A teoria do caos
10 Capítulo X -Aizawa questiona as suas escolhas na vida - Parte I
"A única verdade simples é que não há nada simples neste complexo universo. Tudo se relaciona. Tudo se conecta."
Johnny Rich, The Human Script
Dois anos, oito meses e 2 dias atrás.
Seu despertar foi abrupto. Os olhos se arregalando na penumbra, a respiração presa em sua garganta e o coração acelerado.
—Oka-san? – chamou confuso, olhando o desconhecido ao redor. Estava deitado em um sofá, com um cobertor em cima de seu corpo. Não conseguia ver muito além de uma janela de vidro a sua frente que mostrava uma chuva torrencial lá fora. Ele nunca dormia bem na chuva.
—Oka-san? Onde...
E foi quando lembrou. O sono sumindo completamente, na sua mente as memórias do prédio, do hospital, do abrigo. A viagem de carro até ali com um homem até então desconhecido. Ele não fazia ideia em que parte da cidade estava no momento. Ele nem mesmo lembrava de ter saído do carro. Não tinha certeza se havia dissociado, ou apenas dormido.
—Takashi-san?
Não houve resposta e sentou no sofá, ponderando em explorar seus arredores com o risco de acabar fazendo algo errado. Ele não sabia o quanto poderia puxar Takashi, ele era uma incógnita no momento.
No fim, a urgência de conhecer o ambiente falou mais alto e deixou seus pés tocarem o chão frio de madeira, caminhando ao redor em passos gatunos. Com os olhos se acostumando à pouca luz notou que o quarto não era exatamente um quarto, mas todo um espaço, como um galpão. Na penumbra conseguia ver paredes de madeira escura, e ao olhar o teto viu que a fonte de luz era uma lâmpada solitária pendurada ali.
Olhou pela janela e notou que estava no segundo andar. Ficou aliviado ao ver a torre de Hosu ao longe. Podia ver o rio também. Ainda estava na cidade. Olhou para baixo e viu os comércios fechados. Já era noite, sem dúvidas. Ele havia perdido um dia inteiro, o que o deixou confuso. Ele não dormiria tanto, mesmo exausto. Ainda mais em companhia de um desconhecido.
Balançou a cabeça e olhou ao redor. Não havia muitos móveis, apenas um frigobar quase vazio exceto por enérgicos, algumas frutas e água.
'Que tipo de pessoa viveria assim?' Ponderou avaliando ao redor. Havia o mínimo ali. Nenhum lugar aparente para dormir além do sofá. Viu uma mesa de centro, apenas uma cadeira. 'Ele vive sozinho.'
O lugar tinha um ar de temporário, mas ao mesmo tempo ao notar os pratos na pia, frutas apodrecendo e as coisas no pequeno armário abaixo do balcão mostrava que ele vivia já há um tempo aqui.
'Oka-san nunca falou dele, mas ele estava na cidade. E perto. Há quanto tempo ele estava aqui?'
Procurou mais pistas ao redor, montando uma imagem mental da pessoa que vivia ali. No banheiro pequeno havia produtos de limpeza em frascos de viagem, conseguia ver que muitos eram amostras de hotéis. Vários hotéis. Encontrou um kit de primeiros socorros e ficou surpreso com a quantidade de coisas ali. Nem sua mãe que era enfermeira e insistia em ter tudo em casa tinha tudo aquilo. Fios de sutura, anestésicos, ataduras, gaze, iodofórmio e clorexidina e mais qualquer coisa que conseguisse pensar.
'Ele deve se machucar bastante. Ou ser muito paranoico.'
Guardou tudo no lugar cuidadosamente e viu uma mala fechada no canto. Fechada com um cadeado.
'E isso não é nada suspeito?'
Observou que havia apenas uma porta no local, onde devia haver a entrada para o andar debaixo. Se ergueu de onde estava agachado olhando a mala e foi quando sentiu. Uma das madeiras abaixo dos seus pés não parecia firme. Deu um passo para trás, e pisou novamente para confirmar.
Voltou a se agachar, tocando o chão e dando leves batidas onde havia sentido.
'É oco?'
Tocou ao redor da madeira e franziu a testa ao sentir a saliência.
Uma pancada no andar debaixo quase o fez soltar o coração pela boca e caiu de bunda no chão.
Ouviu vozes no andar debaixo, abafadas e se aproximou da porta tentando ouvir. Conseguia reconhecer a voz de Takashi e uma voz desconhecida. Feminina.
