A traição de Alana

12 A traição de Alana 12


Fui levada por Will e Lohane até o refeitório, onde inúmeros semideuses faziam suas refeições, sentados à mesa de seus respectivos parentes divinos. Cada mesa estava coberta por uma toalha de mesa branca com suas extremidades adornadas com pano roxo. No centro do refeitório havia uma fogueira de onde irradiava uma chama brilhante em tons de vermelho e laranja. Will me disse que era costume todos os semideuses darem como oferenda parte de cada comida que estivesse em seu prato, como forma de devoção aos deuses.

Eu fiz o que ele me disse. Enchi meu prato com sanduiches, dois grandes hambúrgueres e bastante batata frita (adoro batatas); e depois fui até a fogueira, onde ofereci parte da minha comida para meu pai, Pugnis Rex.

Assim que a comida foi jogada ao fogo, ela desapareceu e um cheiro de terra molhada preencheu meu nariz. Will me informou que o cheiro que exalava após a comida ser jogada era uma forma de os semideuses saberem que sua oferenda foi recebida com sucesso pelo deus ou deusa em questão.

— Toda vez que ofereço algo para Apolo, eu sinto cheiro da torta que minha mãe sempre faz quando estou em casa. – Ele me disse. – Acho que é essa forma que meu pai me faz entender que recebeu minha oferenda.

— Eu sinto cheiro de chocolate quando ofereço para Hermes. – Disse Lohane.

— Nossa, que legal. Enquanto todo mundo aqui sente cheiro de comida boa, eu fico com o cheiro de terra molhada.

Will sorriu.

— Poderia ser pior. Já pensou ele te manda cheiro de algum cadáver?

— Cale a boca. – Eu disse para Will.

— Relaxa Alana, isso não é algo tão grandioso assim – Disse Lohane, tentando me animar. –, O importante é saber que a oferenda foi recebida com sucesso. Talvez seu paimude o cheiro na próxima oferenda que você for entrega-lo.

Espero que sim, eu pensei. Não que eu não gostasse do cheiro de terra molhada. Eu amava quando a terra era banhada pela chuva. O cheiro que exalava quando isso acontecia era muito bom para mim (sim, eu gosto mesmo). No entanto, bem que Pugnis poderia melhorar na comunicação comigo não acham? Pois bem, eu acho.

******

Sentei à mesa com todo o pelotão que morava no chalé 11. Lohane me disse que éramos 13, mas parecia que havia muito mais pessoas ali. Will foi comer com seus irmãos na mesa do chalé de Apolo, de modo que fiquei ao lado de Lohane e muitas pessoas estranhas. Alec, que estava sentado na minha frente, tendo Clóvis e Andrew ao seu lado, me fitava com olhos cheios de ódio; enquanto eu devorava meu delicioso hambúrguer repleto de mostarda e ketchup.

Quando passei a observa-lo também, ele me mostrou sua língua, de modo que eu fiquei feliz em abrir minha linda boca cheia de comida em sua direção – O que o deixou esboçar uma expressão de nojo em seu rosto.

— Sua porca. –Ele disse.

Sorri com aquilo, mas percebi que todos me olhavam com uma expressão mista. Lohane parecia não entendere por esse motivo perguntou a Alec o porquê de ele estava me xingando.

— Essa idiota me mostrou a boca cheia de comida. – Ele respondeu.

— E você me mostrou a língua. – Retruquei.

— E daí? Eu sou uma criança. Tenho direito de mostrar minha língua para quem eu quiser.

— E eu tenho direito de mostrar minha boca cheia de comida também. – Disse abrindo a boca novamente.

— Porca. – Alec gritou.

Todos ao redor começaram a rir, o que deixou o menino bastante irritado.

— Vocês deveriam estar me defendendo. Essa menina é nojenta. – Gritou Alec.

— Acalme-se irmão. – Disse Clóvis. – Ela está brincando com você.

— Não quero brincadeiras com essa retardada.

— Eu não sou retardada. – Respondi. – Sou tudo no mundo, inclusive meio tonta, mas retardada ainda não.

— É retardada sim. – Alec disse com firmeza. – E eu ainda irei me vingar de você, Alana. Espere e verá.

Alec deixou o refeitório pisando duro. Seus movimentos eram bruscos, como se ele pensasse que a cada pisada forte que desse na grama, mataria todos os seus inimigos.

Andrew terminou de comer seus sanduiches e também deixou a mesa de Hermes.

— Eu vou atrás de Alec – Ele me disse. – Não se preocupe que ele não fará nada de mal a você.

— Obrigado. – Respondi mais por educação do que qualquer outra coisa. Fala sério, o que uma criança irritada poderia fazer contra mim?

Assim que Andrew saiu, Clóvis foi sem eu encalço, dizendo que ele também não poderia deixar Alec sozinho.

— Você gosta de provoca-lo, não? – Disse Lohane, enquanto terminava seu suco de laranja.

Dei de ombros para ela e disse:

— Não sei de nenhuma provocação. Apenas estava brincando com ele.

— Eu tenho muito medo de Alec. – Lohane confessou. – Esse seu gênio forte pode ainda um dia prejudica-lo.

— Não é para tanto, minha querida irmã Lohane. Alec é bastante genioso, mas nada mais do que isso. Ele ainda vai mudar. – Disse um garoto, sentando-se no lugar onde Alec estava. Seus olhos negros me fitavam, enquanto sua boca sorria travessamente. – É um prazer conhece-la, Alana. Eu me chamo Connor Stoll, e sou o conselheiro chefe do Chalé 11.

