A touch of fire

7 Não se deixem enganar, Lia parece frágil e fraca, mas não é


Edward está em pé no altar, alto, sereno, elegante. É apenas a versão madura de Aléxis e eu digo madura por que Edward não é velho em tudo, ele nem deve ter chegado aos 40 ainda.

Enquanto Alexis tem um jeito muito “vou ser jovem sem consequências”. Sempre fazendo piada, o pai dele parece ser sério.

Em meu choque nem percebi que Alexis, nos moveu até chegarmos ao altar, tão perto que ele e seu pai trocam apertos de mão. Edward estica a mão para mim em seguida e me movo quase mecanicamente, apertamos as mãos, as minhas tremem e ele me olha simpático, provavelmente achando que é só medo de público. Deveria falar algo, desejar felicidades? Mas minha garganta parece tão seca que tenho dificuldade até para engolir, Alexis se move para o lado, o que é um grande alívio, a presença dos dois estava começando a me sufocar, vou para o lado oposto, já que não posso me lembrar onde deveria ficar nem que fosse para salvar minha vida.

Tem tanta gente ali, rostos que nunca vi. Talvez pessoas que conhecem Lia muito melhor que eu. Me sinto impostora naquele altar. Representando um papel ridículo de filha, me juntando a uma família. Uma grande piada, se quer saber.

Procuro os olhos de Adrian na multidão, e seus olhos azuis me encontram, respiro fundo pela primeira vez desde que pisei naquela bendita salinha, os olhos familiares dele me acalmando de imediato. Quero sussurrar, me tire daqui? Mas, infelizmente estou agarrada ao chão, como se meus pés estivessem colados.

Minutos depois a marcha nupcial toca. A orquestra que nem reparei que estava lá, tocando a sinfonia.

Portas se abrem e lá está ela.

Lia parece saída de um filme. Tenho que admitir.

Seu vestido estilo princesa, decote coração, uma saia armada, uma calda longa. Seu cabelo loiro dourado num coque elegante adornado por uma coroa. Um delicado véu cobre seu rosto. Ela sorri, tímida, como uma verdadeira dama. A cerimônia é requintada, um homem recita palavras bonitas, a orquestra toca, os noivos prometem se amar pra sempre.

Quem me dera acreditar nisso.

Quando tudo acaba seguimos para um elegante salão de jantar que grita dinheiro nos quatro cantos. Incrível, passei anos batalhando por um salário ela poder gastar tanto em uma noite só.

Procuro Adrian e sua família na multidão, há pelo menos 150 pessoas ali. Além de pessoas trabalhando, fotografando, servindo. E uma banda tocando uma música suave.

É difícil localizar ele, mas me coloco em meio ao mar de pessoas, desesperada para acha- lo. Vejo que ele está mais ao fundo conversando com seus pais. Seus olhos vasculhando a multidão. Mas, quando dou passos determinados naquela direção, uma mão segura meu braço.

— Você sabia dessa merda? – ele me olha furioso. Seu ar brincalhão está longe de ser encontrado. Um arrepio passa por mim, o contato, nossos olhos travados juntos, está tão quente aqui. Sinto uma gota de suor descer pela minha coluna. Raiva, é tudo vai.

— Claro que eu sabia. – digo ironicamente. – Minha cara de trouxa era puro fingimento! — ele me puxa levemente, percebo sem querer que ele nunca me tocou tanto quanto nas ultimas horas, e por mais que seus olhos estejam cheios de raiva, seu toque é cuidadoso.

-Você estava brincando comigo lá trás? — ele me puxa levemente, uma pessoa passa atrás de mim, já não sei se ele está me tirando do caminho ou me puxando ao encontro dele. Não quero saber, quero me desviar, correr, gritar e tudo ao mesmo tempo.

-Foi você que me... — começo a gritar, mas me interrompo. Engulo seco.

-Senhoras e senhores! Deem as boas vindas aos noivos! — o vocalista da banda anuncia no microfone. As pessoas param e começam a abrir caminho, batem palmas, ovacionam, sou ainda mais apertada contra Alexis.

