A teoria do caos
9 Capítulo IX - Sua mãe nunca te ensinou a mentir, mas deveria
Notas iniciais
"Sensibilidade às condições iniciais significa que cada ponto em um sistema caótico é arbitrariamente aproximado por outros pontos com caminhos futuros significativamente diferentes, ou trajetórias."
Teoria do caos
Dois anos, 8 meses e 3 dias atrás
Izuku se sentia desconectado. Como se visse tudo de fora do seu próprio corpo. Era difícil sentir o banco ou a mochila a que estava abraçado. Ele não sabia quanto tempo havia passado e não lembrava de ter saído do carro ou da viagem até ali. Olhou ao redor, confuso, tentando voltar à terra.
Izuku havia lido sobre dissociação em certa madrugada insone, por isso ele reconhecia os sintomas em si mesmo. Era tudo...demais. Ele não queria pensar, ele não sabia o que pensar sobre tudo o que tinha acontecido. O que estava acontecendo.
—Não conseguimos contato com o pai. – Ele ouviu o assistente social falar com alguém, não tão baixo quanto deveria. – Provavelmente mais um daqueles casos.
—Abandono? – Ele sentiu vagamente que olhavam para ele de perto da porta.
—Ele não tem quirk.
A mulher fez um som de entendimento, como se isso explicasse tudo.
Izuku não ouviu mais nada, tentando focar nas outras crianças sentadas no banco. Três delas, também vítimas da noite, esperando os guardiões aparecerem. Um deles estalava os dedos, uma luz aparecendo como lanternas neles. Izuku focou na luz para tentar não se perder de novo, voltar a se sentir em seu próprio corpo.
Mais tempo se passou, ele não sabia quanto. Em algum momento alguém falou com ele. Outra sala, mais pessoas.
—Alguém vem o pegar mesmo? Quem iria... – a voz se cortou, o olhando. A expressão um pouco envergonhada. Ele não precisava terminar de falar, Izuku havia entendido. – Quem?
—Alguém com pressa, pelo jeito.
—Não devia checar mais a fundo?
—E correr o risco de ele desistir?
Izuku abraçou a mochila, seus olhos focaram na luz nos dedos do garoto. Ele se perguntava se ele conseguia acender apenas um dos dedos, ou sempre teria que ser todos. Se ele poderia controlar a intensidade da luz, e se poderia criar calor com ela, se...
—Midoriya, seu novo guardião veio te buscar.
Piscou os olhos. Havia perdido a noção do tempo de novo.
Olhou para cima, ainda sentado. Ele era tão alto que mal conseguia ver o rosto.
—Izuku.
A voz era macia, e piscou, ainda desconectado, enquanto o homem se agachava na sua frente. Olhos verdes como os seus, cabelos muito escuros, rosto pálido.
E era como um deja vú, de anos atrás. De encontrar um desconhecido na sua casa com sua mãe, que descobrira ser seu pai.
A sensação era familiar, como um arrepio percorrendo a sua pele, um sinal de perigo por trás do sorriso que tentava o assegurar. De repente se sentiu mais alerta, voltando a terra como se puxado de forma abrupta para seu próprio corpo.
Seus ouvidos apitaram, seu coração acelerou e apertou mais a mochila contra seu próprio peito.
—Não deve lembrar de mim, sou seu tio. Takashi.
Izuku sabia que era errado encarar, mas na sua situação seria perdoável.
Negou devagar, porque ele realmente não lembrava.
Ou mais especificamente, ele nunca havia sido sequer mencionado.
—Não sabia que vovó Hisa tinha outro filho. – Sua voz saiu suave e controlada apesar da situação, mesmo que ainda apertasse a mochila com força. Outras pessoas conversavam ao redor, mas ele focou naquele momento.
O homem sorriu, os olhos brilhando de uma forma que não entendia totalmente.
—Que eu lembre bem minha oka-san se chamava Itsumi, Izuku. – Sentiu seu rosto corar. – Você é bem esperto, tentando checar os fatos, hum?
—Alguém tem que checar. – Sussurrou e os olhos do homem escureceram. Ele se ergueu e sentou ao seu lado no banco, os dois fitando a parede branca no corredor agora quase vazio. O garoto dos dedos de lanterna ainda estava no outro banco, esperando alguém. – Nome de heroína que oka-san queria quando criança?
O homem olhou para baixo, mas seu sorriso parecia menor.