—...ome é Izuku.
Estavam falando dele, e se frustrou por não ouvir mais. Em um impulso, antes que desistisse, abriu a porta de forma vagarosa e se viu em uma entrada pequena com uma escadaria estreita do lado. Conseguia ver uma luz baixa no fim da escada e andou na ponta dos pés nos primeiros degraus. As vozes continuavam baixas, e agora percebia que era proposital, mas estava mais claro.
—...sta jogando tudo fora?
—Mudança de planos.
—Não, os planos não mudaram, eles não os mudaram.
—Eles não, mas eu sim.
—Você quer morrer? Você sabia quando entrou, não tem uma saída disso Takashi. Eles não vão te deixar ir. Não depois de abandonar o que tinha que fazer pela metade.
—O que você quer que eu faça!? – a voz dele aumentou na última palavra e se assustou, prendendo a respiração para não fazer nenhum som. Tentou ver a pessoa com quem ele falava, mas não tinha uma boa visão dali. – Se eu ficar aqui, se ele ficar aqui... Ele é o filho da Inko.
—Oh Takashi. – A voz desconhecida ficou mais suave. – Eles sabem? Sobre...
—Ele não ter quirk? Eu escondi os registros dele, mas Tsubasa está envolvido. Inko e Hisashi eram da quarta geração de quirks, ele deveria ter uma quirk.
—Se os dois fossem da quarta geração, sim.
—Eu não sei do que está falando.
—Você sabe bem do que estou falando.
O silêncio foi repentino e temeu que eles pudessem ouvir seu coração batendo acelerado.
—Eles acreditaram?
—Eles acreditaram que eu não sabia. Agora com Inko fora de comissão...eu não tenho mais desculpas. Ele tem que sair daqui essa noite. Akira...por favor.
—Eu não sei...
—Akira, eu já abri mão de tudo por eles, eu não vou abrir mão de mais nada. – A voz dele saiu em um tom baixo e perigoso, mas no fim se tornou quase pedinte. – Akira.
—Você entende que está colocando a vida de um garoto acima de algo muito maior? Estamos tão perto. Apenas mais algumas semanas...eles confiam em você.
—Eles confiam em mim até eu não entregar Izuku a eles! Hisashi abriu mão de tudo por eles, e quando ele quis sair... Eu perdi Kohei, abri mão do meu filho...Sabe o que eu acho dessa maldita missão? Que se fodam. Eles são os culpados da maldita situação, eles criam o caos e depois a gente tem que limpar o lixo deles? Enquanto um bando de idiotas de capa fica com a fama?
—Takashi...- a voz saiu em aviso. – Seu discurso me parece familiar, cuidado para não...
—Eles que devem ter cuidado! Você disse que sabe, certo? Então deve saber que eu deveria ser a última pessoa para estar nessa...
Uma batida na porta fez os dois se calarem de forma abrupta.
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Agora
Algumas vezes, não importa o que aconteça, não importa a interferência, alguns eventos sempre se repetem. Constantes. Necessárias para a busca incessante do universo pelo equilíbrio.
Há eventos que não podem ser mudados, e pessoas que sempre irão se encontrar, mais cedo ou mais tarde.
Algumas vezes a data desse encontro não muda o resultado gerado por essa constante.
Em outras, pode mudar tudo.
Em algum universo, Izuku e Shoto se encontraram no primeiro dia de aula em U.A, e se tornaram amigos depois de uma batalha brutal que mudou suas vidas.
Em algum universo, Shoto e Katsuki se encontraram no primeiro dia de aula em U.A, e trilharam um caminho longo – muito longo – para estabelecerem uma relação de tolerância.
Nesse universo Izuku ofereceu uma gata a Shoto, e um lugar onde se sentisse seguro pela primeira vez na vida.
—O que aconteceu?
E isso mudou muito mais do que se podia prever.
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Shoto não era a pessoa mais socialmente apta. Ele culpava anos de isolamento e abuso debaixo do próprio teto, não era como se ele tivesse tempo para interagir com outras pessoas entre um treino – surra – e outro. Ele nem mesmo podia ter contato com nenhum de seus irmãos até Fuyumi ter que assumir um papel muito maior que ela quando a mãe deles foi levada.
Então havia uma possibilidade de ele estar lendo a situação de forma errada, mas o reflexo de intervir, estranhamente, havia sido mais forte.
