A teoria do caos

31 Capítulo XXXI - Aquele em que Izuku usa o poder da amizade


"O que você é grita tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz."

— Ralph Waldo Emerson


O primeiro a atacar foi Juuzo, o chão sob seus pés se liquefazendo como argila viva. Ele se lançou direto contra Shoto, o sorriso largo e decidido.

Mas Izuku foi mais rápido.

Com um movimento preciso, ele disparou sua linha de suporte, enganchando na borda superior da arena e se impulsionando para frente como uma bala. O impacto foi brutal — um chute direto no flanco de Juuzo, que o fez cambalear para o lado, surpreso.

Izuku e Shoto trocaram um breve olhar — um acordo silencioso — e se moveram juntos.

Izuku atacou Juuzo sem piedade por um lado enquanto Shoto protegia seu flanco a distância, o firmando com o gelo acima do chão, impedindo que Juuzo o prendesse com sua quirk. Os dois dançavam ao redor de Juuzo, como dois predadores procurando uma abertura.

— MINHA NOSSA! PARECE QUE OS DOIS SE JUNTARAM CONTRA JUUZO! VOCÊ ESPERAVA ISSO, ERASER??

— Não é uma surpresa tão grande — respondeu Aizawa, sem emoção.

Izuku conseguiu uma abertura e avançou em Juuzo, o distraindo de Shoto, que não perdeu tempo. Um movimento de sua mão e o solo sob ele congelou, prendendo seus pés em uma armadilha de gelo. Juuzo reagiu rápido, desconstruindo o gelo, mas Izuku já puxava outra linha, amarrando um dos pés recém-libertos e lançando a outra ponta nas grades de contenção acima, efetivamente o impedindo de usar sua quirk.

Juuzo foi içado do chão, pendurado por um momento vulnerável no ar.

Antes que pudesse se recuperar, Shoto o acertou com uma estaca de gelo, precisa e impiedosa. O impacto o empurrou com força em direção à mureta das arquibancadas.

Em menos de 5 minutos, Juuzo foi lançado para fora da arena.

A arena ficou em silêncio por um instante, a plateia absorvendo a cena relâmpago — e então, explodiu em aplausos estrondosos.

Izuku e Shoto, no entanto, já se encaravam.

— QUE TRABALHO EM EQUIPE FANTÁSTICO! Mas agora eles estão em uma situação difícil... terão que atacar o aliado. Será que vão se segurar?

Aizawa soltou uma risada seca.

— Só pensa isso quem não os conhece. Eles não sabem o que é se segurar.

Como para confirmar suas palavras, o gelo cresceu sob os pés de Shoto em uma nova formação ofensiva. Izuku firmou sua postura, as mãos ligeiramente erguidas.

Sua armadura brilhou em resposta, o sorriso surgindo nos lábios.

Eles sabiam que aquela luta era diferente.

Ninguém viu quem se moveu primeiro — mas todos viram o momento em que o chute de Izuku estourou o gelo a centímetros do rosto de Shoto.

Era completamente diferente da batalha anterior.

Shoto tentou revidar, mas Izuku o impedia de ganhar distância, atacando de perto, implacável, onde ele era mais fraco.

— Vamos, Shoto — disse Izuku, a voz firme, encurtando ainda mais a distância. — Me mostre quem você é. Você não vai a lugar nenhum assim. Sabe o que precisa fazer.

Por um momento, Shoto hesitou — e Izuku viu.

A sombra da dúvida brilhou em seus olhos.

— Não preciso dele! — Shoto retrucou, a voz rouca.

— Do jeito que está, vai perder sem que eu precise fazer muito. Você já está quase com hipotermia.

Shoto cerrou os dentes, impulsionando-se para frente e, com esforço, acertou um soco no rosto de Izuku, a mão fortalecida pelo gelo.

Izuku recuou, cuspindo sangue no chão — e ainda assim, sorrindo.

Shoto hesitava, perdido — e Izuku não dava trégua. A plateia gritava, mas os dois ignoravam. Naquele momento, só existiam um ao outro, e o que cada um carregava no peito.

— Isso não é bom para você? — Izuku girou em volta dele, desviando dos ataques.

— Deveria ser — admitiu, olhos brilhando com algo mais profundo. — Mas parece que eu não consigo deixar meus amigos sofrendo em paz, fazer o quê.

