A touch of fire
1 Como assim casar?
Notas iniciais
Capítulo I
— Querida ele é um homem incrível! Ele é engraçado, bonito. E rico. Muito rico!
Ai estava à palavra magica.
Rico.
Minha mãe não me chamaria de querida e estaria de tão bom humor, a menos que dinheiro estivesse envolvido.
— Vamos nos casar em duas semanas! — ela diz a voz um suspiro sonhador. — E vamos morar com ele. Ele tem uma casa naquele bairro na saída da cidade… sabe? — ela da uma risadinha afetada. — The Valle? — ela não para nem não respirar, como se não tivesse jogado uma bomba no meu colo e o relógio estivesse na contagem regressiva.
— O que? Casar? Lia! Você enlouqueceu? Você conhece esse cara a... Sei lá quatro meses?
— Mas ele é o amor da minha vida! – ela diz com uma carranca e bate o pé como se fosse uma criança mimada e eu tivesse dito que não poderia comprar um brinquedo.
Minha mãe é linda e ela sabe disso bem demais. Tem apenas trinta e quatro anos ( tinha engravidado aos 16).
Tem um corpo magro, pele de porcelana, pernas longas de modelo e olhos verdes grandes. Seus cabelos bem cuidados são loiros. E aqui vai a mais pura verdade sobre ela: ela não é o exemplo de mãe.
Lia, infelizmente não saiu da adolescência. Desde que me entendo por gente vejo ela perseguir sua própria história de contos de fadas, seu “felizes para sempre”. No seu mundo perfeito, um homem rico e poderoso vai amá-la incondicionalmente e para sempre. Independente se eu, sua filha, estou bem ou não.
Eu cuido de mim mesma desde… eu não sei? Desde que saí da barriga dela ? E ela já tinha tido pelo menos sete amores da vida, achados príncipes encantados homens ricos que se encantavam com a beleza dela até que a conhecessem de verdade e sempre acompanhavam de términos horríveis e dramáticos.
Estava acostumada a essas duas versões dela: apaixonada e sofrida. E nenhuma dessas versões envolvia ser uma mãe. Por que ser uma mãe, a minha mãe, exigiria dela uma coisa que suspeitava que ela não tinha, um coração.
Era isso, ou simplesmente eu não era digna do amor dela. Sempre me questionei, o problema era eu? Não era boa o bastante ? Inteligente? Bonita ?
Talvez porque fosse o oposto dela, cabelo preto, como o do meu pai, baixinha, sardas no nariz e na bochecha e a única coisa compartilho com ela é a cor verde dos seus olhos.
Respiro fundo tentando me acalmar quando digo:
— Lia você não acha que está sendo precipitada? Isso é tudo muito rápido! – digo desesperada, é a primeira vez em anos que ela chega longe o suficiente para casar, sua carranca se aprofunda.
— Precipitada? É de amor que estamos falando! Eu vou me casar com ele, por que ele me ama ! Deveria ficar feliz por mim! E não sendo uma pentelha mimada que não sabe lidar com a minha felicidade! – Feliz? Feliz? Como quando ela resolveu passar três meses no caribe com seu amor da vida, por que era AMOR DE VERDADE e ela tinha que ir ou morreria de tristeza. Ou quando ela decidiu ir para a França por que precisava de um tempo para se refazer quando esse mesmo amor acabou? Ou quando ela ficou por lá mais tempo do que o planejado por que já tinha achado o novo amor da sua vida outra vez?! Claro, estou muito feliz. Feliz de mais de ela estar viajando pelo mundo atrás de homens enquanto tive que trabalhar para conseguir o jantar por que dela não vinha um centavo!
Nada mudou, continuo no mesmo ponto que estou hoje. Sozinha…
— Claro! – Eu digo. – Estou muito feliz por você. — Lia não tem a capacidade de sentir a minha ironia.