—Órbita. Porque ela atrai coisas para ela. – Pausa – Como uma estrela.
As pernas dele eram tão longas que dobravam, e ele usava um terno impecável com sapatos lustrosos demais. E era um completo desconhecido até então.
— Passei em seu teste?
— Faz diferença? Vão me mandar com você de qualquer forma.
—Faz para mim. – A voz dele ficou séria, sem o tom de diversão que havia ouvido até então. – Eu quero saber o que você quer.
O que ele queria?
Ele queria que esse dia nunca houvesse acontecido. Ele queria que nenhum deles tivesse saído de casa para comprar presentes. Ele queria ter pedido a sua oka-san para ficar com eles, que ela não precisava pegar nada para ele.
Ele queria que sua oka-san não tivesse tentando o proteger e se machucado no processo.
Ele queria ter uma quirk forte o bastante para ter tirado os dois dos escombros, quando o máximo que ele conseguiu fazer foi escavar sua saída e deixar sua oka-san para trás.
Ele queria que seu otou-san estivesse ali.
Ele queria tantas coisas.
—Eu quero minha oka-san. – Sussurrou, mais para si mesmo no momento. Podia sentir seus olhos arderem novamente. Não se importava de parecer um bebê. Ele nunca havia se importado.
—E eu vou te trazer de volta para ela. Um dia. – Sentiu a mão em sua cabeça e olhou para cima. O rosto do outro parecia mais suave, os olhos mais tristes.
Izuku era um garoto inteligente. Mais do que havia sido anos atrás, isso era fato.
E ele era bom em ler pessoas, uma questão de sobrevivência em um mundo perigoso demais para alguém como ele, isso também era fato.
—Eu vou proteger você.
Izuku sabia que Takashi era perigoso. Ele tinha uma boa aparência, uma voz macia e era carismático.
Izuku sabia que ele não tinha escolha ali, sobre ir ou não. No final daquela conversa ele entraria no carro de um completo estranho, que nem mesmo tinha certeza se tinha algum parentesco com ele, porque ninguém dava a mínima do que acontecia com uma criança sem quirk no meio do caos. E ele teria que sobreviver a isso, porque ele iria voltar para sua oka-san.
—Então, você é uma pessoa boa?
A pergunta fez o homem rir. Ele se ergueu do banco e se espreguiçou. Izuku o viu sorrir para a assistente social, que apenas assentiu.
Mais nada.
Era como ver um gato de rua ser deixado na mão do primeiro que aparecesse.
—Não, mas isso você já percebeu não foi? Inko me disse que você era esperto. – Não havia nenhum traço de mentira visível, e Izuku não sabia o que fazer em relação a isso. – Mas eu vou tentar ser, por vocês. Por você.
O homem tocou seu ombro, os olhos verdes grandes, e sinceros, e perigosos.
—Eu vou cuidar de você, Izuku.
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—Gato para Mecânica, algum sinal do tambor de lixo incendiado na minha direção?
—Limpo. Ingenium na sua direção, ponto cego à direita. Como estão os meus bebês?
—Eu acho que talvez esteja um pouco apaixonado.
Izuku escalou o prédio facilmente com suas novas botas de propulsão, bem a tempo de escapar das vistas do herói.
Havia sido uma noite boa.
Sem crimes grandes, sem nenhum encontro inesperado. O equipamento de Mei havia tornado tudo mais fácil, inclusive fugir.
—Pegou o que precisava do caso das docas?
—Uhum. – Saltou para um dos becos, era hora de acabar a noite. Ele havia tido encontros demais nos últimos dias, a última coisa que precisava era bater com Eraserhead como Nora também. – Estou chegando. Sabe que não precisava esperar, são quase 4 da manhã.
—Nope. Temos um bebê para terminar.
'Ela ainda vai me encrencar com isso.'
Ele se surpreendia em ninguém dar falta de Mei em casa, mas não sabia como perguntar. Como ela não perguntava sobre a ausência de um guardião.
—Esse carro na garagem não era de ninguém?
Izuku pausou. E essa pergunta não soava suspeita.
—Ele está na minha garagem. Claro que é de alguém.
—Oho...
—Eu tenho até medo de perguntar.
Uma comoção em um dos becos o fez pausar na escuridão e olhar abaixo com cautela. A princípio parecia um assalto, como tantos outros que parara naquela noite. Infelizmente com a lei contra uso de quirks em público com fins violentos, muitos civis se viam na situação de precisar se defender, mas temer as repercussões disso.