Talvez a razão fosse de que desde que o garoto dos gatos lhe apresentou o Cat Cafe eles não se viram mais, apesar do dono ter mencionado – ele totalmente não perguntou – que ele era um cliente comum, e que sempre trazia gatos para o local.
Talvez fosse a cicatriz no rosto dele, do lado oposto ao seu e claramente infligida por alguém, que lhe fazia pensar que havia um entendimento entre eles.
Talvez fosse eles terem partido sem trocar nomes – apesar de ele não ter muita vontade de dar seu sobrenome a ninguém -, o que o deixou ficar se perguntando. Afinal, ele tinha uma natureza curiosa. Isso explicaria sua fixação em um estranho.
Por alguma razão quando contou sua teoria a Fuyumi ela o olhou engraçado.
Então, é, Shoto podia justificar o fato de ter feito uma intervenção quando viu o garoto estranho dos gatos sendo aparentemente destratado na frente do Cat Cafe.
—Não é da sua conta, meio a meio.
Destratado por uma pessoa bem desagradável.
—Ele está chorando.
—Não me diga? O que entregou? As lágrimas? O catarro?
Shoto não sabia no que havia se metido. O garoto estranho dos gatos estava soluçando de forma sentida e balbuciando o que tinha certeza que devia ser outra língua, não entendeu uma palavra. O viu se agarrar ao cara rude, o que deixou Shoto mais confuso.
Eles pareciam se conhecer. Se conhecer bem. Não era apenas um caso de um estranho mexendo com alguém. Isso era...
'Oh. Entendo.'
Essa realização o fez ficar ainda mais preocupado, ainda mais quando o outro afastou o garoto dos gatos rudemente e começou a o sacudir pelos ombros.
—Engole esse choro!
Duas caras, agora pendurada em seu ombro, fez um miado indignado que representava bem o que estava sentindo.
Ele agiu antes de pensar.
Se controlando para não usar sua quirk agarrou o garoto dos gatos pelo braço e o puxou para longe do outro, se colocando entre os dois quando o loiro se ergueu com o movimento. Ele tinha experiência demais com esse tipo de situação, mas diferente de quando era criança ele agora podia intervir.
—Não devia o tratar assim. – Falou friamente, seu pé posicionado caso precisasse usar sua quirk ao ver o outro erguer as mãos, o som de explosões saindo das palmas. Algumas pessoas que passavam na calçada haviam parado para ver, esperando algo acontecer. Sem tirar os olhos da ameaça ele se dirigiu ao outro garoto às suas costas. – Você está bem? Quer que eu...hum?
O garoto havia sumido.
—Deku!
Olhou confuso ao redor e o cara rude já estava correndo e atravessando a rua.
—O que foi isso?
O dono do Cat Cafe estava na porta, a expressão confusa.
Shoto o entendia bem.
Entregou de forma relutante Duas Caras a ele, que não pareceu muito feliz em se separar, o que rendeu alguns arranhões com as garras dela se enfiando em seu braço, e correu atrás do outro.
Quando virou a esquina tinha os perdido de vista.
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E nesse dia Shoto deu a si mesmo uma missão.
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'Não perca o controle da situação'
Era o que Takashi sempre dizia.
'E se perder, não deixe perceberem que perdeu o controle da situação.'
Era mais fácil falar do que fazer.
'Por que eu não consigo parar de chorar?'
Ele quase podia sentir Kacchan o farejando em seu encalço. Quando eram crianças sua mãe costumava dizer que os dois tinham um radar um para o outro, e que o de Kacchan era bem mais poderoso quando ele estava chorando. Izuku achava que era como um lobo sentindo o cheiro da presa fácil. Nesse momento era algo bem inconveniente.
Ele não podia ficar perto de Kacchan nesse momento. Havia sido um erro ter ido nesse encontro depois de...depois da noite passada. Ele sempre fora bem ruim em esconder as coisas dele.
E agora, mas do que nunca, ele precisava manter quem pudesse fora disso.
Grunhiu entrando em um beco e apertou os braceletes em seus pulsos. Era apenas um protótipo, mas aquela era uma hora boa como qualquer uma.
No momento eram apenas as luvas, mas apesar da situação sorriu ao ver elas se formando em suas mãos, as garras afiadas surgindo em seus dedos.
—Deku!
Mais do que depressa se agarrou pela parede e subiu, alcançando uma das escadarias de incêndio e pulando para o próximo prédio. Se agachou e ouviu os sons de explosão. Sentiu certa nostalgia, isso trazia memórias.
