A traição de Alana
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O discurso de Quíron até que não foi tão chato assim. Na verdade eu gostei muito pelo fato de algumas coisas legais terem acontecido. A primeira foi que ele disse a todo mundo que eu era linda (sempre soube), e que era uma honra me receber naquele lugar.
— Mesmo que seu pai não tenha ficado do lado dos deuses, estamos em uma época de paz, e por esse motivo, qualquer semideus é aceito em nosso acampamento. – Disse Quíron, o que fez vários semideuses aplaudirem suas palavras e outros me olharem de cara feia.
Depois disso, aconteceu algo muito mais legal: Eu fui oficialmente reclamada por meu pai. Caso você não saiba, todo semideus que chega ao acampamento meio-sangue somente é reconhecido oficialmente como filho de um determinado deus ou deusa quando o mesmo o reclama, ou seja, confirma sua paternidade para que todos ali não desconfiem da legitimidade do semideus em questão.
Meu pai fez isso comigo. Enquanto boa parte dos jovens aplaudiam o discurso de Quíron, uma luz de coloração marrom apareceu sob minha cabeça. Eu não tinha percebido o que acontecia até me tornar mais uma vez o centro da atenção de todo mundo. Até mesmo Quíron ficou me observando, o que me deixou bastante desconfortável com tudo aquilo.
— O que diabos vocês querem agora? – Eu perguntei.
— Você está sendo reclamada por seu pai. – Disse Lohane, apontando para a luz marrom acima de mim. – Olhe para cima.
— Eu estou o que? – Perguntei enquanto seguia com os olhos a direção que Lohane estava apontando.
Cara, eu não sei dizer o quanto fiquei feliz com aquilo. Sei que parece besteira (e de fato é mesmo e eu me odeio por isso), mas quando vi que dentro da luz marrom acima de minha cabeça havia uma mão fechada em punho, — O símbolo de meu pai –, eu me senti como uma criança de novo, sendo levada pela primeira vez ao encontro de Pugnis em seu palácio. Aquele dia foi mágico, pois eu conheci um deus extremamente poderoso, autoritário, mas ainda assim muito amável (pelo menos comigo porque com o resto do mundo meu pai era brusco como um rei deveria ser).
Pugnis me contou que amou minha mãe como nunca amou um ser vivo em toda sua vida. Ele disse que foi incentivado por Aitna, minha tia, a ter um relacionamento amoroso com minha mãe, pois ela sentia que do fruto desse amor, nasceria um ser muito forte e com uma grande missão no futuro (Eu mesma). Pugnis ainda me disse que mesmo a distância ele sempre esteve me protegendo, mandando seus servos de pedra ficarem sempre a postos caso alguma coisa acontecesse comigo e minha querida mãe.
Sim, eu sei o que você deve esta pensando. Se meu pai tinha vários servos, por qual motivo minha mãe morreu? Simples: Por que o deus que mandou aquele ser de pele cinzenta e grandes olhos vermelhos atacar a minha casa, era e ainda é muito poderoso. Meu pai nunca me disse o nome certo do deus, e nunca me deu nenhuma pista que pudesse fazer com que eu adivinhasse quem fosse. Ele apenas informou que o deus era descendente de Zeus e isso acaba por ser muito vago já que pode ser qualquer um visto que o líder dos olimpianos tem mais filhos do que qualquer outra deidade no mundo com exceção apenas de Gaia, e os demais deuses primordiais (Já falei que a mulher de Zeus é uma eterna corna? Pois bem... Ela é).
Eu pensei em alguns nomes de deuses descendentes de Zeus que eu conhecia e os classifiquei como suspeitos. Eu disse os nomes para meu pai, mas ele apenas me deu um sorriso amarelado e disse:
— Minha pequena, nenhum desses deuses é mesmo o idiota que matou sua mãe. Ares pode ser sanguinário, Hércules bastante forte, mas eles são inocentes dessa vez. – Disse Pugnis. – O deus que tirou a vida de Aline Montechio é muito poderoso, mas não é muito levado a sério.
— Então o deus é Dionísio? Ele nunca é levado a sério, mas mesmo assim é muito poderoso. – Perguntei na época.
— Não, o deus do vinho não tem nada a haver com isso.
— Ao menos diga- me se o deus faz parte do Monte Olimpo, pai – Eu insisti. – Se você disser isso, eu conseguirei descobrir o resto da resposta sozinha.