Um medo que não se aplicava a criminosos, pelo jeito.
Rapidamente ele catalogou a cena. Eram quatro homens, nenhum deles tinha algo de exatamente extraordinário. O da esquerda jogando um sujeito na parede parecia ter uma quirk simples de fogo, um dos que riam alto tinha algum tipo de mutação nas pernas, provavelmente para saltos. Os outros dois nada visível algo com emissão ou talvez nenhuma quirk. Esses dois eram os que precisava ter cautela.
O civil prensado na parede tinha uma mutação também, a pele de uma cor azulada era tudo o que conseguia definir na penumbra
Ele se preparou para saltar na cena, quando algo lhe pareceu errado.
Um instinto quando algo não era o que parecia, algo que Takashi havia o ajudado a trabalhar ao longo dos anos.
'Se não soubesse melhor, diria que é sua quirk, Izuku.'
—Algo?
A voz de Mei no comunicador era curiosa, provavelmente não vendo nada demais pera câmera do visor que os dois haviam instalado.
Quase negou, até perceber o que havia o chamado atenção.
Tudo parecia muito bem encenado.
Eles pareciam nervosos, mais do que o normal. Um deles olhava de vez em quando para a entrada do beco, ou para cima. Não com o olhar de alguém que não quer ser pego.
Com expectativa.
Por um momento pensou que ele pudesse o sentir ali, mas a direção era errada.
Eles estavam esperando alguém.
—Talvez ele não venha?
O cara contra a parede perguntou. A suposta vítima.
Eles estavam tentando atrair alguém.
Izuku se agachou e se aproximou mais, usando os fones para tentar amplificar o som e pegar algo na conversa abaixo, que havia se tornado sussurros.
—...nuar tentando. Eles querem o gato.
—Ingenium vindo nessa direção, hora de se retirar. – A voz de Mei o interrompeu. Mordeu o lábio, olhando para a saída do beco.
—...ga dos vilões.
—Gato, agora é uma boa hora de sair daí.
Izuku sentiu vontade de xingar, mas fugiu.
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—Qual a chance de eles estarem falando de outro gato?
Perguntou esperançoso passando uma chave para Mei. Ele se perguntava como ela havia conseguido trazer tanto equipamento para dentro do apartamento dele, tinha certeza que metade daquilo não estava ali antes de sair.
Eles haviam limpado a parte inferior da oficina e instalado os computadores lá embaixo. Mei havia dado uma de hacker nas câmeras de segurança da polícia com uma facilidade que o deixava um pouco perturbado, e trazido uma poltrona verde confortável de casa que fora um horror para passar pela porta.
Um carro antigo de Takashi era seu novo projeto, e ele realmente esperava que seu tio não quisesse mais esse carro, ou estaria em sérios problemas quando ele chegasse por não conseguir dizer não a Mei.
—Me diga você. – A voz dela saiu abafada debaixo do carro. Já devia ser seis da manhã e nenhum dos dois havia dormido.
—Poucas. Do que está rindo?
—Quanto mais pessoas atrás de você, mais chances de testar meus bebês.
—Sou só isso para você? Uma ferramenta de teste? – perguntou ofendido. Ela saiu debaixo do carro, rosto sujo de graxa e os zooms em sua cara. As mãos sujas seguraram as suas com fervor e quase caiu do banquinho em que estava sentado.
—Claro que não, que pergunta absurda.
—Mei...
—...Você é a melhor ferramenta de teste, não qualquer uma! Não chora, é brincadeira! Volta aqui!
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Hizashi olhava um pouco fascinado o desenrolar dos fatos.
Eles haviam passado o dia fazendo as gravações das cartas de aceite. As de rejeição geralmente eram escritas a papel, isso deixava 2 classes de heróis, 3 de educação geral, 3 de suporte e 3 do departamento de gestão.
Não era uma surpresa que no fim do dia todos estavam exaustos, e sem vontade de ver uma câmera por semanas.
Então, ter dois professores tentando disputar para gravar uma das cartas de aceite não era algo com precedente naquela hora da noite. Muito menos um deles ser Shouta, que sempre fazia o possível para fugir dessa parte todo ano.
—Geralmente o professor de suporte que envia as cartas, eles sabem disso certo? – Maijima comentou, sendo ignorado pelos dois.
