A touch of fire
6 Eu não quero parar...
Notas iniciais
Em casa, olho meu quarto.
Não tem luxo algum, mas o um cômodo é aconchegante. Minha cama fica no canto onde está a manta que minha avó fez pra mim, ela mesmo tricotou tudo, e costurou um forro quentinho, tenho uma escrivaninha e uma poltrona bem na janela que vovô comprou para que pudéssemos ler. Ele até colocou um fio de luzes ali. E estávamos lendo o quinto livro de Harry Potter quando…
Engulo seco mesmo sabendo que nada vai adiantar. É a ultima noite que vou dormir nesse quarto, na minha cama quem sabe.
Não sou de chorar, não sou realmente, mas lágrimas caem dos meus olhos sem que eu permita. Estou destruída. Depois de perder meus avós, perder a casa em que eles me criaram, me amaram, era como se estivesse revivendo aquele luto. As paredes carregam memórias, lembranças cheias de riso, cheiro de bolo recém assado e vozes calmas. Contenho um grito, doi, dói tanto, e meu peito se aperta tão profundamente que sinto que nunca vou parar de chorar, nunca vai esgotar, como uma cachoeira que não pode se impedir de fluir. E flui, flui.
Foram duas semanas rápidas demais, entre ir à escola e trabalhar não me abati, não pensei, mas agora estamos a um passo de mudar tudo.
Amanhã pela manhã um desconhecido vai buscar as minhas caixas, a mobília foi vendida junto e não me resta mais nada.
Ela realmente me tirou tudo.
Acalmo suficiente para dormir, mas passa das duas da manhã quando acordo há batidas na porta. O homem usa terno preto com gravata e tudo fala em tom formal comigo e leva em minutos coloca minhas caixas no carro. Não penso em nada enquanto ele trabalha, ontem à noite deixei minar tudo, toda a desesperança que sentia.
Passo o dia limpando as coisas que restaram, não focando que estranhos ocuparam esse espaço tão importante pra mim.
O relógio marca cinco da tarde, o casamento começa às sete e eu estou longe de estar pronta. Tomo um banho longo e faço algo no cabelo, apenas ondas, talvez só por que Lia vai odiar ter ele solto, a maquiagem é leve. Coloco o vestido dourado que ela escolheu e saltos combinando por ela se preocupa com os detalhes.
Quando termino só dá tempo de olhar uma vez no espelho, mas estou satisfeita, estou bonita tenho que admitir, ouço as batidas na porta em seguida.
Adrian usa um smoking preto, seu cabelo perfeitamente penteado, o dourado escurecendo na pouca luz. Ele traz um quentinho na minha barriga. Grata demais por ter ele indo comigo, me apoiando. Seus olhos azuis brilham.
— Uau! Você está linda. – sinto as bochechas quentes. Ele raramente me elogia assim, mantendo muito a postura fraternal comigo ele quase nunca atravessa esse limite.
— Obrigado. Você está bonito também. Smoking? Desde quando você ficou tão caro? – brinco. Olha pra mim fixamente por alguns instantes e sinto meu estômago revirar um pouco. Ele se aproxima e por um instante muito pequeno e muito irreal, penso que ele vai me beijar. Mas ele só ajeita meu cabelo atrás da orelha. — Seu cabelo cresceu. — ele diz. Tenho a impressão que ele se esforça a falar.
—Não estou tendo tempo pra cortar.
-Vamos resolver, você tem trabalhamos muito, pega muitos turnos a mais.
-A faculdade não vai se pagar sozinha. — ele suspira. Sabe que não pode argumentar comigo. Vai saber quanto dinheiro Lia realmente poupou pra mim? Não confio nela. Não posso.
Passamos o resto do tempo só falando de coisas aleatórias até chegarmos. Adrian sempre desiste de aprofundar a conversa quando as coisas ficam sérias assim.
Uma mulher bonita está na porta, usa uma combinação de terno preto e saltos altos finíssimos, seu cabelo preso um coque impossivelmente apertado. Não deve ter mais de vinte cinco anos. Um fone preso à orelha. Uma caderneta nas mãos. Ela me olha severamente, assumindo uma postura muito profissional.