— E o que fará quando souber da verdade?
— Eu me vingarei. Matarei o deus e trarei paz para minha mãe.
Pugnis gargalhou. Sua voz grossa era tão alta e poderosa que o palácio por um momento pareceu que iria desabar.
— O que eu disse de tão engraçado? – Perguntei.
— Você acha mesmo que uma mortal pode matar um deus?
— Vocês não podem ser totalmente indestrutíveis.
— E não somos. – Pugnis revelou. – Nós deuses temos algumas fraquezas, e você saberá com o tempo. Filha, eu irei ajuda-la a se vingar, mas apenas no momento certo. No momento você é apenas uma criança, mas quando a hora chegar, eu irei estar do seu lado na luta por sua vingança.
Meu coração se aqueceu com as palavras de meu pai naquele dia. E hoje, de frente a todos aqueles semideuses me fitando, eu me senti protegida novamente por Pugnis, o que me deixou ainda mais confiante sobre minha missão de destruir o acampamento.
— Todos se ajoelhem em frente à Alana, a filha legitima de Pugnis Rex, senhor dos deuses Apeninos da Itália.
Uma aglomeração de jovens se curvaram à minha frente, e eu adorei cada segundo daquilo. Leo Valdez me fitava ao longe com uma cara um tanto quanto irritada, mas mesmo assim não se atreveu a não se curvar. Quando o símbolo de meu pai sumiu de minha cabeça, e todos se levantaram Sr. D (Como era mais conhecido o diretor do acampamento meio-sangue) falou:
— Curioso você estar sendo reclamada por seu pai justamente em um acampamento onde a maioria dos deuses é grega. Tem certeza de que deveria está aqui e não no acampamento Júpiter?
Eu não tinha uma resposta para dar sobre aquela pergunta. Eu também tinha essa mesma dúvida, afinal os domínios de meu pai de fato se encontravam próximos do que um dia foi o grandioso império Romano. Não existe uma forma grega conhecida de Pugnis. Porém, cá estou eu, vivendo entre gregos e ainda por cima sendo interrogada sobre algo que nem mesmo eu sabia responder.
— Bem... – Eu comecei dizendo, mas fui interrompida por Jason Grace, que começou a falar e todo mundo passou a se interessar em suas palavras (Será que todos os filhos do deus dos raios chamam sempre a atenção para si?):
— Não esqueça Dionísio que mesmo eu sendo romano, fui reclamado por nosso pai, Júpiter/Zeus, aqui mesmo no acampamento meio-sangue. Acho que essa separação de gregos e romanos não importa mais, você não acha? Isso deveria ser coisa do passado, pois a guerra contra Gaia mostrou que tanto o lado romano quanto o grego devem está em paz para haver harmonia no mundo.
Dionísio tomou um copo de algo que parecia ser Coca diet, e depois falou:
— Você tem razão meu pequeno meio irmão, Jhonson Graves...
— Meu nome é Jason Grace. – Jason corrigiu.
— Tanto faz – Disse Dionísio com um aceno de mão. – E como eu estava dizendo, o fato de Alana ser reclamada aqui em nosso acampamento não deixa de ser algo curioso. Mas se meu pai permitiu que ela entrasse, mesmo sendo filha de Pugnis, porque eu deveria de ser contra não é mesmo? Vivemos em uma época de paz e felicidade. E que isso perdure por muito tempo.
— Com certeza. – Quirón concordou aplaudindo as palavras do deus do vinho, e vendo sua ação ser copiada por boa parte dos semideuses.
Dionísio sorriu radiantemente e pediu silêncio para poder falar:
— Agradeço os aplausos, mas temo que tenha que deixar o acampamento por um tempo, pois os deuses no olimpo me esperam lá em cima. – Dionísio fitou o céu durante alguns segundos e continuou: — Enquanto eu estiver fora, Quíron irá comandar esse lugar como comandou durante muitos séculos. Espero que se comportem enquanto eu estiver fora, pois caso haja alguma outra guerra, eu juro que transformarei vocês em sementes de uvas. Estão entendidos?
— Sim – Um coral de vozes respondeu.
— Ótimo. — Comemorou o deus do vinho. Ele dirigiu sua atenção para mim e sorriu: — Espero que tenha uma ótima estádia em nosso lar, minha queria semideusa.