O produtor parecia desesperado, olhando ao redor em ajuda. Enquanto eles não terminassem isso, ninguém poderia ir para casa.
—...Mas eu insisto em fazer a do jovem Midoriya.
— Eu tenho certeza que deve estar cansado com a quantidade que fez hoje, não deve ser fácil com essa idade, eu insisto também.
—Aizawa parece bem mais cansado, deveria ir para seu saco de dormir, então se me permite...
Hizashi nunca havia visto esse nível de troca passiva-agressiva antes.
—Por que não tiram no jokenpô?
Vlad comentou de forma sarcástica.
Os dois levaram a sério.
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No dia seguinte ao redor do Japão, vários jovens receberem notícias através de uma carta. Algumas boas, outras nem tanto.
Outras que mudaram o rumo de muitas vidas.
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Hitoshi olhou a imagem de Eraserhead sumir ainda aturdido. Ele estava pronto para tudo, exceto para aquilo.
Fitou o disco na mesa, os olhos arregalados, seus gatos miando nos pés da cadeira do computador.
—Toshi? Querido?
Acordou do torpor ao sentir a mão suave em seu ombro. Sua mãe estava ali. Seus pais haviam o deixado sozinho quando a carta chegou, seu pedido óbvio no rosto de que não queria ficar ao redor de ninguém quando recebesse mais uma rejeição.
Virou o rosto para cima, a cabeça encostando na barriga dela. Viu seu pai na porta, a expressão dele preocupada.
—Oh Toshi. – A voz dela tremeu, a mão em seu rosto. Podia sentir umidade ali, mas não ligava. – Vai ficar tudo bem, querido. Eles que estão perdendo, e você disse que tem o festival. Podemos treinar sua quirk. Vai ficar tudo...
—Eu passei. – Ele a interrompeu, a voz saindo em um sussurro incrédulo. – Na classe de heróis, eu passei. P.pontos de resgate, muitos pontos...eu...passei?
Sua mãe se jogou em cima dele tão rapidamente que os dois caíram da cadeira.
Ouviu a risada do seu pai, e os gatos se aproveitaram para ir para cima deles também.
Hitoshi não ligava.
Pontos de resgate, 59 deles. Pontos que ele não fazia ideia.
O colocou entre os 15 mais pontuados.
O colocou na classe de heróis.
A voz de Eraserhead, seu ídolo, não saia de sua cabeça.
'Você fez bem, garoto.'
Era assim que começaria o restante de sua vida.
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Katsuki sabia que passaria, e sabia que passaria em primeiro lugar.
Ele não fazia ideia sobre os pontos de resgate, mas ninguém precisava saber desse detalhe.
Ou que ficaria à 36 pontos de distância do recorde de pontos de entrada do exame, que havia sido do próprio All Might.
Agora ele só precisava dar um jeito de encontrar Deku e esfregar isso na cara dele.
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E saber se ele passou também, ia matar o maldito se não tivesse passado.
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Ochaco saltou e literalmente flutuou até o teto, seus pais tentando a fazer descer em seu estado de pura satisfação.
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Kirishima chorou lágrimas viris de felicidade, e quando recebeu o recado de Uraraka que ela havia passado também, ele chorou de novo.
Quando sua mãe começou a chorar, ele chorou mais uma vez.
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Izuku não sabia o que dessa situação o deixava mais aturdido no momento.
Talvez fosse a imagem holográfica não com um, mas com dois dos seus maiores ídolos. Ele nem mesmo reparou nos dois heróis tentando se empurrar discretamente algumas vezes durante a gravação, ou como interrompiam um ao outro.
E também tinha o fato de ter algo estranhamente familiar no modo de falar de All Might, que preferia não pensar no momento.
Izuku havia entrado em U.A. Segundo lugar no departamento de suporte, apenas 3 pontos atrás de Mei.
Izuku havia entrado em U.A.
—Eu consegui. – Olhou ao redor, seus gatos pulando em seu colo. – Eu consegui. Pessoal, eu vou para U.A.
Havia alguém que precisava saber disso antes do que qualquer um.
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Keito tinha plantão.
Ele havia tentado trocar com alguém para comemorar com Hitoshi sua entrada em U.A, mas não havia tido jeito. Os três combinaram então de comemorar no outro dia, o que teria que servir.
Até aquele momento a equipe médica do hospital e os pacientes que visitara já sabiam da novidade.