Quando Kacchan corria atrás dele depois da escola para chutar sua bunda, antes de conseguir revidar, claro.
—Desculpe, Kacchan.
Suspirou virando ainda deitado e olhando o céu. Logo anoiteceria, teria que pegar o trem de volta a Hosu.
Ele estava sozinho, sem ninguém a recorrer. Takashi definitivamente estava desaparecido, e apenas esperava que não estivesse morto. Havia alguém atrás de Nora, e se Takashi tivesse sido capturado por eles...alguém viria atrás de Izuku também.
U.A era o lugar mais seguro para ele no momento, apesar de ser onde deveria ser mais cuidadoso sobre Nora. Uma parte sua queria contar a algum herói o que estava acontecendo, mesmo o pouco que sabia. Outra, mais forte pelos anos com Takashi, exigia cautela.
'Nem todos heróis são confiáveis, Izuku. Alguns deles são piores que vilões. Eles acham que estão certo, mesmo quando estão errados, e todos vão acreditar neles.'
— Eu não sei o que devo fazer.
Ele sabia o que queria fazer, e que era algo muito, mas muito estúpido. Mais estúpido do que se tornar um vigilante, mais estúpido do que meter alguém nisso.
Ergueu a mão e viu os braceletes se retraírem.
Nanotecnologia era um sonho.
Pelo menos Mei ficaria feliz em saber que havia funcionado.
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Katsuki estava puto.
E preocupado.
E mais puto ainda, por estar preocupado.
Ele grunhiu, olhando as ruas vazias e tendo que retornar. Não era saudável ignorar mais de sete ligações da velha.
Ela tinha o dom de surgir do inferno quando isso acontecia e o arrastar para casa.
Deu meia volta em direção a sua estação, as mãos nos bolsos. O aparelho em seus ouvidos parecia pesar muito mais do que deveria no momento.
A cara do nerd não saia da sua cabeça. Ele já tinha o visto chorando tantas vezes que perdera a conta, por motivos diversos, e por motivo nenhum.
Ele lembrava quando era pirralho de cogitar isso ser a quirk dele: choro excessivo.
Era natural. Pássaros voavam, peixes nadavam, Katsuki era incrível, e Deku chorava por qualquer coisa.
'Mas é diferente dessa vez, não é?'
Tentou ignorar esse pensamento, entrando no trem. Ao menos sabia que ele estaria em U.A em duas semanas, e lá ele não tinha como tirar um truque da bunda para fugir dele. Ou aparecer um estranho metido e atrapalhar seu interrogatório.
Ele descobriria o que diabos estava acontecendo.
'Ele parecia...apavorado.'
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—Shoto! Você demorou.
—Desculpe Fuyumi, aconteceu um contratempo. Ele...
—Não chegou ainda. Você está bem?
—Hum...Lembra do cara do gato? Por que está rindo?
—Nada, nada. O que você vive falando, lembro sim.
—Eu o vi de novo.
—E?
—Por que está me olhando assim?
—Oh Shoto...nada. Então, falou com ele?
—Ele está em um relacionamento abusivo.
—...o quê?
—Eu vou salvá-lo. O que tem para o jantar? Quer ajuda?
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—Notícias do gato?
Tensei quase riu do tom de Aizawa quando ele tentava fingir que não se importava.
Ergueu os olhos do último relatório da noite e o viu pendurado na janela da agência, porque Deus livrasse Aizawa de entrar pela porta como um ser humano normal.
—Nenhuma em Hosu. Ele foi avistado em Saitama na semana passada, e em Kanagawa alguns dias depois. As pessoas estão comentando. – Dobrou as folhas e ergueu o rosto quando o outro não respondeu de imediato. – Preocupado?
—Só uma sensação. Por que evitar Hosu?
—Endeavour...
—Ele jogou um balde de água nele, ele não tem medo de Endeavour.
—O que acha que é então?
—Eu não sei. – A voz dele saiu sem interesse, mas o conhecia melhor. – Ainda.
—Uhum. De qualquer forma, as coisas andam bem entediantes sem ele.
—Um vigilante não deveria ser visto como entretenimento, Ingenium.
Tensei sorriu sem graça, mas não se corrigiu.
—E como estão as coisas em U.A? Tenya recebeu a carta dele. – Ele terminou orgulhoso – Entre os dez melhores desse ano.
—Eu sei. Sabe quem distribui essas cartas, certo?
Ficaria ofendido com o tom dele, se não soubesse que era seu tom normal.