— Claro que está! — ela ri- Você vai ser minha madrinha! Vou achar seu vestido e não se preocupe, não quero uma festa de despedida de solteira. — ela ri de novo, alheia a todas as emoções que passam no meu rosto. — Não tem por que fazer uma coisa dessas. Querida eu estou tão feliz! Dessa vez vai ser tudo tão diferente… Ah! Eu tenho tanta coisa para fazer! Comece a empacotar suas coisas! Vamos nos mudar logo depois da festa. Só as coisas importantes, querida! Não vai levar tranqueiras! Muito menos aquela moto !
— Espera! Como assim nos mudar? — pergunto com o coração tão acelerado que vai na garganta.
— Edward quer que você more com a gente. – Edward quer? Edward quer? Edward quer? Não ela. Jamais ela. Quando foi que ela me levou ? Pisco sem entender, a única qualidade de Lia até hoje é não me envolver.
— Eu nem conheço esse cara e ele quer que eu vá morar com vocês? E tudo bem pra você ?— indignação me invade, começo a tremer de raiva.
— Sim! Ele tem um filho da sua idade e achou que seria uma ótima ideia, então eu também acho, e já está tudo resolvido.
— Não está! Por que eu não vou!
— Ah sim você vai, você tem ficado solta demais, acha que pode tomar duas próprias decisões? Mas não pode ! Por alguns meses querida, eu ainda sou sua dona! Eu disse a ele que somos inseparáveis. — ela da um sorrisinho presunçoso. Coloca seu cabelo liso e sedoso e perfeito atrás das costas e endireita a postura. — Edward valoriza muito a família. Sabe? Precisamos mostrar a ele como somos unidas. É só por seis meses, não seja dramática. — ela bufa.
— Eu nem conheço ele, Lia! Eu nao quero morar com desconhecidos ! E qual a diferença agora ? Não é como se eu já não tivesse morado sozinha antes!
— Você não se atreva a contar isso a ele. — diz entre dentes. — Se você quer tanto conhecer ele eu vou marcar um jantar no sábado. E sim, mocinha você vai! Eu ainda sou sua mãe e você não tem dezoito anos! Vai fazer o que eu quiser pelos próximos seis meses! Ou adeus dinheiro para faculdade! – Ela estava mesmo jogando essa carta pra cima de mim? Sério? – Não estrague as coisas pra mim, Sofia! Você é uma maldita pedra nos meus saltos caros! E se não se comportar direitinho e fazer o seu papel vai ver o que mais posso tirar de você. – seu rosto fica ligeiramente vermelho, a verdadeira Lia subindo a superfície.
Suspiro.
Ela tem seu jeito de colocar as coisas e me amarrar as decisões dela. Sabe o quando eu quero ir embora, o quanto quero me formar e ir pra faculdade em outro estado, o quanto quero fugir dela.
— Olha só, estou atrasada para o trabalho. — digo entre dentes.
— Vista algo descente para sábado, filhinha. — ela sorri, sabendo que a batalha está ganha.
Não respondo.
Saio de casa batendo os pés. Tal qual uma criança. A única rebeldia que me permito, que posso.
Parece dramático, mas quantas vezes mais eu vou passar por isso ? Pela insegurança e instabilidade que é ser filha dela ? Quantas vezes mais vou mudar a minha vida toda ?
Essa não é a primeira vez.
Ja fui pega desprevinida antes, largada, deixada sem nada. Eu tive que me virar sozinha até ela decidir voltar pra casa. Se lembrar de que tinha uma filha depois de viver seu amor intenso e quebrar a cara ainda de novo e de novo e de novo.
Bom, parece que um novo round começou.
Pego o celular e ligo para Adrian.
Meu melhor amigo desde a infância. Nos conhecemos na escola no primeiro ano. Tínhamos sete.
Foi constrangedor chegar na hora do lanche e eu me lembro daquele dia com detalhes, e ser a única criança sem um.