—Boa noite, vamos precisar trocar esses curativos, sabia que meu filho passou para U.A? Classe de heróis.
—Boa noite, a cirurgia da senhora está marcada. Quer ver uma foto do meu Hitoshi? Ele passou para U.A hoje, vai ser um herói.
—Boa noite, vocês já sabem que...
—...Seu filho passou para a classe de heróis na U.A, já passou por aqui doutor.
—...Quer ver uma foto dele com o pijama de gato?
Então, era uma noite boa e tranquila, e como sempre seu último quarto da ronda era o de Inko.
No decorrer dos anos ela havia sido levada a um quarto maior, e aos poucos os equipamentos foram ficando desnecessários. Ela não precisava mais de um respirador, e só restava o monitor dos sinais vitais.
As enfermeiras visitavam três vezes ao dia para a trocar, fazer higiene e movimentar os músculos para que não atrofiassem. As que conheciam Inko de antes iam mais vezes, apenas para conversar.
Keito fazia isso com frequência. E especialmente agora ele estava ávido para contar as novidades.
—...assei. Passei para U.A.
A voz desconhecida o fez parar na porta. Não sabia que um dos enfermeiros estaria ali, e não reconhecia aquela voz. E com certeza não era um visitante, o horário de visita havia acabado horas atrás.
—Sinto sua falta, oka-san.
Arregalou os olhos com isso e abriu a porta com avidez.
—Izuku?
O quarto estava vazio.
Suspirou, pensando que deveria estar cansado realmente. Não era a primeira vez em uma ronda que havia imaginado ter ouvido a voz dele no quarto de Inko. Onde ele estaria? Será que ainda estaria vivo?
Pela primeira vez na noite ele lembrou que o garoto de Inko também sonhava em ir para U.A. Deveria ser os dois hoje, comemorando. Inko contando a todos sobre ele também.
A janela estava aberta, as cortinas voando. A fechou, agora bem mais desanimado. Olhou para a mulher deitada, que parecia dormindo de tão serena. Puxou uma cadeira e sentou, avaliando os sinais.
—Boa noite Inko. Hitoshi passou em U.A, na classe de heróis. – Não havia nenhuma mudança, nada. – Pontos de resgate, ele não sabia que existiam. Salvou um bando de concorrentes. Esse garoto.
O bip bip era a única resposta que receberia.
Se ele ao menos tivesse olhado para cima, teria visto Noraneko pendurado no canto do teto no quarto.
Se ao menos eles dois tivessem olhando para baixo, teriam visto um dos dedos de Inko se mover.
Keito não olhou para cima, e Nora fugiu pela janela algum tempo depois que ele saiu do quarto.
Eles não olharam para baixo, e não viram Inko dar seu primeiro sinal em anos.
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Mei não parecia surpresa quando contou que havia passado, como se fosse algo óbvio e esperado.
Ele temia o dia que apresentasse Mei e Kacchan.
E falando em Kacchan, esperava que ele não explodisse o jacinto de novo, e que se explodisse ao menos lesse o bilhete antes.
A patrulha nessa noite foi mais curta, e apenas em Saitama. Depois da noite passada não achava que cautela era demais. Seja quem for que estivesse atrás dele, era má notícia.
Também não voltou como Nora para Hosu, depois de passar em Mustafu trocou de roupas, colocou o uniforme na mochila e tomou o último trem da madrugada. Uma parte sua esperava encontrar Sr. Yagi, mesmo sabendo que era tarde. Teria que visitar o homem amanhã e contar as novidades.
Sentou em um dos tantos bancos vazios, olhando ao redor as pessoas no trem, catalogando quem entrava, suas quirks, e se representavam perigo. Era algo que havia aprendido bem com Takashi, avaliar o ambiente.
Takashi.
Pegou o celular e sentiu uma dor no peito. Mesmo sabendo que era em vão ele mandou uma mensagem:
Tio Taka
Izuku: Eu consegui. Entrei para U.A.
Pausou, esperando alguma resposta.
Izuku: Sinto sua falta.
Izuku: Preocupado, dê sinal
Izuku: Por favor.
Izuku: Qualquer coisa.
Suspirou, brincando com o celular entre os dedos. Mei havia mandando mensagem, dizendo que já tinha ido para casa. Para ela ter passado podia não ser algo grande, mas para a família devia ser.