—Hizashi me disse que estava tendo dores de cabeça com a classe que ficou. Ele e Nemuri estão apostando em quantos vai expulsar no primeiro dia.
—Claro que eles estão. – Ele grunhiu saltando finalmente da janela e indo até a máquina de café murmurando alguma coisa. Tensei abafou uma risada, terminando a papelada. – Eu tenho certeza que seu irmão contou sobre o que aconteceu no teste dele. – Tensei o olhou confuso e o outro suspirou. – Com o zero pointer.
—Oh, sim. Três participantes salvaram uns aos outros certo? Tenya falou muito, parece que ele se achou excessivamente rude com um deles e planeja um grande pedido de desculpas no primeiro dia de aula... Por que está fazendo essa cara?
Aizawa parecia tão farto da vida no momento.
—Os três que quase se mataram tentando parar um robô sem nem pensar se uma escola como U.A deixaria participantes morrerem esmagados estão na minha sala. E seu irmão também. Se me dá licença.
E com isso ele partiu pela janela.
Tensei esperou alguns segundos para gargalhar, afinal, ele tinha amor a vida.
Aquele seria um ano interessante em U.A, com certeza.
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Mei Hatsume era uma das pessoas mais teimosas que Izuku conhecia, e ele conhecia Katsuki Bakugou.
Ele havia tentado se afastar de Mei nos primeiros dias depois do incidente no trem, a última coisa que ele precisava era que ela acabasse envolvida com aquelas pessoas por sua culpa. Ele não tinha certeza se ela havia se feito de desentendida ou apenas não havia entendido focada nos seus bebês.
O fato é que Mei não foi embora, ela nem mesmo piscou quando disse que não patrulharia abertamente em Hosu por um tempo e não perguntou nada quando ele decidiu transferir 'a base' deles para outra parte da cidade. Na verdade, ela pareceu bem entusiasmada com a possibilidade de criar uma base na torre do relógio de Hosu.
O lugar ficava no centro da cidade, em um lugar tão óbvio que ninguém procuraria. Ele lembrava de ter ficado incrédulo quando Takashi falou sobre o lugar, e nunca imaginou que o utilizaria, mas ele não estava mais se sentindo seguro onde estava.
Enquanto os dois organizavam a mudança – Mei havia feito questão de assumir essa parte -, ele planejava. O pavor inicial diminuindo ele podia pensar com mais clareza na situação.
Primeiro, as possibilidades. Takashi havia retornado com ele ao Japão, dito que iria assegurar que ele ficaria seguro em U.A, e então partido e desaparecido. A maior fonte de insegurança para Izuku no Japão se referia ao ataque antes de saírem do Japão, e se achava um idiota por não ter pensado nisso antes.
Possibilidade um: Takashi se infiltrou com sucesso novamente na organização. Afinal, eles não sabiam que ele havia os traído. Para todos os efeitos Takashi havia o entregue nas mãos deles anos atrás, e ele havia fugido sozinho.
Possibilidade dois: Eles sabiam da traição, e Takashi estava morto ou pior. Se eles não haviam vindo atrás de Izuku ainda era porque eles não sabiam do paradeiro dele. Izuku não devia ter sobrevivido àquela noite. Aliás, sem a quirk de Akira ele estaria morto. Então ele estava seguro, por hora.
Ele não gostava de nenhuma das possibilidades, e ele não gostava das ideias para lidar com nenhuma delas que se formavam em sua mente. Principalmente a possibilidade dois.
—O carro e a moto, toda a oficina, vai ser um problema. Não me sinto bem em ter que voltar aqui com frequência. – Ponderou olhando ao redor, pegando os gatos que encontrasse pelo caminho na casa e os contando.
Em dois dias estariam indo para U.A, e as coisas podiam se complicar mais. Precisava de um lugar seguro, e não só por Nora.
—Tem um galpão perto o bastante. – Mei apontou o mapa. – Algum reforço nele, uma mexida aqui e acolá...
—Hum, mas ele não é meu.
—É meu.
—Espera, quando?
—Minutos atrás.
—Hum. Esqueci que é da burguesia.
— Oh meu caro Izuku, não se preocupe com nada, nada mesmo! Entregue na mão da tia Mei que você vai alcançar o espaço!
—Está me deixando preocupado.
Mei não parecia ofendida. Na verdade, ela parecia bem feliz.
O que o deixou ainda mais preocupado.
—Eu transfiro o restante das coisas hoje pela madrugada.