Ele avançou brutalmente. Não eram apenas golpes — eram palavras que cortavam mais fundo que qualquer ataque.

— E para falar a verdade, Shochan, eu tô um pouco irritado com você.

— Cale a boca! — Shoto rugiu, atirando gelo, mas Izuku esquivou facilmente.

— Eu lutei para estar aqui. Perdi amigos que não tinham quirk nenhuma. Eu tô aqui por eles também. — A voz de Izuku era grave, dura. — Se eu tivesse um poder como o seu... talvez eu pudesse ter salvado alguém.

O olhar de Shoto tremeu.

Ele avançou, descontrolado — mas Izuku já não estava lá. Era como lutar contra Aizawa-sensei: impossível acertar.

— E você está aqui, jogando fora algo que é seu, só porque odeia quem acha que te deu. Mas esse poder é seu, Shoto. Sempre foi.

Shoto parou, ofegante, o vapor gelado escapando de sua boca.

Dessa vez, Izuku não atacou. Deixou-o respirar.

— Vai continuar assim? Você diz que vai me derrotar desse jeito? Ou me salvar?— Izuku firmou os pés no chão. — Eu vou ser um herói sem poder algum. Porque não é o poder que faz um herói. É a vontade de salvar. Se eu posso–

O gelo explodiu ao redor, mas Izuku já girava no ar, puxado por sua linha.

Ele aterrissou de pé, firme, o punho batendo contra seu peito.

— Então, Shoto... — a voz ecoou pela arena silenciosa — com esse poder que é só seu, você pode ser um herói. Você não é seu pai. Você é muito melhor do que ele jamais vai ser.

As palavras mergulharam fundo.

A plateia parecia segurar a respiração.

"Você pode–"

— –Ser um herói, Shoto.

As palavras se juntaram a uma lembrança, a voz de sua mãe ecoando em sua cabeça.

Algo dentro de Shoto se partiu — ou talvez, finalmente, algo se libertou.

As chamas irromperam em sua bochecha, para sua mão esquerda.

Pela primeira vez, não era para provar nada a ninguém. Era porque ele queria.

Ele gritou, e fogo e gelo colidiram ao seu redor em uma dança violenta e perfeita — pela primeira vez, seus dois lados trabalhando em harmonia. Era completamente diferente como imaginava, como lembrava. Não era como o fogo brutal do seu pai, era—caloroso.

"Esse poder que é só seu–"

Izuku se afastou mais passos, a armadura piscando em alerta, mas um sorriso igualmente tomou seu rosto antes da nanotecnologia escondê-lo por completo.

— E eu criei um problema para mim mesmo, hein?

O público gritou junto, surpreso, maravilhado.

A voz dos heróis saíram alarmadas ao redor, mas os dois não estavam atentos a nada além da luta, além de um ao outro.

A arena inteira pareceu estremecer quando as chamas de Shoto explodiram.

O calor preencheu o ar denso e congelado, gerando uma névoa intensa no choque entre extremos. Os gritos do público ecoavam, mas para os dois, o mundo tinha se reduzido apenas à arena, apenas à luta.

Izuku sorriu, os olhos brilhando de orgulho.

— Isso! — sua voz soou entre o rugido do fogo.

Sem hesitar, Shoto avançou. Seu movimento era diferente agora — mais livre, mais feroz. O fogo dançava ao redor de seu corpo, se misturando com o gelo em rajadas caóticas, imprevisíveis. Ele não tinha muito controle, depois de anos se recusando a usar aquele poder.

Izuku sentiu o impacto logo no primeiro ataque.

Um pilar de gelo foi lançado contra ele, mais espesso e rápido do que antes, forçando-o a usar sua linha para desviar no último segundo. O calor subia logo atrás, quase queimando suas costas. Shoto estava atacando com tudo — sem restrições, sem medo.

Finalmente.

Izuku aterrissou em um dos cabos do teto, impulsionando-se de volta antes que o gelo pudesse prendê-lo. As explosões de calor faziam o chão tremer.

O narrador mal conseguia acompanhar:

— INACREDITÁVEL!! ELE ESTÁ USANDO TUDO QUE TEM!!

