inventou todo aquela trama?

E por que ele teria a chave do apartamento da minha avó? E se aquela história dele fosse verdade, qual era a participação dele? E a da minha avó, o que ela tinha a ver com tudo isso?

— Você é Tony Felix? – perguntei à queima-roupa, já que o criminoso estava em liberdade, outra vez.

— Por Deus, não!

— Então, quem é você? Carlos? Alguns das capangas de Tony? Ou um dos policiais corruptos?

— Não sou nenhum deles. Eu não estou no seu livro – ele respondeu, me encarando, seus olhos tinha uma frieza assustadora.

— Se você não está envolvido, como sabe de tudo isso? – questionei, com misto de desconfiança e curiosidade.

— Isso não importa! – ele falou, sua voz saiu baixa e seca

— Claro que importa! – Ao contrário dele, minha voz saiu alta e estridente.

— Sua avó me contou quando nos conhecemos, há muitos anos, e pediu minha ajuda para protegê-la? – Aquela resposta me pareceu bem coerente. — No devido tempo, você saberá de toda a verdade, Julia – profetizou, percebi que ele não responderia mais nada sobre si mesmo, então mudei o assunto.

— E minha avó, como ela está envolvida nessa história?

— Sua avó era um dos personagens principais, por isso ela mantinha esse segredo bem guardado.

— Uma das personagens principais? – Minha cabeça começou a trabalhar rapidamente, se Heloisa estava morta, então minha avó seria Arlete, que estava grávida de Carlos, quando desapareceu. Meu Deus! Eu entendia o porquê de ela nunca ter revelado o nome do pai de minha mãe! Meu avô era Carlos, um bandido, um assassino. Minha mãe se chamava Carla, por causa do pai dela, se ela descobrisse isso morreria de desgosto.

Por todo tempo que minha cabeça trabalhava sem parar, James continuava me encarando, calado, como se esperasse minhas reflexões, até que começou a explicar:

— Sua avó não teve escolha, precisou fugir, mudou de nome e de vida. Por muito anos, morou em pequenas cidades até resolver voltar, achando que já tinham se esquecido dela. – Lembrei-me da minha mãe contando como era a vida no interior, que minha avó resolver voltar para a cidade, para sua filha poder fazer faculdade. James prosseguiu: — Ela pensou que poderia viver e morrer em paz, cercada pela família. Mas, isso não aconteceu, eu suspeitei que a tinham encontrado e que estava sendo seguida, mas ela não acreditou.

— Como você acha que a descobriram?

— Não sei, mas meu palpite que foi por causa da sua irmã. Quando as fotos dela apareceram nos outdoors e revistas de toda a cidade.

Recordei-me que minha avó, sempre foi contra a minha irmã trabalhar como modelo. Então, era por isso, a semelhança entre as duas poderia revelar o seu segredo escondido por tanto tempo.

— Mas, por que, depois de tanto tempo, minha avó poderia incomodar alguém? – Estava intrigada.

— A resposta está no seu livro, Julia.

— Como assim?

— No final.

— O ouro? – Lembrando-me do monte de ouro de Tony, que Carlos e Arlete haviam roubados.

— Não, ninguém se importava com o ouro. Mas, os outros objetos guardados ali, os livros de contabilidade e as agendas com os nomes dos corruptos e os valores pagos a eles. Tinha muita gente importante ali, como políticos e policiais.

— Mas, já faz tanto tempo, os crimes já prescreveram, a maioria dessas pessoas estão mortas. Não haveria porque se preocupar.

— Contudo, alguns ainda estão vivos, carreiras antigas e proeminentes poderiam ser destruídas ou, pelo menos, abaladas. E ainda tem Tony, se ele tivesse estes livros teria escapado da prisão, usando de chantagem para isso. E tem os outros envolvidos com os negócios dele que ganharam muito dinheiro com a sua prisão.

— James, ou seja, lá qual for o seu nome, eu não sei de nada disso. Como poderia prejudicar alguém?

— Eles sabem que você conhece toda a história verdadeira, Julia, e podem desconfiar que, também, sabe onde estão os livros de contabilidade, com os nomes daqueles para quem Tony pagava propina. Talvez, achem que você publicou esse livro para se vingar pela morte da sua avó.

— Só foi um erro idiota! Eu nem imagino onde estão esses tais livros! Não sei de nada! E o que eu faço?

— Por enquanto, só tome muito cuidado com todos que se aproximarem de você. Tenho que ir, ficarei fora alguns dias, resolvendo alguns negócios. No entanto, por favor, se cuide, Julia. E é melhor não contar essa história para mais ninguém – Em seguida, James andou, tranquilamente, até a porta e saiu, deixando-me parada no meio da sala, desolada e sem ação.

Com certeza, não poderia contar essa história para mais ninguém. Não queria colocar minha família em risco. Imaginei milhões de coisas, uma delas era que se eu achasse os livros de contabilidade teria algo para barganhar, apesar desconfiar, que essa não seria a ideia principal das pessoas que mataram minha avó, além de não ter a mínima ideia de onde estariam os tais livros. Estava certa que essas pessoas eram muito perigosas e que minha avó foi assassinada, quando descobriram sua identidade pela pesquisa através de Aline.

E, talvez, seus assassinos achassem que todo o perigo havia sido eliminado com a morte dela, até eu publicar o meu estúpido livro, assim, eles souberam que os seus segredos não morreram com ela. Provavelmente, viriam atrás de mim, para me matar, seria melhor fugir, ir para Nova York, ficar com Aline, seria uma opção, mas isso, poderia colocar minha irmã em risco, também.

Não! Eu decidi que precisava enfrentar isso sozinha, não podia envolver mais ninguém nessa história.

Sendo assim, seria eu que precisaria me preparar para enfrentar um inimigo ainda desconhecido, para isso, tinha que ter conhecimento, o melhor seria reler o manuscrito da minha avó prestando atenção nos detalhes. Tentar descobrir quem poderia ser o responsável pela morte da minha avó. E poderia confiar em James?

Assim, corri até a estante onde havia escondido do manuscrito dela e a caixa de fotos antigas, com eles na mão, sentei-me na frente do meu computador para começar minha pesquisa sobre aquele passado obscuro, que voltou para me assombrar.