A touch of fire

4 Não estou só sem casa, estou sem chão!



Capítulo IV


— Isso fica cada vez melhor. – Adrian está no sofá vendo uma competição de culinária. É um de nossos programas favoritos. Ver realitys de comida é tipo minha confort zone. Se tive um dia ruim ou se estou triste, é isso que eu quero chegar em casa e ver.

— Eu sei! Em comparação ao macarrão com ketchup que a gente fazia a anos atrás isso aqui é coisa de profissional. — Quando éramos mais novos começamos a fazer esse macarrão por causa das competições que víamos na tv. Coloquei na cabeça que íamos virar chefs profissionais e íamos estar num realiy um dia. E inventei que íamos fazer espaguetti com almôndegas. Não paramos desde então.

— Eu não sei como você pode comer tanto e ser desse tamanho. – eu rio.

— É melhor isso ser um elogio Adrian.

— Claro que é Sofi. – Ele me olha fundo nos olhos, e seus olhos azuis me prendem. Não posso encarar ele assim, tenho medo de tudo estar no meu rosto. Tudo aquilo que jamais posso deixar ele ver. – Você está bonita. – ele diz. Meu coração para um pouco no peito, meu fôlego preso nos pulmões, mas logo ele desvia o olhar.

— Hum, obrigada.

— Acho que a Isa vai ganhar a prova. — a mudança de assunto é tão rápida que eu demoro a entender.

— Sim. – eu concordo. Minha voz está diferente? Eu espero sinceramente que não. – Acho que a sobremesa dela só teve pontos positivos.

— Uhum totalmente. Olha como o careca comeu mais vezes.

— O outro cara é mais exigente e sério Adrian é nele que temos que reparar. Ele influencia os outros.

— Você o que? É uma leitora de postura agora?

— Só muito observadora.

— Você não tá me observando muito tá? — estou. Penso.

-Não o suficiente né? Você cortou o dedo hoje e a faca aqui de casa nem é tão afiada.

-Você me distraiu, foi bem na hora que você começou a cantar.

— E você só não chorou de vergonha. – eu digo pra provoca-lo. Ele ri. O som enche minha casa vazia.

— Mas você não cuidou de mim?

— Mas só por que não vou lidei com seu nariz cheio de meleca.

— Pelo amor de Deus Sofi não diga isso na hora da comida. – eu rio alto.

Ele vai embora por volta das dez, e fico sozinha, estou sempre sozinha.

A semana passa rápido demais diante de mim.

De repente é sábado e estou na frente do espelho verificando meu cabelo. Uso um vestido de alça fina evasè azul escuro e saltos pequeno. Meus cabelos estão soltos e outra vez lembrando que preciso cortar. As pontas caem nos meus quadris. E Lia vive me dizendo que não é elegante manter ele tão cumprido assim. Falando nela, ela disse que passaria aqui por volta das oito e faltam cindo minutos.

Estou usando um pouco de maquiagem, o básico, não sou habilidosa com isso, não importa a quantidade de tutoriais que vejo. Mas, achei que deveria fazer algo já que ela disse que iríamos a um lugar fino.

Não estou ansiosa pra ir nesse jantar. Não gosto de ser envolvida nos relacionamentos dela, não quero estar nessa posição. Não quero ter que me apresentar a um desconhecido como um bicho de estimação que está exibindo seu bom comportamento e pedigree. Me pergunto por que o cara quer que eu more com eles quando minha mãe não foi capaz de voltar pra casa um dia dessa semana? Será que ele não percebeu que me viro muito bem sozinha?

— Sofia! – Lia grita na porta. Está vestindo um vestido justo preto e seu cabelo está em um elegante coque baixo, parece sofisticada e elegante como gosta de se portar. – Você está muito bem. — ela aprova. — Vamos! Edward está esperando no carro.

Engulo o “foda-se” que queria gritar pra ela. Recito o mantra para me acalmar: “ Seis meses e eu vou embora. Seis meses e eu vou embora…”

Edward é um homem bonito. Do tipo de tirar o folego. Ele parece jovem. Quarenta talvez? Ele é alto e parece manter a forma. Tem cabelos pretos e olhos avelã com nuances de mel. Uma barba bem aparada, acompanha sua mandíbula forte. Não consigo parar de pensar que ele parece familiar, que me lembra alguém, mas eu não tenho certeza.

Isso me uma pequena dor de cabeça, sei que a informação está lá, mas não consigo colocar o dedo tempo o suficiente para me lembrar. É como uma coceirinha que você não consegue coçar.


— Boa noite. – a voz dele combinado com o resto, um barítono.

— Boa noite.

— Eu sou Edward, sua mãe me falou muito de você Sofia.

— Uh, sério? – Digo antes que possa me parar. Cética.

Ele pisca confuso. E me recordo, claro que Lia falou que éramos próximas.

— É um prazer te conhecer.

— Igualmente.

— Vamos ao Ramsay’s. – Ela diz animada. Seu rosto está sereno e ela tem um sorrisinho pacato no rosto. Uma verdadeira lady.