— E ainda assim Midoriya não recua — Eraser observou, tenso, os olhos atentos. — Ele tem um plano.

— Ei, talvez devêssemos parar isso, está ficando perigoso, Midoriya–

Shoto disparou uma sequência brutal de gelo e fogo misturados, tentando encurralar Izuku.

Mas Izuku ria, mesmo com o sangue escorrendo da sobrancelha, mesmo ofegante, mesmo com a armadura vibrando com o impacto dos golpes.

Ele desviava de cada ataque com precisão milimétrica, se aproximando cada vez mais, esperando o momento certo.

— ISSO! — Izuku gritou, a voz forte acima da confusão. — É ISSO QUE EU QUERIA VER!

Shoto atacou com uma muralha de gelo, agora mais forte que conseguia regular sua temperatura. Era um ataque que qualquer um teria dificuldade em suportar.

Mas Izuku atravessou, a explodindo com um jato de energia vindo de sua armadura. Com um impulso devastador, ele cortou o gelo, girando no ar, a linha de suporte tensionada como uma extensão do próprio corpo. Passou pelo fogo que Shoto lançava fora de controle, os sensores da armadura protegendo-o do calor extremo, e lançou-se contra Shoto.

O impacto foi como uma explosão.

Izuku o acertou com um chute rodado no ombro, usando apenas força suficiente para desequilibrá-lo, e os dois caíram, rolando pelo chão em meio à névoa fervente.

Eles se separaram rapidamente, ambos de pé, ambos arfando.

Por um momento, apenas o som das respirações pesadas preenchia a arena.

Izuku sorriu — um sorriso aberto, brilhante, que pareceu iluminar tudo ao redor.

— É assim que você vai ser um herói, — ele disse, com uma gentileza que cortava mais fundo do que qualquer golpe. — Esse é você.

Shoto, com as chamas ainda pulsando em seu lado esquerdo, pareceu congelar, o coração batendo forte no peito.

Ele apertou os punhos, o fogo envolvendo a mão esquerda com mais força, mais controle.

Shoto Todoroki sorriu pela primeira vez em dias.

A multidão explodiu em gritos.

O combate ainda não tinha terminado. Mas algo mais importante havia sido conquistado.

"Agora, vamos aos negócios." Porque por mais que Izuku considerasse Shoto um amigo e tivesse o ajudado, ele iria vencer aquele torneio, custasse o que for.

Shoto avançou outra vez e Izuku o recebeu de frente. Ele deslizou para o lado, desviando de outra investida de Shoto, seu sorriso nunca vacilando.

"Só mais um pouco", ele pensou, a adrenalina queimando em suas veias.

Com movimentos rápidos e calculados, Izuku começou a recuar, conduzindo Shoto pouco a pouco — cada esquiva, cada contra-ataque, puxando seu amigo exatamente para onde queria.

Shoto nem percebeu. Estava tão focado, tão inteiro na luta, que seguia impulsionado pela própria força recém-liberta.

Izuku, com o visor da armadura piscando, detectou o sinal fraco: as bombas enterradas da batalha anterior ainda estavam ali, sob a arena, esquecidas, mas ativas.

Agora.

— E agora, Shochan?— Izuku gritou, provocando.

Shoto respondeu com tudo — uma explosão massiva de fogo e gelo, reunindo o máximo de poder que seu corpo aguentava.

O chão estremeceu.

— ELES VÃO SE MATAR DESSE JEITO, FAÇAM ALGUMA COISA!

Uma parede de concreto começou a se formar entre eles, mas ele sabia que não iria ser o suficiente. Shoto realmente não sabia o que era se segurar quando estava focado.

Izuku não recuou.

Em vez disso, ele ativou os mecanismos da armadura. Suas botas se prenderam firmemente ao solo com âncoras pesadas, estalando e rugindo com a força. Ele ativou a potência máxima de energia, o que restava de sua luta com Denki, e esperou, se enrolando no mínimo de espaço possível.

As chamas violentas e o gelo rasgaram a arena, atingindo o ponto exato onde as bombas estavam enterradas antes de chegar ao seu destino.

Do lado de Shoto na arena.

A explosão foi colossal.

O mundo inteiro pareceu tremer. Uma onda de choque violenta atravessou a arena, lançando pedaços de concreto e metal para todos os lados.

