A touch of fire
10 Antes de se afastar ele morde meu lábio...
Notas iniciais
Você não parece bem. – Adrian diz na saída da escola.
— É impressão sua.
— O que suas olheiras e a cor pálida? É só impressão?
— Não tenho dormido muito bem e também não tenho tomado sol. Nada de mais. — mordo o cantinho da boca.
— Sei…
— Não se preocupe com isso.
— Muito bem então, — ele desiste. — É sexta feira, você quer fazer algo?
— Bem, acho que Lia e Edward vão pra um fim de semana romântico ou algo assim, que tal nós fazermos o espaguete?
— Tava torcendo pra você falar isso .
— Adrian, isso é o seu jeitinho de dizer que tá com saudade?
— Você sabe que sim. — ele ri. — Saudade do nosso espaguete.
-Palhaço.
Lia e Edward se foram quando chego do trabalho.
As pessoas que trabalham ali também.
Isso quer dizer que vamos ficar sozinhos, isso se Alexis tiver a decência de sair. O que espero mesmo que aconteça.
Vou para a cozinha ver se tem o que é preciso para o espaguete. Todo o silencio me faz bem, não estou apreensiva, e essa é a primeira vez em dias que me sinto em paz.
O fato de Lia estar longe por ser o motivo.
— O que foi que aconteceu com você nos últimos dias? — claro que não ia ter a sorte de Alexis me deixar em paz, sozinha um dia que fosse.
— Trabalhando. – Digo sem olhar Alexis. Esperamos que isso o desanime e ele saia.
Óbvio que ele não sai.
Por que ter esperanças?
— Trabalhando? Não te vejo entrar e não te vejo sair, faz malditos quinze dias! Que merda está acontecendo?
— Nada que seja da sua conta.
—Olha pra mim. – sua voz é tão firme que obedeço. Ele está vestindo calças pretas e uma camisa grudada no corpo que o deixa tão... Seu cabelo recém lavado parece tão macio…
Tem sido difícil encarar ele e não quero entender o porquê disso.
— O que você quer? – tento por indiferença em minha voz. Ele me perturba e não é do jeito que eu preferia que ele fizesse.
— Você está parecendo um zumbi ambulante, está tentando ficar longe de casa é isso?
— Oh, como você é gentil, sabe elogiar uma mulher hein?
— Qual é o problema, pequena? Conta para mim.
— Não é da tua maldita conta, quantas vezes vou ter que te falar?
— Como você é cabeça dura! Conversa comigo Sofia! Já não estou pra essa conversa que nada é da minha conta, agora é da minha conta! Se você não percebeu estamos morando juntos!
-Isso não quer dizer…
Ouço a campainha nesse momento, me salvando dessa conversa absurda.
Por que ele está interessado, afinal? O que importa quando entro e saio de casa? Se estou com algum problema ou não? Não quero saber se nossos pais se casaram, Alexis e eu não somos nada. Minha vida não é da conta dele.
— Entra. – Adrian me abraça.
— E aí cara! – Alexis apenas assente, está com raiva. De novo. Acho que é o novo normal dele, não mais aquele cara brincalhão.
— O que vocês vão fazer?
— Sofi e eu estamos acostumados a fazer espaguete pelo menos uma vez na semana, semana passada não rolou, então...
— Então hoje vai rolar, estou morrendo de fome, vai pegando uma faca para cortar a cebola.
— Posso ficar?
— Claro, desde que você não se matem. — Adrian diz enquanto, digo:
-É a sua casa, não é? — suspiro. — Certo então, vou fazer meu molho especial, e você e Alexis podem cuidar das almôndegas.
— Sempre tão mandona... – Adrian provoca. Mostro a língua pra ele. Rimos e brincamos enquanto preparamos o jantar. E acreditem que isso me faz sentir muito melhor do que nos últimos dias.
— Oh cara! Esse molho seu fica cada vez melhor.
— Estou aprimorando...
— Vou virar uma bola se você continuar assim.
— Está delicioso, quem ensinou você a cozinhar?
-Minha avó.
-Ela te ensinou direitinho, baixinha.
— Você não perde a chance hein? – Digo a Alexis. Estamos no sofá, comendo como eu e Adrian costumamos fazer, vendo algo na tv.
— Nunca pequenina.
— Lia queria que eu saísse do emprego. – Sinto Alexis endurecer.
— Sério?
— Pois é, ela pensa que estou fazendo birra.
— Você sabe que se quiser, não precisa trabalhar, não é? – lógico que ele iria se intrometer.
— E por quantos meses?