— Sofia?
— Sim.
— Preciso que você entre, sua entrada vai ser em 5 minutos, use a porta da esquerda. Seu par já está lá. – balanço a cabeça em concordância. Olho pra Adrian.
— Vai lá eu vou me acomodar. Vou estar esperando você.
— Ok. — respiro fundo. Não tem volta. Tenho a sensação de que estou caminhando para um limiar da minha antiga vida com a nova vida forçada.
Sigo pela porta lateral de madeira, está enfeitada com rosas brancas imaculadas.
Entro no pequeno corredor escuro. E no fundo quando alçando a metade consigo ver uma luz amarela. Alcanço a luz e Aléxis está lá.
Arregalo meus olhos, ele está… de tirar o fôlego de uma mulher, confesso. Terno preto muito bem ajustado no seu corpo grande, camisa e gravata da mesma cor. Na lapela um raminho de flor branca. Seu cabelo organizado, dizer penteado acho que seria demais para o estilo dele, mas ele puxou um pouco para trás e realçou ainda mais seus olhos incomuns.
Ver ele ali, me deixa cheia de um frio intenso nas entranhas. Meus joelhos meio moles.
— Que merda você está fazendo aqui? – pergunto antes que eu perceba. Todo a sensação estranha no meu corpo culminando em raiva, raiva, raiva intensa, incandescente e bruta. Não tem o direito de estar aqui vendo um dos piores momentos da minha vida. Como um grande idiota que é está ele está paralisado, com os olhos arregalados. Parece nem respirar quando me encara. — Aléxis! — chamo mais alto,
— Hey, pequenina. – ele sussurra. Essa voz me atinge, meio rouco, faz essa sensação no meu estômago intensificar, se é que isso é possível, não consigo nem engolir meu fôlego, isso antes de ele se aproximar de mim.
Está me olhando tão intenso e vindo para mim a passos tão lentos que me faz lembrar de um predador e se ele é um predador, sou uma presa?
– Você está bonita. – ele diz, sua voz mais áspera e profunda. Meu corpo treme quando se aproxima mais, dou passos opostos ao dele, e então estou pressionada entre ele e a parede.
— O que você está fazendo? – pergunto em um sussurro, imitando seu tom. Ele está tão intenso. Me olhando nos olhos sem desviar, aquele frio intenso que senti quando o vi, transformando em labaredas muito quentes que sobem pelo meu interior. Meu coração palpita forte nas costelas. Não sei o que fazer com as mãos. Respiro difícil como se disputasse uma maratona com ele. Por razões que não entendo olhar ele me traz um formigamento nos lábios. – Aléxis. — sussurro. — O que está fazendo? — repito.
-Eu não sei…
Não sei dizer como superamos a nossa diferença de altura, se levantei meus pés ou ele fez todo o caminho até mim, mas a boca dele pressiona a minha.
Minha lógica diz que estou sob muito estresse e portanto meu raciocínio foi prejudicado nos últimos dias, a lógica também diz que não estou beijando Alexis, na salinha de espera para entrar no casamento da minha mãe, mas logo paro de pensar, por que independente do que a lógica diria, estamos definitivamente nos beijando.
Ele é muito maior que eu, seu corpo é quente e é duro. Agarro-me a ele por que é só o que posso fazer, já que minhas pernas viraram geleia, como se ele fosse um mote salva vidas e eu estivesse a deriva no mar aberto, e faço algo que eu nunca, jamais, nunca mesmo, achei que faria em toda a minha vida, o beijo de volta.
Ele está me segurando apertado contra seu corpo.
Sua boca é macia e quente e quando sua língua sai e provoca a minha, um suspirinho sai sem querer da minha garganta. Ele aproveita e aprofunda o beijo, tomando mais de mim e me dando mais dele.
Ele tem um gosto bom.
Bom demais para o próprio bem dele.
Suas mãos grandes estão na minha cintura e ele me beija como se o corpo todo dele quisesse isso, me aproxima ainda mais, puxando minha cintura com essas mesmas mãos.
