A ultima provação!
3 Capitulo 2: O Domo.
Bip...Bip...Bip...Bip...
Aquele bip insuportável não parava por nada. Tentava abrir os olhos mas não conseguia, estava fraco demais. Havia pessoas a minha volta, não conseguia distinguir quantas, mas sabia ser mais de uma pois mantinham algum diálogo, ou acredito que fosse. Eram palavras, mas não sabia o que diziam e as vozes pareciam iguais, será que meu cérebro estava funcionando bem?
Fiz mais um esforço em vão de abrir os olhos. Falei para desligarem o despertador, ou imaginei ter falado pelo menos, mas nada mudou, o maldito bip continuou por um tempo que considerei infinito, até que finalmente retornei a escuridão calma e silenciosa.
Bip...Bip...Bip...
— Barulho chato da porra! – Consegui falar, mesmo ao custo de meus lábios ressecados sangrarem um pouco.
Abri os olhos.
O pânico tomou conta de mim por completo. Tentei me levantar, mas o corpo não se movia. Meus olhos não paravam em um único ponto por mais de um segundo vasculhando todo quarto. A medida que meu pânico aumentava aquele bip maldito também crescia, foi quando vi a maquina de onde vinha tal barulho. Não sei o nome daquilo, nunca fui bom com essas coisas, mas estava claramente medindo minha frequência cardíaca através de eletrodos em meu corpo.
Demorou algum tempo, mas à medida que fui me acalmando comecei a perceber melhor as coisas ao meu redor. Primeiramente o motivo de eu não me mexer era bem claro, do pescoço para baixo meu corpo estava completamente engessado e com pinos de ferro saindo de dentro do gesso e presos a suportes paralelos em determinados locais, como minhas pernas e braços, e um bem estranho que parecia vir em direção a minha coluna, mas eu não sentia nada. O quarto era simples e solitário, podia repousar sem que nenhum outro enfermo me incomodasse, e por fim, preso a parede a minha frente havia uma televisão ligada com volume baixo.
Nunca fui de assistir jornais ou documentários, mas algo me chamou a atenção e não consegui desgrudar os olhos. Era um imenso domo negro em meio a um deserto. Enquanto a imagem era mostrada, o apresentador informava que mesmo tendo surgido há duas semanas ainda não haviam descoberto nada útil sobre ele, apenas que qualquer coisa conseguia adentrar, mas até então nada saiu. Em seguida a imagem mudou. Novamente o mesmo domo, desta vez não havia areia do lado de fora, e sim casas. O noticiário continuava, aquele enorme domo estava entorno de toda Paris, pegando pequenas partes de cidades vizinhas, havia uma aglomeração de pessoas do lado de fora, pareciam protestantes, muitos com placas como “O fim está próximo”, “Rezem por nossas famílias” entre outras.
As informações não paravam. Aparentemente jatos de ultima geração da Aeronáutica foram enviados para dentro do domo e adentraram sem problemas, mas logo em seguida as comunicações caíram e eles nunca mais retornaram.
A imagem na tela mudou mais uma vez. Congelei. O domo estava entorno de uma ilha, e lá embaixo um único indicativo na transmissão de que aquele local era Mannhattan. Não ouvi mais nada.
Sheyla!
Meu Deus, ela havia ido para lá. Ela não estava ao meu lado. Não, aquilo não era verdade. Há quanto tempo eu estava ali? Eu precisava dela, ela já teria voltado? Não, com certeza não, conheço-a bem, se estivesse nesta cidade ciente de minha condição certamente estaria ao meu lado.
Será que ela estava bem? O que havia dentro daquele maldito domo? Estava inquieto, queria me levantar, fazia força com todos músculos de meu corpo, mas não me movia. Para piorar, aquele maldito bip só aumentava, não importava; Nada era maior que minha frustração naquele momento.
Continuava a fazer força para me levantar, agora sim meus lábios literalmente sangravam. Os bips aumentaram tanto que vários médicos entraram no local, um com algo em uma seringa que depositou em uma bolsa plástica que estava ligada a um tubo que vinha até o gesso em meu braço, certamente ligado a alguma veia. Meu corpo começou a relaxar, meus olhos estavam pesados. Na TV já não mostrava mais o domo de Mannhattan, mas ele estava cravado em minha mente.