Mas, então um menininho loiro e fofo se aproximou de mim, estendeu a mão com um pacotinho de bolacha e disse:
-Hey, tá sobrando quer comer comigo ? — ele é meu melhor amigo desde aquele dia.
E em algum momento ao longo dos anos em que crescemos, deixou de ser amigo e virou algo mais.
Pra mim.
Não que ele soubesse disso. Fiz um esforço sobre-humano para esconder isso dele. Mas, toda vez que ele se aproxima de mim meu coração salta feito louco tão alto que tenho certeza que um dia desses Adrian vai ouvir. E nossa amizade vai pro ralo…
Ele é o cara mais popular da escola. Isso é um puta clichêzão, eu sei, eu sei. O cara que toda garota, e eu, fica babando quando passa no corredor da escola.
Bem, ele e Alexis, seu amigo, mas enquanto Adrian era uma beleza loira dourada, sorriso brilhante, e olhos azuis, atleta e totalmente comível e deleitável. Seu amigo é um idiota. E ainda assim, por algum motivo as atenções das meninas, também estavam centradas nele. Era popular e desejado. Acho que a aura de garoto misterioso o deixava ainda mais atrativo. Vai entender.
— Olá. – Adrian atende no segundo toque, sua voz é melodiosa e acalma a tempestade que está começando no meu interior.
— Você não sabe o que ela arrumou agora! – eu digo. Ele está tão acostumado e faz tanto tempo que ele é meu amigo que eu não preciso ficar fazendo saudações. Ou explicando quem é “ ela”.
— O que foi?
— Ela vai se casar!
— Casar? Como assim? Com quem?
— Tal de Edward! E além do mais, quer me fazer ir morar com eles! Está fingindo ser a mãe do ano. Que valoriza a “família”.
— Essa é nova, ela nunca tinha tentado essa.
— Sim, e aparentemente ela vai se casar em duas semanas!
— Porra! Quanto tempo ela conhece esse cara?
— Quatro meses talvez! Mas ele é rico, isso quer dizer que nada mais importa. Sabe ?
— Sofi veja pelo lado bom é só por 6 meses, depois você vai embora. – Respiro. Esse é o lado bom? Morar seis meses na casa de uma pessoa estranha e seu filho estranho por seis meses? Poderiam muito bem ser assassinos! Ou simplesmente pessoas difíceis de conviver! As vezes eu não quero que ele ache o “lado bom”.
Mas, Adrian tem razão.
Daqui a seis meses vou estar a cinco horas daqui e Lia não vai poder me atingir mais. Vou estar longe dela, livre.
Um pouco graças ao meu famigerado pai.
Um promissor jogador de futebol, história bem comum na verdade, deixou minha mãe grávida no terceiro ano do colegial, e é obvio que ele não ia deixar sua promissora carreira para cuidar de um de um bebê.
E não cuidou. Ele foi viver.
E deu certo. Agora é um famoso jogador de futebol do Barcelona, ganhou prêmios, patrocínios, e aparentemente muito, muito dinheiro. Não que eu esteja acompanhando, mas é difícil não ouvir nada sobre Erick Bansson hoje em dia. Ele está no auge. Em todos os lugares.
Nunca veio me ver, nunca teve o interesse de me procurar, porém Lia disse que me deixou uma poupança para a faculdade, para que nós não o procurássemos mais. E não importando a miséria em que estivesse só poderia acessar esse dinheiro quando tivesse 18 anos então, não tinha muita escolha a não ser seguir Lia. Por onde ela fosse, não importando a loucura que cometesse.
— Estou atrasada para o trabalho. — digo, não querendo ouvir otimismo nenhum agora.
— Que tal eu passar lá no fim do dia? – meu coração incha no peito.
— Isso seria ótimo. — digo suspirando, posso não querer o otimismo dele, mas jamais recusaria sua companhia.
— Poderíamos pegar burritos no food truck do Mike e ir no píer relaxar.
— Isso soa muito bem.
— Te vejo. – ele diz. Ele me faz bem. Ele não sabe o quanto.
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