Eu gosto. Gosto do gosto da sua boca, gosto do jeito que ele me beija e gosto do seu corpo forte pressionando o meu. Eu não quero parar…
— Sofia? Aléxis? – ouço uma voz feminina no fundo. Da mulher que me mandou aqui. Isso me traz de volta, me joga correndo na realidade das coisas. Estava voando e simplesmente cai no chão duro, é isso. Aléxis está me beijando! Empurro ele com todas as forças, e ele não resiste, não estava me forçando e nem me prendendo. É a verdade. Inclusive parece estar desnorteado.
— O que?! – Ele pisca, parece que só está se dando conta agora do que fez, do fizemos, e sei que não é justo, mas a raiva anterior volta e sem pensar ergo minha mão e pouso ela com força em sua cara. O tempo parece parar, seu rosto está ligeiramente avermelhado por causa do tapa, minhas mãos tremem, e nós encaramos, eu: com raiva, ele: em choque, sua boca está inchada, seu cabelo, não é mais uma bagunça organizada, só bagunça mesmo. Não quero pensar que meti minhas mãos ali.
Ele olha pra mim de um jeito que parece cair em si finalmente, seus olhos se arregalam levemente.
— Eu...
— Vocês estão ai! Preciso que se posicionem, estamos um minuto atrasados! Passos lentos até o altar, chegando você a direita Alexis, Sofia a esquerda, entenderam?
— O que? – pergunto mesmo que minha voz seja um sussurro. Encaro a mulher. Ainda não sei por que Aléxis está aqui, pecaminosamente vestido de terno. – O que ele tem haver com isso?
— Você não sabe? Ele é o filho do noivo.
— O que? — oficialmente virei um peixe que só sabe mover os lábios tal, tal uma idiota.
— Você não escutou? Eu sou o filho do noivo! Quem trouxe você, miudinha? Adrian? – ele diz, sua voz está cheia de cinismo.
— Eu sou a filha da noiva! Idiota! — grito sem pensar.
— Hey! Eu não tenho tempo pra isso. Querida seu batom está… borrado? — ela da uma olhada em mim e de esguelha para ele. — Aqui. — estica um lenço e limpa o canto da minha boca. — Ótimo, um pouco de retoque. — ela passa um batom que tirou sei lá de onde. — Agora você… — estica outro lenço agora para ele. Se fosse possível morrer de vergonha, estaria morta. Mortinha. — Você direita. — ela aponta pra ele. — Você esquerda. Passos lentos. Prontos?
— O quê? – nós falamos ao mesmo tempo, definitivamente não prontos, mas a mulher já está me empurrando para ele.
— Não! Espera...
— Pegue o braço dele querida. Isso, decoraram? Passos lentos, direita ele, esquerda ela. Não é difícil. — repete pela terceira vez.
— Moça... está cometendo um engano... moça...
A mulher nos ignora totalmente, focada no evento. No instante seguinte ela empurra a nós dois para a entrada, portas enormes de madeira se abrem rápido demais, ainda estou com os joelhos trementes, meu coração descompensado martela tão rápido que eu poderia correr, é exatamente o que quero fazer, não andar lentamente.
Tenho certeza que estou corada a expressão atordoada, Alexis está rígido ao meu lado, tenso. E assim, nós dois juntos andamos em direção a Edward. Pelo amor de Deus, os olhos. Alexis tem os mesmos olhos de Edward. Aqueles olhos avelã, com pintinhas amarelas. Era isso que era tão familiar nele, Alexis é bonito de um jeito exótico, assim como seu pai. Eles são tão parecidos que quero me estapear por não ter percebido logo de cara. O lugar está lotado, pessoas estão olhando pra nós obviamente e faço tudo pra ignorar isso, sou boa com o publico. Ser o centro das atenções não é minha coisa favorita nesse mundo, não faço questão. Acrescente isso a lidar com o casamento de sua mãe, depois de beijar o filho do noivo nos bastidores? Mesmo que tenha sido um lapso, um erro, meio sem querer… Fraquejo só de pensar e se Aléxis não tivesse segurando meu braço eu teria caído.
Talvez, se pensar direitinho, não seria nada ruim fingir um desmaio, seria ?
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