Shoto foi pego de cheio.

O impacto o ergueu do chão, jogando-o para trás como uma folha ao vento.

Izuku, preso ao solo, sentiu o corpo inteiro estremecer. Sua armadura chiava em alerta máximo, absorvendo o impacto e redistribuindo a energia para o sistema de ancoragem.

Ele grunhiu, cerrando os dentes, forçando os músculos contra a força da explosão, seus pés derrapando alguns metros no chão enquanto tentava se segurar.

Shoto, no ar, tentou desesperadamente se estabilizar, mas não havia como. A força era brutal demais.

Quando a fumaça baixou, pedaços de sua armadura se desfaziam e podia sentir um ardor na face onde o fogo chegou perto demais, suor descendo por suas costas, os músculos doloridos. Izuku olhou para seus pés e suspirou em alívio.

— TODOROKI ESTÁ FORA DA ARENA!! — Midnight gritou, a voz rouca de tanta emoção. — MIDORIYA VENCE!!

Um silêncio sepulcral tomou conta da arena, as pessoas ainda em choque.

Izuku, ainda arfando, soltou as âncoras e caiu de joelhos, o corpo exausto, mas o sorriso ainda iluminava seu rosto suado e manchado de poeira.

Do lado de fora da arena, Shoto piscou, atordoado, deitado na grama, e... riu.

— Você é insano, Izuku Midoriya. — Quando olhou para cima, viu Izuku na arena, o punho erguido em um gesto silencioso de orgulho. — Completamente insano.

Shoto respondeu erguendo o próprio punho, mesmo de onde estava caído.

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Hizashi caiu para trás na cadeira, respirando fundo. Ele sentia como se tivesse perdido alguns anos de vida vendo isso.

Afastou o microfone e olhou para Aizawa, uma expressão séria.

— Seu filho é insano, Shota. E seu aluno também. Malucos.

— Ele não é meu filho. — Aizawa retrucou. — Ele não sabe quando parar.

— E isso lembra quem?

Aizawa resmungou, mas havia um breve sorriso ali.

Ele estava orgulhoso, mas ia matar Midoriya antes de o parabenizar.

Na arquibancada dos alunos, Mina estava de boca aberta, os olhos arregalados.

—Acabou? Ele... Ele ganhou?

Iida ajeitou os óculos, ainda pasmo: — Midoriya demonstrou um domínio absoluto do campo de batalha... mesmo sem individualidade... Ele estava em controle o tempo inteiro.

Bakugo, sentado alguns degraus acima, bufou alto, cruzando os braços com força.

— Idiotas — rosnou.

Abaixo, os alunos da classe de suporte deram high-five, Shinsou e Mei saltando dos bancos para irem para a enfermaria onde os dois participantes estavam sendo levados.

Aya, se preparando para os seguir, parou, olhando para algo na tela do tablet.

— Ai Meu Deus, Izuku.

O vídeo da classe de negócios havia sido lançado, convenientemente após a luta em que Izuku havia vencido um dos melhores alunos do primeiro ano da UA.

Taki olhou por cima de seu ombro: — Hum. Eles realmente sabem o que estão fazendo.

Havia ainda comentários de ódio e indignação, mas abaixo... As coisas começaram a mudar.

— Nem acredito, mas pode dar certo.

"Passo 1: Opinião pública."

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@quirk_supremacy

Não sei porque ainda deixam alguém assim sujar o nome da U.A. Deveriam manter o nível.

@hero_obsessed

Pessoas como ele nem deviam ter nascido.

@quirkborn_best

Isso é um insulto pra quem tem talento de verdade. A U.A. tá se rebaixando demais.

@zeroquirk_hater

Nem no lixo da minha cidade ele seria aceito.

@quirk_supremacy

Como assim??? Não dá pra acreditar.

@smallvictories

Ele venceu??

@softsparkles

Chorei vendo ele se levantar de novo e de novo. Ele tem mais coragem do que muita gente com quirks incríveis.

@hopeforquirkless

Meu filho nasceu como ele. Sempre tive medo do que o futuro reservava. Hoje, vendo Izuku lutar, senti que talvez as coisas possam mudar.



Notas finais
Fui diagnosticada com autismo. Estou viva <3