-Você pode me soltar?- tento gritar, mas o barulho me abafa. Sua mão desliza pela minha cintura, depois de outro empurrão perco o equilíbrio, tal qual uma mocinha num clichê, só que não estou caindo nos braços do príncipe que espero, estou caindo de encontro ao vilão. E ele não me decepciona, seu sorriso cínico está de volta. Apesar do barulho, vejo seus lábios se moverem.

-Não é isso que você quer é?

— O que está acontecendo? – pergunta Adrian aparecendo do nada do meu lado. Desvencilho do aperto de Aléxis como se ele me queimasse.

— Bem, Lia acabou de casar com o pai dele. – digo o óbvio, todos nos presenciamos a cena toda.

— Bem, eu vi, mas você não sabia? E você? – ele vira para Aléxis.

— Você está brincando? Acha mesmo que eu sabia dessa loucura?

— Lia realmente se superou dessa vez.

— Isso quer dizer que você é quem vai morar com a gente? – Meus olhos se abrem. Oh meu Deus! Não! Não! Não! Morar... Com eles? Com ele?

— Vou morar com ele! Ah, não, não, não.– digo.

— Você pode ficar na sua casa, Sof... – Adrian ele diz com a voz calma. — Você sabe, como sempre. — Meu rosto se enrubesce e eu juro que vou morrer de vergonha quando digo.

— Ela vendeu a minha casa... — sussurro. A música, o barulho, cessam por um instante.

— O que?

— Mas o que está acontecendo?

— Não é da sua conta. – digo com raiva ao mesmo tempo que ouço o microfone novamente.

-Gostaria de agradecer a todos que vieram nos prestigiar. Desejei esse momento por tanto tempo. — a voz doce e melodiosa enche o salão. Esfria até a ponta do meu cabelo. Ela finge secar lágrimas que tenho certeza absoluta que não caem. — Ser parte de algo tão lindo assim. E para abrir a pista de dança, gostaria que nossos filhos se juntassem a nós. Sofia, Aléxis. Poderiam vir até aqui e dançar essa música conosco?

Olho Adrian, seu rosto cheio de simpatia olha de volta. .

— Vai ficar tudo bem. – Respiro fundo por que estou a ponto de chorar, ou gritar igual maluca o tanto que esse teatro dela me enoja.

— Sim, vai, eu sobrevivo. — peito estufado, viro para encarar Lia, bem no meio da plateia.

Rodeada.

Admirada.

Meus pés se movem lentamente. Meu corpo todo querendo ir na direção oposta. Quando vejo a mão esticada de Aléxis, pego, deixando que ele me guie, e me firme só dessa vez. Só dessa vez.

-Aí estão eles. — uma salva de palmas para nós. — Estou tão feliz de termos nos tornado uma família. Obrigada queridos. — mais palmas e Lia encontra Edward. Uma musica soa. Ed Sheeran. Uma de suas lindas músicas românticas cantadas pelo vocalista da banda. Ele tem uma voz suave. E minha respiração, pela milésima vez naquela noite, está superficial, quando ele, ele fica de frente pra mim, diminuí o espaço entre nós e me conduz no ritmo dessa dança.

-Você não sabe dançar, baixinha? — ele diz no meu ouvido. Como meu corpo pode me trair assim? Como posso tremer quando o folego dele sopra na minha orelha?

-Não e torça pra eu não pisar nos seus pés, idiota. — ele ri, e me puxa ainda mais, meu corpo e o dele se colando. — Pare com isso. — digo entre dentes.

-Você está com medo de gostar demais? — empurro ele um segundo antes que a música acabe. Deixo a pista sob um mar de mais malditas palmas e gritos.


— Sofia! – Lia se aproxima com seu grande vestido branco e Edward a tira colo.

— Lia, Edward, parabéns. – digo educadamente.

— Obrigada querido. – Lia diz com uma voz chorosa típica dela. – Não está pensando em ir não é?

— Na verdade, não estou me sentindo bem. Gostaria de ir sim.