Com essa última frase, Dionísio desapareceu em uma fumaça roxa, deixando um cheiro gostoso de uvas pairar por todos os lados. Quirón pigarreou para chamar a atenção de todos novamente e falou:
— Imagino que todos já tenham jantado a esse momento, pois está na hora da cantoria. Vamos todos para o anfiteatro cantar ao redor da fogueira.
Houve suspiros misturados com gritos de alegria após a fala de Quíron, mas quase todo mundo seguiu para fora do refeitório, embalados pelo sentimento de diversão que iriam usufruir. Lohane me puxou pelo braço e me guiou em meio à multidão de jovens.
— Vem, você vai gostar da fogueira. Ela é mágica.
— Outra fogueira mágica? – Eu perguntei.
— Essa é diferente. – Disse Will caminhando ao meu lado. – E foi para ela que eu te chamei antes, lembra? Você vai adorar quando chegar lá.
— Não estou muito confiante com isso, afinal não sei cantar.
— Todo mundo sabe cantar – Disse Will. – A única diferença de um grande cantor ou de um amador é a prática. Sem falar que cantar é bom para o espírito e você nunca deve desperdiçar uma oportunidade de cantar, segundo meu pai Apolo.
— Ele diz isso porque é o deus da música – Rebati.
Will revirou os olhos.
— Apenas siga a gente e fique quieta. – Ele disse para mim.
Sorri ao deixar Will nervoso. Era engraçado vê-lo assim, embora não fosse fácil provoca-lo. Segui Lohane e Will até uma construção antiga, e que de alguns aspectos me fazia lembrar o Coliseu. O lugar nada mais era do que uma espécie de Arena, onde uma área de terra batida no meio cercada por arquibancadas feitas de pedras brancas possuía a maior fogueira que eu já tinha visto em toda minha vida.
A luz que saia da fogueira era muito mais brilhante que o fogo do refeitório, e encantava muito mais aos olhos por esse motivo.
— Vamos nos sentar aqui. – Disse Lohane para mim.
Ela e Will se sentaram em minha volta, sendo que Lohane ficou ao meu lado esquerdo, e Will à minha frente. O filho de Apolo começou a conversar com um garoto bastante bizarro, mas ainda assim um pouco atraente. Eu não conseguia ouvir o que os dois diziam, mas sabia que deveria ser algo engraçado, pois tanto o garoto quanto Will sorriam como bobos (Típico dos meninos).
— Quem é esse garoto? – Perguntei para Lohane.
A filha de Hermes olhou para Will e para o menino e deu um grande sorriso.
— Esse é Nico Di Ângelo, um grande amigo de Will. – Lohane respondeu.
— Ele é um pouco estranho.
— Você deveria conhecê-lo também. – Disse Lohane. – Ele é muito legal quando se conhece bem. E é italiano assim como você.
Observei o menino por mais alguns minutos e pude perceber que ele não passava de uma figura muito sombria, sendo que suas principais cores eram o preto e o branco. Nico tinha cabelos revoltosos negros assim como seus olhos. Sua pele era pálida igual os bonecos dos filmes animados de Tim Burton, e suas roupas pareciam terem sido comprados em uma galeria de Rock.
— Algum motivo divino para ele ser tão sombrio? – Eu perguntei.
— Fora seu gênero musical favorito ser o rock, o Nico é filho de Hades, deus dos mortos e do submundo.
Uma lembrança em minha cabeça de meu pai esbravejando sobre seus seguidores não terem derrubado o barco de Leo Valdez passou em minha mente. Na época ele disse que havia um italiano a bordo, e que esse era filho de Plutão. Como não havia outro por ali, certamente ele estava se referindo a Nico.
— Quero muito conhecê-lo depois. – Falei para Lohane.
A filha de Hermes sorriu.
— Eu te apresento ele mais tarde. – Lohane prometeu. – Mas agora bata palmas e cante as músicas com todos do acampamento. Eu amo cantoria na fogueira. E tenho certeza de que você irá amar também.
— Claro que vou. – Eu disse tentando ao máximo seguir o ritmo dos demais cantores.
Eu achei que as coisas legais iriam acabar por ali, mas ainda tinha algo para me acontecer.Quando eu ouvi a palavra Castelli ser pronunciado em meu ouvido, eu tive certeza: Eu tinha encontrado minha ajudante na vingança contra os deuses. E ela era uma garota muito linda.
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