— Adrian e eu fomos lá ano passado.

— Foram é? – arregala os olhos um pouco pra mim. É um restaurante caro, mas Adrian e eu dividimos a conta na época. Era tão bem falado nos realitys, os participantes sempre mencionavam ele e eu não parava de falar sobre. Acho que Adrian teve um pouco de pena e veio comigo.

— Sim. Fomos.

— Você não sabia disso, amor? – Edward pergunta.

— Ela apenas esqueceu. – eu digo para agradar ela.

-Sabe como é Edward, não dá pra acompanhar tudo que esses adolescentes fazem. Seguro o impulso de revirar os olhos. Essa adolescente se sustenta sozinha, quero dizer, mas fica entalado na minha garganta.

O restaurante é elegante e calmo. Peço um salmão com alguma coisa, diferente da outra vez que eu estive aqui, não estou ansiosa pra comer. Não consigo pensar em comida quando estou com o estômago duro feito pedra de ansiedade. Eu quero ir embora logo.

— Sua mãe disse que você queria me conhecer antes de vir morar conosco.

— Não é bem assim, eu não quero ir morar com vocês.

— Sofia! — Lia diz e aperta os olhos pra mim, sei que se ela pudesse iria gritar comigo, me dar um ou dois tapas, ela adora isso. Mostrar que tem o controle.

Ele me olha intrigado. Seus olhos avelã são muito intensos. A sensação de que já o vi, ou alguém muito parecido se agarra no meu cérebro com uma amoeba.

— Você não aprova o casamento?

— Não. – eu digo sinceramente. Eu não preciso fazer media. Lia vai me castigar mesmo. – Quanto tempo vocês se conhecem?

— Cinco meses.

— E vocês realmente se conhecem? – pergunto. Ele aperta os olhos.

— Gosto de pensar que sim e minha decisão está tomada. – Lia solta a respiração que estava prendendo. Ela está nervosa , acha que vou falar mais verdades. Tenho vontade de contar tudo. Querendo ver se ele está mesmo decido a levar isso a diante.

— Ok. — suspiro. — Vocês tomaram a sua decisão, mas eu não quero participar disso. Quero ficar na minha casa, sabe?

— Não pode morar sozinha Sofia. – quase bufo com isso. Não posso? Eu moro praticamente sozinha desde os 12 anos!

— Eu uma não sou uma criança. Sei me virar. Podem confiar em mim.

— Nao acho certo você não estar com a sua mãe. Vamos ser uma família, vamos cuidar de você e acho que você deve passar esses meses antes da faculdade com sua mãe.

— Tenho certeza que posso visitar. Com frequência. Prometo. Não tem que se responsabilizar por mim Edward, tenho quase dezoito anos.

— A casa foi vendida Sofia! – Minha mãe diz entre dentes. Olho para ela chocada. Ela vendeu a minha casa?! Sinto o chão se abrir.

— Vendida?

— Eu vendi a casa, não vamos mais precisar.

— Mas... mas... Lia…

— O meu filho estuda na sua escola, tenho certeza que vocês vão se dar bem. Sei que está preocupado, mas prometo que vai ser uma coisa boa Sofia.

Não registrei as palavras. Apesar de Edward estar sendo gentil. Levanto e saio.

Preciso de um tempo.

Ela vendeu a casa. A casa que era de seus pais. A única lembrança que tinha dos meus avós.

Eles se foram. Mas, eram as únicas pessoas que cuidaram de mim.

Talvez as únicas que tenham me amado realmente. Vendeu o único lugar que ela nosso Porto Seguro, tomou todas as atitudes sem falar comigo. Como ela pode?

Nunca me senti tão só em toda a minha vida. A última coisa que poderia me agarrar foi tirada de mim sem aviso.

Só senti essa mesma solidão quando perdi meus avós. Nem quando ela esqueceu mais de um aniversário meu, ou quando passei o Natal sozinha comendo batata chips aos 10 anos ou quando ela não voltou pra casa por meses.

Agora não só estava sozinha como não tinha mais a minha casa. A minha casa era o meu refugio, quando tudo dava errado o meu quarto, aquelas quatro paredes tinham sido tudo que eu tinha. Tudo que precisava. E agora? E agora?

Ela estava em busca do amor fantasioso. Em busca de algo que, talvez nem exista e eu? Não era nada só um obstáculo, no caminho para a felicidade. Meu coração está em pedaços. Lia não se importa com ninguém além dela mesma.


Caminhar até minha casa leva uma hora. Os saltos fazem bolhas no meu pé, mas eu não me importo. Eu preciso de um tempo pra pensar..

São só seis meses. Só seis meses. Repito na minha cabeça enquanto seguro o choro.

Em casa, tento não olhar as paredes que carregam tantas lembranças, a carga emocional é muito pesada, não tenho como segurar mais dentro de mim. Choro. Desesperada vendo tudo que tenho se desfazer nas minhas mãos, me enrolo no sofá, pego o meu chocolate preferido e coloco mais um reality de culinária, acabo dormindo.