Minhas forças se esvaíram enquanto caia no sono fazendo a ultima coisa que me restava, uma prece, repetida uma, dez, cem, mil vezes, até que finalmente apaguei. Na prece eu pedia pela única pessoa que importava em um mundo em crise, podia ser insensível na visão do mundo, mas naquele momento apenas Sheyla me importava.
Mais uma vez, tudo estava escuro, novidade. Ultimamente tenho sonhado tanto com escuridão, estando dopado ou desmaiado por tanto tempo, entre outros, que já estou até acostumado, acredito que se ao recobrar a consciência não estivesse em meio a escuridão sentiria até falta dela. Espera ai, estou consciente, onde estou?
— O que é a coisa mais importante no mundo para você? – Era uma voz fina, como a de uma garota de dez anos de idade.
— Sheyla. – Respondi sem pensar. – E ela não é uma coisa.
— E sabe onde ela esta agora?
— Naquele maldito domo. Tenho que ir atrás dela.
— E como tem tanta certeza disto? Você estava desmaiado até hoje. – Pude ouvir um risinho que ela não fazia a menor questão de esconder.
— Eu sinto. Não sei como dizer de outra forma.
— Dois corpos um só coração, vocês são engraçados. – Ela continuava com aquele risinho de alegria, o que certamente me irritava. – E o que quer fazer? Ir atrás dela? Nem o exercito voltou de lá.
— Eu vou. Não me importa o que encontre ou o que tente me impedir, chegarei até ela e a deixarei em segurança. Prometi sempre estar ao seu lado. – Eu não sabia quem era a garota dos risinhos, queria na verdade xingar e repreendê-la, mas por algum motivo estava abrindo meu coração e a respondendo de imediato.
— Sabe, gosto de você. Já faz um tempo que lhe observo, aos dois pra falar a verdade. São bem interessantes. – Risadinhas.
— O que voc... – Algo tampou minha boca.
— Gostaria de ver o que vai fazer nesta situação. Mas lembre-se, isto não é um conto de fadas, a vida real pode ser bem mais bruta e cruel do que se pode imaginar. – Uma pausa. — Acredito que não voltará a me ouvir, mas gostaria que me mostrasse que a humanidade pode ser melhor do que tem demonstrado ao decorrer dos séculos.
Antes mesmo de abrir os olhos senti uma brisa fresca no rosto.
Não sei se estava ficando louco, ou se isto já não importava. Qualquer ser humano se assustaria ao acordar em um hospital com todos os ossos do corpo quebrados, imagina então acordar em uma jangada flutuando na água de frente para um domo negro, e com o corpo perfeitamente bem, usando roupas casuais: uma bermuda, uma camiseta e um tênis. Era a deixa perfeita para surtar, mas não tinha tempo para isto, afinal, estava de frente para o domo negro de Mannhattan. Podia ser qualquer outro entorno de uma ilha, mas eu tinha certeza que estava de frente para o certo, será que a dona daquela voz de criança havia dado um jeito de me trazer até aqui? Seria uma divindade? Não importava no momento, guardaria estas perguntas para mais tarde, quando Sheyla estivesse ao meu lado em segurança.
Remei com o braço em direção ao domo. Meu coração doía no peito, à mesma dor que me fez perder os sentidos enquanto dirigia, mas desta vez estava diferente, eu podia suportá-la, era quase como se me guiasse e instigasse a seguir em frente.
Adentrar o domo realmente não era difícil, a sensação era semelhante a passar por debaixo de uma cachoeira, o peso e consistência idênticos ao da água, porém não era molhado, apenas denso e escuro.
Demoraram segundos para atravessar, nos quais me preparei mentalmente para qualquer coisa que pudesse encontrar do outro lado. Foi em vão. Nenhum ser humano poderia descrever o horror dentro daquele domo, e esta era apenas a primeira impressão, mal podia imaginar o quão terrível seria minha jornada a partir dali, apenas sabia que seguiria em frente.
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