Izuku havia contado 17 gatos, três a mais do que lembrava dias atrás. Suspirou, transferindo o restante dos felinos para as gaiolas e recebendo miados indignados por isso.
—Foi mal pessoal, só por um tempinho.
Uma parte sua, bem egoísta, ficava feliz por Mei ser teimosa.
Ele se sentia menos sozinho.
—Mei?
Ela fez um som de estar ouvindo sem se virar para ele, escrevendo alguma coisa em uma prancheta. Ele não sabia onde ele havia arranjado o minifurgão, mas havia desistido de tentar descobrir as coisas que ela conseguia fazer.
—Eu acho que deveria saber, mas talvez eu faça algo bem estúpido em breve.
Os olhos em zoom o fitaram com isso, uma expressão curiosa. E então ela sorriu.
—Use meus bebês.
Ele realmente ficava feliz em ter Mei.
—Vamos dar duas viagens. Primeiro as coisas do furgão e então vamos fazer essa belezinha aqui funcionar.
—Não gostei dessa risada.
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Estava sendo uma noite tranquila para Ingenium.
Apesar do sumiço de Nora nos últimos tempos, ao que parece o vigilante não havia deixado de enviar pistas a polícia, e até mesmo sua agência. Ele parecia tentar compensar a falta de atividade em Hosu com trabalho investigativo.
Nora seria um bom herói. Isso não saia da sua cabeça, porque era a verdade. Ele sabia, assim como muitos sabiam, que o vigilante tinha o coração no lugar certo. Era o mesmo caso de Koichi Haimawari *, ele não conseguia ver diferença entre o jovem vigilante que havia conhecido anos atrás e Nora.
Pena que pela lei esse não era o caso, mas ainda assim ele sabia que enquanto visse Nora com o coração no lugar certo ele nunca iria o apreender.
'-Ingenium, temos uma...hum, situação.'
Por alguma razão o outro herói estava rindo, o que o deixou muito curioso.
—Ingenium na escuta.
'-Ah, talvez devesse vir aqui. Ver com os próprios olhos e tudo mais.'
Franziu o cenho com isso, curioso.
—Passe sua localização.
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As duas da manhã Aizawa recebeu o chamado de Naomasa. O que nunca era uma boa notícia quando o detetive o contatava diretamente.
—Temos uma situação.
—O que foi agora?
—Não é nada de grave. – A voz do homem tinha um tom que não reconhecia. – Mas como é sobre Midoriya achei que deveria saber.
Se empertigou mais no prédio, mais alerta.
—O que aconteceu?
—Ele está bem! – O homem corrigiu rapidamente. – Aqui na delegacia, no momento, esperando Yagi.
—O outro loiro idiota? Naomasa, o que aconteceu, pare de enrolar.
Ele já estava saltando com sua ferramenta de captura em direção a delegacia.
—Ah sim, ele é emancipado, mas ele só seria liberado com um adulto, e por alguma razão ele deu o nome de Yagi então...
—Naomasa.
—Bem...Ingenium o apreendeu mais cedo, junto com outra garota, Mei Hatsume. Os dois estavam dirigindo um carro modificado em Hosu, sem carteira de motorista, com 17 gatos dentro, e mais alguns seguindo o veículo.
—Hum?
Aizawa escorregou do prédio.
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Ele rodou o telefone no balcão, esperando alguma mensagem chegar. E nada.
Aquilo o irritava. O irritava muito.
Ergueu a mão para coçar o pescoço e pausou ao ver os dedos mutilados.
Definitivamente aquilo o irritava. Era trapaça. Um jogador retornar assim era trapaça. Não valia.
—Por que ele não está mandando mensagens, Kurogiri?
—Talvez porque ele tenha percebido que não era Takashi-san que estava as recebendo, Shigakari Tomura.
Não, ele não gostava disso, nenhum pouco. Se soubesse que ele estava vivo antes, teria arrancado onde ele estava.
—Ele mentiu. Ele mentiu Kurogiri. Ele mentiu ao sensei. Como? Ninguém mente para o sensei.
Olhou as últimas mensagens: Eu consegui. Entrei para U.A.
O plano não havia mudado, ele só tinha mais um motivo. Se os boatos eram verdadeiros, All Might estaria em U.A, e player 2 sempre quis ser um herói. Ele ia estar lá.
Os dois iriam estar.
Com isso em mente, ergueu sua mão não mutilada e segurou o aparelho, o destruindo completamente.
Da próxima vez que encontrasse player 2, não iria hesitar.
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