Takashi iria ter comemorado também. Mesmo não tendo a melhor visão sobre heróis, ele sempre havia apoiado seu sonho. Não havia ficado surpreso ao descobrir que seu tio e seu pai haviam sido amigos, e que foi pela amizade deles que seu pai havia conhecido sua mãe. Mesmo no breve momento em que conhecera seu otou-san, ele havia percebido o quanto os dois eram parecidos.
Eles tinham os mesmos ideais, e Izuku sempre tivera uma teoria sobre isso. Lembrava muito bem quando entrara no carro com Takashi naquele dia. Uma mochila nos braços, uma mão dele em seu ombro, rumo ao desconhecido.
Ele sentia medo de Takashi naquele tempo. Podia sentir o perigo que ele representava.
'- No que o senhor trabalha?'
Havia perguntado no momento em que saiam pelos portões do abrigo, o sol amanhecendo nas montanhas. Se sentia intimidado pelo carro caro, pelo ambiente impessoal. Pela forma como Takashi apertava a direção quando algum carro passava por eles na estrada quase deserta àquela hora.
'- Eu? Huum.'
Ele havia rido sem graça, ajustando o retrovisor, e então o olhado de soslaio, os olhos divertidos.
'- Eu trabalho com lixo, Izuku.'
Sorriu olhando o celular. A voz mecânica anunciou sua plataforma e se ergueu. Mais duas pessoas se prepararam para sair também, um senhor que parecia cansado, e uma mulher que falava com alguém no telefone. Outras pessoas estavam na plataforma para subir.
'- Coleta e descarte. Não imagina o tanto de lixo que Japão produz.'
Era uma tentativa em vão, mas clicou no contato e levou ao ouvido, esperando cair na caixa postal, talvez deixar mais um recado.
Quase derrubou o telefone quando ele começou a chamar.
Sua respiração prendeu, os olhos arregalados.
Ouviu o som de um celular tocando perto, e virou quando as portas começaram a fechar, notando que era de alguém que entrava. A ligação caiu, o toque parou. Ligou novamente. O trem se preparava para partir.
Era o toque de Takashi, tinha certeza que era. Conhecia aquela música, ele mesmo havia a colocado.
O trem começou a se mover, mas conseguiu ver dentro do vagão alguém puxar o celular e olhar o aparelho. Corpo magro, um pouco envergado. Braços pálidos, um capuz escuro cobrindo a cabeça e o rosto. Não era seu tio.
Ainda com o celular no ouvido, parado na plataforma, ele viu a pessoa levar o celular ao rosto.
Ele viu a mão com luvas escuras.
Ele viu os dois dedos decepados.
'Um grito surdo, um corpo o prendendo no chão imóvel, uma mão segurando sua cabeça. E dor, dor em seu rosto, como nunca havia sentido, enquanto o sangue escorria por seu cabelo, em cima dos seus olhos. Corroendo pele, músculos.
—Não queria ter que fazer isso, Izuku.
Uma mão livre, agarrou o bisturi entre os dedos com desespero e atacou.'
O telefone foi atendido.
Desligou e saiu correndo antes que a pessoa se virasse.
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O nerd estava atrasado.
E para piorar, em um encontro que ele mesmo tinha marcado. E quando ele chegasse Katsuki ia se entregar ao desejo reprimido de explodir ele.
Só um pouco.
Não bastava ter marcado também naquele maldito lugar novamente. Se recusava a entrar ali, por isso sentou no banco do lado de fora. Se não estivesse precisando do maldito aparelho teria ido embora.
'Não está nenhum pouquinho preocupado?'
A voz na sua cabeça que parecia terrivelmente com a de Deku questionou. E era o que faltava, sua consciência questionar seus próprios motivos.
Sentiu um toque leve em seu ombro. Não se assustou, nenhum pouco. Não mesmo.
Se virou e lá estava o maldito atrás dele. Abriu a boca para gritar, até perceber que havia algo de errado. Olheiras eram normais, mas essas pareciam piores e estavam acompanhadas de olhos avermelhados e um pouco vidrados.
Ele estava vestido estranho, como se tivesse colocado a primeira roupa que visse pela frente, e a blusa claramente era grande demais para ser dele.
Não soube como reagir a isso. Não era o que esperava. Seu estômago gelou.
'Eu disse que estava preocupado.'
—Passou na U.A?
O nerd assentiu, o que o deixou mais confuso. E odiava se sentir confuso.