— Você precisa de alguma coisa Sofia? — Edward pergunta preocupado.

-Não é nada sério, é só cansaço sabe.

-Vou pedir para o motorista levar você, ele é da minha confiança, vai ajudar você se acomodar em casa. – ele sai.

Lia está vermelha e aperta os olho pra mim.

— Você sua peste! Vai estragar tudo! Não podia ficar e por um sorriso nesse rosto? Mostrar para as pessoas que está feliz por mim? Mas você sua pequena idiota não pode me ver feliz não é? É melhor que se comporte quando for morar comigo e com Edward, ele é rico querida e não tem tempo para seu comportamento mimado! É melhor que você não fique no meu caminho! – Sai com a elegância de uma rainha enfrentando meros súditos.

— Ela não tinha o direito de falar com você assim. – Adrian está ali e sinto minhas bochechas corarem. Ele não precisava ver isso.

— Está tudo bem.

— Não está!

— Escute, Adrian, esqueça isso. Você não devia ter ouvido.

— Sofia! Posso falar com Edward, Alexis...

— Sofia o motorista está pronto.

— Agradeço Edward. Fique Adrian, faça companhia para o Alexis eu vou ficar bem. Peça desculpa aos seus pais, não consegui comprimentar eles. – saio antes que ele diga alguma coisa.

Sinto vergonha, raiva, e um puro medo dos próximos meses. Lia, só foi violenta comigo em algumas ocasiões, quando estava realmente chateada. Mas, prevejo que se sair um fio da linha que ela traçou pra mim, as coisas podem ir de mal a pior bem rápido.

E se eles forem exatamente como ela?

O motorista abre a porta de trás, me sinto estranha quando ele espera que entre e fecha pra mim, ele conduz silencioso, logo casas impressionantes começam a aparecer, o bairro ficando cada vez mais elegante e cuidado. Logo ele para em uma mansão. É uma casa enorme! Com jardins extensos. Me dou conta de que o motorista abriu a porta, mas estou paralisada.

Essa é a casa que vou morar?

— A casa está vazia no momento. Os empregados chegam de manhã e vão embora as cinco. O patrão disse que o seu quarto é o ultimo no segundo andar. Precisa de ajuda, senhorita? — ele parece simpático, um pouco grisalho, mas não parece ter mais que cinquenta anos. Sorri caloroso. Mas, eu quero tanto só... Lidar com tudo como sempre fiz... Sozinha.

— Obrigada, não precisa. – ele assente e volta para o carro. Estou sozinha.

A casa é elegante e de um bom gosto impressionante. Tem quadros nas paredes, uma arte que vou parar para ver ainda, mas hoje sigo a escada, vou para o segundo andar. Tem três portas. No fim do corredor abro a “minha” e revelo um quarto enorme. É a minha casa inteira. A cama é de casal que antes mesmo de deitar sei que é confortável.

A decoração é creme e os moveis são mogno. Tem um closet que é maior que o banheiro do meu antigo quarto. E um banheiro que era maior que meu quarto inteiro. Mas, nada disso importa. Amanha, vou atrás da minha poltrona, é tudo que queria agora, me enrolar lá e dormir até que tudo se resolvesse sozinho.

Minhas roupas estão organizadas no closet. Alguém abriu minhas malas e colocou minhas roupas lá, por ordem de cor.

Troco o elegante vestido dourado por calças de moletom cinza e uma camisa branca de alças finas.

Tem uma tv de tela plana em frente a cama, enorme e descobro que tem mais streamings do que podia sonhar em pagar.

Passa das onze da noite e sei que a festa vai durar então relaxo. Não pretendo chorar mais. É, essa era minha “nova” casa. Pelos próximos meses eu tinha que balançar a cabeça e acenar como um cachorro bem treinado e mais importante ficar fora do caminho de Lia. Isso era o mais importante.

Me lembro de bem de como ela é quando estava muito chateada e o que um tapa daquelas mãos com unhas muito longas podia fazer.

Não se deixem enganar, Lia parece frágil e fraca, mas não é, e pode ser perigosa.