— Não sei o que quer dizer.
— Quer dizer que isso tudo aqui... – gesticulo mostrando a casa. – Vai acabar. Seu pai vai continuar rico, e eu não.
— Ele não vai deixar você desamparada, independente do que acontecer.
— Estou aqui pra relaxar, não quero falar disso.
— Mas...
— Deixa Alexis. – Adrian diz.
- Vocês e seus segredinhos.
— Vamos ver um filme francês que eu vi o trailer esses dias! É ótimo...
— Ah Sofi... Você e esses filmes franceses...
— Calma, tem uma garota bonita nele...
— É melhor ter. – aí como eu queria que ele fosse para o quarto dele...
— Vai ficar para o filme?
— Você se importa, pequena?
— Não. – Eu digo secamente. Me importo sim, ele está roubando meu tempo com Adrian! quero ficar sozinha com ele como antes, quero poder dizer tudo que tenho para dizer e ouvir Adrian me acalmar. Quero principalmente Aléxis longe. Aléxis está olhando de uma forma pra mim que só posso descrever como... intensa. Faz meu estômago gelar e não gosto.
Estou tão cansada, exausta dos turnos a mais que peguei, das horas extras que fiz só pra ficar longe de casa, das horas na biblioteca na escola, que pela metade do filme, talvez antes até, adormeça. Toda essa coisa de passar despercebida está me vencendo, meu corpo está mais cansado do que o normal e olha que trabalho desde os treze.
— Deixa que eu a levo lá pra cima, cara. Pode ir. – Ouço de longe a voz dele.
— Tem certeza? Ela...
-Vou cuidar dela cara e deixar ela na cama.
-Certo, obrigada. Até mais, cara. – sinto o remexer ao redor de mim e então sou levantada. Pressionada contra um corpo quente. Cansada demais tento abrir meus olhos pesados, mas estou num lugar entre aqui, presente e lá inconsciente. Sinto o movimento apesar disso. Estou meio dormente, meio acordada.
Ouço uma porta abrir e abro os olhos para ver Aléxis bem perto de mim, seu rosto muito próximo do meu.
Nossa... Aléxis é tão bonito... Penso, quase sem querer. Tem um cheiro gostoso também. Os olhos dele quase brilham no escuro... Tão diferentes... Tão...
— Aléxis? – eu resmungo. Deve ser um sonho. E por que estaria sonhando com Aléxis? Por que justo com ele?
— Durma, pequenina. – Sussurra. Sua voz suave, então definitivamente é um sonho, a voz de Aléxis não é suave, não quando está falando comigo.
— O que está fazendo?
— Te levando para a cama. – . Sinto algo macio na minha cabeça e me aconchego. Está bom. Quentinho. Macio. Relaxo. – Boa noite. – . Seus olhos avelã, esses benditos olhos, provocam algo em mim, não sei explicar, não quero uma explicação, não quero sentir isso. Há tons de dourados em seus olhos e se não estivesse tão cansada continuaria olhando para ele. Olhando naqueles olhos tão hipnotizantes. Mas, algo chama mais a minha atenção. Sua língua passa entre os seus lábios rapidamente. Molhando a boca. Hum… suspiro involuntariamente. Isso foi tão…
Ele abaixa a cabeça tão devagar que poderia levantar agora e sair correndo, poderia parar ele se quisesse, mas… não sei se quero, talvez eu queira algo que não posso nem verbalizar em pensamentos, por isso não me mexo, deixo ele pressionar sua boca na minha levemente. E gemo baixinho.
Ainda bem que isso é um sonho, penso, porque eu não gemeria na boca de Aléxis.
Nunca.
Nunquinha.
Não me permiti pensar no beijo que trocamos naquele dia, aquele beijo explosivo foi... um lapso, uma loucura, só adrenalina que nos levou aquilo, na minha cabeça aquilo nunca aconteceu, decidi ignorar completamente, não olho para ele pensando naquela boca. Não olho. Não o cobiço.
Então o que é isso agora?
Ele não aprofunda o beijo, literalmente só pressiona a boca na minha, mas antes de se afastar ele morde meu lábio inferior, tão devagar que é uma agonia. Mas então, se afasta, deixando um pequeno latejar na minha boca.
-Boa noite, Sofia... — ele sussurra. Que sonho mais louco, Aléxis nunca falou meu nome, não em 8 anos que o conheço.
Ouço passos leves, a porta se fechar e só.
O sono pesado me toma, o sonho se dissipa em breu, porque tudo foi um sonho e Alexis não me deu um beijo de boa noite.
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