Observei o garoto com mais atenção, e percebi que ele não era muito alto, mas ainda sim era bonito. Connor Stoll era magro, tinha cabelos não muito encaracolados e negros como seus olhos, e usava o uniforme padrão do acampamento meio-sangue: Uma camiseta laranja bizarra, e calça jeans velha. Em seu pescoço pendia um colar feito de tira de couro, onde várias contas estavam muito bem amarradas.

Até onde eu sabia cada conta que um semideus tinha pendurada no pescoço, significava um ano a qual ele viveu dentro do acampamento. De acordo com o número de contas de Connor, ele estava ali há muito tempo.

Sorri para Connor da melhor forma possível e comentei:

— Fico feliz em conhecer o conselheiro do chalé.

— Na verdade ele é apenas um dos conselheiros. – Disse outra voz. Ela pertencia a outro um garoto que era a cópia exata de Connor, embora ele me parecesse um pouco mais alto que o irmão. – Eu sou Travis Stoll, o outro conselheiro do chalé 11.

—Travis é apenas o segundo no comando. – Connor disse. – Mas o que ele diz serve também deve ser visto como lei.

— Certo – Eu disse já imaginando onde aquela conversa iria chegar. – E vocês não vieram apenas se apresentarem para mim correto? Tem algo por trás disso não tem?

Os dois irmãos se entreolharam sorrindo e depois voltaram suas atenções a mim.

— Com os filhos de Hermes sempre existe alguma intenção por trás de toda ação. – Disse Travis.

— Exatamente. – Concordou o Connor. – A não ser quando fazemos algo sem intenção alguma por trás, o que é bem raro de acontecer.

Fitei os dois meninos por um breve momento e depois dirigi meu olhar para Lohane.

— Eles são malucos não são?

Lohane sorriu.

— Alguns dizem que sim, outros não. É difícil saber.

— A loucura é algo divertido. – Disse Connor. – Mas não, ainda não somos loucos.

— Nós estamos apenas querendo que você se sinta muito bem vinda ao acampamento meio-sangue, e é claro ao chalé11. – Disse Travis. – Queremos também que você respeite nossas regras, sendo que uma delas é...

— NÃO HAVER REGRAS – Connor e Travis disseram ao mesmo, enquanto todos os semideuses do chalé 11 batiam na mesa em comemoração.

Observei toda aquela algazarra à minha volta e não pude deixar de sorrir com isso. Os Stolls pareciam serem caras legais.

— Muito obrigada – Eu disse. – Mas quando você diz não haver nenhuma regra, quer dizer que todo mundo pode fazer o que quiser no chalé 11?

— Quase isso. – Travis respondeu. – Não é mais permitido colocar fogo nos colchões, seja com algum semideus dormindo ou não nele. Não se pode mais roubar peças intimas limpas dos outros e usar como se fosse sua, e também não aceitamos mais a ideia de guardar animais ferozes dentro do chalé, o que é uma pena porque eu tinha um lindo mini dragão que tive que deixar na floresta ao lado do Peleu, o dragão colossal que protege nosso acampamento de monstros e seres malignos.

— Hum...Muito interessante tudo isso. – Falei com certa ironia na voz.

Connor sorriu.

— Pois é. Mas de resto é tudo liberado.

— Vocês se esqueceram de que não se pode mais andar pelado dentro do chalé. – Disse Lohane.

— Ah, verdade. – Falou Travis. – Claro que não andávamos pelados sempre, mas Lohane nos convenceu de que isso era errado.

— E muito feio. – Lohane acrescentou.

— Ok...Muito feio. – Connor concordou. – E existe apenas outra coisa que não se pode fazer, e infelizmente você minha querida Alana acabou fazendo, o que achamos muito feio da sua parte.

— É verdade – Disse Travis. – Alec veio nos dizer que você se apoderou da cama a qual antes pertencia a nosso falecido irmão Luke Castellan. Sabia que isso não é aceitável?

Sabia que iriam dizer algo sobre essa maldita cama. Aquele Alec me paga.

— E por que não é aceitável? É só uma droga de uma cama, oras.

— Sim, mas ela tem todo um sentimento envolvido, e se você for mesmo querer ficar com ela, terá que pagar o preço. Está disposta a isso?

Revirei os olhos para os meninos. Quem eles pensavam que eram pra me encherem o saco com toda aquela conversa fiada?

— Seja lá o que for eu topo. – Disse para os irmãos Stoll.

— Acho melhor você reconsiderar o que disse Alana. – Lohane comentou ao meu lado.

— Tarde demais. – Disse Travis. Ele me fitou com um sorriso de vitória no rosto, a qual eu não sabia se achava bonito ou se ficava assustada. Optei por achar bonito. – Se quiser ficar com a cama, terá que completar um desafio, o que acha?

— Por mim tudo bem. – Falei firmemente. – Alana Montechio não teme um desafio.

— Ótimo – Os dois meninos disseram juntos.

Eles olharam para trás, e virão Quíron galopar até a grande mesa, onde os inspetores e o diretor do acampamento, Sr. D, estavam. Quíron ergueu a mão direita para cima e todo mundo no refeitório fez silêncio.

— Amanhã nós falaremos sobre seu desafio. – Travis sussurrou perto de mim. – Agora teremos que ouvir o discurso de boas vindas de Quíron. E sim, essa parte é a mais chata quando se é novato no acampamento.