O que era algo comum de acontecer perto daquele maldito.
Como toda a história de vigilante, que ele queria perguntar, e ao mesmo tempo não queria saber, porque não podia ser verdade.
Ele sentou ao seu lado no banco, e nem mesmo insistiu para entrarem. O viu tirar algo da mochila, uma caixa branca que abriu com cuidado e lá estavam os fones. Nunca admitiria que ficou um pouco decepcionado por ele ter mudado o design, apesar de admitir que parecia mais profissional. As orelhas estavam menores, e pareciam menos orelhas do que antes. A cor era preta, mas havia faixas vermelhas em alguns pontos, e podia ver uma pequena antena retrátil no lado esquerdo. Ele tirou também um colar, que mais parecia uma gargantilha de um material preto que não era tecido. Havia botões nela.
'-Controle.' – Ele mostrou a gargantilha – 'Tem um sinal wireless. Botão verde é o volume, vermelho captação de ondas. Ativa a antena. Bom para infiltração e durante lutas. Ajuda na percepção do ambiente.'
Certo, talvez estivesse um pouco impressionado.
O nerd o olhou com um pedido mudo e revirou os olhos o deixando colocar o objeto em seu pescoço. Era um pouco desconfortável, e não podia não se sentir ofendido. Parecia uma coleira.
Colocou o fone com certo alívio, mas também com desconfiança, lembrando do choque da última vez.
Sentiu a respiração do nerd muito perto quando ele se inclinou ajustando algo.
Os olhos dele ainda pareciam vidrados, e assim de perto era claro que o motivo devia ter sido choro. Provava o nariz avermelhado. O corpo estava tenso, e o notou olhando ao redor de forma meio paranoica algumas vezes.
Ele se afastou, movendo as mãos novamente.
'-Amarelo é um visor. Aperte.'
Com desconfiança o fez, e sua visão ficou laranja. Não era um visor de verdade, mas parecia uma tela de holograma surgindo a sua frente.
Como ele havia conseguido fazer algo assim?
'-Mostra sinais vitais se apertar duas vezes. Os seus, ou os de outra pessoa. Bom para resgate.'
O nerd sorriu levemente.
'-Soube que é sua nova especialidade.'
Grunhiu, sentindo seu rosto esquentar com isso.
'- Uma amiga me ajudou com a matéria prima. Tem visão de calor também.'
Deku não tinha feito um aparelho auditivo apenas. Aquilo era muito mais do que isso, mas não devia se surpreender. Apertou o botão verde e conseguiu ouvir, finalmente. O sinal era mais limpo também.
—O que acha?
Só então se deu conta que ele não tinha ouvido a voz dele ainda. O tom parecia mais grave, era de se esperar. Não eram mais crianças.
—É... aceitável.
'Você amou. Custa agradecer?'
'Calado, voz do nerd'
Deku sorriu com isso. Um sorriso que parecia errado. Engoliu em seco, não querendo fazer aquilo, mas não conseguia se controlar.
—O que diabos aconteceu?
A pergunta pareceu pegar o outro de surpresa.
Ele abriu a boca, fechou. Abriu de novo.
—Nada.
— Nunca soube mentir, seu maldito.
A expressão dele ficou ofendida, e ele cruzou os braços.
—Sei sim.
—Não sabe, tua mãe nunca te ensinou.
—Eu...Estou bem.
E com isso a torneira abriu. E Katsuki deveria saber que isso aconteceria, por isso não queria perguntar. O nerd começou a soluçar, e olhou ao redor de forma desconfortável.
—O que aconteceu?
Uma voz desconhecida os interrompeu. Olhou para trás e viu um garoto estranho na porta do cat café, com o cabelo de duas cores e um gato na cabeça, o olhando sem expressão alguma no rosto, mas que ainda assim parecia o olhar de forma feia, e o nerd com certa preocupação.
O que era estranho.
Ainda mais porque o gato na cabeça dele o fitava da mesma forma, até a cara dividida no meio era igual.
Se sentia julgado por um gato, e isso era ofensivo.
—Não é da sua conta meio a meio. – Resmungou.
O nerd continuava chorando, balbuciando de forma incoerente entre os soluços e o catarro, até se agarrar em seu braço. Tentou o sacudir longe, o meio a meio pareceu se irritar com isso.
E aquela era a vida de Katsuki quando tentava ser uma boa pessoa.
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